O estranho
Guilherme
Ferreira
O
som era alto suficiente para estourar meus tímpanos. A dor rasgava
meu estomago. Dor essa, ardente, que durou alguns segundos. Depois a
calmaria. O calor iniciou lentamente subindo por minha coluna vertebral.
A visão foi se desligando, assim como os outros sentidos. A claridade
tomou conta, luz branca refletia com intensidade. Em minha cabeça,
atordoada, a única coisa em que me agarrava era que havia morrido.
Não imaginava o que teria acontecido. Não sentia nada, apenas enxergava
a luz branca por todos os lados. Com os sentidos apagados e sem sentir
dor, percebi que algo agora divergia. O branco ficou amarelado, o amarelado
virou vermelho e do nada o vermelho escureceu.
A
luz retornou, assim como a dor. Sentia minhas pernas latejando. A dor
ia e voltava mantendo o ritmo. A diferença na luz agora era gritante.
A cor branca havia se transformada em azul. Mas com uma tonalidade mais
real. Identifiquei o teto de um quarto. A cama era confortável e logo
percebi que estava em um hospital, pois, ao meu lado, havia outros leitos,
alguns vazios.
Ela
era linda, cheirava a rosas e tinha uma voz perfeita, me acalmava. Achei
estranho, pois parecia que ela me conhecia. Adoraria ter conhecido aquela
que era a mais bela de todas. Nunca fui de muitas garotas. Algumas das
poucas que pude me aproximar eram garotas de programa. Essa, sem duvida,
tinha a beleza que qualquer homem sonharia em desejar.
Minha
voz não saía. Apenas escutava ela pronunciar algumas palavras ao meu
encontro.
- Querido! Senti tanto medo. - uma lagrima escorreu por seu rosto. -
Pensei que iria te perder.
Não
esperava ouvir isso. Ela pensa que eu sou seu marido ou algo parecido.
Que estranho! Ela deve estar maluca.
-
O médico falou que você pode me escutar. Mas que pode ter perdido
a memória. Isso tudo é passageiro. Você vai melhorar.
Assim
o tempo passou e eu fui melhorando. Minha voz ainda não havia voltado.
Os médicos acreditavam que isso era questão de tempo. Já podia caminhar
e os médicos me liberaram.
-
Vamos, querido! Não vejo a hora de chegarmos em casa.
Tudo
estava estranho e confuso. Ela realmente pensava que era seu marido.
Olhei para o lado e pela primeira vez, depois do despertar, me deparei
com um espelho. Nele alguém completamente desconhecido. O olhar confuso
me atormentou. Neste momento senti um calafrio e lembrei de tudo.
Estava voltando do trabalho. Era terça
feira. O ônibus da empresa havia me abandonado no meio da estrada próximo
de minha casa. Andava sentindo o peso de minhas pernas, depois de um
dia de muito trabalho, no momento que olhei para frente dois faróis
se aproximaram. Fui atropelado. Mas o que me incomodava era esse estranho
no espelho.
- Querido! A pessoa
que você atropelou não sobreviveu. Ele não tinha família. Mas cuidei
para que fosse enterrado com todos os direitos.