|
MISSA MACABRA AUTOR: JOSÉ MANUEL NUNES VILAR
MISSA
MACABRA
JOSÉ
MANUEL NUNES VILAR
Resultava-lhe
grotesca ao amparo da cheminé francesa, resultava-lhe
insultante a imagem curva do pára-chuva no guarda-chuveiro lá,
na esquina da luxosa habitaçom. Agarimava umha e outra vez o
copo de fino licor que reflectia a dança das lapas que
devoravam os pátrios lenhos de carvalho.
Ficava
só na sua imensa morada construída com os mais exóticos
materiais e com os ouros das américas. Ficava só nos
seus derradeiros instantes de vida olhando o curvo guarda-chuva
preto, preto como a noite, preto como o leito dos defuntos, preto
como as asas do morcego. Aos seus olhos o guarda-chuva
metamorfoseava-se em serpe moura, grossa e lenta, que reptava face os
seus pés, e pelo caminho medrava e tomava corpo de boi
azeviche. Ile, presa do pânico e dumha débil saúde,
já nom se podia mover e extinguia-se no seu gram cadeirom. O
jogo das labaredas contagiava a todas as sombras de pulantes
movimentos e dava vida ao insultante objecto.
A
rica estância encetou a estar governada pelas arrepiantes
trevas que gesticulavam da forma na que o faziam as distantes
lembranças de velhos amigos e amigas. Formara-se umha festa na
que a música, os sons, ficavam tão longe que nom se
ouviam. O pára-chuva encetou daquela a voltar ser protagonista
das demoníacas metamorfoses, quando os seus anciãos
pulmons ficavam quase sem oxigénio. O coraçom queria
botar-se fora a choutos pelo rápido que latejava mentres o
útil botava pernas de animal e encetava peregrinaçom no
mais estrito silêncio.
Quando
desejou dar conta do que em realidade acontecia e pôr-se em pé,
achou-se extraído do seu corpo e olhou o copo de licor
escachado no firme. A sua imagem era pálida e rígida.
Fim
Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.
|
|
|
|
|
|
|
CONTOS GROTESCOS - www.contosdeterror.com.br - Desenvolvido e mantido por
PAULO SORIANO |
|
|