O REI DE
KRYMLLA
Por
Rogério Silvério de Farias
Ilustração do autor
"A guerra é mãe e rainha de
todas as coisas; alguns transforma em deuses, outros, em homens; de
alguns faz escravos, de outros, homens livres."
Heráclito
Sim, eu sei
que achas estranho e fantástico o fato de eu estar comunicando-me
contigo, em sonhos, neste momento, aqui, sentado no trono de diamante,
ouro e topázio de Thumlla, o reino ao leste do continente de Akraphyr,
onde me tornei rei meses atrás, graças a minha negra espada selvagem,
minha valentia e minha força de vontade. Sim, eu, Sorian, o bárbaro,
sou, agora, o novo rei nesta estranha e selvagem terra chamada Krymlla!
Acredito que
esta fantástica comunicação só está sendo possível graças
ao sono provocado em mim pelo misterioso suco narcótico de papoulas
negras, papoulas estas que Kolga Salba, com seu conhecimento esotérico,
colheu nas tumbas esquecidas dos antigos sacerdotes no templo do deus
dos sonhos Oneróy, nos jardins enevoados da antiga e arruinada
Kandrabilônia.
A populaça
depravada e a parte sibarítica da corte, através da voz insana e odienta
dos menestréis, me chamam de rei usurpador, porque matei o antigo rei
Meltharys, o louco efeminado, na Revolução das Espadas Negras,
organizada por mim e o Exército de Tigres Nômades do Deserto Vermelho
de Auglaty Yan Mynastral, guerreiros que reuni e organizei em hordas
para a tomada do poder; sem contar que alguns krymllanianos me
chamam de rei forasteiro, e na verdade assim o sou. Sou verdadeiramente
um estranho numa terra estranha.
A Revolução
das Espadas Negras culminou numa grande batalha, onde fomos vencedores.
Lembro ainda como o clangor das lâminas soava como uma música
de vitória contra o enfraquecido exército de Meltharys, o louco. Cortei
mil cabeças antes de chegar ao trono, usurpando-o. A gritaria dos homens
lutando e matando e o choque do aço das lâminas era como música feroz
ao Deuses Guerreiros de Krymmla. Ainda lembro, exultante, de como nossos
corcéis negros bufavam no auge da batalha, e de como me senti livre
e forte, ao matar os inimigos e soltar meu grito de guerra, que soou
como uma estrofe de vitória no hino feroz da batalha da vida e da luta
pelo poder.
Graças ao
misterioso e estranho sumo sacerdote Kolga Salba, versado em alta
magia e de origem desconhecida, consigo comunicar-me contigo todas as
noites, através dos sonhos, ou às vezes naquele estado fronteiriço
que separa o sono da vigília, num delírio pré-onírico, encruzilhada
mística entre as dimensões, na pluralidade dos mundos habitados
do Universo sem fim.
Sei que estás
aí, no mundo onde um dia habitei, e que escreves, quando “acordas”
do que chamamos sono, recordando-te e anotando febrilmente tudo o que
te digo.
Sei que te
chamas Henry Evaristo, e és tido em teu mundo como um escriba de prosa
estranha e inaudita, e que muitos acharão quiméricos, insanos e nebulosos
os teus escritos proibidos, que são baseados em tudo que te digo e
que ainda te direi por muitas e muitas noites consecutivas, no ápice
de nossos contatos telepáticos.
Não penses
que sou uma entidade não-humana horrenda e disforme. Já fui humano,
e de certa forma ainda o sou. E sinto nostalgia de minha distante Terra,
onde durante um espaço daquilo que vocês chamam vida física, vivi
solitário, como um homem nascido à frente de seu tempo, e portanto,
amaldiçoado pelos Deuses Primevos das Sombras dos Destinos Errantes.
Não, não
pense que é mediunidade propriamente dita, e que aqui em Krymlla não
exista matéria física. A matéria tem gradações místicas, e jamais,
jamais estaremos sem corpos, mesmo após aquilo que chamam morte! Apenas
me comunico, através da magia de Kolga Salba, mago e meu conselheiro
no palácio onde sou rei, em Krymlla, o mundo das azuis luas gêmeas.
Sim, não pense
que estou morto. A morte é uma tola mentira; ela é, na verdade, apenas
uma transição, um portal que atravessamos para novas realidades, numa
sucessão infinita de aventuras por mundos ignotos, negados estupidamente
pela ortodoxia científica e incredulidade acéfala dos cépticos da
Terra. Meu caro, somos apenas peças do jogo eterno dos Deuses, no tabuleiro
cósmico dos mundos e das eras que passam como ventos místicos e que
alimentam nossas almas de conhecimento e força, através das sendas
da dor e da miséria, do triunfo e dos prazeres!
Lembro como
tudo começou. Eu fugia. Fugia da polícia. Não que eu fosse criminoso.
Mas haviam me culpado de um crime que não cometi. Eu era aquilo que
os homens da Terra chamam de advogado, lembro. E nas horas vagas praticava
esgrima, além de ser forte e musculoso, pois compensava as horas sedentárias
de trabalho com ginástica e exercícios físicos.
Envolveram-me
sordidamente em magia negra e naquilo que chamam, na Terra, de
política partidária, e agora aquele que se intitula Senador Otton
Silva Delamares e a máfia dos governantes corruptos da cidade terrestre
de Maremontes, onde eu morava, haviam colocado a culpa toda dos desvios
de dinheiro público em mim, o bode-expiatório de um sistema
pútrido de corrupção e maldade.
Irado, acabei
atirando em Delamares, matando-o com um balaço na cabeça, antes que
me aprisionassem por crimes que não cometera.
A polícia
me perseguia, meu carro voou por um matagal, lembro que era uma manhã
nevoenta e úmida de inverno.
Acabei batendo
o carro numa árvore e, meio aturdido, comecei a correr. Atirei contra
os malditos policiais, cães de guarda do Estado. Eu era inocente e
não era de minha índole aceitar injustiças, embora eu achasse que
as leis dos homens são tolas e causam riso aos Deuses. Acabando
as balas, joguei a arma fora e estava pronto para ser preso ou morrer.
- Renda-se,
Dr. Paul Sorian! – pude ouvi-los, ao longe; estavam perto, eu sentia.
De repente,
na fuga, fui atingido na cabeça por uma das balas, tropecei e acabei
caindo numa ribanceira. Rolei por vários segundos até ir parar num
lugar lamacento e fétido, algo como um brejo enevoado, um pântano
dantesco onde uma bruma muito branca dava um toque espectral e etérico
a tudo. De algum modo eu me sentia prisioneiro de um pesadelo de um
Doré ou de um Fuseli.
Ergui-me, cambaleante.
As névoas aumentaram, turbilhonando, brancas como vapores fantasmais,
e minha cabeça estava meio zonza. Aos poucos a névoa foi mudando para
uma tonalidade azulada. E então, ao dar alguns passos, senti-me cair.
Não foi apenas uma queda, parece que caí num vácuo cósmico ou limbo
interdimensional de profundidades infinitas e absurdas, algo como uma
frincha mística que me pareceu uma passagem secreta para uma
outra dimensão transcósmica.
Perdi a consciência
por alguns instantes...ou desfaleci para sempre na eternidade? Pouco
importa. O fato é que eu continuava vivo, pois meu corpo estava ali,
e até me apalpei, para constatar se de fato eu não havia morrido.
Era, sim, meu corpo, embora agora eu sentisse umas leves mudanças,
meus cabelos estavam longos, e meu bigode parecia mais hirsuto que o
de costume.
Sim, só sei
que quando despertei, estava num lugar muito estranho. Parecia uma savana
misturada com deserto, mas a pouca vegetação era bizarra, e logo percebi
que havia penetrado num outro mundo, uma outra dimensão, além
do tempo e do espaço.
Caminhei por
alguns minutos, faminto e sedento.
De repente
ouvi um cavalo se aproximando, e sobre este, montado, um estranho homem,
vestido com roupas antigas e esquisitas. Lembrava um bárbaro das eras
imemoriais da Terra, na juventude do mundo. Aproximou-se de mim e desembainhou
uma enorme e negra espada cuja lâmina lembrava um relâmpago
do Inferno.
- Quem é você,
forasteiro? Você não é de Krymlla, posso ver isto por suas vestes
e suas feições! – falou o guerreiro, ameaçador; ele falava numa
estranha língua, diferente da língua que eu falava no tempo em que
fui homem na Terra, mas, de algum modo eu o compreendia.
- Meu nome
é Sorian. Paul Sorian. Não sou deste mundo que você chama de Krymlla.
Venho de... de... um mundo chamado Terra!... – cônscio de que estava
num outro mundo, tentei ser amistoso.
O guerreiro
feroz, olhou-me e depois apeou, e, com um olhar cruel, disse-me:
- Não
conheço nenhum reino chamado Terra, estranho. Só existe Krymlla, e
os outros mundos além das estrelas, segundo os Pergaminhos Sagrados
do Divino Profeta Cego Zarkai, só existirão no dia em que morrermos
e atravessarmos o portão astral. Meu nome é Zaunrok, o bárbaro, e
atualmente vivo em Thumlla, a cidade luxuriosa, sou ex-mercenário
e agora comandante do exército do rei. E quanto a sua origem...Bem,
na verdade não me interessa muito de onde vens, forasteiro. Interessa-me
que vou matá-lo agora e saciar a sede de minha lâmina; não mato alguém
há dias! Por Khatroll, deus das lâminas assassinas, morra, chacal
sem rumo! Morra, Sorian, e sacie a sede de minha espada negra!
Ele veio em
minha direção para decepar minha cabeça, mas consegui agachar-me
e pegar um punhado da poeira meio avermelhada do solo e atirar-lhe nos
olhos, cegando-o por instantes.
Dei-lhe um
chute forte no estômago, fazendo-o dobrar-se de dor. Ele deixara cair
à espada negra e pude então apanhá-la do solo e fazê-la minha. Senti
uma estranha força mística ao segurar a espada negra.
Instintos bárbaros
e cruéis afloraram em minha mente. E senti que devia matar aquele guerreiro,
caso contrário ele me mataria. Assim sempre será a vida no Cosmo:
mate ou morra!...Lembre-se disto, Henry Evaristo: mate ou morra!
Com um golpe,
cortei-lhe o ventre, ceifando a vida de meu oponente.
Tratei de tirar-lhe
as vestes. Talvez me livrando de minhas roupas, poderia passar por um
habitante comum de Krymlla. E assim foi.
Depois montei
no corcel negro de Zaunrok e cavalguei para o sul, em busca de água
e comida. De algum modo me veio a sensação louca de ser mais um bárbaro
Krymllaniano. E assim foi. E assim me tornei rei de uma grande
nação de Krymlla. E hei de me tornar, em breve, senhor de toda Krymlla,
o mundo bárbaro de duas luas azuis.
Mas a vida
de um rei pode ser tediosa, enquanto o poder total em seu mundo não
vem ou quando as batalhas parecem intermináveis.
Então pretendo
livrar-me da coroa, abdicando de vez do trono e do estilo de estilo
de vida lascivo dos depravados thumllanitas, dando adeus às sedas perfumadas
e cortesãs libidinosas, e então cavalgarei livre para o norte,
tendo o meu próprio reino ambulante: minha alma, minha alma que continuará
com meus sonhos infinitos de conquistar reinos e depois desprezá-los
como brinquedos que com o passar do tempo causam tédio e aborrecimento.
Neste estranho
e antigo mundo chamado Krymmla, certamente ainda viverei muito tempo,
ainda mais agora que me apaixonei pela linda guerreira errante, a ruiva
de olhos verdes! Ralussa, a rana, rainha corsária das Ilhas
Atheleutas, e assim, livre como os ventos fortes de Krymmla, eu, Sorian,
o bárbaro, que no fundo sempre odiara as leis do mundo a quem um dia
pertenci, a Terra, agora hei de fazer de minha lâmina uma lenda neste
estranho e bárbaro mundo, em grandes viagens e batalhas por esta terra
de magia e barbarismo, conquistando novos reinos, singrando os mares
vermelhos de Krymlla, até que chegue o dia em que eu morra, aqui, e
renasça, além, para um novo mundo, num ciclo eterno de renascimento,
morte e aventura sombria em muitos mundos que ainda virão!