UMA NOITE SEM LUA AUTOR: CRETCHU
UMA NOITE
SEM LUA
Por: Cretchu
Eu
morava e trabalhava com meus pais numa fazenda na Zona da Mata de Minas
Gerais. Naquele dia, terminei meu serviço no curral e fui para minha
casa de empregado, como sempre fazia. Tomei banho, me vesti e, depois
de jantar, quando o sol estava se escondendo no morro lá atrás, saí
para ver minha noiva. Ela morava numa fazenda vizinha, e para chegar
até lá eu tinha que atravessar uma estrada de asfalto para o outro
lado e cruzar uma capoeira fechada. Abri a porteira que ficava uns vinte
metros de distância da minha casa, fechando com cuidado para não bater.
Fiz todo o percurso normalmente, até a casa de minha namorada, ainda
ajudado pela luz do final de tarde.
Quando
cheguei na fazenda onde morava minha namorada, já estava escuro, porque
era noite sem luar. Novamente abri outra porteira. Depois de fechar
a porteira, com todo cuidado para não deixar bater, venci o quilômetro
de distância da porteira até a casa de minha namorada. Ao chegar ao
quintal, Bronco, um dos cachorros, latiu. Pude perceber a fumaça saindo
da chaminé. Chamei e fui atendido por minha namorada em pessoa. Entrei
pela porta da sala e sentei no sofá, no momento em que a mãe de minha
namorada chegou na porta da sala, me cumprimentando. Minha namorada
e eu fomos para a cozinha, onde a comida ainda esquentava nas panelas
de pedra sobre o fogão a lenha. A mãe de minha namorada perguntou
se eu já havia jantado. Respondi afirmativamente, e passamos a conversar
sobre assuntos triviais.
Alguns
minutos depois, ouvimos passos em volta da casa. Eram o pai de minha
namorada e os outros cães que lhe pertenciam. O pai de minha namorada
trabalhava no curral, mas naquele dia havia saído numa caçada com
o dono da fazenda e outros empregados. O motivo desta caçada me foi
contado por minha namorada, que havia ficado apreensiva com a chegada
do pai. Quando minha namorada começava o relato, sua mãe foi até
uma imagem de São Jorge, que ficava no canto da cozinha, fazendo a
genuflexão diante da imagem.
“Hoje,
depois da meia noite, os cachorros começaram a latir sem parar em todos
os cantos da fazenda”, disse minha namorada. “Meu pai saiu para
fora e não viu nada. Mandou os cachorros ficarem quietos, mas eles
não paravam. Nisso, chegaram mais três empregados. Eles foram com
meu pai até o galinheiro, depois até o curral, mas não viram nada.
Nisso o patrão chegou, porque também estava incomodado com o barulho.
Eles vasculharam a fazenda todinha, mas não viram nada. Quando estavam
voltando cada um para sua casa, viram um vulto branco passar a toda
velocidade. Meu pai gritou para o vulto parar, mas ele desapareceu ao
longe, lá atrás do pasto. Nesse momento, os cachorros pararam de latir.
Eles combinaram que iam atrás do vulto, quando amanhecesse. Hoje, assim
que amanheceu, eles saíram para caçar aquilo que fez essa confusão.
Mas antes, voltaram ao galinheiro, ao curral, foram até o chiqueiro,
na roça, e não viram nada de diferente. Nenhuma criação desapareceu.
E não tinha nenhuma pegada nova na fazenda”.
A
porta se abriu, entrando o pai de minha namorada com uma garrucha na
mão. Havia tomado banho no banheiro que ficava do lado de fora da casa.
O pai de minha namorada me cumprimentou, colocou a garrucha no canto
da cozinha, embaixo da imagem de São Jorge, e veio sentar-se à mesa.
A mãe de minha namorada trouxe café, leite e broa de milho para todos
nós. Enquanto nos servíamos, o pai de minha namorada, após ser perguntado
por sua mulher sobre o que havia resultado da caçada, contou o ocorrido
numa voz que indicava medo.
“Nós
saímos bem de madrugada”, contou o pai de minha namorada. “Cada
um levou sua arma. Eu levei minha garrucha que é uma beleza para caçar.
Levamos também todos os cachorros, a não ser o Bronco, que já está
velho. Fomos lá para o pasto, onde o vulto tinha ido. Olhamos tudo,
mas não achamos nada. Fomos até a fazenda do Newton para saber se
ele havia visto alguma coisa, mas lá ninguém viu nada, nem tinha acontecido
nada de estranho. Nas outras fazendas vizinhas também. Assim que escureceu,
quando estávamos voltando, os cães perceberam alguma coisa e ficaram
inquietos. Seguimos os cães até a floresta que fica antes de chegar
no nosso pasto, já perto do rio que separa esta fazenda com a do Newton.
Os cães havia cercado alguma coisa branca. Na hora que a gente ia chegar
perto, essa coisa rompeu o cerco e subiu numa árvore. Os cães cercaram
a árvore. Lá de baixo dava para a gente ver um vulto branco pendurado
na árvore. Eu fiz mira com minha garrucha. Apertei o gatilho e nada.
Nenhum tiro. Tentei de novo, e nada. E assim foi mais uma vez. Minha
garrucha tão boa não disparava um tiro, apesar de estar carregada.
Um dos nossos companheiros chegou para tentar, mas a coisa pulou da
árvore pelo outro lado e saiu correndo mata afora. E os cachorros ficaram
quietos. A gente ficou se olhando. Eu fiquei intrigado com minha garrucha.
Então, apontei para uma árvore e atirei. Ela disparou normalmente.
Atirei para cima e para baixo. Minha garrucha funcionava perfeitamente.
O patrão chegou e disse: ‘Vamos juntar os cachorros e recolher nossas
coisas, porque a gente está procurando aquilo que não perdeu’. Nós
olhamos para o lugar em volta da árvore onde a coisa havia pulado,
e também no lugar onde ela havia sido cercada pelos cães, e não havia
nenhuma marca do bicho. Concordamos com nosso patrão e voltamos para
casa”.
Terminamos
nosso lanche. O pai de minha namorada pediu licença e foi deitar, porque
estava muito cansado. Não tinha dormido nada naquela noite. Eu e minha
namorada fomos para a sala. Ficamos juntos no sofá, com a mãe de minha
namorada na poltrona ao lado. Por volta das oito horas, levantei-me
para partir, porque amanhã tinha que trabalhar cedo. Despedi-me de
minha namorada e de sua mãe, saindo da casa. Assobiei para os cães,
para não ser atacado.
Afastava-me
da casa de minha namorada, numa noite sem lua. Podia ver alguma claridade
em outra casa de empregado, lá atrás, por causa do fogão a lenha
ainda aceso, mas tudo foi ficando escuro à medida que eu me distanciava.
Passei pela porteira, que fechei sem deixar bater. Depois que saí da
fazenda onde morava minha namorada, subi uma pequena elevação e entrei
na capoeira, quando ficou tudo ainda mais escuro. Eu me guiava mais
pelas sombras das árvores e por minha experiência naquele caminho.
Foi aí que, de repente, percebi que alguma coisa estava me seguindo.
Podia ouvir os passos e perceber que estava perto. Virei-me para ver
o que era, mas não pude perceber nada. No momento em que parei, o som
de passos cessou. Continuei meu caminho, e novamente o barulho de passos
na capoeira. Apressei meus passos, tropeçando em alguns galhos caídos
no chão, mas algo estava ainda me seguindo. Quando eu parava, ele também
parava. Ao prosseguir, ele me seguia.
Cruzei
a capoeira, podendo ainda ouvir o som dos passos me seguindo. Vi a estrada
lá na frente. Lá no alto da estrada, bem no final, à direita, vinha
um carro. Pela luz dos faróis percebi que o carro estava fazendo a
curva. Então me apressei e atravessei a estrada. Fique parado do outro
lado da estrada, esperando o carro passar. Eu acreditava que, quando
o carro passasse por mim, os faróis iluminariam a saída da capoeira
e eu poderia ver o que estava me seguindo. O carro se aproximava, e
percebi que era um jipe. O jipe estava cheio de gente, porque dava para
ouvir o som da conversa entre os ocupantes, que pareciam estar bem alegres.
Quando os faróis do jipe iluminaram a saída da capoeira, não mostraram
nada. O jipe passou por mim, quando pude ver as silhuetas de seus vários
ocupantes que tagarelavam, e seguiu seu caminho. Mais na frente, antes
de fazer a curva, os ocupantes do jipe gritaram: “Bicho! Diabo!”,
e o jipe seguiu pela estrada, fazendo a curva.
Continuei
a andar em direção à fazenda onde eu morava. O caminho era um descampado,
mas estava muito escuro por causa da lua nova. Naquele percurso, eu
voltei a ouvir os passos atrás de mim. Tornei a parar, tentando ver
o que era. Os passos cessaram, e eu não vi nada. Segui, e fui seguido.
Passei perto de uma touceira de bambu e parei para pegar um. Não ouvia
os passos de meu perseguidor, quando tirei um bambu e fiquei parado,
esperando. Cansei de esperar e fui em frente, segurando o bambu. Ouvia
os passos me seguindo. Cheguei na porteira da fazenda onde eu morava.
Abri a porteira e tornei a fechá-la, sem deixar bater. Joguei o bambu
num canto. Encostei-me na porteira, com os braços sobre ela, atento.
Quem quer que fosse que vinha em meu encalço, tinha que passar por
ali. Esperei por meia hora, em vão. Nada passou por ali. Fui andando
para minha casa, desta vez sem ouvir passos me seguindo. Abri a porta
e entrei em minha casa sem fazer nenhum barulho e sem acender nenhuma
luz.
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