PERDIÇÃO PELO AMOR AUTOR: RAFAEL GOMES
PERDIÇÃO PELO
AMOR
Autor: Rafael Gomes
Ainda me lembro daquele
palacete de mármore branco e de piso negro. Das esculturas imponentemente
espalhadas pelo jardim florido e cheirando a orvalho, das bandejas de
prata acomodadas confortavelmente na arca. Todo esse luxo me deixou,
e hoje estou nesse albergue imundo, ainda por sorte, caso contrário
estaria na rua sem nenhum teto, com goteiras por toda parte, abandonado
a baratas e ratos, porque um dia fui capaz de jogar tudo que tinha para
o alto em busca do prazer mundano, seja com as mulheres seja na bebida,
mas acabei preferindo mesmo as mesas de jogo. Tornei-me um viciado,
confesso, mas não conseguia imaginar como minha fortuna pudesse se
esvair tão rapidamente como fora. Na realidade, sugaram-me até a última
moeda que tinha. Aqueles que se julgavam amigos... bem, nunca mais os
vi, não por mim, mas eles se afastaram e se esconderam, não mais os
encontrei. Talvez isso não importe, nem tanto mais. Apesar de tudo
não estou sozinho, embora ainda sofra muito, minha amargura foi amenizada
quando a conheci. Ela me mostrou que a vida pode oferecer ainda esperança.
No momento mais cruel de minha tênue existência, ela me segurou pelo
braço e me ajudou a prosseguir. Estava totalmente apaixonado por aquela
mulher, tudo que fosse de seu desejo, era também meu, e não havia
nada que ela pedisse que eu não fizesse. Novamente tinha me tornado
escravo, dessa vez do amor. Foi também junto a esse redemoinho de emoções
que tomavam conta de mim que conheci o crime. Foi dele que tirei o meu
sustento para sobreviver naquela selva metropolitana, se fosse preciso
matava para roubar, há alguns anos isso me faria ter vergonha apenas
em pensar, mas vejo que por “meu bem” nada que fiz me causa comoção,
nem quando acidentalmente desferi 17 punhaladas no rosto de uma jovem
que recusara me dar sua mochila. Aliás, contando de meus “serviços”
à minha querida, ela apenas contemplava em silêncio as palavras que
ia pronunciando e afagando meu cabelo e meu rosto por fim dando-me um
beijo lascivo, como prêmio pela noite, pensava. Mas, novamente aquele
desejo por mais, eu não queria estar a seu lado apenas ao anoitecer,
queria estar todas as horas do dia. Dormir e acordar junto dela. Passear
consigo pela orla, pelo cais, através do parque. Tomar uns bons uísques
e fazer sexo a noite inteira. Nada disso eu tinha direito, e não me
contentava apenas com as curtas conversas que tínhamos pela noite.
Para que ela passasse mais tempo comigo, resolvi ser mais ambicioso,
atacar uma loja de televisores na esquina do outro bairro foi minha
última ocorrência.
Saí de lá com o dinheiro,
e melhor dizendo um bom dinheiro, como planejado. Mas, além disso,
carregava nas mãos tingidas de vermelho-escarlate o peso de três
corpos sem vida caídos no chão daquele estabelecimento. Havia feito
aquilo por ela que me aguardava, ela gostaria, eu sei. A polícia
já havia sido acionada e agora era questão de tempo me apanharem.
Não havia saída. Me esconderia junto de minha doce amada, mas me encontrariam
e me tirariam de tudo que há de mais precioso em minha vida, ela. Eu
não me afastaria, enlouqueceria só de pensar em estar longe dela.
E por isso, por minhas súplicas, ela me ouviu, disse que tudo ficaria
bem, falou-me que nunca se separaria de mim, e que nunca alguém havia
demonstrado tanto apreço, ela sabia que era mais que isso o que sentia
por si, e retribuiria tanto afeto. Mostrou-me novamente a luz que eu
precisava, indicou o caminho que eu deveria seguir, e no final nós
dois estaríamos juntos para o sempre. E cumpri de novo o que ela havia
me pedido pra fazer, dessa vez com muito mais ímpeto.
E depois de ter imaginado
toda essa trajetória de vida passada por meus miolos, contemplo meu
corpo nu, desvanecido, em volta de um círculo meio oboval de velas queimando
em chamas, e um faca enterrada estaticamente no meu coração e meu
corpo caído naquele chão podre e iluminado fracamente pelas luzes
amarelas e contorcidas, fiz o que ela havia pedido. Isso não mais me
importa, meu corpo já estava perdido mesmo, mas minha alma agora tem
dono, melhor, dona. Espero ansiosamente ela emergir novamente da escuridão
do segundo piso através da escadaria, dessa vez ela me deixou ficar
com os olhos bem abertos, pois agora sim eu poderia vê-la por completo,
ver seu rosto, o que antes eu apenas imaginava. Estava muito nervoso,
torcia, estalava os dedos, assoprava as mãos em concha só de pensar
que a teria em meus braços pela primeira vez e faria o que antes não
pudera, sua mão... queria tocar e... ela está vindo, nossa! E agora,
o que faço? Calma, certo, ficarei parado a esperá-la descer. O primeiro
passo soa na madeira fazendo-a ranger, mas outro e já podia ver, não
muito bem, o vestido branco que se pronunciava. Um silvo de vento adentra
pela janela ao seu lado e faz com que sua vestimenta brilhante, tamanha
brancura, dance no ar acima de minha cabeça, e flutuando levemente
ele volta à posição correta. Ela continua a descer os degraus, mas
eu não consigo ver seu rosto, ainda está encoberto pela névoa negra
daquela casa, ainda está escuro o ambiente. Finalmente, o último degrau
e nós estamos no mesmo aposento, o que nos separa agora são apenas
alguns metros. Ela me estende a mão, me chama. Quase que solidificado
no tempo, eu, boquiaberto, estupefato, não consigo acreditar no que estava
vendo. A mulher é perfeita, seu lindo corpo moreno balouçava no espaço,
seus cabelos infinitamente loiros pendiam em cachos por sobre os ombros,
sua face serena e provocante, seus magníficos lábios faziam movimentos
ardentes me despertando para o mais profundo prazer. Não consigo me
ater, vou a ti senhora do meu destino, a ti me entrego. E por uma força
maior que qualquer outra que senti me atiro e a beijo loucamente. Mas
que lábios mais doces são esses, que boca exalaria tão enauseante
fragrância? Esse perfume é de... é, vejamos, está mudando, eu acho
que é... que que é isso! Enxofre! Alho! Oh! Não!
-Largue-me! Solte-me!
Não quero mais te beijar!
Ela me desprende de
seu corpo, de seu corpo definhado, podre. Essa viscosidade negra mancha
minhas mãos e impregna meu corpo, meus lábios com esse odor ignoto,
seu vestido vai ao chão e vejo que aquela criatura tão bela que há
pouco era transformar-se naquilo detestável, repleto de vermes pululando
de orifícios purulentos e furunculosos, de pele áspera e flácida,
dizendo o mesmo para os seios murchos e de mamilos carcomidos e em carne
viva despejando uma substância branco-amarelada. Seu rosto, oh Deus,
cadavérico, profundamente desfigurado, um olho lhe saltava de uma das
órbitas, no lugar do nariz apenas um buraco escuro e a boca antes graciosa,
era agora um poço de lamentações que lançava um bafo denso de podridão
no ar.
- Mas que é isso, me
largue!
-Você não me queria
meu amor? Agora sou todinha sua para toda a eterna escuridão. Vamos
fazer aquilo que você estava querendo lá no quarto vamos! Não me
deixe esperando. Você mesmo não gosta de esperar não é? Vamos venha
comigo!-diz a mulher, e sua meiga voz, hum, já não existe mais.
-Não! Eu não quero,
eu não amo mais você! Me solte, meeee ssooollte! Nãããoo!
A coisa abre-se numa
medonha gargalhada de sarcasmo.
- FAÇA TUDO QUE EU MANDAR
MEU BEM!-diz aquilo me arrastando para os confins da escuridão do quarto.
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