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O PUNHAL AUTOR: FRANK SAIU
O Punhal
Ricardo Socudo
Há aproximadamente uma semana
não via uma única pessoa, pois estava em minha casa de campo sozinho,
e nem cheguei a perceber se algum viajante atravessou a estreita estrada
de terra próxima ao horizonte que se avistava por uma janela do segundo
andar. O dia havia sido quente e de muito sol, assim aproveitei para
realizar um longo passeio e colher esboços de paisagens com carvão
para serem aproveitados em futuras pinturas. Durante a tarde e iniciou-se
um forte vento sudoeste e após o crepúsculo vermelho sangue, seguiu-se
uma noite fria de tempestade. A chuva desabava torrencialmente entrecortada
de relâmpagos e trovões. Fechei todas as janelas, jantei rapidamente,
dirigi-me ao escritório para admirar os esboços e continuar a pintar
uma grande tela encomendada para a semana seguinte.
Várias horas haviam passado e a tempestade continuava tão forte quanto
em seu início. Mais um estrondoso trovão e a luz sumiu-se obrigando-me
a acender as três velas de um castiçal de prata esculpida cuja iluminação
não alcançava os cantos mais distantes do aposento fazendo as sombras
dançarem um fantasmagórico baile sem música. Calafrios percorriam
minha espinha. Comecei a ouvir sons como os de passos sobre o piso de
madeira que se aproximavam descontinuamente, mas que até hoje não
sei se foram reais o produzidos pela minha mente.
Meu coração disparou bombeando sangue pesadamente por minhas veias
e dificultando minha respiração. Fiquei paralisado por mais alguns
instantes... novamente o mesmo som, só que agora bem próximo, do outro
lado da porta e eu tive certeza: esqueci de trancar uma das janelas
e alguém invadiu a casa. Abri uma gaveta da escrivaninha, tirei um
punhal e enquanto dirigia-me desesperadamente até a porta tropecei
em algum móvel e acabei caindo por sobre meu próprio punhal que cravou-se
em meu coração provocando uma pontada aguda e fulminante.
Fui encontrado alguns dias depois por um amigo que viera buscar a tela
inacabada e só conseguiu entrar por uma janela que se encontrava aberta.
Durante meu enterro, ouvi comentários de que não conseguiram descobrir
quem havia me assassinado. Infelizmente não pude revelar que o meu
executor foi o medo e que nunca haveriam de encontrá-lo, pois que esconde-se
perfeitamente na mente de cada um até que chegue uma oportunidade adequada.
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