PRESSÁGIO DA PRÓPRIA MORTE

AUTOR: LINO FRANÇA JR.

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PRESSÁGIO DA PRÓPRIA MORTE

PRESSÁGIO DA PRÓPRIA MORTE

Por: José Lino da França Jr.


O relógio despertou. Edgar abriu os olhos com má vontade. O maldito aparelho, que o acordava todos os dias, marcava 06:06. Fechou os olhos por mais um minuto. O cochilo parecia ter demorado horas. O aparelho gritou novamente. O homem mirou os números, com a visão embaçada. Novamente, 06:06. Piscou várias vezes, e por fim confirmou o horário. Fitou o teto branco, sem vida. Os primeiros sinais de movimento na rua, começavam a chegar aos seus ouvidos. Cerrou os olhos por mais um momento. Foi aí que sentiu. Sentiu o dom da vida se esvair do corpo até dar vazão pelos poros. Uma tristeza absoluta invadiu seu peito. O coração apertou-se parecendo bater mais lento. A respiração ofegante provocava um ruído pesado. Gotas de suor brotavam de sua testa. Sensações de frio e calor tomaram seu corpo. Não conseguia organizar seus pensamentos. Notou a cabeça vazia, e então, como letras gigantes em uma tela de cinema, a visão invadiu sua mente, e finalmente ele recebeu o aviso: VOCÊ VAI MORRER HOJE !!!

Edgar levantou-se mecanicamente. Dirigiu-se à janela, e abriu a cortina para ver o dia que principiava. O céu estava encoberto. Grossas nuvens escuras não deixavam que o firmamento pintasse a manhã com o seu azul pleno. Baixou os olhos e seguiu até o banheiro. Olhou-se no espelho. No reflexo via a imagem de um homem que deixou a vida passar mais rápido que o normal. Um turbilhão de imagens e lembranças passou com incrível velocidade por sua visão interior. Não era hora pra se arrepender nem pra se lamentar de nada. Era hora de despedir-se apenas. Voltou ao quarto e vestiu um jeans e uma camiseta branca. Calçou o par de tênis sem meia, e saiu do quarto. Abriu a porta do quarto do filho Allan. Olhou para o garoto dormindo profundamente e abaixou-se, dizendo num quase silvo:
- Não cometa os mesmos erros que eu, meu filho.
Deu um beijo na testa do garoto, que virou para o outro lado.
Saiu do quarto em direção a escada. Ouviu barulho na cozinha, e pra lá se encaminhou. A mulher estava de frente a pia preparando o café. Ele chegou de mansinho e abraçou por trás sentindo o perfume de seus cabelos. Beijou-lhe o pescoço, e com a voz embargada tartamudeou:
- Desculpe por qualquer coisa.
- Do que você está falando? – disse a mulher sem entender
O homem virou-se e deu um sorriso franco sem nada responder.
- Eu, heim. – estranhou a esposa – Vá se arrumar senão vai chegar atrasado no escritório.
Mas, para o trabalho, era certo que Edgar não iria. Não desperdiçaria seu último dia na terra trancafiado dentro daquelas quatro paredes que lhe faziam tão mal.
Deu dois passos em direção a mesa de jantar e agarrou uma maça vermelha da fruteira. Pegou a chave do carro em cima do balcão do corredor. Saiu de casa e entrou no carro. O carro novo pelo qual tanto batalhara pra comprar, e, no entanto, agora, mal poderia aproveitar o sedan prateado. Aquela seria a última vez que aceleraria o possante, sentindo o vento frio no rosto e os pneus devorando a estrada. Tomou o rumo da serra. Queria ver o mar pela última vez. Saiu com o carro devagar. Parou e olhou para a vizinhança. Abriu o porta-luvas e pegou um cd qualquer, jogado entre uma pilha de anúncios de imóveis, desses que se entregam nos semáforos, como um enxame de abelhas. Olhou a capa do disco: “The Sisters of Mercy”. Então aquela seria a trilha sonora para seu derradeiro dia no planeta dos vivos. A música combinava com seu estado de espírito. Melancólico e sombrio. E assim foi ele. No percurso pensava em todas as coisas que havia feito na vida. Tentava pesar os prós e os contras. Os acertos e os erros. Os fins e os meios. Os sonhos e a realidade. Dessa forma, a viagem pareceu mais curta que o normal, e logo sentiu o ar marinho invadir suas narinas. Estacionou o carro num lugar proibido. Não estava nem aí se fosse multado. Sabia que não estaria lá quando a multa chegasse em casa.

Abriu a porta do carro e descalçou o tênis. Arregaçou a barra da calça, pegou a fruta que deixara no banco do passageiro e foi até a areia. Algumas pessoas corriam serpenteando a água. Outras passavam de bicicleta com os devidos aparelhinhos de som nos ouvidos. Ninguém ali notava sua presença. “Melhor assim”, pensou ele. Sentiu os pés afundarem na areia fina. De novo veio-lhe o aperto no coração. Adorava o mar. Era o seu refúgio. O seu lugar pra pensar. Pra renovar as energias. Seria seu contato terminal com o mar. Caminhou calmamente em direção a água. Fitou o horizonte infinito e não conteve uma lágrima solitária. Sentou-se antes do alcance das pequenas ondas. Mordiscou a maça. O doce da fruta despertou-lhe novas lembranças. Memórias de infância. Recordou-se dos pais, que há muito não via. Acabou de comer e levantou-se decidido a entrar no impetuoso oceano. Não importava que o dia estivesse frio, queria sentir a água salgada molhar sua pele mais uma vez. Pra sua surpresa o mar estava morno. Morno como fora o decorrer de sua vida toda. Mergulhou a cabeça na água com a boca aberta. O doce da maça deu lugar ao salgado do refluxo marinho. Pôs-se de pé e passou a mão nos cabelos jogando-os pra trás. Voltou para a areia seca e deitou-se com as mãos trançadas na nuca. Novamente começou a pensar. Pensou nas escolhas que tinha feito durante seu trajeto na Terra. As nuvens se acumulavam densas no céu. O vento apertava seu ritmo fazendo ecoar a sua melodia assustadora. Sentiu o corpo gelar em contato com a roupa encharcada, mas não se importou. Era bom sentir algo intenso pra variar. Fechou os olhos e adormeceu ao som das ondas quebrando na orla.

VOCÊ VAI MORRER HOJE !!! Novamente as palavras gritaram em seu subconsciente e Edgar acordou sobressaltado. O dia já tinha ido embora e a noite se aproximava sorrateiramente. Se espantou ao perceber que dormira até aquela hora. “Que bela maneira de se passar o último dia de vida”, pensou.
Mesmo sem sol, a roupa secara quase que completamente no corpo. Levantou-se e voltou ao carro. Não sentia fome. Não sentia sede. Seus sentidos começavam a adormecer lentamente. Olhou pro mar uma vez mais. Ligou o veículo e saiu. Finalmente a chuva começara a cair. Os trovões anunciavam a tempestade que chegava. No meio da serra uma tênue neblina tomava conta da estrada. Seu carro seguia só pelo trajeto. Esqueceu-se de ligar o som do carro e baixou os olhos para ligar o rádio. Quando voltou os olhos pra pista deu de cara com um enorme vulto negro. Sem rosto e nem forma definida. Apenas uma massa escura e sinistra. Freou o carro fazendo o mesmo deslizar no chão molhado, cantando os pneus. Conseguiu retomar a direção e o fôlego. Voltou a mirar a estrada vazia. Notou que não se chocara com qualquer que fosse aquela estranha aparição. Olhou pelo espelho retrovisor central buscando alguma imagem da coisa, e a viu. A criatura estava sentada no banco traseiro do veículo totalmente imóvel. Freou bruscamente com o impacto do susto. Novamente o carro tentou virar, mas Edgar mostrou domínio sobre a máquina e a endireitou na pista mais uma vez. Virou o pescoço pra constatar aquela companhia inesperada, mas nada viu. “Seria a imaginação lhe pregando uma peça, ou aquele era o prenúncio do final de sua insípida existência?”, tentou imaginar ele.

A tempestade havia chegado com força. Os relâmpagos atravessavam a noite trazendo um desespero no fundo da alma de Edgar. O homem dirigiu-se a casa dos pais. Chegou sem avisar. Os pais se surpreenderam, mas ficaram felizes com a visita, que era rara. Mesmo sem ter fome, cedeu aos apelos da mãe e ficou pra jantar. Teve um papo leve e descontraído com os pais. Despediu-se dos dois com um forte abraço, declamando sem graça:
- Eu amo vocês dois.
A mãe o abraçou novamente num início de choro, mas o pai a segurou, deixando o filho livre pra seguir seu caminho.
Edgard chegou em casa por volta das onze da noite. A mulher saiu correndo pro portão ao ouvir o som do carro. Desesperada nem deixou que ele descesse do automóvel, e foi logo socando a janela do veículo, gritando aos prantos:
- Onde você estava até agora, Edgar? – suspirou aliviada – Já liguei até na delegacia pra saber de você, homem.
O marido desceu do carro e abraçou a esposa. No abraço sentiu o calor do corpo da mulher aquecer o seu.
- Fica calma. – disse ele – Depois eu te explico.
Adentrou ao lar e foi direto ao quarto do filho, Allan, que já havia adormecido. Fechou a porta sem fazer barulho e deixou escapar um sorriso.
“Acho que me enganei” – pensou o homem – “Não sei onde estava com a cabeça”.
Avisou a mulher que ia tomar um banho quente e depois ia direto pra cama, e pediu a ela que fosse deitar também.
Trancou a porta do banheiro e despiu-se. Olhou-se no espelho como havia feito pela manhã.
- Seu idiota. – disse olhando pro próprio rosto.
Tirou o relógio e o colocou na pia. Olhou para os ponteiros que marcavam 11:35. Abriu a porta do box e ligou o chuveiro. Sentiu a água quente em contato com a pele e teve vontade de cantar por ter se enganado em relação à própria morte. Havia muito o que viver ainda, e agora tudo seria diferente. Viveria com muito mais intensidade daqui por diante. Faria somente aquilo que desse prazer a ele e àqueles a quem amava. Deixou a água enxaguar a espuma, como se enxaguasse também todo o seu passado monótono e enfadonho. Riu sozinho ao perceber que o dia estava chegando ao seu final e ele havia se enganado. Tirou o sabão dos olhos e buscou o registro pra desligar o chuveiro. Um trovão explodiu no céu fazendo as janelas tremerem e Edgar assustou-se. A luz falhou e finalmente se apagou, cortada pela falta de energia elétrica.
- Mas que porcaria. – disse o homem saindo do box.
Às cegas, tateou a parede buscando a toalha. O silêncio foi substituído por uma respiração arquejante que não era sua. A luz piscou novamente tentando voltar ao normal. À sua frente Edgar encontrou novamente a mesma figura negra e sinistra que vira dentro do carro. Agora a criatura estava mais evidente. Parada à porta, era extremamente grande e macabra. Vestia uma mortalha imunda e esfarrapada. Levava nas mãos finas e acinzentadas, uma foice brilhante e afiada. Sob o capuz negro não havia rosto. Não havia nada.
Edgar arregalou os olhos e a luz voltou a piscar e a apagar na seqüência. O homem perdeu o equilíbrio e tentou agarrar-se na pia para não cair. Mas só o que conseguiu foi derrubar o velho relógio de pulso no chão. Edgar perdeu o equilíbrio por completo e caiu com estrondo no ladrilho frio e úmido do banheiro. Bateu a cabeça com força na privada antes de chegar ao piso. O barulho de ossos quebrando-se chegou aos seus ouvidos. A luz voltou a acender dessa vez em definitivo. À sua frente o relógio de pulso marcava 11:59. Sentindo o sangue encher-lhe a boca e descer pelo nariz, Edgar deixou escapar uma risada abafada. Enfim, ele estivera certo em alguma coisa. E o dia chegou ao seu fim, assim como sua vida.


Fim

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