Medo
num punhado de vidro
Alisson Hebert
.
Há
alguém no espelho.
Não
sei ao certo quem é. Confesso que no início tinha certeza de que era
eu, mas isso mudou e hoje, quando me atrevo a olhar para o espelho retangular
da porta do meu guarda-roupa, o que vejo me faz gelar. É como se meu
sangue invertesse o seu fluxo e formigasse por todo o meu corpo, causando
uma terrível sensação.
A
primeira vez que notei a mudança eu estava tentando espremer um pontinho
preto na minha bochecha direita – a esquerda da pessoa no espelho.
Os meus dedos friccionaram a pele, machucando-a, quando enfim consegui
extraí-lo, sentindo aquele corpo estranho deixar o meu e escorregar
entre meus dedos indicadores, o outro no espelho ainda o espremia e
só alguns segundos depois eu vi o cravo ser expulso da bochecha “dele”.
Confesso que esses segundos de diferença me pareceram uma eternidade,
só depois que a sessão de tortura à pele tinha acabado foi que me
veio a certeza de que foram apenas alguns segundos de diferença, ou
talvez tenha sido apenas impressão minha. Admito também que me forcei
a acreditar nessa segunda hipótese.
Não
muito tempo depois “ele” voltou a se mostrar. Eu estava sentado
à minha escrivaninha, rabiscando num bloco de papel com uma caneta
vermelha, lembro que ela manchou o meu dedo indicador com um vermelho-mercúrio.
Levantei a cabeça e, olhando para a direita, vi-me – ou eu achava
que era eu – refletido no espelho do guarda-roupa velho. Dessa vez
“eu” me olhava. Sabia que era a mesma expressão que eu fazia, mas
o olhar não estava certo, eu sentia isso de alguma forma.
Tornei
a baixar a cabeça para o bloco de folhas rabiscado em vermelho e minha
visão periférica não captou nada. Olhei de relance e “o outro”
ainda me fitava do espelho, mudara o ângulo da visão para acompanhar
a minha cabeça. Observava-me com aqueles olhos negros, sem vida, olhos
de peixe morto, mas sem dúvida curiosos.
Quando
reergui a cabeça, “ele” já havia baixado a sua. E nesse momento
meu coração acelerou tão rapidamente que achei que depois daquilo
ele fosse parar. A imagem no espelho agora já se igualara à minha,
mostrando uma cara pálida de pavor e suor frio.
Depois
disso eu tomei uma medida: iria deixar a porta do guarda-roupa aberta,
para que eu não olhasse mais aquele espelho. Assim o fiz e tudo que
ele passou a refletir foi um dos recantos do meu quarto com o ventilador
e a minha TV preta em cima do que fora um criado mudo.
Todavia,
isso não foi suficiente; a TV exibia o que o espelho “via”. Olhando-a
desligada, com aquele tubo de imagem negro, era como olhar para o retrovisor
de um carro e eu senti o medo fluir através dos cabelos de minha nuca:
no monitor refletindo o espelho eu pude ver aquele “ser” passeando
pra lá e pra cá em seu próprio quarto.
A
minha tática, além de covarde, fora burra: a TV estava ali quase que
propositalmente.
Pensei
em quebrar o espelho, mas por alguma razão que só agora consigo entender
(em parte), não o fiz. Levantei da cama e fui fechar a porta do roupeiro.
Fui cerrando a porta lentamente, acompanhando meu reflexo no espelho,
que fazia a mesma coisa. Fiz uma breve pausa, deixando-a aberta aos
30° para averiguar se houvera alguma mudança na imagem do “outro”.
Nada.
Fechei a porta de vez e tenho que dizer que não mais me espantei quando
vi que do outro lado, no meu mundo invertido, a imagem permanecera nos
exatos 30° anteriores. Fui me afastando lentamente, a imagem “dele”
fez o mesmo, até que desapareceu da minha vista, indo de costas para
o lado. No espelho eu via um canto do meu quarto que não podia estar
sendo refletido naquele momento.
Um
tempo depois – e desta vez tenho certeza de que foi um bom tempo –
o reflexo tornou a se regularizar.
Ontem
à noite eu não consegui dormir. Meus olhos não se desgrudavam do
espelho do meu guarda-roupa. As horas se estendiam e tudo que eu conseguia
fazer era piscar os olhos vez ou outra. Acabei por fim, apagando a lâmpada
fluorescente, mas o basculante da janela fechada permitia que a luz
da lua entrasse e iluminasse morbidamente o meu quarto. No espelho eu
vi alguém no recanto da parede correspondente aos pés de minha cama.
Olhei para lá e claro que não havia ninguém. Mas no espelho “ele”
estava naquele local, como um vulto na semi-penumbra, lembrando-me –
para meu pavor – uma foto passada como corrente por emails de uma
menina fantasmagórica e sem pés num corredor sujo.
A
madrugada veio e com ela a escuridão total. Não sei como, mas acabei
adormecendo e nem preciso dizer que dormi pouco, pois quando despertei
ainda estava um pouco escuro. Fiz de tudo para não olhar para “ele”.
Dirigi-me para a porta fechada de meu quarto.
A
porta não abriu.
Peguei
o bloco de folhas na escrivaninha e minha caneta vermelha que suja o
meu dedo indicador. A tinta agora está falhando, talvez não dê tempo
de eu especular aqui mais um pouco sobre a minha condição...
Talvez
baste dizer (e agora a ponta da caneta faz uma zoada seca cortante no
papel) que o “outro” ainda está lá no espelho, como que a fitar
uma linda paisagem a partir da janela de uma casa de campo ou de praia.
Para
mim, é mais como um terrível quadro pintado em cores vivas (à exceção
daqueles olhos), sem, no entanto, deixar de ser irreal. Até mesmo em
sua morta curiosidade, o “outro eu” não me parece outra coisa senão
um reflexo e só agora percebo que nunca foi o meu.
E
acho que, por hora, esse é o fim.