O PORTAL

AUTOR: JOSÉ LINO FRANÇA JR.

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        O PORTAL

Já passava das duas horas da manhã. Franco olhou pra tela azulada do seu notebook, onde duas solitárias linhas preenchiam o imenso vazio do fundo branco, na terceira página. Sua cabeça estava estourando ao buscar alguma inspiração para continuar o livro.

Seu editor havia ligado a semana inteira para lembrá-lo do quanto seu terceiro livro estava atrasado.

Franco escrevia romances de ficção. Depois de muita insistência, conseguira um contrato com uma pequena editora para lançar três livros em seis anos. A renovação do contrato dependeria da performance das vendas das três primeiras obras.

O primeiro livro sobre uma invasão alienígena, teve boa aceitação do público, chegando à segunda tiragem, mas o segundo, sobre as aventuras de um detetive ao norte da Escócia, desvendando o desaparecimento de cadáveres, havia sido um fracasso completo.

Estava sob pressão, e se havia algo que lhe tirava todas as suas boas idéias, era o fato de trabalhar nestas circunstâncias.

Olhou mais uma vez para a tela do computador, apoiado no braço do sofá. A TV ligada sem som, exibia pela enésima vez, O Exorcista. As cenas entre Linda Blair e Max Von Sydow, ainda o impressionavam.

Numa das tantas vezes em que se distraiu com o filme, Franco sentiu a mão que repousava em cima do teclado, arder, como se estivesse em brasa. Puxou a mão rapidamente, balançando-a compulsivamente para aliviar o incomodo. Olhou para a palma e costas da mão, procurando alguma marca ou ferida, mas nada encontrou.

A dor foi abrandando aos poucos, e Franco voltou à atenção para o filme baseado no livro de William Peter Blatty. Ajeitou-se no confortável sofá, e adormeceu antes da película terminar.

Talvez induzido pelo terror visto na tela da TV, Franco teve um pesadelo. No início teve a sensação de frio, aquele frio que é sentido até nos ossos. Sentia uma fina, mas contínua garoa encontrando seu rosto e seu peito nu. Olhava ao seu redor e nada viu. Tudo negro. Nenhuma sombra. Nenhuma imagem. Somente o nada absoluto.

A escuridão foi perdendo a sua forma. Uma tênue luz avermelhada foi ganhando força, fazendo Franco proteger a visão com as mãos por causa do choque com a claridade repentina, ao passo que o frio e a garoa davam lugar a um ar quente e pesado. Um cheiro forte e impregnado de algo que o homem não soube identificar de imediato, invadiram suas narinas.

O branco se tornou amarelo, que ficou alaranjado, e se transformou em vermelho. Tons de vermelho como Franco jamais havia visto.

O calor foi ficando insuportável. Franco pensou em tirar a camisa, mas se deu conta que não estava vestido. A calidez começava a incomodar sua pele, mas o homem continuou a caminhar sem saber ao certo pra onde estava indo.

Os sons começaram a chegar em seus ouvidos. Um silvo agudo pareceu rasgar seus tímpanos. O homem levou as mãos aos ouvidos tentando, sem sucesso, afastar o barulho infernal. Um estrondo, seguido de gritos, substituíram aquele sibilar. Franco assustou-se com os intermináveis e horripilantes gritos desesperados. As formas foram se delineando a sua frente. Um rio lamacento corria à sua esquerda. Nele, incontáveis pessoas eram atiradas de um lado ao outro, engolindo aquela água suja e malcheirosa. A correnteza era violenta e certamente nenhuma daquelas pessoas iria sobreviver. O que Franco pode perceber é que na verdade nenhum corpo flutuava já finado. Parecia que aquele tormento se seguia sem que o sofrimento tivesse fim.

O escritor desviou o olhar das pessoas agonizantes, ao se deparar com um enorme e desfigurado cão negro. O tamanho descomunal do animal, só não assustava mais, do que a bocarra escancarada exibindo presas gigantescas e deformadas. Sangue vertia dos olhos da fera, que por um momento parou em frente ao homem, e em seguida correu, desaparecendo em meio a fumaça esverdeada que vinha do rio fumegante.

Mas a frente, Franco avistou um casebre com aspecto abandonado. Na pequena varanda de madeira apodrecida havia corpos humanos pendurados em pesados ganchos de ferro, que balançavam de um lado para o outro. Ao se aproximar, o homem atestou que já estavam em adiantado estado de decomposição. O cheiro de carne apodrecida causou náusea em Franco, que ao se afastar da varanda, escorregou numa porção de vermes amarelos que caíam das carcaças cobertas por moscas azuladas. Os ouvidos do homem já estavam acostumando-se aos gritos desesperados das pessoas no rio.

De repente, ouviu novos sons que imaginou estarem vindo do fundo do macabro casebre. Lentamente aproximou-se e finalmente viu, a razão dos barulhos estranhos. Sentadas no chão, num pátio imundo, cheio de excrementos e restos de comidas fétidas, várias crianças nuas devoravam um enorme porco que se debatia deitado de costas. A barriga do animal estava aberta e as crianças enfiavam as mãos dentro de seu ventre, arrancando as vísceras ensangüentadas do bicho que soltava sons esganiçados de dor.

As crianças olharam pra Franco com os rostos manchados pelo sangue do porco, e sorriram como se estivessem brincando no quintal de casa numa manhã ensolarada.

Franco tentou evitar, mas não conseguiu conter um vômito compulsivo que fizera arder seu estômago.

O homem caiu de joelhos, mas ainda teve forças pra ver o enorme cão negro aparecer do nada e com a desproporcional boca, cravar as presas numa das garotinhas sentadas no chão, e novamente desaparecer no vazio levando a menina se debatendo inutilmente.

Franco sentia as forças sumindo das pernas diante de tantas visões horripilantes. Tentou respirar fundo, mas um cheiro de enxofre invadiu suas narinas, fazendo-o sentir enjoado novamente.

Com muito custo conseguiu levantar-se e seguir no caminho margeando o rio dos desesperados. O calor era insuportável e o odor nauseabundo começava a entorpecer sua mente.

Logo a frente avistou um conjunto de árvores imensas. Árvores escuras e cheias de galhos secos. Em cada um deles pendia um enforcado moribundo, que apenas se mexiam para tentar espantar os abutres que de tempo em tempo, desciam num vôo rasante, bicando os olhos e desfiando a carne com as garras grossas, daqueles que ali estavam pendurados.

Tamanha dor e sofrimento, fizeram os olhos de Franco lacrimejarem. O sentimento de impotência era elevado, porém, a própria incredulidade em tudo que sua visão o presenteava, tirava-lhe as forças para que tentasse ajudar aqueles pobres diabos.

Em meio aos gritos de terror, Franco começou a ouvir atrás de si um tipo de murmúrio conjunto, que aos poucos foi tornando-se mais encorpado, fazendo o homem virar-se para defrontar-se com outra visão aterradora. Um grupo que devia ser composto por mais de duzentas pessoas vestidas de preto, caminhavam numa fúnebre procissão em direção a um penhasco abrupto. Ao chegarem ao topo íngreme, simplesmente se lançavam para o nada, numa espécie de suicídio coletivo. Franco percebeu que o grupo que inicialmente imaginara ser de duzentas pessoas, na verdade era muito maior, pois quanto mais pessoas se jogavam do penedo escarpado, outras tantas surgiam no final daquele macabro cortejo. “Será que são sempre as mesmas pessoas seguindo este séquito?”, pensou ele.

Com a curiosidade aguçada, aproximou-se de um dos robotizados homens que seguiam em direção ao desfiladeiro, porém outra desagradável surpresa se instalou em suas órbitas. Nenhuma daquelas pessoas possuía rosto. No lugar da face, apenas existia uma pele lisa e avermelhada. Os cabelos pegajosos desciam pela fronte num sinuoso desenho.

Absorto em tantos pensamentos, imaginou estar dentro de um pesadelo. Aquele lugar não existia. Não podia existir.

De repente, saltou para a frente ao sentir uma mão agarrando seu ombro esquerdo. Assustado, olhou pra trás e se deparou com um homem trajando uma indumentária negra que esvoaçava conforme o vento quente e pesado a atingia. O homem tinha os cabelos lisos e pretos, totalmente repuxados pra trás. Apesar de alto era extremamente ressequido. Sua fisionomia era tranqüila, mas misteriosa.

- Olá. – disse o estranho estendendo-lhe a mão.

Ressabiado, Franco não retribuiu o cumprimento. Apenas perguntou:

- Quem é você e que lugar é esse?

- Quem eu sou não é importante. O mais interessante à você é saber se quer permanecer aqui ou se quer voltar pro seu mundo?

- Claro que quero voltar. Quem em sã consciência iria preferir ficar neste lugar odioso?

O desconhecido soltou uma risada que mais pareceu um ganido. Em seguida respondeu:

- Você se surpreenderia com a quantidade de gente que faz tudo pra vir pra cá. Permanecer é outra história. – fez um breve intervalo, e continuou. – Enfim, você quer minha ajuda ou não?

- É claro que quero. – vociferou Franco. – Mas o que isso ira me custar?

- Nada que você não possa oferecer. – disse o homem olhando para o rio dos desesperados. – Apenas comprometa-se a pagar. – disse esticando novamente a mão.

Sem pensar nas conseqüências, e sim em sumir daquele lugar horrível, Franco instantaneamente aproximou-se do misterioso homem, e apertou-lhe a mão. Sentiu uma ardência conhecida subir pelo braço todo, e só teve tempo de olhar nos olhos do homem, que agora tinham os globos oculares totalmente negros, e na boca um sarcástico sorriso.

Franco abriu os olhos sentindo o incômodo no braço esquerdo. Olhou para a tela da TV que mostrava o letreiro no final do filme. Um alívio fez o escritor esboçar um sorriso. Sentou-se no sofá e aproximou-se da tela do notebook. Para seu espanto, o numerador de páginas exibia o número trezentos e dois. Franco aprumou-se e começou a ler partes do texto do qual não se lembrava de ter escrito. Pra seu espanto, era a história de um homem lançado ao inferno que em nada se parecia com a obra de Dante, mas, tão e somente as mesmas paisagens e cenas bizarras presenciadas por ele no seu breve pesadelo. Voltou com o cursor até a primeira página onde leu o título: “O Portal”.

Franco não teve mais dúvida. Salvou o texto e o enviou em seguida pra seu editor.

O livro fora escrito para Franco, mas o pagamento ainda teria de ser feito um dia.





Fim

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