MEDO NUM PUNHADO DE VIDRO

AUTOR: ALISSON HERBERT

350

Medo num punhado de vidro

Alisson Hebert

.

Há alguém no espelho.

Não sei ao certo quem é. Confesso que no início tinha certeza de que era eu, mas isso mudou e hoje, quando me atrevo a olhar para o espelho retangular da porta do meu guarda-roupa, o que vejo me faz gelar. É como se meu sangue invertesse o seu fluxo e formigasse por todo o meu corpo, causando uma terrível sensação.

A primeira vez que notei a mudança eu estava tentando espremer um pontinho preto na minha bochecha direita – a esquerda da pessoa no espelho. Os meus dedos friccionaram a pele, machucando-a, quando enfim consegui extraí-lo, sentindo aquele corpo estranho deixar o meu e escorregar entre meus dedos indicadores, o outro no espelho ainda o espremia e só alguns segundos depois eu vi o cravo ser expulso da bochecha “dele”. Confesso que esses segundos de diferença me pareceram uma eternidade, só depois que a sessão de tortura à pele tinha acabado foi que me veio a certeza de que foram apenas alguns segundos de diferença, ou talvez tenha sido apenas impressão minha. Admito também que me forcei a acreditar nessa segunda hipótese.

Não muito tempo depois “ele” voltou a se mostrar. Eu estava sentado à minha escrivaninha, rabiscando num bloco de papel com uma caneta vermelha, lembro que ela manchou o meu dedo indicador com um vermelho-mercúrio. Levantei a cabeça e, olhando para a direita, vi-me – ou eu achava que era eu – refletido no espelho do guarda-roupa velho. Dessa vez “eu” me olhava. Sabia que era a mesma expressão que eu fazia, mas o olhar não estava certo, eu sentia isso de alguma forma.

Tornei a baixar a cabeça para o bloco de folhas rabiscado em vermelho e minha visão periférica não captou nada. Olhei de relance e “o outro” ainda me fitava do espelho, mudara o ângulo da visão para acompanhar a minha cabeça. Observava-me com aqueles olhos negros, sem vida, olhos de peixe morto, mas sem dúvida curiosos.

Quando reergui a cabeça, “ele” já havia baixado a sua. E nesse momento meu coração acelerou tão rapidamente que achei que depois daquilo ele fosse parar. A imagem no espelho agora já se igualara à minha, mostrando uma cara pálida de pavor e suor frio.

Depois disso eu tomei uma medida: iria deixar a porta do guarda-roupa aberta, para que eu não olhasse mais aquele espelho. Assim o fiz e tudo que ele passou a refletir foi um dos recantos do meu quarto com o ventilador e a minha TV preta em cima do que fora um criado mudo.

Todavia, isso não foi suficiente; a TV exibia o que o espelho “via”. Olhando-a desligada, com aquele tubo de imagem negro, era como olhar para o retrovisor de um carro e eu senti o medo fluir através dos cabelos de minha nuca: no monitor refletindo o espelho eu pude ver aquele “ser” passeando pra lá e pra cá em seu próprio quarto.

A minha tática, além de covarde, fora burra: a TV estava ali quase que propositalmente.

Pensei em quebrar o espelho, mas por alguma razão que só agora consigo entender (em parte), não o fiz. Levantei da cama e fui fechar a porta do roupeiro. Fui cerrando a porta lentamente, acompanhando meu reflexo no espelho, que fazia a mesma coisa. Fiz uma breve pausa, deixando-a aberta aos 30° para averiguar se houvera alguma mudança na imagem do “outro”.

Nada. Fechei a porta de vez e tenho que dizer que não mais me espantei quando vi que do outro lado, no meu mundo invertido, a imagem permanecera nos exatos 30° anteriores. Fui me afastando lentamente, a imagem “dele” fez o mesmo, até que desapareceu da minha vista, indo de costas para o lado. No espelho eu via um canto do meu quarto que não podia estar sendo refletido naquele momento.

Um tempo depois – e desta vez tenho certeza de que foi um bom tempo – o reflexo tornou a se regularizar.

Ontem à noite eu não consegui dormir. Meus olhos não se desgrudavam do espelho do meu guarda-roupa. As horas se estendiam e tudo que eu conseguia fazer era piscar os olhos vez ou outra. Acabei por fim, apagando a lâmpada fluorescente, mas o basculante da janela fechada permitia que a luz da lua entrasse e iluminasse morbidamente o meu quarto. No espelho eu vi alguém no recanto da parede correspondente aos pés de minha cama. Olhei para lá e claro que não havia ninguém. Mas no espelho “ele” estava naquele local, como um vulto na semi-penumbra, lembrando-me – para meu pavor – uma foto passada como corrente por emails de uma menina fantasmagórica e sem pés num corredor sujo.

A madrugada veio e com ela a escuridão total. Não sei como, mas acabei adormecendo e nem preciso dizer que dormi pouco, pois quando despertei ainda estava um pouco escuro. Fiz de tudo para não olhar para “ele”. Dirigi-me para a porta fechada de meu quarto.

A porta não abriu.

Peguei o bloco de folhas na escrivaninha e minha caneta vermelha que suja o meu dedo indicador. A tinta agora está falhando, talvez não dê tempo de eu especular aqui mais um pouco sobre a minha condição...

Talvez baste dizer (e agora a ponta da caneta faz uma zoada seca cortante no papel) que o “outro” ainda está lá no espelho, como que a fitar uma linda paisagem a partir da janela de uma casa de campo ou de praia.

Para mim, é mais como um terrível quadro pintado em cores vivas (à exceção daqueles olhos), sem, no entanto, deixar de ser irreal. Até mesmo em sua morta curiosidade, o “outro eu” não me parece outra coisa senão um reflexo e só agora percebo que nunca foi o meu.

E acho que, por hora, esse é o fim.

Fim

Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.

veja nosso livro de visitas assine nosso livro de visitas

Todos os direitos reservados. Contos de terror, horror e fantasia escritos por Paulo Soriano e colaboradores.

Layout pronto por:
CONTOS GROTESCOS - www.contosdeterror.com.br - Desenvolvido e mantido por PAULO SORIANO