Já passava das duas
horas da manhã. Franco olhou pra tela azulada do seu notebook, onde
duas solitárias linhas preenchiam o imenso vazio do fundo branco, na
terceira página. Sua cabeça estava estourando ao buscar alguma inspiração
para continuar o livro.
Seu editor havia ligado
a semana inteira para lembrá-lo do quanto seu terceiro livro estava
atrasado.
Franco escrevia romances
de ficção. Depois de muita insistência, conseguira um contrato com
uma pequena editora para lançar três livros em seis anos. A renovação
do contrato dependeria da performance das vendas das três primeiras
obras.
O primeiro livro sobre
uma invasão alienígena, teve boa aceitação do público, chegando
à segunda tiragem, mas o segundo, sobre as aventuras de um detetive
ao norte da Escócia, desvendando o desaparecimento de cadáveres, havia
sido um fracasso completo.
Estava sob pressão,
e se havia algo que lhe tirava todas as suas boas idéias, era o fato
de trabalhar nestas circunstâncias.
Olhou mais uma vez
para a tela do computador, apoiado no braço do sofá. A TV ligada sem
som, exibia pela enésima vez, O Exorcista. As cenas entre Linda Blair
e Max Von Sydow, ainda o impressionavam.
Numa das tantas vezes
em que se distraiu com o filme, Franco sentiu a mão que repousava em
cima do teclado, arder, como se estivesse em brasa. Puxou a mão rapidamente,
balançando-a compulsivamente para aliviar o incomodo. Olhou para a
palma e costas da mão, procurando alguma marca ou ferida, mas nada
encontrou.
A dor foi abrandando
aos poucos, e Franco voltou à atenção para o filme baseado no livro
de William Peter Blatty. Ajeitou-se no confortável sofá, e adormeceu
antes da película terminar.
Talvez induzido pelo
terror visto na tela da TV, Franco teve um pesadelo. No início teve
a sensação de frio, aquele frio que é sentido até nos ossos. Sentia
uma fina, mas contínua garoa encontrando seu rosto e seu peito nu.
Olhava ao seu redor e nada viu. Tudo negro. Nenhuma sombra. Nenhuma
imagem. Somente o nada absoluto.
A escuridão foi perdendo
a sua forma. Uma tênue luz avermelhada foi ganhando força, fazendo
Franco proteger a visão com as mãos por causa do choque com a claridade
repentina, ao passo que o frio e a garoa davam lugar a um ar quente
e pesado. Um cheiro forte e impregnado de algo que o homem não soube
identificar de imediato, invadiram suas narinas.
O branco se tornou
amarelo, que ficou alaranjado, e se transformou em vermelho. Tons de
vermelho como Franco jamais havia visto.
O calor foi ficando
insuportável. Franco pensou em tirar a camisa, mas se deu conta que
não estava vestido. A calidez começava a incomodar sua pele, mas o
homem continuou a caminhar sem saber ao certo pra onde estava indo.
Os sons começaram
a chegar em seus ouvidos. Um silvo agudo pareceu rasgar seus tímpanos.
O homem levou as mãos aos ouvidos tentando, sem sucesso, afastar o
barulho infernal. Um estrondo, seguido de gritos, substituíram aquele
sibilar. Franco assustou-se com os intermináveis e horripilantes gritos
desesperados. As formas foram se delineando a sua frente. Um rio lamacento
corria à sua esquerda. Nele, incontáveis pessoas eram atiradas de
um lado ao outro, engolindo aquela água suja e malcheirosa. A correnteza
era violenta e certamente nenhuma daquelas pessoas iria sobreviver.
O que Franco pode perceber é que na verdade nenhum corpo flutuava já
finado. Parecia que aquele tormento se seguia sem que o sofrimento tivesse
fim.
O escritor desviou
o olhar das pessoas agonizantes, ao se deparar com um enorme e desfigurado
cão negro. O tamanho descomunal do animal, só não assustava mais,
do que a bocarra escancarada exibindo presas gigantescas e deformadas.
Sangue vertia dos olhos da fera, que por um momento parou em frente
ao homem, e em seguida correu, desaparecendo em meio a fumaça esverdeada
que vinha do rio fumegante.
Mas a frente, Franco
avistou um casebre com aspecto abandonado. Na pequena varanda de madeira
apodrecida havia corpos humanos pendurados em pesados ganchos de ferro,
que balançavam de um lado para o outro. Ao se aproximar, o homem atestou
que já estavam em adiantado estado de decomposição. O cheiro de carne
apodrecida causou náusea em Franco, que ao se afastar da varanda, escorregou
numa porção de vermes amarelos que caíam das carcaças cobertas por
moscas azuladas. Os ouvidos do homem já estavam acostumando-se aos
gritos desesperados das pessoas no rio.
De repente, ouviu
novos sons que imaginou estarem vindo do fundo do macabro casebre. Lentamente
aproximou-se e finalmente viu, a razão dos barulhos estranhos. Sentadas
no chão, num pátio imundo, cheio de excrementos e restos de comidas
fétidas, várias crianças nuas devoravam um enorme porco que se debatia
deitado de costas. A barriga do animal estava aberta e as crianças
enfiavam as mãos dentro de seu ventre, arrancando as vísceras ensangüentadas
do bicho que soltava sons esganiçados de dor.
As crianças olharam
pra Franco com os rostos manchados pelo sangue do porco, e sorriram
como se estivessem brincando no quintal de casa numa manhã ensolarada.
Franco tentou evitar,
mas não conseguiu conter um vômito compulsivo que fizera arder seu
estômago.
O homem caiu de joelhos,
mas ainda teve forças pra ver o enorme cão negro aparecer do nada
e com a desproporcional boca, cravar as presas numa das garotinhas sentadas
no chão, e novamente desaparecer no vazio levando a menina se debatendo
inutilmente.
Franco sentia as forças
sumindo das pernas diante de tantas visões horripilantes. Tentou respirar
fundo, mas um cheiro de enxofre invadiu suas narinas, fazendo-o sentir
enjoado novamente.
Com muito custo conseguiu
levantar-se e seguir no caminho margeando o rio dos desesperados. O
calor era insuportável e o odor nauseabundo começava a entorpecer
sua mente.
Logo a frente avistou
um conjunto de árvores imensas. Árvores escuras e cheias de galhos
secos. Em cada um deles pendia um enforcado moribundo, que apenas se
mexiam para tentar espantar os abutres que de tempo em tempo, desciam
num vôo rasante, bicando os olhos e desfiando a carne com as garras
grossas, daqueles que ali estavam pendurados.
Tamanha dor e sofrimento,
fizeram os olhos de Franco lacrimejarem. O sentimento de impotência
era elevado, porém, a própria incredulidade em tudo que sua visão
o presenteava, tirava-lhe as forças para que tentasse ajudar aqueles
pobres diabos.
Em meio aos gritos
de terror, Franco começou a ouvir atrás de si um tipo de murmúrio
conjunto, que aos poucos foi tornando-se mais encorpado, fazendo o homem
virar-se para defrontar-se com outra visão aterradora. Um grupo que
devia ser composto por mais de duzentas pessoas vestidas de preto, caminhavam
numa fúnebre procissão em direção a um penhasco abrupto. Ao chegarem
ao topo íngreme, simplesmente se lançavam para o nada, numa espécie
de suicídio coletivo. Franco percebeu que o grupo que inicialmente
imaginara ser de duzentas pessoas, na verdade era muito maior, pois
quanto mais pessoas se jogavam do penedo escarpado, outras tantas surgiam
no final daquele macabro cortejo. “Será que são sempre as mesmas
pessoas seguindo este séquito?”, pensou ele.
Com a curiosidade
aguçada, aproximou-se de um dos robotizados homens que seguiam em direção
ao desfiladeiro, porém outra desagradável surpresa se instalou em
suas órbitas. Nenhuma daquelas pessoas possuía rosto. No lugar da
face, apenas existia uma pele lisa e avermelhada. Os cabelos pegajosos
desciam pela fronte num sinuoso desenho.
Absorto em tantos
pensamentos, imaginou estar dentro de um pesadelo. Aquele lugar não
existia. Não podia existir.
De repente, saltou
para a frente ao sentir uma mão agarrando seu ombro esquerdo. Assustado,
olhou pra trás e se deparou com um homem trajando uma indumentária
negra que esvoaçava conforme o vento quente e pesado a atingia. O homem
tinha os cabelos lisos e pretos, totalmente repuxados pra trás. Apesar
de alto era extremamente ressequido. Sua fisionomia era tranqüila,
mas misteriosa.
- Olá. – disse
o estranho estendendo-lhe a mão.
Ressabiado, Franco
não retribuiu o cumprimento. Apenas perguntou:
- Quem é você e
que lugar é esse?
- Quem eu sou não
é importante. O mais interessante à você é saber se quer permanecer
aqui ou se quer voltar pro seu mundo?
- Claro que quero
voltar. Quem em sã consciência iria preferir ficar neste lugar odioso?
O desconhecido soltou
uma risada que mais pareceu um ganido. Em seguida respondeu:
- Você se surpreenderia
com a quantidade de gente que faz tudo pra vir pra cá. Permanecer é
outra história. – fez um breve intervalo, e continuou. – Enfim,
você quer minha ajuda ou não?
- É claro que quero.
– vociferou Franco. – Mas o que isso ira me custar?
- Nada que você não
possa oferecer. – disse o homem olhando para o rio dos desesperados.
– Apenas comprometa-se a pagar. – disse esticando novamente a mão.
Sem pensar nas conseqüências,
e sim em sumir daquele lugar horrível, Franco instantaneamente aproximou-se
do misterioso homem, e apertou-lhe a mão. Sentiu uma ardência conhecida
subir pelo braço todo, e só teve tempo de olhar nos olhos do homem,
que agora tinham os globos oculares totalmente negros, e na boca um
sarcástico sorriso.
Franco abriu os olhos
sentindo o incômodo no braço esquerdo. Olhou para a tela da TV que
mostrava o letreiro no final do filme. Um alívio fez o escritor esboçar
um sorriso. Sentou-se no sofá e aproximou-se da tela do notebook. Para
seu espanto, o numerador de páginas exibia o número trezentos e dois.
Franco aprumou-se e começou a ler partes do texto do qual não se lembrava
de ter escrito. Pra seu espanto, era a história de um homem lançado
ao inferno que em nada se parecia com a obra de Dante, mas, tão e somente
as mesmas paisagens e cenas bizarras presenciadas por ele no seu breve
pesadelo. Voltou com o cursor até a primeira página onde leu o título:
“O Portal”.
Franco não teve mais
dúvida. Salvou o texto e o enviou em seguida pra seu editor.
O livro fora escrito
para Franco, mas o pagamento ainda teria de ser feito um dia.