PARADOXO (UMA PARÁBOLA)
Por Paulo Soriano
Ilustração do autor
Para Mauren
A Morte tocou-me o ombro e me sorriu.
Como era bela a morte! Nada daquela
tradicional imagem do ceifador. Quem me tocara o ombro e me sorrira
era uma bela mulher. A mulher mais bela que já vira, mas que a
cada instante alternava as múltiplas feições que
subjaziam em sua pele, malgrado conservasse os traços
fundamentais que cunhavam uma mesma identidade. Imaginei se
perpassavam velozmente na face da Morte a fisionomia de todos aqueles
que Ela ceifara. Talvez sim.
Assim que me virei, veio-me a certeza
absoluta de que ela era realmente a Morte. Pode parecer estranho, mas
descobri esta verdade inexpugnável imediatamente. Não
havia frialdade em seu toque. Nada havia em sua esplêndida face
que lhe denunciasse a nefasta natureza. Mas, mesmo assim, eu sabia
que ela Ela.
- Pronto para ir?
- Aonde vai me levar, meu bem?
- A si mesmo – disse-me
filosoficamente a morte, que passava de uma beldade ruiva a uma linda
mulher negra de olhos amendoados. - A si mesmo, completamente.
- Não entendo, querida...
- Pode parecer um enorme paradoxo, mas
não é: como cada ser humano nada mais é que
aquilo que resulta de sua própria história, somente
somos completamente nós mesmos no preciso instante em que
morremos. Não há por que admirar: com as horas sucede a
mesma coisa.
- As horas?
- Cada hora deixa de existir no preciso
instante em que se completa.
-Entendo...
-Parece que você quer me dizer
alguma coisa antes de tornar-se a si próprio completamente,
pela primeira, única e última vez.
- Você é a mais infeliz
das criaturas – sentenciei, penalizado.
A Morte franziu os lindos cenhos de
índia. Parecia surpresa e decepcionada com a minha observação.
- Por quê?
- Você só sabe matar?
- Só.
- Você jamais será em si
mesma. Daí o seu sofrimento.
A morte assentiu, agora loura,
melancolicamente.
- Ah, como você sofre! –
exclamei num suspiro. - Como sofre a Morte! Você, que só
sabe matar, não pode morrer...