A MORTE

AUTORA: MARI MARTINS

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A noite é cheia de mistérios, onde a insônia marca compassivame

A MORTE


Autora: Mari Martins


A noite é cheia de mistérios, onde a insônia marca compassivamente os pensamentos mais loucos e delirantes. Estou no auge da madrugada, a mente perturbada me torna incomum e quase no ápice das sombras. E elas perambulam nas paredes do meu quarto num sufoco enlouquecido de ir muito além dos mistérios que rondam a mente humana. Tenho a certeza de que a vida é o limiar da morte. Exausta e insone meu corpo e meus olhos abrem-se para o mundo. Aquele mundo conturbado onde a neurose planta a única atividade de uma dimensão em vigília noite adentro. Eles estão por toda parte, descem das íngremes moradias para a escuridão da noite. Perscrutam nossas mentes de humanos insaciáveis e dormem em nossos corpos como hospedeiros sugando toda a nossa energia. Agora, nesse momento, uma sombra desce esgueirando-se pela parede do meu quarto e cobre-me solenemente como um lençol frio e desbotado. Apossa-se do meu corpo e usa-o como se minhas entranhas fossem apenas depósitos do seu mal. Não fecho mais os olhos. Eles abrem-se já esvaziados de um prazer mórbido num avanço nebuloso de minha identidade roubada. São invasores de corpos, que como vampiros sugam-me a alma e derrama no meu corpo seu líquido putrefato de prazer. Minha perdição é como uma energia vibrante que me leva a boca do inferno. Não tenho religião e nem acredito num Deus perfeito que inclementemente pune os pecadores. Estaria sendo punida por uma desobediência imputada ao meu corpo que como larvas dilaceravam minhas entranhas? O perdão dormia em minha mente vinculada a realidade de um mundo imperfeito e feroz. Nada mudara, os séculos passaram em câmara lenta e vinculou meu sofrimento a eternidade. A solidão delirava ultrapassando a barreira do tempo. Meu pecado é como uma marca cravada sinuosamente em minha alma. Morrer seria o ápice dos meus sonhos, mas meus instintos bestiais pedem mais, muito mais. Noites e noites saio pelas ruas sugando todas as almas amaldiçoadas. Algumas perdidas a procura do mal, outras escondidas, presas em suas casas maquinando a maldade que iria fazer no dia seguinte. Sofro e me regozijo com a morte. E é impossível morar num planeta onde a humanidade se digladia ferozmente lutando pela sobrevivência. Minha memória está acima do reconhecimento, da estupidez e da covardia. Não quero que o tempo aflore, quero vive-lo como agora. Sou a típica masoquista que vendeu sua alma e seu corpo pelo simples prazer de julgar e ser julgada. De viver apegada à vida sem poder usufrui-la. Minhas noites são eternas e meus dias obscurecidos pela luz que fere e dilacera meu corpo. Amo a noite, os cheiros mornos dos jasmins que exóticos lembram-me velhos cemitérios. Agora, nesse instante prescuto do último andar de um prédio a cidade silenciosa a meus pés. Sou a dona de tudo aquilo: da respiração dos que dormem, dos seus sonhos, dos carros que passam perdidos na noite. Respiro aquele ar pesado e fico inebriada de prazer. Para sentir tudo aquilo tenho um alto preço a pagar, mas vale a pena. O perdão ainda não consta no livro da morte. Como seria a morte? Teria sexo? Não, ela vem de várias formas. Enfrentar a morte é como enfrentar o demônio, eles são unidos pelo sofrimento. Não posso lembrar, mas as lembranças fluem dilacerando minhas entranhas. Meses atrás meu corpo estava sendo dilacerado por uma doença incurável. Afastei-me da família e dos amigos. Não conseguia encarar seus olhos de compaixão e sofrimento. Fui morar sozinha num pequeno apartamento, mal podia me locomover. Mas tinha dentro de mim uma força que me levava adiante, a força do ódio. Não queria morrer e perguntava-me toda às noites, por que eu? Mesmo com a vidinha insignificante que tinha não queria morrer. Quando estamos perto do fim começamos a questionar a morte, para onde vamos, e se tudo acaba quando morremos. Sentimos no ar um cheiro diferente, o cheiro putrefato de corpos decompostos. Era sexta-feira e aquele cheiro rondava meu quarto e vinha até minhas narinas impregnando meus sentidos. Era um sentimento estranho, aquele sentimento de estar perdendo tudo sem ganhar nada. Nunca fui uma boa perdedora. Minha teimosia consistia em ir as últimas conseqüências, mesmo que nada desse certo. O ódio aflorou meus pensamentos e gritei como uma possessa no silêncio do meu quarto o porque da insensibilidade de um Deus que apenas nos levava sem perguntar se queríamos ir. Ele não negociava. Depois daquela noite meus olhos não fecharam mais, e uma sombra foi formando na parede e como um lençol negro caiu em cima de mim. E foi como tudo começou. Mais uma vez a morte não negociou, ela nunca negocia, apenas cumpre ordem. Todas as noites ela vem e usa meu corpo, depois vai embora. Olho o silêncio da cidade e ando pelo parapeito do prédio equilibrando-me sem nem ao menos ter a coragem de jogar-me no vácuo para acabar com todo aquele sofrimento. Ah! Esqueci de dizer, a doença desapareceu do meu corpo, mas fiquei prisioneira da morte. Ela é assim, nunca negocia, apenas tomou o que é seu de direito. Meu corpo e minha alma.




Fim

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