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O PRAZER DO DEMÔNIO AUTORA: MARI MARTINS
O PRAZER DO
DEMÔNIO
Autora: Mari
Martins
Amo a madrugada,
as cores do céu, as ruas vazias, o enigma do silêncio. Observo com
um prazer lascivo os prédios enfileirados como se fossem fantasmas
brancos. E o obtuso de tudo isso é minha vontade de sobrevoar aquela
cidade de cheiro impuro. Sinto-me dona de tudo aquilo, como se reinasse
e de longe observasse meus súditos sonhando com o inferno latejando
em suas almas. É nessa cidade quase morta que venho todos as noites
e bebo com sofreguidão toda a energia daqueles que dormem. Sou a guardiã
dos seus sonhos, de todos os sonhos. Dos absurdos e dos realizáveis.
E é nessa vibração intensa que escolho a minha presa, aquele ou aquela
que vai alimentar meu corpo, meu espírito. Observo uma luz acesa, como
uma vela trêmula ilumina a semi-obscuridade de um quarto. Vôo como
um pássaro e sinto a brisa fresca da noite acariciando meu corpo. Entro
pela janela aberta e sobrevôo todo o quarto. Na cama um corpo descansa
e na luz pálida da noite seu rosto sombreado tem o aspecto de um anjo.
Aproximo-me e farejo como um cão seu cheiro e seu hálito dormido.
Libidinosamente observo seu corpo quase juvenil. Minha alma queima de
prazer, aquele prazer sufocante que deixa minhas entranhas em brasa.
Olho de um lado a outro, o pequeno quarto de paredes mofadas, o teto
baixo pintado de um branco amarelado pelo tempo. Aproximo-me e vejo
num relance seus olhos tremerem. O corpo dorme enquanto o espírito
passeia pelos sonhos. Entro em sua mente e vejo seu sonho, seus pensamentos
escondidos na caverna escura que é seu cérebro. A profundidade dos
seus pensamentos é canalizada pela minha curiosidade doentia de observar
sem ser observada. Bebo sofregamente seu respirar, sua alma impura e
amaldiçoada. Seu nome é Pedro, belo e de uma maldade doentia. Naquela
noite ele dormia, estava cansado de procurar pelas ruas presas indefesas.
Mas seu cansaço não era mental, nunca se cansava de sorver o último
suspiro de um condenado. Ele condenava sem dó e piedade. Ficava de
longe observando, depois apunhalava pelas costas. Ele sentia prazer
nisso, da covardia e do ardil mais louco e perverso. Depois virava sua
presa e sofregamente tomava-lhe o último suspiro. Alimentava-se
da vida que se esvaia com a morte. Aquela força poderosa no limiar
do fim deixava seu corpo forte e mais poderoso. Aquela noite estava
satisfeito, seu corpo foi alimentado por vários suspiros. Tinha sido
uma noite proveitosa. As pessoas estavam trocando o dia pela noite.
Os bares cheios, belas jovens nas ruas. Sua escolha estava se tornando
mais exigente. Gostava de mulheres jovens. No estertor da morte tinham
uma força que era revelada no brilho dos seus olhos. Ele bebia até
o último suspiro e vibrava de prazer. Era como um orgasmo, daqueles
que prodigiosamente se vê o céu cheio de estrelas. Ele riu com seus
pensamentos tolos. O que ele sentia era o inferno em labaredas. Aquilo
sim completava seu prazer. A entidade desvendava os pensamentos daquele
homem sem escrúpulos. Tudo era um jogo, ela também gostava de
jogar. Aproximou-se do homem e ficou quase rente ao seu corpo em posição
horizontal. Sentiu toda a energia maldosa que vinha daquele jovem. Tudo
foi por acaso. Apenas procurava um humano de sangue quente para satisfazer
seu prazer. Ela não era diferente daquele rapaz, tinham o mesmo ódio
dentro de si. A única diferença era que ela estava morta, mortinha
da silva há muitos anos. Anos? Ou séculos? Para ela não fazia diferença.
O tempo era um prazer incessante. A monotonia não fazia parte dos seus
dias. Aquele homem iria ver o que era maldade. Ela sabia ir até o fim.
Era mestra em vincular maldade com prazer. Vibrou só em antever tudo
o que ia acontecer. Sussurrou algumas palavras no ouvido do homem e
soltou seu hálito quente e putrefato. Do seu corpo desprendeu uma energia
escura que como tentáculos elevou o homem até o teto. Ao abrir
o olho pensou estar tendo um pesadelo, daqueles que quando sonhamos
pensamos estar caindo em um precipício. Olhando para baixo viu a distancia
do seu corpo para o chão. Soltou um grito pavoroso e foi quando viu
aquela mulher de longos cabelos encaracolados que iam até a cintura.
Seus olhos soltavam faíscas e as sobrancelhas juntas eram como
pequenas cobras pretas entrelaçadas. O rosto encovado estava repuxado
pelos lábios que tinham a parte superior grosseiramente mais desenvolvido
do que o inferior. Parecia uma boca de cavalo onde sobressaiam dentes
enormes e afiados. As narinas eram dois buracos disformes. Quando o
homem viu o corpo tremeu de medo, tinha a forma de uma besta. Só que
era hermafrodita. Na frente ele viu um falo enorme e nem quis pensar
o que estava por trás das costas do monstro. O corpo descomunal tinha
duas pernas finas cujos pés tinham o formato de cascos que emitiam
um som terrificante só em pisar no chão assoalhado. O monstro olhava
para o homem e de sua boca disforme saia uma baba pegajosa que escorria
até o chão. Em toda a sua vida de crimes ele não sentira tanto medo.
Seu coração pulsava como uma bomba relógio quase a explodir. Naquele
instante ele sentiu todo o peso de sua maldade. Fechou os olhos e esperou
o fim de sua vida. Uma vida que já estava há muito tempo entregue
ao demônio, isso ele sabia. Seria aquele o demônio? Se fosse, nunca
vira algo tão horripilante. Passou num relance sua infância. O ódio
de ver seus pais sempre embriagados. As brigas, as prisões e a vergonha
dos vizinhos. Até que um dia quando completara 15 anos seu ódio explodiu
e ele resolveu livrar-se dos dois. Apunhalou-os sucessivamente, até
ficar esgotado. Depois sentiu um alívio e um prazer de estar livre
para sempre. A casinha pobre onde nascera, o olho dos seus pais quando
morreram, isso ficou para trás. Foi o seu primeiro crime, depois ele
não parou mais. Um baque surdo desviou-lhes os pensamentos e ele sentiu
uma dor lancinante quando seu corpo bateu na cama de colchão fino.
O monstro caiu junto e ficou sentado em seu corpo observando-o com um
sorriso escarninho. Rasgou-lhe o short abruptamente passando a língua
enorme nos lábios disformes. O hálito fétido entrou-lhe pelas narinas
e ele sentiu vontade de vomitar. No mesmo instante o monstro libidinosamente
enfiou-lhe o grande falo na boca e ele sentiu-se sufocar. O monstro
urrava de prazer, logo uma gosma nojenta e fétida inundou todo o seu
rosto. Com o cheiro veio o vômito e ele quase sufocou no próprio vômito.
Sabia que seu sofrimento ainda não terminara. Pelos olhos marotos do
monstro ele viu que sua morte ia ser terrível. De um só arremesso
o monstro caiu sentado no sexo do rapaz e ele sentiu-se engolido para
dentro de uma vagina enorme, foi como um abismo sem fim. Num relance
ele sentiu o que viria depois. Naquele instante ele desejou a morte.
Logo uma dor lancinante cortou suas entranhas e ele sentiu como se fosse
rasgado ao meio. Cada instigada o monstro berrava de prazer. Quando
parou soltou um urro diabólico e jogou o corpo do rapaz no chão. Ele
ainda respirava, mas sentia-se despedaçado. Seu corpo gosmento de esperma
era como se tivesse sido engolido por uma sucuri e depois lançado
fora. Seus olhos abriram-se uma última vez e ele viu debruçada sobre
si uma bela mulher de longos cabelos negros. Ela aproximou-se e bebeu-lhe
o último suspiro. Depois sorriu maliciosamente pensando, estava satisfeita.
Os humanos nunca aprendem. Só existia um mal, o dela. E ninguém tomaria
o seu lugar. O demônio não tinha sexo.
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