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A RATOEIRA

Autor: Mephsito

262"

Para Robson Mascarenhas.

A paixão de Uriel era os seus chocolates. Metia-os na última gaveta, lá no fundo, para que ninguém soubesse de seu tesouro. E, quando os comia, fazia-o sozinho e em silêncio, de portas trancadas e olhos buliçosamente assutados. Sentia um medo irracional de ser flagrado com suas guloseimas.

Um acesso de raiva, uma raiva mortal, que Uriel conteve num lampejo de lucidez, foi o que sucedeu. Quase chegou a experimentar o arrependimento que sentiria, se tivesse sucumbido aos impulsos primitivos da ira. Mas Uriel controlou-se. Não praguejou. Não esmurrou a mesa. Não ameaçou os colegas. Substituiu toda expressão de ódio por uma fisionomia impassível, enquanto o cérebro trabalhava em ritmo frenético. Agora era descobrir quem furtara os seus chocolates.

Pôs a isca. E esperou. O rato miserável era mais esperto do que ele supunha. Quando examinou a gaveta, constatou que os seus preciosos chocolates haviam desaparecido novamente. Precisava descobrir, urgentemente, quem era a ratazana infeliz. Certamente não era alguém do turno da noite, no qual trabalhava há dois meses. Ele e mais dois abnegados. Talvez alguém da limpeza. Ou a moça do cafezinho, que preparava as garrafas térmicas antes de se meter na interminável fila de ônibus. Talvez até mesmo o chefe. O manda-chuva tinha mesmo cara de ladrão. Não o via nunca. Trabalhar às madrugadas é dureza, sente-se um sono maldito, mas tem as suas vantagens.

Porém, muito em breve saberia. Porque, desta feita, a ratoeira funcionaria perfeitamente. Uriel mergulhou remédio de rato - desses que se vendem clandestinamente em camelôs - nas inúmeras barras de chocolate. Com esmero, Uriel reembalou as poções envenenadas, uma a uma. Um trabalho lento e cauteloso. Um resultado perfeito. E aguardou que o gatuno viesse. E que o mortal carbanato fizesse generosamente a sua parte...

“Agora pego este filho de uma puta”, foi o que pensou Uriel, ao fechar a gaveta.

Uriel acordou sobressaltado. Salivava excessivamente. Os olhos eram duas tochas ardentes, donde manavam lágrimas de fogo. Das narinas, escorria uma secreção pesada e sem fim. E, apesar do choque, o coração batia devagar. Quis se erguer, mas não conseguiu. O seu peito pesava uma tonelada e os pés era como se não existissem. Seguiram-se os tremores e os espasmos, até que, por fim, um nó espesso cingiu violentamente a sua garganta, selando a agonia.

Tido injustamente por suicida, assim morreu Uriel, que fora sonâmbulo a vida inteira, mas não o sabia.




FIM

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