O MISTÉRIO NA MANSÃO DOS BRENATT
Por Cláudio Quirino
"O homem de palavra
fácil e personalidade agradável raras vezes é homem de bem".
(Confúcio)
Era
uma plena noite de Outono nas cerceadas circunvizinhanças da casa dos
Brenatt - uma mansão portadora de uma arquitetura de origem grega,
com ornamentos colossais grandiosos de uma cor bege e tons pastéis
logo na entrada, fazendo a recepção dos visitantes granfinos da cidade
de New Orleans. A tradição sempre fora objeto de dúvidas para toda
a vizinhança, já que a sua riqueza era ostentada por comércios crescentes
que pendiam grande parte da economia da localidade.
Enfim,
a pequena família era composta por apenas três pessoas - todos negros:
Thiago, Sandra e o filho Jéfferson -, de reconhecido prestígio e influência.
[ . . . ]
Tudo
estava numa escuridão medonha no quarto. Sandra semicerrou as pálpebras
tentando caminhar os dedos sobre a cama para sentir a pele do marido,
e ele dormia. Ao percorrer a mão sobre os lençóis esparramados, sentiu
o líquido viscoso ensopá-los. O arrepio mais assustador a tomou no
instante em que um pensamento se assomou na mente.
A
noite relampejava constantemente. Tateando a escuridão, fazia esforço
para encontrar o abajur. Não conseguiu fazer acender a lâmpada interna
do objeto. Quando a luz do relâmpago incandesceu o espaço entre ambos,
conteu um grito de horror ao ver Thiago coberto com sangue - uma faca
cravada no estômago, ainda. - Ele estava morto, com um bilhete velho
na mão.
Sobre
o chão, um caminho vermelho seguia até a entrada da porta, mas logo
desaparecia ali. O maior detalhe existente era que estava um pouco aberta,
rangendo minimamente. Desesperada, Sandra levantou num pulo da cama,
mas algo a enculcou. Uma parte de camisola continha manchas de sangue
na porção central do tecido. As lágrimas foram escorrendo pelo rosto
apavorado, sem saber como deveria agir frente aquela situação. A solução
estava na mesinha ao lado dos potes ainda cheios de comprimidos para
insônia.
Levantou
o telefone até o ouvido e começou a discar as teclas, trêmula. A
linha da chamada não respondia, apenas um chiado característico audível.
O pânico só se completou quando um barulho alto veio do térreo.
Sandra
desceu as escadas olhando os mínimos espaços existentes. Porém, apenas
a escuridão se formava adiante. Encostada nas paredes, quase se arrastando
pelos degraus, a mulher abaixou-se no escombro para verificar algo em
movimento na sala, mas nada se viu. Dobrou o corredor, andando em direção
à porta, onde se encontravam os interruptores de iluminação. Quando
os achou, apertou. Nenhuma luz ali. O desjuntor geral havia sido desligado.
Próximo de Sandra, passos riscavam o chão, se aproximando do alabastro
central.
Com
o coração em vias de saltar pelo peito, escondeu-se na sombra das
paredes. Agora, não tinha mais escapatória, a não ser pegar o assaltante
de surpresa. Existia a legítima defesa, senão seria a nova vítima
da casa. Um estrondo reverberou nas proximidades. Havia chegado a hora.
Esperou por vários minutos, e nada aconteceu. Era como se tudo evaporasse
da mansão em segundos. Outra vez, os passos se ouviram, porém recuaram
aos poucos. Sem saber como aproveitar toda a situação, Sandra apenas
limitou-se a correr para o vão da cozinha, pegando uma faca, em seguida,
nas prateleiras. Ali, lavou suas mãos do sangue coagulado que impregnava
os dedos. Quase percebendo o barulho, foi até o mesmo local onde antes
encontrava-se para abordá-lo. Prossegiu lentamente até o balcão interno
de fios - os cabos telefônicos e de iluminação -, logo apertando
as duas chaves de acesso. Alguns minutos intermediários.
No
ato mais repentino, ao longe, graças à claridade intensa que adentrava
pelas janelas, veio perceber algo jogado sobre o chão. Jéfferson jazia
com uma perfuração cravada sobre a sua cabeça. Em gritos, apossou
nos seus braços o corpo do garoto, lívido. Uma agonia maior se efetivou
quando ao fitar suas mãos, como antes, havia sangue fresco nelas.
Sem
mais pensar, novamente, subiu às pressas as escadas, adentrando no
quarto escuro. Num presságio, abriu uma gaveta onde havia escondido
o bilhete antigo por anos - e só ela sabia o local exato -, rezando
para que aquilo fosse um pesadelo. O papel não mais estava no lacre
oculto, mas na mão de Thiago, agora. Com os olhos inchados, abriu-o
e tentou ler as palavras de seu conteúdo, sem ter em vista a escuridão.
Nenhuma letra foi discernida como esperava. "O que foi que eu fiz,
meu Deus?" Como um reflexo instantâneo, Sandra Brenatt recordou
todos os momentos antes do acontecido. Ela mesma havia assassinado Thiago
e Jéfferson, sem nem ao menos perceber os atos da consciência. Numa
conversa com a irmã mais velha, seu pensamento ainda fluía com precisão
cortante: "Sandra, você não pode fugir. Sei que o conteúdo te
choca, mas não precisa esconder mais isso do teu casamento desmoronado".
Depois
de não superar o trauma, ela apresentara outra personalidade - a identidade
mais vingativa que pode existir dentro de uma pessoa tomada ódio constante,
mas que não podia se desfazer de uma forma tão simples assim.
Sandra
afundara no seu mais fundo precipício de angústia, seus problemas
psíquicos atormentavam os traumas mais insurgidos de uma vida dedicada
ao homem pelo qual se apaixonara e, como prova do único amor, Thiago
retribuíra com a infidelidade. A descoberta só se deu quando, por
engano, recebeu o bilhete da amante falando as obscenidades praticadas
em dias anteriores. Como meio de ainda sustentar o casamento, escondeu
a carta e pôs-se a satisfazer todas as vontades sexuais do marido de
uma forma que ele chegava às raias da loucura. Tal transtorno da traição
terminou, mas o ego dela crescia a ponto de deixá-la possessiva e bem
diferente. Tudo, agora, estava explicado. Os Brenatt eram apenas um
reduto de pó.
[ . . . ]
Enquanto
o marido dormia, Sandra repentinamente sentiu vontade de ler aquelas
palavras sórdias, e assim o fez. Em cada frase formada dos seus olhos
cinzentos, o ódio interior logo prevalecia. Tendo em vista o fato de
que Thiago se encontraria com a amante mais tarde, decidiu impedir da
maneira mais trágica. Desceu pelos degraus e logo pegou uma faca afiada.
Voltou
até o quarto, mas Thiago já havia levantado ao perceber os passos
de saída da mulher que desapareceu no horizonte da descida. Sem saber
do perigo que corria, apareceu na porta olhando a face sombria da esposa
enquanto ela cravava a faca no alvo certeiro do estômago.
O
homem desmoronou sobre ela, manchando o meio de sua camisola com o sangue
que minava do corte. Pegando-o pelos braços, arrastou todo peso até
a cama e, colocou o papel dobrado em sua mão. Logo, se escutou um barulho
no térreo.
Descendo
escadas, encontrou a porta do quarto do filho entreaberta, e o garoto
não estava mais dormindo. Ouviu passos ao lado. Espreitou-se no vão,
onde desligou as chaves das iluminações e telefones. Ele pareceu ter
se assustado com o escuro e afastou-se ao escutar pisadas próximas.
Sandra foi até a cozinha, lavou as mãos sujas com sangue de Thiago
e, em seguida, puxou outra faca das prateleiras. Jéfferson não teve
o tempo de fuga, pois uma mulher assomou na frente, fazendo penetrar
uma lâmina na sua cabeça. O menino tombou no alabastro, o que fez
um jarro cercear na extremidade, logo caindo sobre o tapete num barulho
abafado.
Finalmente,
quando tudo se acalmou, Sandra subiu, como se nada tivesse ocorrido,
sem nenhum traço de arrependimento, até o quarto. Encostando um pouco
a porta, deitou-se ao lado do cadáver do esposo. Tomou duas pílulas
do pote receitado pelo médico, que já a acalmava das tentações da
insônia, e logo adormeceu tranqüila.
O
resultado de seus atos inconscientes, saberia ao acordar mais tarde.
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* Todo distúrbio de
DUPLA PERSONALIDADE é uma fragmentação psíquica devido a um grande
trauma, onde o eu (ego) da pessoa fica dividido. Uma personalidade não
tem tal conhecimento da outra a ponto de chegarem a acontecer períodos
de esquecimento, desmaio, onde outra personalidade assume o comando.
Não pode acreditar ser duas pessoas, pois não tem nehuma consciência
dos seus atos.