ÓLEO DE CÃO
Autor: AMBROSE BIERCE. Tradutor: J. JAEGER
ÓLEO DE CÃO
Ambrose Bierce
Tradução: José
Jaeger
Meu
nome é Boffer Bings. Nasci de pais honestos, em um estilo de
vida dos mais humildes. Meu pai era fabricante de óleo de cão, e
minha mãe tinha, ao pé da igreja da vila, um pequeno gabinete, onde
eliminava bebês indesejados. Já na minha infância aprendi os processos
da indústria. Não apenas ajudava o meu pai procurando os cães para
seu caldeirão, como também minha mãe me encarregava freqüentemente
da missão de me desfazer dos despojos de seu trabalho no gabinete.
Para me desincumbir desse mister, às vezes precisei de toda minha natural
inteligência, posto que todos os agentes da lei da vizinhança se opunham
aos negócios de minha mãe. Já que os agentes não haviam sido eleitos
pela oposição, o assunto nunca tinha injunções políticas:
simplesmente faziam-no por fazer.
Naturalmente,
o trabalho de meu pai – fabricação de óleo de cão – era menos
impopular, embora os proprietários dos cães desaparecidos o olhassem
às vezes com desconfiança, o que, em certa medida, se refletia em
mim. Como sócios, à escondida, tinha meu pai os médicos da cidade,
que quase nunca aviavam uma receita sem que nela constasse ao que eles
orgulhosamente designavam “Ol. can.”, o remédio mais valioso que
já se houvera descoberto. Mas a maioria das pessoas não está disposta
a fazer sacrifícios pessoais pelos aflitos, e era evidente que muitos
dos cachorros mais gordos da cidade eram proibidos de brincar comigo.
Isto feriu a minha sensibilidade juvenil e, certa feita, dirigiram-se
a mim para fazer-me de pirata.
Olhando
para trás, para aqueles dias, não posso, às vezes, evitar o arrependimento,
pois, levando indiretamente os meus queridos pais à morte, fui o autor
dos infortúnios que profundamente afetaram o meu futuro.
Certa
noite, ao passar à frente da fábrica de meu pai, quando vinha do gabinete
de minha mãe, trazendo um exposto, vi um guarda que parecia observar
atentamente os meus movimentos. Embora bastante jovem, eu já aprendera
que os guardas só acorriam aos fatos mais repreensíveis, de molde
que dele me esquivei, enfiando-me na fábrica de azeite por uma porta
lateral, que calhou de estar aberta. Travei a porta de uma vez e fiquei
só com o meu morto. O meu pai já se recolhera. A única luz daquele
lugar provinha do forno, que ardia intensamente sob um dos caldeirões,
espalhando uma profunda luz e lançando reflexos rubros nas paredes.
No caldeirão, o óleo estava em indolente ebulição, empurrando, ocasionalmente,
um pedaço de cão para a superfície. Fiquei a esperar que o guarda
se retirasse. Mantive no meu colo o corpo nu da criancinha e lhe acariciei
ternamente o cabelo curto e sedoso. Ah, como era bela! Já naquela tenra
idade eu gostava muitíssimo das criancinhas e, ao contemplar aquele
anjinho, quase desejei em meu coração que a pequena ferida vermelha
de seu peito, obra de minha querida mãe, não fosse mortal.
O
que eu pretendia, como de costume, era jogar a criança ao rio, que
a natureza sabiamente nos legara para tal fim, mas, naquela noite, com
medo do policial, não me atrevi a deixar a fábrica de azeite. “Afinal
– disse com os meus botões – , não acho que teria importância
se eu vier a entorná-la no caldeirão. O meu pai nunca irá distinguir
os seus ossos dos ossos de um cachorro. E as poucas mortes que pudessem
resultar da administração de outro tipo de azeite, no lugar do incomparável
'Ol. can.', não serão percebidas em uma população que cresce tão
rapidamente". Em suma, dei o meu primeiro passo para o crime, o
que me trouxe sofrimentos indizíveis, e entornei a criança no caldeirão.
No
dia seguinte, para minha surpresa, meu pai, a esfregar as mãos de satisfação,
informou a mim e à minha mãe que obtivera o óleo de qualidade
nunca vista, e que este era o parecer dos médicos aos quais levara
amostras. Ele acrescentou que não tinha ideia de como lograra tal
resultado, pois tratara os cães como sempre o fizera, em todos os aspectos,
e eram eles de uma raça comum. Considerei que era o meu dever
lhes ofertar uma explicação e teria certamente contido o ímpeto de
minha língua se pudesse prever as consequências. Os meus pais, lamentando
a anterior ignorância sobre as vantagens de combinar os seus afazeres,
adotaram medidas para reparar o erro. Minha mãe mudou o seu gabinete
para uma ala do edifício da fábrica e as minhas tarefas com relação
ao ofício cessaram. Já não mais precisavam de mim para que me desfizesse
dos pequenos supérfluos e não remanescia a necessidade de atrair os
cães à condenação, pois o meu pai renunciou completamente a eles,
embora ainda ocupassem o honroso nome no azeite. Assim, subitamente
atraído para o ócio, poder-se-ia esperar que eu me tornasse uma pessoa
viciosa e dissoluta, mas não foi isso o que aconteceu. A santa influência
de minha querida sempre recaía sobre mim, protegendo-me das tentações
que assediam a juventude, e, além disso, meu pai era diácono de uma
igreja. Ai de mim! Por culpa minha, estas estimáveis pessoas iriam
evoluir a um fim tão cruel!.
Ao
experimentar um proveito duplo com os seus negócios, minha mãe se
entregou ao mister com uma assiduidade nunca dantes vista. Não apenas
se desfazia dos bebês indesejados que lhe eram entregues, como acorria
às ruas e becos à procura de criancinhas maiores e mesmo adultos que
lograva atrair à fábrica. Também meu pai, apaixonado pela melhor
qualidade do óleo produzido, fornia os seu caldeirões com diligência
e zelo. A conversão de seus vizinhos em óleo de cão tornou-se, em
suma, a paixão de suas vidas. Uma ganância absorvente invadiu suas
almas e ocupou o lugar da esperança que tinham de alcançar o paraíso,
que, de sua feita, também os inspirava.
E
se atiraram tão vivamente à empresa que uma reunião pública
foi realizada, na qual adotaram-se resoluções que os censuravam severamente.
Ele foi intimado pelo presidente: quaisquer incursões contra
a população seriam recebidas com hostilidade. Meus pobres pais saíram
da assembleia com o coração partido, desesperados e, creio eu, não
completamente sãos. Considerei prudente, de toda forma, não entrar
com eles na fábrica de óleo naquela noite e fui dormir lá fora, num
estábulo.
Cerca de meia-noite, algum misterioso impulso ordenou que eu me levantasse
e espreitasse pela janela do quarto do forno, onde eu sabia que meu
pai já dormia. O fogo ardia em fulgores, como se esperasse por uma
colheita abundante no dia seguinte. Um dos enormes caldeirões fervia
devagar, dotado de um misterioso aspecto de auto-contenção, como se
aguardasse o momento de transbordar a sua total energia. Mas meu
pai não estava na cama. Levantara-se e estava com roupas de dormir.
Fazia um nó numa corda vigorosa. Pelos olhares que dirigia à porta
do quarto de minha mãe, deduzi perfeitamente o propósito que ele tinha
em mente. Mudo e imóvel, cheio de terror, eu nada pude
fazer em matéria de prevenção ou alerta. Subitamente, a porta do
quarto de minha mãe se abriu sem fazer ruído e eles se defrontaram,
ambos aparentemente surpreso. A senhora também estava de camisola,
e levava, na mão direita, a sua ferramenta de trabalho: uma longa adaga
de lâmina estreita.
Ela
foi, igualmente, incapaz de negar-se ao lucro que a atitude hostil dos
cidadãos e a minha ausência lhe permitiam. Por instantes, eles contemplaram
mutuamente os olhos em chamas e, então, lançaram-se com indescritível
fúria um contra o outro. Como demônios, lutaram pelo cômodo todo.
Meu pai maldizia. Minha mãe gritava. Ela tentava cravar-lhe a adaga.
Ele forçava por estrangulá-la com as grandes mãos. Não sei por
quanto tempo tive a desgraça de observar este desagradável momento
de infelicidade doméstica, mas, enfim, depois de um esforço mais vigoroso
que o ordinário, os adversários subitamente se separaram.
O
peito de meu pai e a arma de minha mãe exibiam sinais de contato. Por
instantes, olharam-se da forma mais hostil. Então meu pobre e ferido
pai, sentido sobre si a mão da morte, saltou à frente e, fazendo pouco
da resistência que a minha mãe oferecia, tomou-a nos braços, conduzindo-a
ao caldeirão fervente. E, reunindo as suas últimas forças, saltou
com ela! Em um momento, ambos tinham desaparecido e adicionavam seu
óleo àquele do comitê dos cidadãos que os haviam convocado, no dia
anterior, à reunião pública.
Convencido
que estes funestos acontecimento obstruíam todos os caminhos para uma
honrável carreira naquela cidade, abandonei-a em prol da famosa
vila de Otumwee, onde escrevi estas memórias com o coração repleto
de remorsos por um ato tão imprudente e que envolve um deveras catastrófico
desastre comercial.
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