ME CHAMA QUE EU VENHO

AUTORA: MARI MARTINS

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KATY MORAVA NUMA CIDADE onde todos se conheciam

ME CHAMA QUE EU VENHO



Autora: Mari Martins




Katy morava numa cidade onde todos se conheciam. Era uma cidade pequena que tinha o nome de Flores, pois nos pequenos jardins das casas cultivavam rosas de todas as cores. Na primavera, a cidade se enchia de borboletas coloridas. Pareciam pequenos gnomos voando por toda a cidade. O perfume adocicado das rosas inebriava seus habitantes. À noite o perfume espalhava-se pela cidade levado pelo vento. Katy amava aquela cidade, seu povo simples, e o amor que tinham pelas flores. E assim ia levando sua vidinha sem que nada acontecesse para modificar sua vida. Sim, ela queria algo diferente, um homem que a amasse e filhos para cria-los brincando naquele jardim florido e cheiroso. Já estava com 30 anos, tinha cuidado dos seus pais até eles falecerem. Sua solidão vinha incomodando há dias e nem mesmo o cheiro das flores a deixavam satisfeita. Sozinha no quarto escutava o vento assoviando como se cantasse uma cantiga de ninar. E pelas frestas da janela o odor adocicado das rosas deixava seu quarto perfumado. Mas onde estava o grande amor de sua vida? Seu coração estava vazio e naquele momento batia incessantemente. Abriu a janela e olhou o jardim florido, os galhos das rosas balançando com o vento. No céu uma grande estrela brilhava dando-lhe a impressão que piscava insistentemente, seria um aviso? Um chamado? O que seria aquela estrela? Pensou ela. Ou um cavalheiro viajante a procura de alguém? Lembrou-se de fazer um pedido a estrela, pediu um homem que a amasse para sempre. Sorriu sentindo-se tola e foi dormir. No dia seguinte acordou sentindo uma felicidade enorme no coração. Não vinha sentindo isso há vários dias, mas naquela manhã estava diferente. Como todos os dias foi até o jardim, limpou as ervas daninhas e sorriu com um prazer nunca visto antes. Com a morte dos pais, ficou com uma boa renda, pois sempre viveram bem financeiramente. Então ela dava-se ao luxo de pintar alguns quadros que eram vendidos numa galeria da cidade. Pintava por prazer, sabia que não chegaria a ser uma grande artista. Naquela tarde pegou alguns quadros e foi até a galeria. Tinha um carro velho que tinha sido dos seus pais. Não precisava de um novo, o velho carro lhe trazia boas lembranças. Os passeios que fizera com os pais para as cidades vizinhas que ficavam a beira mar deixaram boas lembranças, todas inesquecíveis. Chegando a galeria Katy pegou os quadros e foi direto para o espaço onde expunha seu trabalho. Ficava num cantinho bem separado dos outros, já que alguns pintores mais conhecidos expunham seus quadros bem a vista. Aquilo não a incomodava, comemorava feliz quando vendia um. Só em saber que alguém tinha gostado do seu trabalho fazia seu coração bater de alegria. Quando chegou ao local ficou surpresa ao ver que estava vazio. Onde estariam os outros quadros? Foi ao encontro da dona da galeria. Ao avista-la, notou de imediato seu sorriso de felicidade. Marla era amiga de Katy desde criança, estudaram na mesma faculdade. Marla gostava de negociar e colocou uma galeria para expor os trabalhos dos artistas locais.


- Seus quadros foram todos vendidos – disse Marla rindo de felicidade.


- Não entendi – balbuciou Katy perplexa.


- Foram compradores diferentes, e todos freqüentadores da galeria. Quem não entendeu fui eu. Mas tudo bem, nem discutiram o preço. Enquanto falava Marla ia colocando os novos trabalhos de Katy nos lugares vazios. Quando terminou, olhou para a amiga com carinho e levou-a até o pequeno escritório.


-Isso aqui é seu – falou entregando a Katy um cheque.


- Tudo isso! – exclamou quando viu a quantia. Em toda a sua vida nunca recebera tanto dinheiro por seus quadros.


- Traga outros quadros, vamos aproveitar o bom momento – disse Marla abraçando a amiga.


Saindo da galeria Katy dirigiu-se até o carro. No caminho ia pensando no que tinha acontecido, ainda estava sem acreditar. Era uma loucura que ela não estava conseguindo assimilar. Quando entrou no carro algo estranho aconteceu. O rádio foi ligado sem nem ao menos ela tocar no botão. Uma música suave começou a tocar. Nunca tinha ouvido aquele tipo de música. Um coro de vozes cantava uma melodia em um idioma estranho. Os cabelos dos seus braços arrepiaram e ela sentiu uma vontade louca de sair do carro correndo. Suas pernas estavam pesadas como chumbo. Sua respiração começou a falhar e aos poucos seu cérebro foi ficando sem oxigênio. Antes de desmaiar Katy viu um homem sentado a seu lado sorrindo. O que ficou em sua memória foram seus olhos acesos, brilhando como luzes incandescentes.


Ao acordar, viu que ainda estava dentro do carro. Procurou num relance o homem estranho a seu lado, mas o lugar estava vazio. Sentindo-se melhor percebeu que o carro estava parado em frente a sua casa. Começou a tremer de medo. Algo estranho tinha acontecido e ela não sabia o que. Saiu do carro cambaleando e entrou em casa fechando a porta, procurando ver se estava bem segura. Do jardim o cheiro das rosas estava mais forte e ela sentiu-se tonta. Caminhou até o quarto e caiu pesadamente na cama. Dormiu e sonhou com o rosto do estranho do carro. Ele sorria enigmaticamente, e seu sorriso tinha um que de deboche. Acordou tremendo de frio e foi quando notou que o quarto estava gelado. O ar condicionado estava desligado e estavam em pleno verão. Ao abrir a janela percebeu que já era noite. Então um vento gelado bateu em seu rosto. Fechou a janela num estrondo e caiu na cama com o coração pulsando loucamente. Ficou caminhando da sala para o quarto como se andasse em círculos. Estaria ficando louca? Cansada e com fome foi até a cozinha e qual não foi a sua surpresa ao ver a mesa arrumada para duas pessoas. O cheiro da comida recendia em todo o ambiente. Paralisada, fechou os olhos pensando estar vendo coisas, pois há dias vinha sentindo uma solidão enorme. Estaria tão solitária para desejar tudo aquilo? Abriu os olhos pensando que era apenas um sonho. Mas tudo continuava no mesmo lugar. O pior de tudo era que não conseguia mover as pernas. Da cintura para baixo tinha o corpo paralisado. E não era de medo. Então se sentiu abraçada por trás. Como tentáculos dois braços rodearam sua cintura puchando-a para perto de si. Sentiu um hálito quente na nuca e um corpo de homem roçando em suas nádegas. Um prazer sem limites fez seu corpo tremer de paixão. Novamente fechou os olhos e bruscamente foi virada de frente para o homem. Não tinha a coragem de abrir os olhos. Uma mão cálida ia delineando seu rosto com carinho, descendo até seu pescoço e roçando os bicos dos seios carinhosamente. Katy abriu os olhos e viu um rosto de homem próximo ao seu. Tinha uma pele lisa e tão branca que parecia transparente. Os lábios finos apenas sorriam com desdém. A cabeça tinha o formato de uma lâmpada e era tão lisa que brilhava. A única coisa que a fez quase desfalecer de terror foram os olhos. Sem a íris, eram apenas dois buracos redondos vermelhos como brasas. Mas o corpo era tão másculo que a fez vibrar de prazer. O homem levou-a até a mesa e sentou-a numa cadeira ficando a seu lado. Sorrindo serviu-a e depois ficou olhando-a comer com apetite. Ele não tocou na comida, apenas a observava. De olhos baixos Katy disfarçadamente observava. Notou suas mãos brancas cada uma com dois dedos em formato de tesoura. Pensou consigo mesma se os dedos dos pés seriam do mesmo jeito. Ficou petrificada quando o homem deu uma sonora gargalhada.


-É do jeito que você pensou – disse ele ainda sorrindo. O restante é normal. Vocês humanos tem a curiosidade à flor da pele.


-Quem é você? – perguntou Katy quase num sopro.


-Curiosidade! Curiosidade - falou o homem repetindo as palavras. Você quer mesmo saber?


- Lembra-se do seu pedido ao ver a estrela brilhando no céu? É como uma chama ardente. Nunca negamos um pedido. Aqui estou.



Katy lembrou-se da noite em que fez um pedido a grande estrela no céu. Agora estava entendendo a mudança de sua vida, os quadros vendidos, o carro parado à porta de sua casa. Não sabia se chorava arrependida ou se sorria de alegria. Sua mente estava confusa.


- Não pense muito – disse o homem sério. Você me chamou. A escolha é sua. Se não me quer, irei embora. Virei todas as noites quando você me chamar. Somos vários, uma legião.


- Os solitários nunca ficam sozinhos. Vocês terráqueos estão se distanciando uns dos outros. A sobrevivência aqui na terra está se tornando difícil. Dizendo isso o homem levantou-se.


-Não vá – falou quase num grito. Fique.


- Você não me pediu para ir embora. Venha.


A mulher aproximou-se do homem e abraçou seu corpo branco. Levou-o até o quarto e foi a primeira vez que Katy sentiu a paixão tomar conta do seu corpo.

Ao acordar, sentou-se na cama abruptamente e não tinha ninguém a seu lado. Teria sonhado? Foi tudo muito nítido. Levantou-se e foi até a cozinha. Na mesa estava um café da manhã e um bilhete: “Me chama que eu venho”. Katy sorriu com prazer, não estava mais sozinha e não importava se fosse um homem diferente. Na cama ele era igual a qualquer ser humano. Só que Katy nunca procurou explicar o porque do seu filho ter nascido diferente. A pele branca chamava atenção. A cabeça e as mãos diferentes faziam com que as pessoas parassem para olhar. Ela não ligava. Seu filho era tão inteligente que nem prestava atenção. E ela nunca fora tão feliz na vida. Os humanos que ficassem longe do seu mundo. Olhou para as próprias mãos e sorriu, em cada uma tinha dois dedos em formato de tesoura. É, ela também estava se transformando num deles. Quantas iguais a ela? Não queria saber. A felicidade tinha seu preço.



Fim

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