A PROVAÇÃO

AUTOR: EDGAR BRAGA BUCHARA.

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Edgar Braga Buchara






A PROVAÇÃO








"De todas as criaturas de Deus, somente uma não pode ser castigada. Essa é o gato. Se fosse possível cruzar o homem com o gato, melhoraria o homem, mas pioraria o gato."

(Mark Twain)

Em toda minha vida fui apreciador de boas histórias. E esse gosto nasceu na minha infância. Pois, minha mãe era uma excelente narradora de causos. E toda à noite sempre depois do jantar, a gente se reunia à luz de lamparina para conversar. Eu ficava ansioso para que alguém quebrasse o gelo e pedisse para minha mãe contar uma de suas histórias. Como eu não tinha coragem para pedir torcia para que alguém tomasse a iniciativa. E quando ela começava, não parava mais, era uma historia atrás da outra e sempre ela finalizava com história sobrenatural. E eu. É claro! Implorava para dormir com ela.

Agora que estou adulto, recordo-me com saudades daquele tempo. E vem daquela época, o meu gosto pelo fantástico. Época em que adquiri uma mania insuportável e torturante, que faço até hoje. “Olhar debaixo da cama, todas às vezes que vou me deitar”. Sei que é inconcebível que em pleno século XXI exista um ser humano de caráter tão supersticioso quanto eu. Sei também que em todos os momentos ocorrem fatos “sobrenaturais”, e só não vê quem não quer.

Em contrapartida, conheci um sujeito, que era totalmente o oposto, em relação a superstições. Era um cético convicto. E é a história deste individuo que vou lhes contar. A polícia deu o caso por encerrado: um acidente infeliz. Mas eu como conhecido da vitima e sabedor de alguns detalhes, tenho a minha versão dos fatos e passo-lhes, agora, em primeira mão como foi realmente que, “as coisas” aconteceram.

Francisco chegou exausto em sua casa. Seu time ganhou todas as partidas essa noite na pelada que jogam todas as sextas. Tomou um banho relaxante e preparou um suculento macarrão instantâneo, sua especialidade (pela praticidade é claro), que consumiu avidamente assistindo a um programa humorístico.

Devido a um compromisso inadiável que tinha pela manhã, Francisco precisava descansar. Desligou a tevê e foi deitar-se. A adrenalina estimulada pela atividade física ainda estava circulando em seu organismo deixando-o sem sono

– Droga! – esbravejou acendendo o abajur. Retirou do criado-mudo o livro que estava lendo no momento. Da quarta pra quinta página já estava sonolento. Marcou a página e com gestos bem suaves conferiu as horas no celular: 23h45min. Desligou o abajur e acomodou-se de bruços pensando na vida:

Vivia um momento feliz, tinha casa... (um leve torpor)... carro, um bom emprego, amigos... (uma sonolência gostosa)... uma bela namorada que ficava chateada... (um sono, um sono)... toda vez que ele ia jogar futebol... (hum... que sono)... precisa lembrar-se de comprar... um relaxante muscular... o ácido-latco vai deixar seu corpo... todo dolo... dolo... dolo... rido. E o sono chegou entorpecente.”

Miauuu... O miado estava bem longe lá no escuro da noite. Miiaauu... Agora o miado estava aproximando-se. Miiiaaauuu... Surgiu na escuridão dois pontos amarelos que aumentavam de tamanho conforme aumentava a proximidade do miado. MIIIAAAUUU... No negrume da noite as luzes amarelas vinham na direção de Francisco numa velocidade espantosa. MIIIAAAUUUU... A imagem do gato negro solidificou-se bem na frente de Francisco e tinha os pelos da face arrepiados e grandes olhos amarelos, e grunhiu ameaçadoramente mostrando imensos e afiadíssimos dentes, e da sua boca saiu uma enorme língua bífida. Vai pular... Vai pular... PULOU.

Francisco acordou atônito com as mãos em frente ao rosto num puro instinto de defesa. Ainda “grogue” viu a imagem do gato negro num realismo sobrenatural que foi dissipando lentamente... Miauuuu... E dissipou completamente. Atordoado sentou-se na beira da cama – Que pesadelo horrível – murmurou acendendo o abajur para ver as horas: 00h03minh – Ter um pesadelo justamente na transposição de onze para meia-noite é sinistro – Pensou sorrindo.

MIIAAAAUUUUU... O miado invadiu o silêncio do quarto como se o gato estivesse ali dentro. Francisco gelou da ponta do dedão até o último fio de cabelo. Ficou com taquicardia do tremendo susto que teve. Ouviu mais miados acompanhados de grunhidos vindos de fora de sua casa. Francisco com sensatez reorganizou os pensamentos e seus batimentos cardíacos baixaram – Bom. Vamos lá! O meu cansaço transformou os miados vindos lá de fora num pesadelo horrível. É claro! Só pode ser isso - Satisfeito com sua auto-explicação, Francisco ficou sentindo-se melhor.

A coisa lá fora piorou. Agora havia uma tremenda briga de gatos que disputavam uma gata no cio. E pelos cálculos de Francisco os felinos estavam cruzando na sua área de serviço, que fica nos fundos de sua casa, conjugada com a cozinha. Sem acender as luzes, Francisco foi para a cozinha, decidido a acabar com aquela baderna. Lá procurou nas gavetas da pia algo que pudesse usar para dar uma lição naquelas pestes. Não encontrou nada. Vasculhou o armário apalpando os objetos e lá sim encontrou algo que ia servir. Um belo espeto de churrasco – Perfeito! - murmurou baixinho.

Francisco abriu a porta vagarosamente, tentando fazer o mínimo de barulho possível, mas as dobradiças da porta protestaram rangendo pertubadoramente. O ruído inesperado fez com que os gatos que estavam espalhados no quintal se evaporassem na escuridão. Irritado por perder o recurso da surpresa, Francisco esbravejou um palavrão ininteligível.

Ainda na esperança de encontrar algum animal para saciar seu desejo de vingança, Francisco, com prudência, passou do interior para o exterior da casa. Caminhou com passos calculados pela varanda que tinha o assoalho de madeira, segurando firme o espeto. Após dois passos, Francisco ouviu um grunhido enérgico e viril vindo do telhado bem sobre a sua cabeça. Sorriu maliciosamente satisfeito por saber que os principais protagonistas desse dramalhão ainda estavam na cena do crime ocupados na consumação do ato sexual. Rapidamente, Francisco olhou em sua volta a procura de algo que pudesse escalar para espiar o telhado.

Francisco calculou mentalmente a altura dos objetos que dispunha na varanda com sua altura e concluiu que a máquina de lavar roupas serviria para seu plano – Bom! “Quem não tem cão caça com gato” - Diz o ditado popular, mas o gato, aqui em questão, é a caça. Francisco carregou a máquina com certa facilidade devido à leveza do objeto e colocou-a escorada na viga que sustenta o telhado da varanda. Com ajuda de uma cadeira subiu na máquina com atenção redobrada para não fazer barulho. Com a mão esquerda apoiava-se na viga e com a mão direita segurava o espeto. Assim considerou-se pronto para ação.

Francisco foi levantando a cabeça bem devagar para obter uma melhor visualização do telhado. Com os olhos acostumados com a escuridão, viu a cena. Para sua sorte, os animais estavam de costas para ele, e percebeu que o animal que estava em cima do outro, que só poderia ser o macho, era de um tamanho anormal! Um enorme gato negro. Os animais estavam concentrados no ato sexual, e não perceberam a sua presença. Chegara o momento de ir à forra.

Francisco sorriu sadicamente. Espera! Francisco teve um dilema: iria bater ou espetar o animal? E mentalmente utilizou a brincadeira do bem-me-quer, mau-me-quer para escolher a melhor opção: “Bater ou espetar? Bater? Espetar? Bater? Espeta? ESPETAR!”. E atiçou o espeto traiçoeiramente nas costas do animal, que surpreso, grunhiu sonoramente e num salto ficou de frente ao seu agressor. A fêmea sumiu como um raio. O macho não. Outro animal qualquer fugiria com o rabo entre as pernas, mas esse não. Esse era diferente.

Um feixe de luz vindo sabe lá de onde, iluminou a face grotesca do animal. Francisco gelou pela segunda vez nessa noite – não pode ser – pensou num milionésimo de segundo. Era o mesmo gato do seu pesadelo. Tinha os mesmos pêlos arrepiados na face e grandes olhos amarelos que crispavam de ira. Pairou um silêncio sepulcral entre os dois. Como num duelo os dois se entreolhavam. A cauda da criatura movia-se nervosamente. Então, mostrou seus incisivos pontiagudos num gesto de superioridade. Nesse momento, Francisco tomado pelo medo, deu um passo para trás desequilibrou-se, e por fim caiu de costas no chão como um fardo.

A criatura apareceu na beira do telhado com um olhar fulminante sobre ele, e entreabriu sua mandíbula num sorriso diabólico, mostrando uma enorme língua bífida então saltou resoluto. Num gesto de puro reflexo, Francisco pegou o espeto que estava a seu lado e segurando firmemente com as duas mãos, apontou no rumo que vinha a criatura, que sem chances encontrou-se com a ponta afiada do espeto. O espeto atravessou o pescoço do grotesco animal ferindo-o mortalmente. A criatura contorcia-se de dor emitindo miados e grunhidos de dar calafrios. Mesmo assim, ainda tentou atingir Francisco com suas garras afiadas, sem alcançá-lo. Francisco, desesperado tentou arremessar a criatura para bem longe, mas sem potência necessária para o ato a criatura caiu morta ao seu lado, jorrando sangue e tendo movimentos de reflexos desencadeados pelo seu sistema nervoso.

Francisco olhou a criatura caída sem vida e com determinação levantou-se para certificar, se a matara realmente. Muito cismado, cutucou-a com o pé. Nada. Outro cutucão. Nada. Estava morta. Mas algo lhe chamou a atenção! A aparência fantasmagórica da criatura desapareceu, ela tinha agora uma aparência normal de um inofensivo gato doméstico – Será que misturei o pesadelo que tive com a realidade?! Só pode ser. O que mais seria?! Ou será que tive uma ilusão de ótica? - Francisco pensava intrigado procurando uma resposta dentro da realidade para os fatos. Seu ceticismo convenceu-lhe que tudo não passou de uma instigante ilusão de ótica.

E num gesto de total domínio da situação Francisco retirou o espeto que estava cravado na garganta do gato morto, e com repugnância colocou-o dentro de um saco de lixo, para em seguida desová-lo na lixeira que fica em frente a sua casa. Tomou um banho e foi deitar-se, mas dessa vez não teve tempo nem pra contar carneirinhos.

Francisco abriu os olhos, mas não quis se levantar. Seu corpo estava muito dolorido, principalmente as costas. E lembrou-se de uma piada: “Uma senhora foi ao médico: – Doutor eu sinto uma dor em todos os lugares aonde toco. Mostre-me, por favor - pediu o doutor. E com o dedo indicador direito, a senhora tocou em sua perna – Ai! - tocou em sua barriga – Ai! - tocou em seu braço – Ai! - tocou em sua cabeça – Ai! - o doutor a examinou e concluiu: – A senhora está com o dedo quebrado”. Francisco sorriu espreguiçando-se – Que noite péssima. Caramba! - pegou o celular e leu no visor: sab 01 de nov 09h51minh. – Nossa! Estou morto! - exclamou estupefato correndo para o banheiro.

A partir desse dia, Francisco começou a sofrer uma série de infortúnios.

Por ter chegado atrasado ao compromisso, Francisco perdeu a oportunidade de fechar um excelente negócio. O concorrente fechou em seu lugar. Imperdoável. A indústria a qual representava tirou-lhe a concessão. Ficou desempregado. Noutra semana numa bebedeira, um colega pediu-lhe o carro emprestado. Resultado: envolveu-se em um acidente. Perda total. Nem para sucata serviu. Sem seguro, ficou a pé. Numa partida de futebol torceu o joelho e rompeu o ligamento cruzado. Sentença: um ano sem poder jogar futebol. Para um amante desse esporte isso é um sofrimento.

Entre uma desgraça e outra, passaram-se sessenta dias. Foi nesse período que nasceu uma ninhada de gatos no fundo do seu quintal. Exatamente cinco: dois pedreses; dois cinza e um totalmente negro.

Francisco só percebeu seus novos inquilinos, quando já estavam fazendo estripulias pelo quintal. Até aí tudo bem. Mas quando tentaram entrar em sua casa choramingando com caras de pidões. Aí foi que saiu do sério. Imaginem a cena: cinco pestinhas chorando com fome e sentindo a ausência da mãe desnaturada. Era um verdadeiro pé no saco. “Não deu nega”. Decidiu que teria que dar um fim naqueles demônios. E no momento em que pegou o saco de lixo que iria usar para colocá-los, veio na mente à imagem da criatura do seu pesadelo. A lembrança fê-lo estremecer, mas se recompôs voltando para a realidade. E partiu para a ação. Foi um corre-corre e um baco-baco violento. E após alguns arranhões capturou quatro pestinhas. O pretinho enfiou-se debaixo do assoalho da área de serviço, dificultando a sua captura. Várias tentativas e nada. Desistiu prometendo pegá-lo em outra oportunidade.

O tempo foi passando e as tentativas frustradas iam acumulando-se uma atrás da outra. O animalzinho foi crescendo e Francisco se acostumou com a companhia dele. Ficou uma convivência um tanto quanto sinistra. Quando chegava a casa o gato saía e vice-versa. Ele só não sabia por onde o gato entrava.

Essa situação tinha o lado bom e o lado ruim. O bom era que o animal mostrou-se um excelente caçador e exterminou todas as baratas e ratos que havia na casa. O lado ruim era que sem as pragas o gato não tinha o que comer e começou a se comportar de modo furtivo. Sem falar na bagunça que ele fazia na lixeira da cozinha. E quando isso acontecia era um corre-corre e um baco-baco de tremer a casa. Só que Francisco nunca tinha êxito em pegá-lo. “O desgraçado” era arisco, rápido e ágil, e desaparecia sem deixar vestígios. Isso resultou numa antipatia mortal pelo animal.

De todas as calamidades que ocorreram com ele, a que mais lhe causou sofrimento, foi quando a sua namorada terminou o relacionamento com ele. Ai sim foi pro fundo do poço. Gastou suas últimas economias na tentativa de reconquistá-la. Mas foi repudiado e desprezado. Com a decepção amorosa, buscou refúgio na bebida.

Foi nessa fase que nos encontramos. Ele estava perambulando pelas ruas a esmo. E no mesmo instante percebi que precisava de ajuda. Começamos a conversar. Ele me falou de seus problemas, e eu como já sofri várias decepções amorosas, dei-lhe muitos conselhos que foram ouvidos com atenção. A conversa prolongou-se e ele me contou uma história estranha sobre um gato negro. Ouvi atentamente arrepiando-me a cada detalhe. No final da história, eu como sou supersticioso, associei o caso do gato com sua má fase. Nossa! Ele quase me bateu. Disse-me que não acreditava nessas besteiras, que isso era ridículo e que era melhor eu calar minha boca. Então começamos a discutir calorosamente. E para não ir às vias de fato, virei às costas e fui embora, sem dizer a ele, que aquela sexta-feira, dia do incidente com o gato negro, era 31 de outubro, portanto, “Dias das Bruxas”, um dia propício para acontecimentos sobrenaturais.

Dizem que, “quem bebe os males esquece”. E Francisco continuou a beber. E o dinheiro para compra das bebidas, era obtido nas vendas dos objetos que tinha em sua casa. E foi acabando com tudo, chegando ao ponto de dormir nas ruas, jogado feito um pé inchado. E os amigos sumiram de vez.

Numa dessas noites impulsionado pelo efeito etílico, ele tentou invadir a casa da sua ex-namorada. Resultado: a policia foi acionada e enquadrou o meliante, que reagiu e foi preciso o uso da força para domá-lo. Na confusão Francisco perdeu dois dentes da comissão de frente. Agora o quadro estava completo: cabeludo; desdentado; barba por fazer; as roupas um trapo; sem emprego; sem namorada; sem carro; sem amigos e sem a dignidade.

Como era réu primário, sem antecedentes e com endereço fixo, noutro dia pela manhã foi liberado. Só que antes de sair, teve que assinar um termo de compromisso que ia deixar a moça em paz. Tudo certo. Então ele foi solto.

No caminho para sua casa, tomou uma decisão: Já era hora de tomar as rédeas de sua vida. Venderia sua casa à única coisa de valor que lhe restava e recomeçaria a vida em outro lugar. Nesse momento de reflexão, ele estava passando bem em frente a um restaurante onde costumava almoçar. Parou e curtiu o cheiro gostoso que estava no ar. Estava com uma baita fome e sem um tostão.

Incomodado com a presença de Francisco em frente ao restaurante, apareceu um garçom disposto a expulsá-lo, mas foi impedido pelo gerente do local que reconheceu seu antigo freguês. Com fineza, pediu-lhe para aguardar em um canto onde não poderia ser visto pelas pessoas que estavam almoçando naquele momento. Alguns minutos depois o gerente retornou trazendo-lhe um marmitex. Ele apenas meneou a cabeça em agradecimento e foi embora cabisbaixo e envergonhado.

Ao entrar em sua casa, percebeu quando duas vizinhas olhavam-no curiosamente e cochichavam algo a seu respeito, e prontamente disfarçaram assim que foram notadas. Envergonhou-se novamente. E buscou nesse sentimento a força que necessitava para mudança. A fênix vai renascer, prometeu para si mesmo enchendo-se de auto-estima.

Na cozinha, fez um copo de suco que achou perdido numa das gavetas da pia. Arrumou solenemente a mesa para degustar sua refeição. Há muito que não tinha um almoço decente e estava “com o estômago pregado nas costas”.

Usando um pano de prato encardido como babadouro, sentou-se para ceia. Já ia para a terceira garfada, quando teve uma sensação de estar sendo observado. Parou como estátua com o garfo abastecido em frente da boca aberta. De soslaio foi girando a cabeça para sua direita bem devagar. Assim foi distinguindo a figura do gato negro, que o fitava do canto da cozinha com a cara cheia de fome. Como passara alguns dias fora, Francisco tinha se esquecido do seu funesto inquilino – Não vem que não tem! - disparou colocando a comida na boca sem tirar os olhos do gato. Sem se intimidar o gato foi miando na direção de Francisco. E pela primeira vez o gato se aproximou e esfregou-se nas pernas dele ronronando, com gestos carinhosos e humilhantes na esperança de ser recompensado.

A reação de Francisco foi dar um tremendo chute no gato, afastando-o de perto. Miando muito o animal voltou a investir. Agora num ataque rápido tentou escalar a perna dele e foi novamente enxotado.

Num puro gesto de egoísmo Francisco não parava de comer e aumentou a velocidade das garfadas e esbravejava palavrões com a boca cheia de comida. Mudando de estratégia, o gato subiu na pia, com a intenção nítida de se aproximar por ali da mesa. Caminhando em cima da pia, o felino resvalou derrubando no chão o copo de vidro com o saboroso suco.

Francisco levantou-se colérico, com o garfo em punho na posição de ataque. O gato, percebendo o perigo pulou para o chão em fuga (mas foi uma fuga estranha, foi como se gato quisesse que Francisco fosse atrás dele!). Com a boca cheia de comida saiu no encalço do animal, disposto a matá-lo. Mais... não foi longe. Na segunda passada escorregou violentamente no suco que estava derramado no chão. Descrevendo um meio circulo no ar, caiu pesadamente e sinistramente com a nuca bem em cima do fundo quebrado do copo de vidro. Mortalmente ferido pelo vidro que agora estava atravessado em sua garganta, regurgitava com sangue a comida que ainda estava em sua boca.

Com um resquício de consciência, viu o gato passar por ele despreocupadamente e num salto galgar a mesa, ficando de costa e sem receio, começou a comer sua refeição.

Francisco que estava tendo movimentos de reflexos desencadeados pelo seu sistema nervoso, num fio de vida ainda percebeu que conforme o gato se alimentava ele ia aumentando de tamanho, até que atingiu uma forma que ele já conhecia.

Então, a criatura virou-se para ele, tinha os pêlos da face arrepiados e grandes olhos amarelos.

Lambendo os beiços com sua enorme língua bífida a criatura miou para Francisco diabolicamente com escárnio. MIAAUUUUUU...

E você? Considera-se um supersticioso ou um cético? Cuidado com a resposta! Pois você poderá ser submetido a uma: Provação.
















Fim

Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.

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