Orgia
gótica
Autor: Ronygley Carvalho Fonseca.
Lá
fora, a noite estava bastante sombria, a neblina e a garoa cobriam a
gélida cidade de Birmingham, nada de anormal, já que são sempre assim
todas as noites de inverno inglesas.
Em
nossa casa, a fogueira da lareira estava acesa, aquecendo a sala. Tia
Morgana cochilava na cadeira de balanço, ao lado da fogueira, e com
o seu tricô sobre o colo.
Era
quase meia-noite e todos os empregados da casa haviam se recolhido.
Eu estava sentado na poltrona da sala e, até o presente momento, eu
parecia estar num estado de transe, ou talvez, num estado de torpor
causado por alguma droga, eu acho.
Eu
sentia como se toda a minha vida começasse a partir daquele momento,
apesar de não ter até ali nenhuma lembrança passada. Lembrava da
casa, da tia Morgana, dos empregados, e da Michele, a minha esposa,
que havia saído e até o momento não voltara. Mas era estranho,
pois a minha lembrança limitara-se até ali - eu não tinha nenhuma
recordação passada.
Apesar
de muito preocupado como estava, não conseguia expressar tal sentimento,
eu simplesmente estava em estado de plenitude.
Tia
Morgana despertou de seu cochilo, levantou-se e dirigiu-se até a mim.
– Já é tarde sobrinho, vamos dormir.
- Sim, tia, eu já vou, mas acho que vou esperar um pouco
mais pela Michele e, a propósito, para onde ela foi, que até
agora não chegou?
-
Não se preocupe, querido sobrinho, ela está bem. Por que você
não vai dormir um pouco para descansar? E ela já deve estar chegando.
Vamos dormir e amanhã conversamos.
Dito isso, tia Morgana recolheu-se em seus aposentos, mas eu percebi
que no seu semblante tinha uma tristeza e uma preocupação.
Achei
o comportamento da minha tia muito suspeito, pois nós nos dávamos
bem e não tínhamos segredos. Pensei em chamá-la e perguntar se estava
acontecendo alguma coisa, -mas preferi ficar ali esperando pela Michele.
Eu
continuei sentado ali na poltrona da sala, tranqüilo e sereno, olhando
a lenha queimar. Neste instante, fechei lentamente meus olhos e comecei
a lembrar da época que Michele eu namorávamos.
Nós
éramos um típico casal gótico, adorávamos ir ao cemitério de Birmingham
nas madrugadas ermas e mortas para namorar, ler as poesias de Lord Byron,
tomar uísque e fazer amor em cima dos túmulos.
Nossos
pais não aprovavam nossa conduta, queriam o fim do nosso namoro.Por
este motivo, nos cassamos escondidos e passamos a viver com minha tia
Morgana, que era viúva, e vivia sozinha em sua mansão.
Um
dos momentos mais marcantes do nosso amor foi numa certa noite, no cemitério
de Birmingham, onde nós fizemos um pacto de sangue. Tirei do bolso
uma pequena navalha, cortei o meu pulso e o dela, misturamos nossos
sangues e juramos que nem mesmo a morte nos separaria. Acho que esta
era a lembrança mais recente que eu tinha dela até aquele momento
em que me encontrava ali na sala.
De repente, comecei a sentir muito frio e, ao abrir novamente os olhos,
percebi que não estava mais em casa, e sim, no cemitério de Birmingham,
precisamente sentado numa sepultura.
A
princípio, fiquei aterrorizado, “com mil demônios, como eu vim parar
aqui?” – perguntei comigo mesmo, pois há poucos instantes eu estava
na sala de casa!
Quando
me pus a voltar para casa, caminhando perdido no meio das sepulturas
e sem enxergar nada devido ao denso nevoeiro, percebi que uma imagem
tomava forma no meio da neblina, quando se aproximava de mim.
Fiquei
parado, esperando para ver quem era, e quando finalmente estava à minha
frente, percebi que se tratava da amada Michele.
Eu peguei suas mãos e beijei-as delicadamente, depois beijei sua boca.
Disse que eu a amava, que estava preocupado, que sentia a sua falta
e também quis saber o que ela fazia no cemitério aquela hora da madrugada?
-
Então, ela disse que também me amava, que sentia muito a minha falta
e que nunca me deixaria.
Demo-nos
as mãos, caminhamos lentamente pelo cemitério, depois nos sentamos
numa sepultura e começamos a conversar. Eu falava que não entendia
nada do que estava acontecendo comigo nos últimos momentos: o comportamento
da tia Morgana, as minhas atitudes, meus esquecimentos,
de como cheguei ali... enfim, tudo.
-
Calma, meu amor - ela dizia acariciando meu rosto com sua mão
macia -, tudo ficará bem porque estamos juntos. – Você
se lembra do nosso juramento?
' - Sim - eu
respondi. - “Nem mesmo a morte nos separará!”. Mas,
Michele, já é tarde e está muito frio, meu amor. Você pode
pegar uma gripe ou pneumonia, vamos para casa e amanhã você me conta
direitinho o que estava fazendo aqui. É tudo muito estranho, pois eu
nem sei como vim parar aqui. Eu estava em casa sentado ao lado da lareira,
fechei os olhos por alguns minutos e, ao abri-los, acordei aqui. Se
a tia Morgana acorda e descobre que nós não estamos em casa, ela pode
ter um ataque. Venha, vamos voltar para casa.
-
Eu gostaria muito, querido - ela respondeu.- Mas antes,
será que este lugar não te lembra algo?
Eu
entendi onde ela queria chegar,. Michele queria recordar os velhos tempos
de namoro, talvez todo aquele suspense não passasse de uma surpresa
do destino, ou até mesmo da própria Michele, pois desde que nos casamos,
não mais namoramos no cemitério.
Foi
então que percebi um pequeno volume no bolso da calça. Tirei-o e era
uma garrafinha com uísque. Deixamos de lado o imenso frio que fazia
naquela noite, nos despimos e nos amamos ali mesmo.
Na
manhã do dia seguinte, ao acordar, nós estávamos no nosso quarto.
Novamente não me lembrei de como chegamos ali: simplesmente,
estávamos lá. Lembrei-me da noite passada, da maravilhosa
noite de amor com Michele, naquele cemitério, e parecia ter acordado
de um sonho lindo.
Sentei
na cama com cuidado para não acordar Michele, que dormia profundamente,
pois a madrugada tinha sido exaustiva e eu queria que ela descansasse
bem. Olhei para o relógio, eram dez horas, e provavelmente todos já
estavam de pé.
Vesti
o roupão e dirigi-me ao banheiro. Pelo caminho do corredor, ouvi
vozes vindas lá debaixo; na sala, parecia haver um pequeno tumulto.
O
problema parecia ser sério e despertou-me a curiosidade. Então desci
até a sala de visitas. vestido com o roupão mesmo para saber
o que se passava.
Ao
chegar à sala, tia Morgana estava com um delegado, três policiais
e o coveiro do cemitério. Todos estes emanavam de seus semblantes um
assombro, que também me contagiou.
-
O quê acontece senhores? – eu perguntei. Tia Morgana pediu que eu
sentasse no sofá, que ficasse calmo e começou a falar:
- Calma, querido sobrinho. Você acabou de receber alta da clínica,
e o médico falou que você não pode ter emoções fortes!
-
Que clínica? Quê médico? Do quê a senhora está falando, tia Morgana?
-
Estou falando da Michele querido. Quando ela morreu, logo após o enterro,
você sofreu uma crise nervosa e ficou internado numa clínica por três
meses.
-
Calma tia, a senhora está muito nervosa - eu falei.
-
Não. - Continuou ela. - A Michele morreu de leucemia e nesse período
você ficou numa clínica, sendo tratado a base de calmantes.
-
Tia - eu continuei. -Está tudo bem. Olhe, a Michele está viva, eu
a vi.
-
Não querido, a polícia e o coveiro estão aqui porque ontem à noite
alguém entrou no cemitério, abriu a ataúde, violou o caixão e roubou
o corpo. -É bizarro!
-
Não, tia, deixe-me explicar: ontem à noite, àquela hora,
quando a senhora foi se deitar, eu estive com a Michele no cemitério.
Nós nos encontramos lá, passeamos e conversamos um pouco, mas não
violamos nenhuma sepultura. Deve ter havido algum engano. Mas eu prometo
para a senhora e os senhores que ontem foi a última vez que nós namoramos
no cemitério.
Neste
momento, todos eles ficaram assombrados com a minha declaração!
-
Querido, a Michele está morta! - Insistiu a minha tia. completamente
aturdida.
-
Bom, já chega! - disse eu enfurecido - Já que vocês não
acreditam em mim, eu os convido a irem até o meu quarto para verem
que a Michele está dormindo lá.
Então,
todos os ali presentes, sem excluir nenhum, acompanharam-me até o quarto.
Eu segui à frente, enquanto todos me seguiam, incrédulos.
Ao chegarmos, abri a porta, dirigi-me até o corpo coberto em cima da
cama, puxei a coberta e a cena foi aberradora:
Diante
de todos nós presentes estava o cadáver podre de Michele, morto há
três meses, completamente nu, e molestado por mim. O odor era
insuportável e os vermes comiam os restos da carne em decomposição.
.
No
chão, estavam as minhas roupas e sapatos, sujos de lama, e, ao
lado da cabeceira da minha cama, encontrava-se o pé-de-cabra
que eu usara para romper as travas do caixão na noite anterior,
e trazer o corpo para meu quarto.
E
eu, tia Morgana, o coveiro, o grupo de policiais e os empregados, todos
sem exceção, ficamos ali trêmulos e incrédulos, paralisados de espanto
com aquela cena de terror e infâmia que eu causara.
FIM