Palmas para a
Morte
Por Luciano
Barreto
— São 3h11 e estou sem sono. Já li os melhores
livros e não terminei de ler os piores. Já transei com
grandes mulheres e com mulheres lindas. Já provei dos melhores
pratos e dos piores. Já estudei as coisas que me interessavam.
Sou formado em Odontologia, Medicina, Enfermagem, Fisioterapia e
Psicologia. Dentre essas áreas sou mestre em Medicina e
Psicologia. De que adianta isso tudo? São 3h12 e de que me
adianta ser um estudioso de várias áreas? Nem
mencionei, mas falo seis idiomas, entre eles; português,
espanhol, francês, inglês, mandarim e holandês. Já
viajei muito, também. Creio que só não conheço
muito bem a mim mesmo, como ser humano, mesmo sendo psicólogo
e médico. Mas falo de algo mais interior ainda... esqueçam!
O resto eu me garanto. Penso nisso há uma semana. Vou morrer.
Por tal motivo estou gravando esse depoimento. Não tenho
filhos, irmãos, pais ou parentes. Não tenho muito
dinheiro. Não era essa a minha intenção: juntar
riqueza. A meta era poder ajudar. Fiz o que precisava ser feito e o
que pude fazer. Hoje estou com noventa anos e aprendi a amar este
lugar. Mas as coisas são assim. Vou morrer. Aqui tudo acabará.
Mas lembro-me perfeitamente. A comissão havia me dito: “Vai,
faz o possível, mas faz com esmero, estude o povo e volte.
Terás noventa anos e um dia de prazo. Boa sorte.”. Fiz o
nonagésimo aniversário ontem. Não houve
comemoração de minha parte. E hoje eu parto. Lembro-me
que não queria vir. Lembro-me que relutei. Busquei os seres da
mais alta cúpula. Todos me negaram ajuda. Contudo aprendi a
gostar desse lugar. O desprendimento será às 3h15. Como
falta um minuto vou deitar-me e fechar os olhos. Lembro que foi assim
que aprendi. Não posso me mover. Tenho que estar de olhos
fechados, pois isso ajuda na paralisação total dos
movimentos. Mas o que acontecerá se me mover? E se no momento
do desprendimento eu levantar-me do sofá ou fizer algum
movimento? “Nunca se mexa no processo de desprendimento. Terás
que permanecer imóvel até ficar inconsciente!” –
dissera-me um dos diretores de pesquisa.
— Amo todos vocês com quem convivi. Amo todos que
escutarem essa fita. Eu amo o ser humano. Posso não ser um
humano de fato, mas o sou de preferência.
O velho que acabara de colocar o gravador no chão ao lado
do sofá estava, agora, de olhos fechados e deitado numa
posição cadavérica. Ele sabia que não
poderia morrer como um ser humano comum. Acidentes, tiros, suicídio,
doenças, nada o mataria. Apenas acabaria sua missão na
terra. E ele voltaria a seu planeta de origem. Mas há quarenta
e seis anos ele tomara uma decisão.
Em questão de segundos uma luz translúcida começou
a girar por cima de seu corpo. Era o processo de desprendimento.
Mentalmente aquele senhor falava: “É chegada a hora. Que
tudo se resolva de uma vez. Seria ótimo se desse certo!”.
Então o homem abriu os olhos e bateu palmas reiteradamente.
Um largo sorriso apareceu no seu rosto. Viu que a luz acima de seu
corpo parara como que num estado de incredulidade, se é que
uma luz pode ter uma sensação dessas, mas com os
extraterrestres não se deve duvidar de nada. Ele estava tendo
um sintoma humano. Talvez um infarto ou uma falência múltipla
dos órgãos. Ele era médico. Sabia os sintomas.
Sabia que estava morrendo. E morrendo com um ser humano. Ainda estava
consciente. Talvez não fosse um enfarto propriamente dito, mas
teve convicção de que seu corpo estava numa situação
difícil. Pela primeira vez em noventa anos uma situação
desfavorável ao seu corpo.
A luz esvaiu-se comedidamente deixando-o morto no sofá de
seu apartamento com olhos absurdamente arregalados de alegria, junto
a um sorriso sincero e de paz. A paz que um ser humano tem, mesmo
depois da morte.