Para Roberto
Brandão e Elton Jaeger
O fato de haver condenado à morte um homem que sabia inocente
em nada perturbava a consciência tranqüila e arejada do
juiz Maastricht. Como sou Mephisto, e posso perfeitamente
devassar a consciência de quem quer que seja, garanto-vos que,
ao assinar a sentença, o nobre magistrado ainda mais se encantava e
exultava com o peso de sua pena, expressão magnífica de seu imenso
poder.
Pode parecer estranho, mas as execuções – sobretudo as demoradas
- não me fascinam. Em nada se comparam aos momentos que
antecedem ao golpe do cutelo. Aí, sim, pode-se experimentar alguma
sensação prazerosa. Digo-vos que o medo da morte
mais que iminente sepulta toda e qualquer emoção de um condenado,
salvo, nos espíritos mais elevados, o arrependimento. Mas,
quando se é inocente, é o ódio contra os seus algozes o que verdadeiramente
dignifica o imolado e o fazer merecer a própria pena.
Mas o juiz Maastricht deliciava-se em ver as execuções de suas rudes
penas. Pouco lhe importava o que ia na mente dos que atirava nos
patíbulos e calabouços. Mais que isso, exigia do verdugo que
amputasse um bocado do executado.
Dispostos numa ampla prateleira, que ocupava uma das paredes da tenebrosa
sala de audiência, havia frascos de salmoura. Narizes, olhos
e orelhas - e, bem assim, diversas outras macabras reminiscências
-, mergulhados em conserva, flutuavam pachorrentamente,
para o horror dos réus e regalo do magistrado.
E já eram tantos os frascos a atormentar os olhos
e as almas dos interrogados, e tantos mais ainda eram
os que seriam enforcados, que o nobre magistrado cuidara, com
muita previdência, de encomendar uma nova prateleira de
madeira de lei, destinada a ocupar a parede que ficava à
sua retaguarda, mesmo que – sejamos sinceros – lhe fosse desagradável
desalojar a sacrossanta imagem do crucificado.
Porém, no dia mesmo em que a nova prateleira chegou, o magistrado Maastricht
não compareceu à audiência. O escrivão acorreu à casa do
juiz e o encontrou em delírio. Estava sentado à mesa de
jantar, na posição em que, nos tribunais, costumam ficar os réus.
Olhava para a cabeceira vazia e jurava inocência. Pedia clemência
a um magistrado bem mais poderoso que ele próprio e cujo nome não
me é permitido pronunciar, dada a minha condição de demônio de superior
hierarquia.
O magistrado não passou um dia, sequer, no manicômio. Eu bem
ouvi os seus pensamentos. Mas não os direi. Este é um deleite que
não compartilho com ninguém. Direi, apenas, que o veredicto
foi implacável. Porque, mal os sinos da catedral soaram as vésperas,
a cabeça do magistrado estalou, como se alçada por uma corda bem ajustada
ao seu pescoço; e o seu corpo, imediatamente, entrou em convulsão.
Os pés de Maastricht tremiam em pleno ar, varridos por fluxos
contínuos de espasmos violentos. Mas somente eu fui testemunha de sua
longa agonia. Somente eu, mais ninguém.
Daí por que ninguém pôde explicar as marcas profundas fincadas no
pescoço do nobre homem. E muito menos a mutilação que,
admirados e confusos, verificaram os médicos no corpo do magistrado.
Sabe-se apenas que dentro nova prateleira, justamente no lugar onde
o crucificado deveria estar, havia um enorme frasco
de salmoura. E que no interior do imenso e translúcido pote de
conserva flutuava um dedo cruelmente decepado, adornado
por um anel de magistrado.
Se
eu pudesse jurar, diria claramente que nada tive a ver com isso tudo.