O
OUTRO VAMPIRO
Paulo
Valença
Irene observa o que o ônibus vai deixando
para trás: edifícios, residências, automóveis, pedestres, enquanto
o vento noturno entrando agasa-lhe as faces. Mais uma noite regressando
a casa, após os expedientes na fábrica, no serviço exaustivo de contar
e fazer pacotes de caixas. Até quando assim, neste emprego que não
lhe oferece futuro? Ah, como é difícil a vida de pobre! Mas, enquanto
vivos, temos de ter fé, confiar no amanhã.
- É isso aí.
Diz, libertando o que reflete para
espanto da mulher gorda, vizinha de cadeira. E sorri, como se não percebesse
a perplexidade da parceira de viagem. O coletivo corta a avenida agora
sem o intenso movimento do início da noite, quando há os “engarrafamentos”
da hora do ”rush”.
Quanta vez já fez esse percurso após
sair da indústria? Mas, como tudo passa, a nossa vida é uma constante
alteração... Alisa os cabelos finos, compridos, negros e, na nuca,
sente... os furinhos ainda não sicratizados da mordida do Josuel, seu
ex-namorado.
- Você endoidou cara? Negócio de
morder! Tá pensando o quê?
A discussão e ela, então resoluta:
- Pois fique com sua “tara” de
morder, que não quero mais namorar com você. Está tudo acabado!
- Mas Irene isso faz parte da amizade,
é um carinho.
- Carinho pra você, pra mim não.
Tarado!
Namoro findo. E a falta que sente do
rapaz esguio, branco, de sorriso tímido, cabeleira aloirada, longa...
Mas, é assim mesmo. Faz parte da vida.
- Faz parte.
Repete novamente falando, ante a perplexidade
da senhora que sem se conter, inquire:
- Tá sentindo alguma coisa, filha?
A jovem sorri, e responde:
- Nada não. Pensando em besteiras.
- Entendo...
Logo o ônibus estaciona e Irene:
- Dê licença dona.
- Pois não, mocinha.
Afasta o corpo volumoso de lado, permitindo
a passagem da moça, que alerta o motorista:
- Vai saltar!
Então, aligeirando-se salta. A condução
retorna o itinerário e Irene caminha, adentrando na rua defronte.
A noite amadurece. As calçadas com
um ou outro passante. De uma casa próxima, vem o choro de uma criança.
De outra, os latidos de um cão. Por que pobre gosta tanto de cachorros?
E, de repente, sente... Por que essa impressão de que está sendo perseguida?
Há dias, sempre à noite, que tem a mesma sensação de que está sendo
seguida. Mas, por quem, se não vê ninguém próximo?
- Estarei ficando biruta?
Apressa-se. Doida para chegar à casinha,
onde a mãe a espera, preocupada, receando o pior, porque com a idade,
D. Ivoneide está cada vez mais pessimista. E, outra vez alisando os
cabelos (em seu hábito repetitivo) sente a marca dos dentes na pele
da nuca, feitas pelo “cabra” safado do Josuel!
Sobe a escadaria de estreitos e inúmeros
degraus.
No alto, o morcego de asas longas e
os olhinhos de estranho brilho cintilam, acompanhando-a.
2
O rapazinho corre a palma da mão sobre
o pescoço, friccionando-o:
- “Gata” que história é essa
de morder? Porra! Tá sangrando.
Ergue-se, nervoso. Então, a mão de
dedos longos lhe envolve o tronco, trazendo-o... e os caninos novamente
retornam a agir, sugando-lhe o doce, doce sangue.
A dormência. A entrega. E a satisfação
de Irene, no sorriso que esclarece o porquê do ataque disfarçado em
caricia, no jogo do amor, transmitido por Josuel, o outro vampiro.
Paulo Valença é autor de livros de
contos e romances, com premiações nacionais. É verbete em dicionários
biobibliográficos de escritores contemporâneos. Pertence a várias
instituições literárias. Vive em recife/PE.