A MORTE ABSOLUTA

Autor: Paulo Soriano

Morte

Dedico este trabalho à Irmandade das Sombras.

Daqui, onde estou, consigo divisar os muros da cidadela.  Eles se elevam  rudemente  a partir  de uma grande rocha, que, incrustada  no cerne de  uma áspera colina,  mergulha subitamente  num  abismo profundo e desolador. Lá  embaixo, lançando-se furiosamente contra os rochedos pontiagudos, as águas cálidas e espumantes de um mar sombrio  enroscam-se nas fraldas da  falésia com o cingir viscoso  de uma víbora ondulante e  traiçoeira;  e, do alto do pináculo, que domina a grande praça, posso ouvir o seu monótono burburinho.

Vejo, perfeitamente, com o único olho que me resta – o outro está irremediavelmente fechado –,  o pórtico de entrada,   que  agora se encontra completamente aberto. Em uma das colunas jônicas,  que sustentam o portentoso  teto de pedra de  cantaria,  o meu companheiro de gatunagem  encontra-se preso em  uma gaiola.  Sei que ele ainda está vivo, porque  o vejo, vez por outra, deixar cair uma das pernas por entre as grades da pequena jaula oblonga. E ele balança aquela perna esquálida, aquele punhado de osso revestido de pele flácida, como se estivesse a  agitar a sede imensa. A sede a que fora  condenado a padecer    até que  a morte adviesse.  Mas eu o  invejo no seu destino.  Gostaria imensamente de estar cumprindo aquela pena infamante,  de estar  dependurado numa daquelas gaiolas  mal-cheirosas que servem de  macabro ornato  à  entrada  decrépita  da cidadela.  Sei que,  vez por outras,  algumas beatas  dão-lhe  furtivamente um punhado de água e atiram-lhe poucas migalhas de  bolachas duras e mofadas.

De quando em quando,  alguém passa por mim e me esbraveja  alguns escárnios.  Cuspiria em minha face se me pudesse alvejar. Daqui de cima, com o meu único olho disponível,  não enxergo  o seu semblante iracundo; mas os meus ouvidos ainda estão apurados o suficiente para escutar e discernir a natureza dos impropérios que a mim se elevam.  Estou em exibição, não sei há quantos dias, justamente para isso.

As moscas não me incomodam mais. Acostumei-me a elas. Temo apenas que uma beata piedosa escale a escada corrediça,  e,   por compaixão, feche-me o outro olho. Não gostaria de cair de vez na escuridão.

Mas eis que o verdugo  vem subindo o cadafalso.  Ele me olha e faz justamente o que eu mais temia.  Não por piedade, mas por dever de ofício. Um ofício que ele cumpre muito bem. Ninguém melhor  do que eu para saber disso. Agora eu não vejo mais nada.  Apenas sinto que ele me suspende pelos cabelos desgrenhados, eleva-me à altura dos seus olhos, e me lança uma merecida escarrada na testa. Depois, atira-me sobre os ombros com indiferença,  e  leva-me consigo  com a praticidade de  quem conduz um simples bornal de caçador.   Não sei para onde ele vai me conduzir.   Eu  agora  sou  um pingente lúgubre em suas mãos de carrasco. O que resta de meu destino – e isto nem um pouco me apavora – está nas mesmas  hábeis  mãos  que empunharam  a foice sobre o meu pescoço.  Não sei se ele me enterrará. Ou se me lançará falésia abaixo, ao encontro do mar borbulhante. Para mim, tudo isso é indiferente. O meu pavor é outro. Aos poucos, sinto-me privado dos sentidos, mas não da consciência. Em breve serei apenas consciência atirada num fosso escuro e perpétuo,  num precipício sombrio de silêncio e imobilidade absolutos, onde o tempo recusa-se a fluir.  Até quando permanecerei assim? Até quando estarei prisioneiro de meu crânio, escravo de meus próprios pensamentos? Queira Deus que a morte exista.  Queira Deus que me sobrevenha  a morte absoluta.

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