“Permaneçam Dentro
de Suas Covas!”
Autor: Diego
Santos
O
que aconteceu com o estranho João Carlos foi uma tragédia sem tamanho.
Ser espancado até a morte deve ser, de longe, a pior de todas as formas
de fazer a inevitável passagem. Mas entendo que cada coisa que acontece
em nossas vidas faz parte de um plano de merecimento, e, sob este paradigma
consolador, atribuo a morte do meu amigo Juca a uma dívida cármica
obrigatória.
Ninguém
na pacata cidade de São Venâncio gosta de falar sobre este caso. Eu
também não sou muito fã de dar corda a este tipo de história pois,
quando chega a noite, dormir se torna um processo de superação dos
mais profundos de meus medos. E a verdade é que, por mais corajoso
que alguém seja, deve admitir que existem brenhas obscuras neste mundo
que não devem ser cutucadas.
Tudo começou com o suicídio
de um coveiro chamado Jacó. Ele trabalhava há menos de dois anos no
Cemitério Maria Lourdes, e, apesar do medo infundado que as pessoas
costumam ter de coveiros, Jacó era querido pela população do minúsculo
município. Mas, tristemente, o bondoso Jacó acabou se deparando com
uma verdade tão aterradora e intolerável, que acabou dando cabo da
própria existência. Digo isto porque sei o que ele viu. Eu vi.
Por
alguns dias o povo de São Venâncio manteve um luto respeitável pelo
sacrifício de Jacó. Eu, que era um menino na época, dei muito trabalho
para minha mãe, perguntando todo dia sobre princípios e causas da
morte, os quais a pobre e ignorante senhora de meia-idade não poderia
jamais responder. Quando eu quis saber o destino das almas suicidas
então, minha mãe decidiu que era hora de me mandar para a igreja.
Lá eu iria aprender melhor sobre os segredos de Deus.
Independente
do rumo que minha vida tomou a partir daquele ano, a serenidade prolongada
que reinava na pequena cidade foi levemente abalada com a chegada de
um novo coveiro. Seu nome era Vicente, e ele em nada se parecia com
o afável Jacó.
Seu
Vicente era um velho mestiço, quase indígena, e andava sob trapos
velhos que muniam a ele o aspecto de nada mais que um mendigo errante.
Estava sempre fumando um cachimbo longo de madeira, e não sorria nem
que lhe contassem a melhor anedota do mundo. Outra característica do
ancião era seu amor pelo álcool. Vicente, em poucos meses, ficou conhecido
como o maior cachaceiro de São Venâncio. E olha que a cidade tinha
pinguços aos montes naquela época.
Além
disso ele tinha a fama de ser um tanto tresloucado.
Não
vou mentir. A verdade é que eu odiava Seu Vicente, e quase todo o povo
dali também nutria esse sentimento, apesar das tentativas de disfarçar.
Minha mãe também não gostava do velho, mas quando eu tentava compartilhar
esse sentimento com ela, sabiamente ela me repreendia, dizendo que eu
devia acima de tudo respeitar os mais velhos. “Eu devia tê-la ouvido”,
penso eu todas as noites.
Meus
três melhores amigos também tinham medo dele. A turma chegou a criar
um apelido para o novo coveiro: “Mato Velho”, mas até hoje eu não
entendo o porquê desta alcunha. Nenhum de nós tinha coragem de passar
perto do Mato Velho, e também não ficávamos no mesmo lugar onde ele
estivesse. E juro que não sei se hoje em dia eu, homem feito, agiria
diferente se visse o estranho Vicente vagando pelas ruas com seu cajado.
A não ser que eu não tivesse escolha...
Sim,
ele tinha um cajado. Meus amigos e eu costumávamos nos sentar na varanda
da minha casa duplex para conversar sobre isso. Criávamos várias hipóteses
sobre a função real do pedaço tosco de madeira que o Mato Velho carregava
consigo, e a noite, não conseguíamos dormir por culpa de nossos próprios
devaneios.
Éramos
quatro. Juca e Vanessa tinham dez anos, Clarinha tinha onze, e eu tinha
doze anos. Apesar de ser o mais velho, eu era o mais medroso de todos
quando o assunto mexia com mitos sobrenaturais. Quando a noite estava
gélida e as sombras das árvores dançavam na parede do meu quarto,
eu ia correndo para baixo do edredom dos meus pais.
Em
um dia 13 de Agosto de algum ano que não poderei mensurar, minha mãe
levou a mim e minha turma no aniversário de um colega da escola. Fomos
a pé mesmo, pois quase todas as casas e lojas de São Venâncio eram
tão próximas uma das outras que era até inútil ter um automóvel
na garagem. Voltamos tarde, quase meia-noite, mas andar pelas ruas vazias
do município não era motivo de temor, já que casos de roubo ou latrocínio
na região eram raríssimos.
Nunca
esquecerei aquela noite. Acredito que todas as pessoas presenciam eventos
inexplicáveis em suas vidas, principalmente na infância, mas duvido
que alguém tenha submetido sua sanidade a uma experiência tão mortificante
como a que me assaltou. Ao passarmos em frente ao largo portão do Cemitério
Maria Lourdes, ouvimos uma frase que, a princípio, não pudemos acreditar.
Como se estivéssemos todos conectados por nosso inconsciente, paramos
e fitamos a mortalha que cobria o horizonte da necrópole por entre
as grades do portão.
Lá
estava Seu Vicente. De costas para nós, apontava seu cajado em direção
à lua, perfeitamente alta e magnífica na abóbada celeste. Árvores
gris e secas balançavam com a mesma intensidade que nuvens negras deslizavam
irrefletidas no plano tangente da esplanada que parecia culminar no
mais profundo dos limbos. Pensei ter visto o mármore negro que lacrava
um dos esquifes se arrastar lentamente ao lado do necromante maldito.
“Permaneçam
dentro de suas covas!” disse o velho, e todos pudemos ouvi-lo claramente.
Tive que me controlar para não gritar.
Meses
depois desse evento, eu ainda guardava o terror em minha memória. A
voz sepulcral do velho mago negro, ecoando por entre os féretros execrandos
daquele cemitério pardacento, ainda passeavam buliçosos em minha mente
de criança – e não posso dizer que as coisas mudaram hoje em dia.
-
Ele é só um velho maluco – disse Clarinha para mim, dois anos depois.
Porém mesmo ela sentia um inexplicável temor quando o inverno chegava,
e quando a lua despontava alta no céu nos dias 13 de Agosto. Ainda
mais quando outras pessoas da cidade afirmavam também ter ouvido àquela
mesma frase, que me impossibilitava de tirar um cochilo que fosse sem
ser ferido por um calafrio nefando.
-
Esse homem devia sair da nossa vizinhança – disse eu naquele inverno.
Talvez tenha nascido desta frase a mácula do destino de muitas pessoas
daquela província.
Isto
porque os meus amigos pareciam ter levado minha frase a sério. Estávamos
adentrando lentamente no conturbado período da puberdade, e, por isso,
acabamos tendo idéias pouco ortodoxas de como expulsar o Mato Velho
de uma vez por todas da nossa pacata cidade. Por sermos crianças, acreditamos
que podíamos salvar a vila de uma sombra maligna, agindo como se fôssemos
os Goonies, ou algo do tipo.
-
Vamos pegar aquelas roupas da festa à fantasia do ano passado – disse
Juca, o primeiro a dar a idéia – eu vou me vestir de Frankenstein,
Clarinha vai ser a mulher de branco, Vanessa vai ser o zumbi e você
vai se vestir de vampiro – apontou para mim. Eu não estava muito
satisfeito com a brincadeira. Como eu já havia dito, eu sempre fui
um menino quieto, não gostava muito de me aventurar em terreno arriscado.
Além do mais, eu estava começando a criar grilhões com os dogmas
da igreja, e pra mim aquilo soava como uma brincadeira de muito mau
gosto, que jamais faria Mato Velho deixar nossa cidade.
Naquele
dia 13 de Agosto – dia que eu gostaria muito de apagar dos calendários
de todo o mundo – colocamos nossas fantasias e saímos de fininho
da minha casa, em direção ao peculiar cemitério Maria Lourdes. Era
quase meia-noite. O frio e a solidão arrebataram-nos de tal maneira
que, isolados naquela estrada escura e erma, tivemos a impressão que
éramos as únicas pessoas vivas em um mundo negro e colossal.
Curioso
é o fato de que nós não tínhamos nenhum plano de invasão ao cemitério.
E ainda mais peculiar foi o fato do imenso portão de ferro do lugar
estar aberto, como se aguardasse a nossa chegada. É claro que eu não
gostei nem um pouco disso.
-
Vamos voltar – disse eu, nervoso – ele já sabe que a gente tá
aqui.
-
Pára de ser covarde – inquiriu Juca a mim – você é o mais velho
de nós! O que as meninas aqui vão pensar?
-
Vamos logo, garoto – insistiu Vanessa – eu sabia que você ia afrouxar
na hora H.
-
Gente, se ele não quer ir, ele é que sabe... – disse Clarinha, fitando-me
com ternura – ele não gosta desse tipo de coisa.
Eu
empaquei mesmo, e ninguém ia me fazer passar por aqueles portões.
Quando meus amigos perceberam que minha atitude não mudaria, entraram
irritados na ravina enegrecida por uma noite sem estrelas. A lua estava
obstruída pelas nuvens, e o horizonte havia sido tomado, subitamente,
por uma estranha bruma que parecia expelida pelo pequeno bosque que
ficava nos limites do cemitério.
O
pouco que vi pelas frestas do portão de ferro foi suficiente para me
fazer procurar um psicanalista no futuro. Nos dias de hoje preciso tomar
drogas controladas para pegar no sono sem acordar minutos depois assolado
pelos mais aflitivos pesadelos.
As
crianças queriam espantar o Mato Velho. Juca ainda chegou a planejar
uma frase para dizer depois que o estranho coveiro começasse com seus
gritos: “não vamos permanecer em nossas covas. Vamos escoltá-lo
para o quinto dos infernos!”.
Meu
Deus! Quem é o maluco que tem coragem de entrar de madrugada em um
cemitério e fazer uma barbaridade dessas?
Mas
aconteceu. E não de uma maneira engraçada.
Ao
longe, vi o velho se aproximar do cerne do campo de ataúdes, com cajado
em punho, de olhar taciturno e vidrado. Meus amigos estavam escondidos
atrás de um mausoléu branco, mas eu, aterrorizado com aquela visão
espectral, nada pude fazer senão observá-lo pasmado pelo lado de fora
do terreno.
Mato
Velho ergueu seu cajado. O mundo parecia ter perdido a importância
para ele, pois ele não olhava para lugar nenhum senão o céu estéril.
Ao apontar o bordão de madeira para o firmamento, as nuvens que cobriam
a lua foram arrastadas violentamente para longe, em direção ao norte,
revelando um globo brilhante e desmedido denso em uma coloração parda
surreal.
E
então, veio a citação. Atingiu-me como um projétil nascido das profundezas.
“Permaneçam
dentro de suas covas!”
Depois,
silêncio absoluto. Nada mais pude ouvir, exceto uma coruja piando em
algum lugar longe dali. O velho jazia em pé, com seu cajado apontado
para o alto, imóvel como uma escultura. Nenhum sinal dos meus amigos.
Então
veio o coice, que me fez despertar do mundo onírico que me aprisionava
timidamente. Vanessa, Juca e Clarinha surgiram de seus esconderijos,
berrando frases embaralhadas; gritos tão ensurdecedores e bruscos que
o velho Vicente caiu para trás, alarmado. Rolou pela pequena colina
gramada, e se espatifou próximo ao portão, perto de mim. Meu coração
batia tão forte que pensei que fosse desmaiar.
-
O que aconteceu? – berrou Juca para mim, lá no alto do platô –
o velho desmaiou?
-
Eu acho que ele morreu, Juca. Deus me perdoe! – então eu me afastei
do portão pelo lado de fora, uns seis passos, e completei – Saiam
daí logo.
Era
tarde. O portão se fechou sozinho com uma lufada de vento que vinha
do sul. Tentei forçar a abertura, mas era pesado demais pra mim. Mas
como que tomado por uma verdade imutável senti que uma desgraça se
avizinhava.
Então
veio o fedor tórrido de podridão. E junto com ele, sons medonhos de
clamores do além-mundo retiniram vertiginosamente para cada lado daquele
campo funesto. Do umbral da entrada do mausoléu de mármore branco,
um urro anômalo fez a terra tremer, destruindo lápides e fendendo
esquifes de pedra polida. Uma escuridão mais negra que a própria morte
desceu sobre a planície, despertando em mim um mudo pânico.
Quando
tive coragem de olhar para dentro do cemitério de novo, pude ver a
corrida desesperada de meus amigos em busca de proteção contra um
mal que apenas eles haviam presenciado até então. Carnes putrefatas
sob roupas decompostas deixavam seus tálamos eternos para singrar pelo
extenso pátio contaminado há décadas por um horror ancestral. Não
sei que sortilégio trouxe estas almas corrompidas para os corpos que
a elas um dia pertenceu – talvez algum feitiço hediondo que Eritone
tenha ensinado às bruxas em uma época de escuridão – mas atesto
que aquilo foi real, tão real quanto o mundo incoerente que temos como
cenário no tempo presente.
Sobre
o pináculo de uma penedia, ao lado de um obelisco negro que posicionava-se
escarninho contra a luz da lua, vi Vanessa ser mastigada violentamente
por uma daquelas carcaças ambulantes. Aconteceu tão lentamente que
eu pude ouvir cada choque daqueles dentes podres contra a carne da menina,
que gritava em decorrência da atroz expiação. Estou certo que ela
lutou com todas as suas forças para de desvencilhar daquela verminose
humanóide, mas as garras imundas da besta perfuravam seu abdome e tórax
profundamente.
Do
outro lado, próximo ao muro carcomido, Clarinha havia sido encurralada
por três ou quatro daquelas criaturas que excretavam grande quantidade
de pus por seus tumores purulentos. Desprovidos de qualquer sentimento
humano, os cadáveres atacaram minha melhor amiga sem piedade, dilacerando
cada parte do corpo imaculado da garota, manejados por um apetite remoto
e brutal. Alguns deles lançavam os pequenos ossos dela para longe,
degustando exclusivamente da carne.
As
visões de um fim infernal e apocalíptico me levaram a uma mudança
brusca de sentimentos. Eu havia perdido Vanessa e Clarinha, e, talvez
por um impulso insólito de minha parte, eu não podia permitir que
o mesmo acontecesse a Juca. O menino corria pra lá e pra cá, com alguma
desenvoltura, mas seria capturado em breve. Sabe Deus de onde eu tirei
coragem para fazer o que eu fiz em seguida.
Usei
toda a força que pude para empurrar o portão de ferro, e, limítrofe,
entrei por uma pequena lacuna, que foi o máximo que consegui. Fui até
o corpo do coveiro Vicente, esparramado no chão, e tirei o cajado de
sua mão direita, com alguma dificuldade. O velho parecia não querer
se livrar do item, mesmo depois de sua morte. Corri até o centro da
necrópole o mais rápido que pude, antes que os zumbis notassem minha
presença. Apontei o cajado para a lua infiel que brilhava no céu,
escarnecendo os seres humanos, e pronunciei aquelas palavras que tanto
me causaram asco, poucos anos atrás: “Permaneçam dentro de suas
covas!”
Os
cadáveres estancaram. Aos poucos, evacuaram a terra garrida e se dirigiram
lentamente para suas respectivas tumbas, emitindo ruídos graves de
indignação. A escuridão que tomara o lugar foi se dissipando, e as
luzes dos postes na estrada puderam ser novamente contempladas. A estranha
cerração vinda do bosque foi se movimentando e se alocando novamente
pelas árvores secas em direção ao sul. Aos poucos, a macabra turba
oriunda de algum círculo do Tártaro foi se abrandando silenciosamente,
e se posicionando novamente a sete palmos de terra.
-
Onde estão as meninas? – perguntou o entorpecido Juca – pra onde
elas fugiram?
-
Elas morreram – disse eu, firme, ainda com o cajado apontado para
a lua – morreram por sua culpa!
-
Vamos fugir daqui!
-
Não! Temos que ficar aqui, até o dia amanhecer! – ordenei, fazendo
questão de fitar o garoto com o mais profundo ódio que pudesse emitir
– Esses monstros vão se levantar de novo, caso não façamos isso.
E se eles chegarem à cidade?
-
Eu não quero ficar aqui – disse Juca, choroso, preparando-se para
correr – eu quero ir pra casa...
-
Se você sair eu abaixo o cajado!
Ficamos
lá, até o amanhecer. Nossos pais, desesperados, nos procuraram no
dia seguinte. Estávamos bem na calçada em frente ao cemitério, dormindo
profundamente, e encolhidos no muro branco sob o casaco esfarrapado
do velho Vicente. Quando a polícia quis saber sobre o ocorrido –
a morte do Mato Velho e o estranho desaparecimento de Vanessa e Clarinha
– dissemos nada mais que a verdade, e fomos vítimas de todo o tipo
de escarnecimento. Eles jamais acreditariam em uma história tão absurda.
O
que aconteceu depois disso se apresenta pra mim quase como um delírio.
Não consigo me lembrar de muita coisa daquela época, mas admito que
não pude dormir desde então. Perdi veementemente o contato com Juca
que, e como vim a saber alguns anos depois, tornou-se o coveiro da cidade.
E contam os boatos que meu velho amigo João Carlos rendeu-se à loucura,
cumprindo fielmente o ritual de evocar a citação de Mato Velho no
cemitério Maria Lourdes, a cada dia 13 de Agosto dos anos que se seguiram.
Isso
até ontem. Neste ínterim, Juca está sendo enterrado no mesmo lugar
onde presenciou o horror que o levou à demência. Foi severamente espancado
por golpes de porrete no dia anterior, e eu acabei sendo indiciado como
o principal suspeito do homicídio. Mas mesmo enclausurado nesta claustrofóbica
cela da cadeia de São Venâncio, sinto que agi corretamente apagando
este homem desequilibrado de sua existência neste mundo.
Desta
maneira, desejo com toda a força do meu coração, que as almas Vanessa
e Clarinha descansem em paz. Quanto ao espírito do velho Vicente, tenho
certeza que se sente desforrado neste momento, ainda que almeje conservar-se
aqui ao meu lado, para toda a eternidade.
Contato: cripta.arcana@gmail.com / jason.bangu@gmail.com