MEMÓRIAS DA TERRA DOS MORTOS
Autor: Luiz Poleto
Sempre
acreditei que os sonhos são capazes de nos fazer viajar através do
tempo e do espaço. Durante aquele longo espaço de tempo em que fechamos
nossos olhos e nos deixamos dominar pelo torpor, nossa mente viaja através
de terrenos que nunca antes pisamos, e talvez nunca o faremos. Há quem
diga que os sonhos são manifestações do subconsciente, assim como
alguns dizem que são viagens que nossas almas fazem enquanto deixam
nossos corpos abandonados em nossas camas. Se forem, de fato, manifestações
do subconsciente, então algumas pessoas, provavelmente as mais sensitivas,
correm o risco de viajarem através de toda a história da humanidade,
se levarmos em consideração a teoria do subconsciente coletivo que
Carl Jung teorizou há muito tempo.
Confesso
que atualmente não tenho nenhuma teoria formada sobre o que são, realmente,
os sonhos. Diria que sou agnóstico no que tange a este assunto. Talvez
esta seja apenas uma desculpa para não me dar ao trabalho de ter que
pensar sobre um assunto tão complexo. Talvez seja apenas o trauma de
um pesadelo do qual, embora eu tenha acordado, as imagens ainda insistem
em atormentar-me dia e noite. Apesar de não ter teoria feita sobre
o assunto, eu tenho a esperança de que os sonhos não passem de imagens
desconexas, geradas pelas nossas mentes cansadas após um longo período
acordado.
O dia,
eu não me recordo. Embora eu possa afirmar que se passaram mais de
um ano desde a noite em que viajei através das barreiras do tempo,
através da fina película que separa a nossa realidade do passado de
caos e tormento em que, aparentemente, vivemos. Uma época em que os
seres humanos estavam a milênios de sua mísera existência. Uma época
em que os tambores entoavam sons que pareciam ter vida própria, e moviam-se
livremente sem as limitações das barreiras físicas que hoje nos cercam.
Eu
havia chegado em casa após um longo dia de trabalho, cansativo, como
de costume. Já era madrugada, e, embora acostumado a transitar neste
horário, aquela madrugada era diferente. Não sei dizer se era por
causa da lua cheia, que emanava sua luz amarelada mais forte que o normal,
e, de tão próxima, parecia prestes a cair sobre a terra. Talvez fosse
porque, embora tão iluminada pela lua a iluminação pública se fazia
desnecessária, a noite estivesse se movendo ao meu redor, quase me
afogando em meio ao seu mar de águas negras e gélidas. Apertei o passo
para chegar logo em casa, pois aquela sensação não me agradava nem
um pouco. Ao chegar em casa, tomei um banho e deitei-me para dormir.
Cansado
como estava, meus olhos fecharam-se alguns minutos depois que deitei
na cama, fato que achei excelente pois normalmente tenho dificuldades
para adormecer. Tão logo a escuridão fez-se em minha mente, comecei
a perder a consciência, sentindo aquele agradável torpor que chega
junto com o sono. Logo que meu corpo já não mais respondia a nenhum
impulso, porém, senti a mesma sensação que senti ao caminhar pela
rua. Eu podia ver, claramente, a lua logo acima de mim, banhando-me
com seus raios brancos; desta vez ela parecia mais perto do que quando
estava na rua. A escuridão agora parecia mover-se ao meu redor, como
uma imensidão de águas negras.
Após
alguns minutos parado no que parecia ser a minha rua - digo que parecia
pois algo estava ligeiramente diferente, talvez fossem as casas e os
carros que não tivessem nenhum tom de cor além do cinza que os tomava
por inteiro, fazendo-a parecer um perfeito cenário de um filme em preto-e-branco
-, senti que a escuridão agora pressionava meu corpo por todos os lados,
fazendo com que eu começasse a flutuar. A sensação era muito semelhante
a estar em pleno alto mar em uma noite chuvosa, e, após horas nadando
sem chegar a lugar nenhum, relaxar o corpo e começar a boiar. Era isso,
eu estava boiando na escuridão. Quanto mais eu relaxava, mais o meu
corpo saía do chão, deixando para trás aquela rua em preto-e-branco
com seus tons cinzentos.
Relaxei
por completo, movido pelo desejo de que o torpor e o cansaço tomassem
conta de meu corpo, fazendo com que eu finalmente caísse em sono profundo,
ou então acordasse, se aquilo fosse um sonho - ou pesadelo. Mas não
acordei, tampouco dormi. Aquela massa invisível conduziu meu corpo
além das estrelas, não para o espaço, mas sim para longe, muito longe
no tempo. Da estrela mais alta, dentro do mais fundo buraco da terra,
vi quando o tempo começou a andar para trás. Vi a minha rua, quando
ainda transitavam nela os cavalos e carruagens; vi quando ainda nada
havia ali a não ser mato e terra, com grandes árvores retorcidas e
antigas, da época em que o homem nem caminhava por estas terras. O
tempo não parava de retroceder, e fui levado a ver, muito rapidamente,
eventos que só li em livros; vi quando a Segunda Guerra estava em seu
ápice, com soldados morrendo por todos os lados; vi quando Galileu
era considerado bruxo por suas idéias revolucionárias para a época;
vi quando o fogo engoliu Roma, e vi quando Jesus foi crucificado e morto.
Depois
de passear por todo aquele circo de horrores, minha mente já não mais
raciocinava, talvez pelo cansaso que agora fazia meu corpo sentir-se
como se estivesse esmagado pela imensidão negra que abraçava-me. Talvez
fossem as imagens de horror e destruição que presenciei ao longo da
minha viagem astral. Perguntava-me quando aquele tormento teria fim,
pois a sensação de flutuar no espaço não era muito agradável; eventualmente,
sentia-me como se despencando de um prédio, com um frio tomando-me
o estômago fazendo com que ele quase virasse ao avesso.
Continuei
em minha viagem, não sei ao certo se subindo ou descendo, por um longo
tempo, até que senti que havia parado. Eu estava agora, imagino, boiando
no infinito que nos rodeia. A escuridão ainda se fazia presente quando
percebi, em algum ponto distante, uma pequena luz vermelha. A luz foi
aumentando, tornando-se mais próxima, e foi então que vi o que me
atormenta até os dias de hoje. Um cenário de caos e desordem, onde
olhos vermelhos e sem pálpebras desfilavam e dançavam em meio à destruição,
sobre prédios invertidos e desprovidos de cores. Fogo descia do céu
vermelho, enquanto rios de sangue corriam entre os prédios. Tambores
emitiam sons que pareciam vivos, eram densos e propagavam-se pelo espaço,
sem qualquer limitação física; ao chegar em meus ouvidos, os sons
pareciam adentrar por minhas orelhas sacudindo meu cérebro como gelatina,
e pareciam fazer isso propositalmente. A dor tomou conta de todo o meu
corpo, e embora eu quisesse gritar, som algum saia de minha garganta.
Tentei correr, nadar, caminhar, para longe dali, mas eu não tinha controle
algum sobre meu corpo. Foi então que a imensa massa de escuridão afastou-se
de meu corpo, fazendo-me despencar do ponto no infinito onde eu estava.
Caí por um longo tempo, sem alcançar o chão ou o céu -, meus
órgãos começaram a dançar dentro de mim, e meus olhos estavam quase
pulando fora de órbita quando, finalmente, acordei ensopado de suor
em minha cama.
Por
alguns minutos fiquei ali sentado, tateando ao meu redor para certificar-me
que aquela era minha cama. Acendi a luz para ter certeza de que estava
em meu quarto, e, quando finalmente tive certeza de estar em casa, fui
até a cozinha e bebi um imenso copo d'água. Hoje, não fossem os
remédios dados a mim pelos médicos do hospital psiquiátrico onde
viverei até meus últimos segundos de vida, eu não poderia dormir,
pois sempre que deito-me para dormir e o sono chega, sempre estou parado
na mesma rua em preto-e-branco, sentindo a escuridão pressionando meu
corpo e fazendo-me flutuar levemente no ar.
FIM
Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.
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