METAMORFOSE ATERRADORA
Autor: Alexandre Cthulhu
1971
– Guerra de Angola.
O
primeiro-tenente fuzileiro, Rocha comandava a companhia nº 23 do corpo
de fuzileiros especiais, e esta era a sua segunda comissão na guerra
do Ultramar.
A
companhia procurava por uma pequena província a nordeste de Nambuangongo,
onde se conservava um foco de resistência de contra-guerrilha. A informação
que Rocha transmitiu aos homens foi bem clara: “eliminar esse grupo
armado, cuja missão era produzir (e distribuir) propaganda politica
pró-independência, que servia para incitar as populações a agirem
contra os portugueses”. O que ele não lhes revelou (por ser altamente
confidencial) foi que naquela mesma província, se estavam a realizar
experiências biológicas, altamente perigosas, onde cruzavam animais
com seres humanos. A sua missão individual era descobrir o laboratório
onde se realizavam tais experiências e reunir toda a informação sobre
esse caso em concreto.
A
estrada por onde seguiam era pedregosa, acidentada e de difícil acesso.
Mais à frente, o caminho estava obstruído por uma enorme fenda, que
tornou impossível a progressão motorizada por aquele atalho. Isto
obrigou a companhia a prosseguir a pé pela mata cerrada.
A
progressão era lenta e a companhia seguia em duas colunas separadas,
através de uma longa picada que se estirava pelo meio do mato denso
e húmido.
Segundo
os cálculos do tenente Rocha, eles estavam ainda a três quilómetros
do objectivo. Ao aperceber-se que os seus homens já manifestavam alguma
fadiga física, ele exigiu concentração total a todos. Rocha conhecia
bem os seus pupilos e sabia que podia contar com todos eles. Já estavam
perto, não seriam algumas centenas de metros que os haviam de quebrar.
A
Selva entoava uma estranha orquestra, onde os ruídos selvagens ecoavam
por entre a vegetação forte e compacta.
As
aves noctívagas, que nunca se vêem, faziam-se ouvir através dos seus
pios lamentosos, que contracenavam com as gargalhadas estridentes das
hienas esfomeadas. Paulatinamente, aquela sinfonia selvagem foi-se quebrando,
até ficar um estranho e soturno silêncio. Rocha já conhecia a selva
e calculou que se aproximava algo perigoso – O quê, ela não sabia.
Preparou-se
para alertar os seus homens, mas não foi a tempo. Um leão monstruoso,
irrompera do meio do capim, lançando-se sobre os homens, com as garras
ao alto, atacando-os com uma ferocidade brutal. Rocha, com toda a sua
frieza, só teve tempo de apontar à cabeça da fera e disparar na sua
direcção, fazendo-o tombar inerte no chão.
-
Se o tenente tivesse hesitado, a besta teria arrancado a perna ao cabo
Esteves. – Disse o sargento Raimundo.
-
Não lhe ia dar esse gostinho – Respondeu serenamente.
Depois
daquele incidente, a companhia retomou a sua marcha, e uma hora depois,
alcançou o objectivo. A aldeia brotou no horizonte como que expelida
do meio do mato cerrado e sombrio.
Um
fedor de carne carbonizada invadiu as narinas daquele grupo de homens
extasiados pela dureza da marcha que tinham feito para chegarem até
ali.
Sentia-se
no ar um estranho azedume de destruição e morte. O tenente Rocha reuniu
a companhia e destacou uma equipa cinco homens para efectuar um breve
reconhecimento. A restante companhia aguardou no local até receber
ordens para avançar.
O
Tenente Rocha avançou na frente da equipa. Ele cada vez mais estava
convencido que algo de mau o esperava, mais adiante.
Caminharam
alguns metros, e mais à frente, o que eles viram, era a marca indesmentível
de que o Demónio tinha estado ali, isso era certo. As casas estavam
queimadas e destruídas. Corpos humanos jaziam no meio das ruas, alguns
completamente desmembrados, num cenário morbidamente lúgubre.
Ao
longe, deslocavam-se umas estranhas silhuetas que se moviam sobre quatro
patas. Arrastavam um cadáver já sem pernas, para longe. O tenente
Rocha observou-as atentamente através dos binóculos, e concluiu que
se tratavam de lobos, e não de cães, como antes lhe parecera.
“Lobos,
aqui em Angola?”, questionou-se. Ele sabia da existência destes animais
no Nordeste, mas não naquela região. Algo estava errado.
Não
conseguia entender o que poderia ter acontecido ali. Jamais tinha assistido
a algo tão macabro. “Quem poderia ter perpetrado aquelas atrocidades
todas?”, indagou ele, tentando encontrar uma resposta lógica, que
justificasse a destruição total de uma aldeia e o aniquilamento de
todos os seus habitantes.
Por
fim, deu ordens à restante companhia para avançar e patrulhar todo
o perímetro.
Rocha
começou por vasculhar todas as casas e recintos, em busca do tal laboratório
secreto que fazia parte da sua missão individual. Introduziu-se numa
residência abandonada que tresandava a corpos putrefactos. Havia sangue
nas paredes e vísceras espalhadas pelo chão. O tenente Avançou mais
para diante, até que subitamente sentiu o chão a perder firmeza sob
as suas botas. Baixou-se e Investigou o solo com as mãos. Sob o soalho
de madeira achou um alçapão que escondia uma entrada subterrânea.
Descerrou-o e encontrou uma passagem para uma cave. Acendeu a lanterna
e desceu as escadas que comunicavam para esse piso subterrâneo.
Tratava-se
de um «bunker» com um corredor bastante comprido.
Progrediu
por ali fora até que descobriu um gerador eléctrico que ainda tinha
algum gasóleo no tanque. Não demorou mais de um minuto para o pôr
a funcionar. Depois procurou o quadro eléctrico na parede e, um-a-um
ligou todos os disjuntores, até deixar o «bunker» completamente iluminado.
A claridade permitiu que se observassem umas pequenas divisões gradeadas
que encerravam alguns animais. Eram lobos, e estavam todos mortos!
Mais
à frente apresentava-se uma pequena divisão com cerca de 12 metros
quadrados, cujas divisórias eram emparedadas com vidro bastante grosso.
A porta estava destrancada, e o tenente Rocha empurrou-a devagar. Não
havia descrição para o horror que se expôs à sua frente.
Era
o laboratório onde se efectuavam as tais experiências macabras. Havia
sangue espalhado por cima das bancadas. Dentro de um reservatório prostrava-se
um lobo cadáver. O seu corpo estava completamente ressequido, e mesmo
ao lado, apresentava-se uma prateleira com dezenas de tubos de ensaio
que armazenavam pequenas amostras de sangue!
Lutou
com o seu cérebro para que este se abstraísse daquele cenário tenebroso.
Procurou informações concisas que indicassem que tipos de experiências
se realizavam ali. Seguidamente revistou um armário metálico que guardava
diversos dossiers. Abriu uma das pastas e leu o seu conteúdo. Eram
apontamentos que descreviam o teor das ditas experiências, bem como
o resultado
das mesmas.
A
explicação para tudo o que ele vira lá fora, expunha-se ali mesmo
à sua frente. Aqueles selvagens andavam a injectar compostos químicos
que misturavam sangue lupino com alguns anabolizantes, para aumentarem
os níveis de agressividade nos seres humanos. Tudo isto para tornar
os soldados mais agressivos, e atacarem os inimigos cheios de raiva,
sem qualquer medo. Mas o que resultou dali foi um canibalismo total,
em que acabaram por se agredirem uns aos outros, destruindo tudo em
seu redor. O corpo do fuzileiro enregelou-se quando se percebeu de toda
a monstruosidade que o rodeava. Nem mesmo os coronéis em Lisboa, deviam
imaginar o que se passava ali, quando decidiram envia-lo para aquela
missão.
Inesperadamente,
as suas especulações foram interrompidas por uma comunicação rádio.
Era o Sargento Raimundo que solicitava a sua presença urgente. O pelotão
«Alfa» tinha encontrado algo.
Quando
chegou local, deu com mais um cenário macabro, diante dos seus olhos
incrédulos. Corpos humanos jaziam uns sobre os outros, desfeitos em
pedaços, completamente dilacerados pelos dentes e garras dos lobos
esfomeados.
No
seio daquela tragédia, conservava-se ainda com vida uma criança visivelmente
efémera. O inocente chorava, gesticulando os seus braços ossudos,
evidenciando um claro desespero, o que fez com que o tenente Rocha se
aproximasse dele para o acalmar; afinal tinha perdido os seus pais,
que jaziam ali mesmo à sua frente. Ao tentar agarrar-lhe os braços,
foi inesperadamente mordido na mão direita. De seguida a criança,
que já se tinha transfigurado atirou-se a ele e ferrou-o, agora no
braço esquerdo. Parecia um cão atiçado, tal não fora o vigor selvagem
das suas dentadas.
Pela
primeira vez, em toda a sua carreira militar, os seus instintos estavam
a atraiçoa-lo. O treino rigoroso de fuzileiro sempre o obrigara a enfrentar
todo e qualquer desafio, mas agora sentia algo estranho... medo!?
«Aquilo»
não era uma criança normal, ela tinha-se transformado em algo terrivelmente
indescritível. O tenente sacou da sua pistola «Walter» para
o matar, mas inesperadamente, a criança voltou a abater-se sobre a
sua própria fragilidade, e os seus olhos observaram o tenente com um
ar penoso.
Rocha
ficou a ver a vida do inocente a esvair-se dos seus olhos pequenitos,
mas terrivelmente medonhos.
*
A
“revolução dos cravos” irrompera pela vida dos portugueses
como um relâmpago através do céu nocturno.
As
pessoas tinham saído à rua para comemorar a vitória da liberdade
e da democracia sobre a opressão e a ditadura.
José
Rocha tinha sido desmobilizado da guerra e voltara para Portugal, tal
como milhares de outros soldados que agora regressavam à vida que tinham
deixado para trás, antes de serem obrigados a combater na maldita guerra.
Agora
só pensava em abraçar Leonor, a namorada que deixara desfeita em lágrimas
quando partiu no navio “Vera Cruz”, naquela manhã fria de Janeiro
de 68.
Pretendia
também voltar para o emprego que tinha na Siderurgia Nacional, onde
tinha trabalhado como serralheiro. Ele era ainda um jovem. Agora estava
de volta à vida urbana. Sentia-se vivo e cheio de vontade de devorar
a vida.
Mas
nem tudo estava como ele sonhava. Oh não, de maneira nenhuma. O pior
dos pesadelos ainda estava para acontecer.
Logo
na manhã seguinte ao seu regresso, o jovem Rocha vestiu a sua melhor
farpela e saiu de casa em direcção à residência da sua querida e
saudosa Leonor. Pelo caminho, parou numa florista e comprou um arranjo
de rosas vermelhas, as favoritas dela.
O
prédio onde ela morava ficava a dois quarteirões abaixo do seu, por
isso, foi num instante que ele chegou à sua porta, onde bateu com suavidade.
O seu corpo vibrava com tantas saudades.
Do outro lado da porta surgiu um indivíduo fininho com ar patético
e convencido.
-
O que deseja? – Perguntou ele, asperamente.
-
Quero falar com a Leonor. Não se importa de a chamar?
-
Ela não está...mas já agora, quem és tu? – Inquiriu o outro, olhando-o
com um ar desdenhoso.
-
Eu sou...espera lá!... – Impacientou-se – E quem és TU? – Perscrutou
Rocha, robustecendo o seu tom de voz.
-
Eu sou o marido de Leonor!
A
frase atingiu-o como uma bala que lhe penetrara pela cara dentro. A
sua garganta gelara-se e ele não conseguiu dizer mais nada. O ex-militar
decidiu voltar costas.
“Como
pôde ela ter-me feito uma coisa destas? Eu amava-a, e prometi-lhe voltar
vivo e inteiro. Daríamos o nó assim que eu voltasse... ”
Estas
questões abateram-se fervorosamente sobre a sua cabeça.
No
dia seguinte, Rocha apanhou o autocarro para “Paio Pires”, e dirigiu-se
à siderurgia Nacional, empresa onde tinha trabalhado alguns anos, antes
de ser chamado para a tropa, e depois para a guerra. Agora, pretendia
recuperar o seu posto de trabalho.
Chegou
à portaria e pediu para falar com o encarregado da serralharia civil,
o senhor Figueiredo. Um pouco depois, apareceu-lhe pela frente um tipo
gordo e de cabelo desgrenhado.
-
Chamo-me Baltazar. Estou a substituir o «velho» Figueiredo,
que Deus tem... – grunhiu ele.
-Que
aconteceu ao senhor Figueiredo? – Apressou-se a perguntar.
-
Bateu a bota. – Respondeu ele com ar de desprezo. – Mas o que queres
tu?...Emprego?
-
O quê?... Mas como... – Rocha balbuciou, um pouco chocado com a notícia.
-
Mas o que fazes tu? – Interpelou.
-
Eu sou serralheiro, e... – redarguiu ele, nervosamente.
-
Não há emprego rapaz! – Interrompeu o gordo com um escárnio repugnante
- Tenho apenas uma vaga para as limpezas. Estás interessado?...
José
Rocha acabou por voltar costas e vir embora.
Ele
não queria imaginar sequer que a sua vida se pudesse transformar naquele
inferno, apenas de um dia para o outro.
Pela
primeira vez, desde há muito tempo, sentiu-se triste e só. Começou
a imaginar que podia ter morrido com uma bala na cabeça durante a guerra
de Africa, e essa ideia perfurou-lhe o espírito, como um consolo mórbido
e cruel.
Regressou
a casa nessa tarde, cansado e bêbado, pois tinha-se encharcado em cerveja
pelo caminho, até ficar completamente “liso”. Por fim, caiu na
cama e adormeceu logo, para não ter que pensar em mais nada.
A
lua cheia perturbou a noite com a sua magnitude perversa e esse mistério
nocturno interrompeu-lhe o sono pesado, levando-o a erguer-se da cama
num grande impulso irracional.
Procurou uma explicação
para aquela desordem súbita, mas a irracionalidade tomara-lhe conta
do espírito. Em compensação, o seu corpo irradiava uma força brutal
e uma energia desconcertante. Sentia-se mais vigoroso do que nunca.
Tinha fome. Oh, mas não era uma fome qualquer – Sentia um apetite
voraz, por sangue e carne crua.
- O que está a acontecer comigo?...Os meus braços estão mais volumosos
e...peludos. E os meus dentes!? Oh, céus! Os incisivos avançaram até
ao lábio inferior! - Gritou ele.
Contemplou a lua e soltou um uivo estridente, que rompeu com o silêncio
nocturno.
Um
pesadelo!
Tudo
não passara de um pesadelo horrível.
José
Rocha levantou-se e suspirou entre suores frios. Mas nem tudo fora um
sonho. Ergueu-se da cama e colocou-se diante do espelho. E foi com terror
que se apercebeu que tinha os olhos desmesuradamente rasgados e negros.
Reparou também que as suas mãos se tinham transformado em garras gigantescas,
e que as suas unhas agora estavam mais compridas, tendo adquirido um
tom negro, desde a raiz até ao rebordo. Interiormente, havia algo que
o incomodava e persistia – A Fome. Não era uma fome vulgar, daquelas
que se sacia num frigorífico atestado de comida. Não!
Crescia
nele um desejo incontrolável por carne crua e sangue, associada a uma
impiedosa vontade de matar que o arrastava para uma loucura alucinante.
Galgou
pela janela fora como uma flecha incandescente em busca de uma vítima.
Mas ele não pretendia atacar um inocente qualquer, não!
Agora, aqueles que o
tinham traído e desconsiderado, seriam os primeiros a ser “julgados”
e a sofrer o castigo que lhes era merecido. Corria-lhe nas veias, uma
excitação mórbida, associada a um ímpeto de retaliação, que ele
já não conseguia, nem queria dominar.
Demorou
poucos minutos até chegar à moradia de Leonor, e quando lá chegou
não perdeu tempo a bater à porta. Desta vez irrompeu pela janela das
traseiras e enfiou-se pelo quarto dela a dentro. O barulho desconcertante
do abalroar da janela, obrigou o casal a acordar num pânico delirante.
Fitou
o finório que lhe roubara a sua querida Leonor. Tinha-a conquistado
de forma cobarde, aproveitando-se da sua fragilidade e carência afectiva,
enquanto ele combatia pela pátria, no meio da selva.
O
finório apossou-se de uma carabina e tentou disparar contra o intruso,
mas Rocha transformara-se num animal selvagem, cujos instintos e destreza,
não permitiram ao seu opositor ter tempo sequer para pensar. Pulou
para cima dele e atingiu-o com o vigor brutal das suas garras, abrindo-lhe
um rasgão profundo, que lhe cortaram o peito em duas metades. De seguida,
ferrou-o com uma dentada selvagem, que lhe mutilou o braço direito.
O finório berrou de terror enquanto o sangue se esguichava em torrentes
do membro amputado. Agora, aquele já não era o mesmo ser desdenhoso
que humilhara o ex-fuzileiro no dia anterior em que o despachara, como
se ele fosse alguma “testemunha de Jeová” – Não! Agora, o finório
era uma pobre vítima nas garras daquele lobo colossal e sanguinolento,
Por
fim, acabou-lhe com a vida, quando lhe ferrou os dentes arreganhados
e maciços no pescoço, mais precisamente na zona da veia jugular, e
lhe sorveu o sangue até à última gota.
O
rosto belo e gentil de Leonor transfigurara-se num cariz de horror e
pânico, perante aquela carnificina canibalesca. Rocha já tinha abandonado
o cadáver do sonso. Agora encarava Leonor de frente.
-
Rocha... Eu amo-te! – Suspirou ela, num tom de súplica.
-Porque
me esqueceste? – Roncou.
-
Pensei que não voltavas mais...
-
Lembro-me de te ter prometido que voltaria...
-
Desculpa!... – A voz dela embargara-se nas lágrimas que lhe escorriam
pela face. Considerou deixá-la viva. Depois ponderou pedi-la em casamento,
conforme lhe tinha prometido em tempos. Mas mesmo antes de terminar
as suas reflexões, já as suas garras lhe tinham desmanchado a cara,
outrora...encantadora. Leonor ainda tentou implorar pela sua vida, mas
a traidora não merecia misericórdia, por isso, esquartejou-a como
se fosse uma porca, num banquete alentejano.
Fê-la
sofrer, em cada um dos golpes que lhe desferiu, até escutar o seu último
suspiro. O suspiro da morte.
Agora,
Leonor já não pertencia ao mundo dos vivos. Parecia que descansava
profundamente, o que lhe trouxe à memória os tempos em que ela dormia
em paz ao seu lado. Por fim, lançou o seu olhar perverso para os cadáveres
rasgados e uivou pela noite como que a chamar por outros semelhantes
a ele.
Escapou-se
dali, sorrateiramente de forma a evitar qualquer estardalhaço para
que ninguém desse por ele. Saltou sobre a cobertura e prosseguiu, caminhando
sobre joelhos e mãos. Pulou de telhado em telhado, até se deparar
com o rio, mesmo à sua frente.
Percorreu
o pontão até ao fim, e dali apossou-se de uma pequena embarcação
que se encontrava atracada sobre a amurada. Depois remou sofregamente,
até à outra margem do rio.
Chegado
a terra, deixou que o seu faro aguçado o levasse até aquele homem
nojento que se rira na sua cara, naquela tarde.
Não
foi difícil dar com ele, pois havia uma “casa de putas”
ali na zona, que era bastante frequentada, principalmente por alguns
encarregados da Siderurgia, e foi para lá que o seu faro o guiou. Escondeu-se
dentro de um carro abandonado, e foi ali que esperou pelo gordo, que
acabou por sair pouco depois.
Rocha
observou-o com atenção, depois abandonou o carro e seguiu-o com cautela.
O gordo cambaleava, pois estava bêbado nem um cacho. Vivia num bairro
social que ficava mais a sul, e para encurtar caminho, costumava enfiar-se
pelo matagal dentro. Todas as noites o percurso era o mesmo. Nunca tinha
tido quaisquer problemas. Caminhava descontraidamente com as duas mãos
nos bolsos e assobiava um fado da Amália.
Rocha
aproximou-se. O gordo apercebeu-se de um ruído estranho por trás dele
e isso fê-lo calar-se. Rocha saltou para a frente, na sua figura assombrosa
e prendeu-o entre as suas garras robustas.
-
Lembras-te de mim, idiota? – Perguntou.
-
Não. Quem és tu, mascarado de idiota, pensas que me assustas?
-
Tivemos uma pequena conversa, esta tarde....
-
Ah, já me lembro de ti. És o gajo que quer trabalho. Já te disse
que tenho uma vaga para as limpezas... – Ironizou.
O
gordo nem teve tempo de terminar a frase. Rocha desferira-lhe um soco
de tal modo potente, que lhe desfez o maxilar. O gordo desatou aos berros
agarrado ao resto da cara, que ainda lhe restava. De seguida, Rocha
deu-lhe um golpe no estômago, que o fez jorrar as vísceras todas para
fora. Por fim, chacinou-o selvaticamente em todas as partes do corpo,
até ele ficar transformado num monte de carne conspurcada.
Rocha
olhou para o céu estrelado e viu que a lua se tinha degradado no firmamento.
Aquela sede sangrenta,
bem como aquela estranha demência, tinha-se esgotado no seu corpo e
na sua mente. Voltou a sentir uma calma interior, que o levou novamente
a sentir-se só. Tinha de regressar a casa. Queria que aquele delírio
cruel o libertasse, para voltar a ser o homem “normal” que sempre
fora.
Caiu
na cama antes do relógio da igreja irromper pela madrugada, anunciando
as sete da manhã. Dormiu longa e tranquilamente até ao fim da tarde
desse mesmo dia. Depois, quando despertou, recordou-se logo de tudo
o que tinha acontecido na noite anterior. Por fim, chorou.
Não
encontrava forma de viver com o seu arrependimento. Apercebeu-se de
uma grande agitação na rua. Foi à janela e viu uma multidão a aglomerar-se
para lhe cercar a casa. Havia uma batida geral para o matar. Homens
e mulheres empunhavam lanças, alabardas, arcabuzes e bastões, numa
fúria incontrolável para o apanhar.
Oh,
como ele desejava voltar a ter uma vida normal. Ele sabia que estava
doente. A excitação pelo sangue e pela carne crua, assolava-lhe a
alma e embrenhava-se nos seus ossos, deixando-o à beira da loucura.
Não percebia o que lhe tinha acontecido, mas concerteza, fora infectado
por alguma doença...Possivelmente, o miúdo que o mordera em Africa,
teria sido a causa do seu flagelo.
“Teria
sido isso?”, pensou ele, recordando-se daquele episódio macabro que
vivera durante a guerra. A imagem daqueles cadáveres completamente
dilacerados regressou-lhe à memória. Corpos humanos que serviram de
cobaias para aquelas experiências pavorosas, todos infectados por um
vírus mortal. Por fim, os mentores daquela invenção macabra, terá
tomado a decisão de dizimar a aldeia, pois sabiam, melhor que ninguém,
que não havia cura para a praga que se desenvolvera a partir daquilo,
que acabou por gerar um genocídio completo.
Agora
era ele quem estava a padecer, e em consequência disso, estava a causar
sofrimento aos outros também. Era como se estivesse num centro de um
remoinho, numa espiral que o sugava para o vórtice da loucura e demência
total.
Então,
só lhe restavam duas saídas:
Ou
continuava a matar até ser preso, ou então... apontava uma pistola
à cabeça e carregava no gatilho...
FIM