ROMANCE
GÓTICO
A paixão segundo
Luiz Hasse
I
-Boa
noite, será que eu posso entrar? – disse o estranho.
Lúcia
contemplou ele por pelo menos um minuto. Ele lhe parecia estranhamente
familiar e, ao mesmo tempo, desconhecido. Alguém que a gente vê pela
primeira vez e tem a impressão de ter convivido a vida toda.
-O
que o senhor deseja?
O
rapaz sorriu. E Lúcia se viu assustada por tê-lo chamado de senhor.
Porque era só um rapazola – alto, mas sem nada que indicasse um físico
de atleta. Feições delicadas e cabelos em profusão desordenada ao
redor da cabeça. Cabelos extremamente negros. Um rosto neutro, nem
feio, nem bonito, do tipo que se esquece com facilidade. Mas, ao sorrir,
tinha todo o encanto do mundo.
O
rapaz tocara a campainha que havia do outro lado da grade. Ela estava
do lado de dentro, sob a varanda da casa. Apenas uns três metros –
e grossas barras de ferro com uma cerca eletrificada sobre elas –
os separavam. Era noite, mas ainda não muito tarde.
Vestia
um terno escuro e uma camisa de linho branca. Parecia estar vindo ou
indo para alguma cerimônia ou festa – um batizado, uma formatura,
um casamento – um enterro
– mas não se via carro algum por perto.
-É
natural que a senhorita fique desconfiada...
-Senhora
– corrigiu Lúcia.
Sim.
Senhora. Casada aos dezessete anos com um noivo dez anos mais velho.
Recém-formado, médico, agora rico e bem-sucedido. E quase um quarentão.
Ela, a caminho dos trinta, ainda tinha uma aparência juvenil – principalmente
pelo fato de que não podia ter filhos – já fora tomada por estudante
algumas vezes. Mas estudantes, em geral, não são casadas. Estudantes
não têm um marido frustrado pela impossibilidade de um herdeiro varão
geneticamente legítimo com a esposa oficial. Um marido mais
ou menos acima da lei – por causa do qual ela já, mais de uma vez,
usara óculos escuros à noite e mangas longas no verão.
E
talvez o pior de tudo, para ele, fosse que ela continuava bonita. Talvez
muito mais do que na época de seu precoce casamento.
-...que
a senhora, se faz questão dessa palavra, fique desconfiada,
afinal, você não me conhece. Mas seu nome foi indicado.
-Para
quê? – a menção horrorizou-a, inexplicavelmente.
-Bem...
por meu tio... ele conhecia você. Por acaso não se lembra de um rapaz
de sua escola chamado Daniel Ripke?
Uma
sombra de uma recordação passou pelo rosto dela – e o sorriso do
rapaz se iluminou novamente, e agora ela via o como ele era jovem, um
adolescente, provavelmente, e cada vez mais estranhamente familiar –
mas esvaneceu-se, e ela abanou a cabeça, tristemente.
O
jovem baixou os olhos e suspirou.
-Bem...
isso não muda nada. Ele sempre comentou comigo que não era do tipo
que seria lembrado depois de um ano... mas ele se lembra de você. Digo,
lembrava. Faleceu recentemente.
-Meus
pêsames... mas o que eu posso fazer por você?
Ele
ergueu os olhos e ela reconheceu a semelhança – muito fugazmente,
um vulto, a sombra de uma lembrança, do rosto daquele que dissera ser
seu tio, como um aluno da mesma classe, extremamente tímido e solitário,
que talvez fosse aquele de quem ela falava.
-Você
poderia sair do marco da porta, andar através do jardim e abrir o portão
pra mim, e eu poderia lhe explicar melhor um assunto delicado... que
fica melhor entre quatro paredes.
Ela
se viu abrindo o portão... e em seguida não o fez. Pensou no que o
dr. Antônio Donatto faria com ela se soubesse que, às dez horas da
noite, ela recebera em sua casa um rapazote com seguramente menos de
vinte anos – que, apesar do corpo franzino, deveria ter, como todo
o jovem comparado com um homem de meia-idade, uma virilidade invejável,
que os preconceitos sociais impediam de exercitar e, assim, de adquirir
a única coisa que falta a um adolescente neste campo – a superestimada
experiência.
Antônio
era experiente no uso do corpo alheio – mas de formas bastante desagradáveis,
também.
-Lamento,
espero que me entenda, menino, mas meu marido não está e... bom...
a cidade não anda tão segura quanto antigamente...
Ela
sorriu constrangida – absurdo! Ele é que devia estar constrangido!
Mas
não estava.
Ele
a olhou com um olhar duro e cruel – no qual estavam misturados revolta,
asco e ódio e, direcionado apenas para ela, uma pitada de desprezo.
Lúcia
empalideceu. Uma certeza irracional assaltou-a: Ele sabia! Ele sabia
o que acontecia debaixo de seu teto! Das surras! Da tortura psicológica!
Da humilhação! Da...
Absurdo.
Fora uns poucos amigos do círculo do marido – que, como bons médicos,
sempre se protegem mutuamente, e, portanto, não diriam nada –
ninguém sabia. Porque ela não tinha ninguém com quem conversar.
Ficava em casa, dia e noite, noite e dia. Tinha uma empregada para auxiliá-la,
mas conhecia a verdadeira função daquela mulherzinha. Vigiá-la. A
mulher estava em seu dia quinzenal de folga – provavelmente em algum
motel barato com Antônio, pois era bom variar a dieta, é o que todo
o médico dizia.
Pensou
na empregada morena e em sua própria pele alva e salpicada de sardas
e ocasionais equimoses. Em seus cabelos arruivados e lindos olhos verdes
às vezes com órbitas arroxeadas. Pensou na empregada morena e de corpo
voluptuoso, com olhos também verdes e muito mais jovem que ela. E imaginou
– e provavelmente tinha razão! – que o marido devia tratá-la muito
melhor do que a ela. Afinal, era só uma profissional – quase um ser
humano – ao passo que ela, a esposa perfeita para exibir em eventos
sociais, era uma coisa.
Por
que ela continuava com ele?
Medo?
Apenas medo?
Será
que ela esperava ser resgatada por algum tipo de cavaleiro andante?
O
jovem ergueu as mãos e encostou-as na grade. Disse então, voltando
subitamente com o sorriso aos lábios.
-Então,
minha amiga, estou com as mãos bem posicionadas onde você pode ver
e, se quiser, posso tirar a roupa e mostrar que não porto arma. Mas
você precisa chegar um pouco mais perto. O que eu vou dizer
não ficaria bem em voz muito alta. Tem a ver com o meu tio e o que
ele sentia por você.
Ela
riu – era uma maneira estranha de falar para alguém tão jovem –
e, sem nem pensar, caminhou em sua direção. Ele era estranhamente
atraente. A sensação era a de ter piscado os olhos e, ao abrí-los,
estar diante dele.
-O
que acontece, senhorita Lumpczeck – era seu nome de solteira, mas
ela não retrucou desta vez – é que meu tio era apaixonado por você
durante o colégio. Na época, não teve chance de se declarar... ou,
melhor dizendo, não teve coragem. Depois que terminou a faculdade,
ele fez bons negócios e enriqueceu. Ele está podre de rico.
Digo... estaria. Há um mês atrás foi diagnosticada uma doença terminal.
Era no cérebro e não havia nada a ser feito. Ele pôs os negócios
em ordem, redigiu um testamento e tomou um cálice de vinho com veneno
há duas semanas, enquanto ouvia o Rechiem de Mozart na sua biblioteca.
Neste testamento, consta seu nome.
Ela
enrubesceu bruscamente. Uma mistura de sensações – vaidade, medo,
piedade, ansiedade e prazer – explodiu dentro dela assim que
ele pontuou a frase e sorriu. O jovem parecia perceber.
-Porém,
pela lei – disse o rapaz – pelo menos metade dos bens deve ficar
com os herdeiros legítimos de sangue. Neste caso... o único que há
sou eu. E, antes que os advogados comecem a dar maus conselhos sobre
como lidar com a herança de Daniel Ripke, eu gostaria de encontrar-me
com a senhorita pessoalmente e, sem assinatura de nenhum documento,
nem gravadores ligados ou artimanhas do tipo, expor o que teremos de
dividir e ouvir suas idéias a respeito. Mas asseguro-lhe de que se
trata de, mesmo dividido pela metade, liberdade, ócio e glamour
pelo resto da vida.
Lúcia
chegou a abrir a boca para gritar. E teria desmaiado se não chegasse
a uma conclusão súbita.
Era
um sonho! Era a terra prometida! Era como num conto de fadas! Era...
Bom
demais pra ser verdade.
Assim
como com Antônio. E a vida lhe ensinara que tais coisas normalmente
carregavam amargas decepções.
-Eu
sou apenas uma...
Calou-se.
O que diria. Uma mulher?
Aquela
palavra fora usada em tom pejorativo várias vezes pelo único homem
com quem ela já dormira. E isso transformara – juntamente com os
punhos e uma cinta de couro – uma estudante esperta, dinâmica e alegre
numa sombra enjaulada e submissa. Odiou Antônio por aquilo... e odiou
mais a si mesma. Por se haver submetido. Por que será que, diante daquele
jovem tão gentil, não conseguia parar de pensar no marido?
-Será
que eu posso entrar agora?
Duas
forças lutaram dentro dela. E isso era visível em seu rosto, pelo
menos para o jovem paciente do lado de fora. No final, a força que
dizia para não abrir venceu – no entanto, não foi o medo de Antônio,
mas a desconfiança, as duras lições que a vida lhe dera sobre os
homens, que a impediram de erguer a mão para o trinco.
-Lamento
– murmurou ela – mas é muito tarde e, como você mesmo disse, eu
não o conheço. E sinto muito dizer que não lembro de seu tio. Ele
devia ser um rapaz muito bom.
O
jovem sorriu um sorriso triste. Estava frustrado – mas não decepcionado.
Não inteiramente, pelo menos. O desprezo que houvera em seus olhos
já sumira.
-Bem,
assim sendo, só me resta uma opção...
E
meteu a mão dentro do paletó.
O
susto foi apenas momentâneo. Dali não surgiu nenhuma arma, apenas
um envelope em branco, mas pesado.
Ele
depositou, com cautela e delicadeza, o envelope no chão, do seu lado
da grade. Depois disso, disse a ela.
-Aí
está toda a documentação comprovando o que eu disse. Pegue, leia
e, se possível, apareça na casa do falecido amanhã, aí pelas sete
horas da noite, ou mais tarde, quando eu terei voltado de meus afazeres
e poderei te receber. Então poderemos tratar melhor de tua herança.
Ela
olhou para o envelope, quase hipnotizada. Ouviu os passos do jovem se
afastando e um suave “Boa noite” os acompanhando. Não levantou
os olhos para ver como ele partia. Curvou-se, enfiou a mão pelas grades
e pegou o que o estranho lhe deixara.
Só
então percebeu que, em nenhum momento, aquele sobrinho de Daniel Ripke
lhe deixara seu nome.
Entrou
em casa e foi para a cama. Seu marido podia chegar a qualquer instante
e ela não queria que ele visse aquilo. Por isso, abriu o travesseiro
com uma tesoura, colocou o envelope, ainda fechado, no meio das bolotas
de algodão no interior, e costurou por cima do rasgo. Depois, cobriu-o
com a fronha e deitou-se.
Estava
feliz... e com medo. A combinação perfeita da expectativa.
No
entanto, num desses estranhos paradoxos, dormiu muito bem. E sonhos
muito doces, dos quais não restava nenhuma lembrança no dia seguinte,
exceto a de que eram doces, a acompanharam durante a noite inteira,
pela primeira vez em anos.
II
Lúcia
acordou tão feliz e esperançosa que nem deu importância quando percebeu
que era meio-dia e não havia nem sinal do seu marido. Não que o fato
fosse muito inusitado. Ele já tivera sumiços de até três dias. Num
deles, ela recebera um corretivo bem rigoroso por ter tido a audácia
de, no terceiro dia, se ausentar dali para falar com uma amiga sobre
como estava preocupada.
Tomou
um longo banho e saiu. Colocou a sua melhor roupa – uma roupa escura,
adequada para luto – e preparou sozinha e apenas para si mesma a única
refeição daquele dia.
Deitou-se
preguiçosa no sofá da sala e ligou um de seus discos favoritos. Uma
música suave e romântica. Pôs-se a fazer planos. Não haviam casado
com comunhão de bens por insistência dele. Portanto, quando
se divorciasse, não haveria como ele ficar com o bocado da herança
que pertencia a ela... pelo menos assim ela pensava. Claro que, ao contrário
do que dizem os juristas, na lei nada é exato, mas tinha a confiança
de que se faria independente economicamente e, conseqüentemente, livrar-se-ia
daquele monstro para sempre.
Dois
terrores a assaltaram quase instantaneamente, quando teve este pensamento:
primeiro a possibilidade de, na batalha jurídica que poderia se seguir,
o seu marido realmente abocanhasse a metade... e, se essa metade não
fosse o suficiente, ela teria que continuar com ele... e todo o esforço
teria sido por nada. O segundo terror era ainda pior, porque nada tinha
a ver com outras pessoas, e sim com ela.
Tinha
medo de acabar com bastante dinheiro... e não saber o que fazer com
ele! De gastá-lo de maneira irresponsável e terminar pobre... tendo
que rastejar diante de outro homem para sobreviver novamente.
Chorou
com ódio por si mesma! Quando aquilo acontecera? Era uma menina decidida!
Uma estudante capaz! Tinha talento e convicção! Poderia ter sido o
que quisesse e, no entanto, ali estava ela, com medo de não sobreviver
sozinha, sem alguém para cuidar dela... mesmo que fosse o cuidado que
se dispensa a uma besta domada.
Levantou-se
de sopetão, depois de chorar por um tempo indefinido e decidiu que
iria tentar. Nada pior do que ver um vislumbre de esperança e voltar
a ser tudo como era antes.
Caminhou
para o banheiro, lavou o rosto, a maquiagem e as lágrimas, e se preparou
para sair dali naquele instante. Ao abrir a porta, levou um susto. No
meio de todas aquelas reflexões e ansiedades, havia escurecido.
Talvez
rápido demais.
Levava
o envelope na mão. Abriu-o no meio da rua e constatou que o seu formato
estufado era apenas mera ilusão. Só havia um papel no interior dele,
que dizia:
Cara Senhorita Lúcia Lumpczeck,
tenho o pesaroso dever de informar
que o homem que mais a amou nesta vida, o Sr. Daniel Ripke, faleceu
recentemente e expressou seu desejo de lhe prestar um serviço póstumo.
Para maiores esclarecimentos, dirija-se a sua mais recente residência
Rua
Elmo Fattori – nº 135 – facilmente reconhecível pela alameda frontal
e por ser a última da rua
o mais brevemente possível.
A senhorita é ansiosamente aguardada,
Afetuosamente,
D.
Aquilo
era um pouco misterioso demais. Quem diabos era D.? O mesmo menino que
chegara na sua casa? Será que ele também se chamava Daniel?
Diego? Diogo? Demétrio?
Nenhum
documento. Nada que comprovasse que a história era verdadeira. Aquilo
não era mais seguro! O melhor a fazer era voltar para a segurança
de seu lar!
Segurança?
Não
havia segurança nenhuma lá. E menos ainda agora, que ela já estava
a duas quadras de casa – como andara rápido! Era como se fugisse
de algo!
Subitamente,
num ato de coragem extrema, preferiu o risco desconhecido. Empertigou
a cabeça e seguiu caminhando, decidida. Independente do que lhe acontecesse,
mesmo se o suposto sobrinho de seu esquecido colega fosse um maníaco
com uma lábia muito boa, ela não voltaria para lá. Poderia ser violentada
ou morta no meio daquela aventura. Poderia cair num conto do vigário
e perder tudo o que tinha. Qualquer coisa era melhor do que sofrer tudo
isso e muito mais nas mãos do único homem com quem convivera nos últimos
oito anos.
Pelo
menos, seriam estranhos a agredí-la, e não seu marido.
Não
ele, que deveria amá-la e protegê-la.
Não
ele, seu odiado algoz.
III
A
casa do fim da rua Elmo não era apenas a última casa – era a o fim
da rua.
A
rua era longa, mas terminava num beco sem saída. Este lugar era o começo
da propriedade abandonada e deserta que havia ali desde que ela era
menina. A casa mal-assombrada da vizinhança, conforme o imaginário
infanto-juvenil. Sabia que todos diziam lendas absurdíssimas sobre
seus antigos moradores, na maioria das vezes bem incoerentes entre si,
no entanto...
Não
vinha ali fazia anos, mesmo percebendo, enquanto se aproximava, o quanto
aquela casa estava perto da dela. E notou, estranhamente, que apesar
de escura e com uma atmosfera de abandono, a casa fora reformada e estava
muito bem conservada agora.
Todas
as vidraças eram novas, bem como as venezianas fechadas atrás delas.
A pintura fora refeita com uma cor qualquer sem brilho, quase indefinível
no escuro, e a grade sobre o muro trocada e reforçada. Estava bastante
diferente de quando ela brincava ali com outras crianças... e mesmo
assim, bastante igual. Continuava escura, sem nenhuma luz acesa, e a
alameda e o jardim da frente continuavam um matagal. Como uma selva
da qual emergia a casa de dois andares e uma pequena estrutura em forma
de torre no centro do telhado como se fosse um gigante de pedra espreitando
uma presa.
E
a presa era ela.
Pelo
menos assim lhe passou pela cabeça, por um instante, antes que avistasse
a silhueta do rapaz que lhe abordara na outra noite, sob a sombra de
uma árvore do pátio interno, segurando o portão aberto e sorrindo
para ela.
E,
com aquele sorriso, todo o seu medo se derreteu. E imediatamente ela
sentiu e soube, desta vez com certeza, o quanto se sentira atraída
por ele. Num nível profundo e tocante. Teve a súbita intuição de
que ele tinha a mesma idade que ela tinha quando se casara. Porque não
havia alguém assim? Gentil. Simpático. Humilde, mas sem ser fraco.
Alguém que a teria feito feliz e que teria crescido junto com ela.
E não um homem autoritário, mais velho, que a havia feito regredir
a um estado de infantilidade doentia.
Ora,
Lúcia, disse-lhe uma voz suavemente firme, como a de um bom professor,
em sua mente, havia muitos desses à sua volta. Mas você os desprezava.
Era incapaz de vê-los. Na sua ânsia de ser mais, quis um homem que
pensava que era mais que os outros. Um erro comum, se me permite dizer.
Seria
a voz da sua consciência? Se era, sua consciência deveria ter uma
voz bastante masculina.
Sem
pensar mais nada, atraída por aquele sorriso hipnótico, se aproximou
da entrada, então, subitamente parou. O jovem estava numa imobilidade
gélida. Por um instante, pensou que se iludira com uma estranha estátua
de jardim.
-Não
precisa ter medo. Não lhe farei nenhum mal. Se quiser entrar, é só
cruzar o portão – disse a figura, movendo os lábios muito pouco.
Aquilo
convenceu-a a abandonar seus delírios.
E
então atravessou a linha que a separava de sua antiga vida.
A
antiga Lúcia acabara de morrer, embora ainda não soubesse disso. A
nova estava entrando em incubação dentro dela, formada por outra Lúcia
ainda mais antiga e por algo novo, que aquele jovem trouxera.
Ele
caminhou ao lado dela. Estava vestido como se fosse para uma festa.
O terno prosseguia negro, mas a camisa por baixo agora era vermelha
e sem gravata. O cabelo não mudara. Profuso, negro e quase flutuante,
tão finos que eram os fios.
Não
disseram uma palavra, mas ela lhe deu a mão.
E
compreendeu que nada mais precisava temer. O que quer que fosse que
ele lhe trouxera, ele também a ajudaria a cuidar.
As
portas da entrada se abriram e, no imenso salão onde no passado se
realizavam festas e talvez até mesmo bailes mais discretos e particulares,
estava armado um funeral. Um funeral em casa. As flores estavam dispostas
por todas as paredes e algumas delas espalhadas pelo chão. E ela percebeu
que não eram flores de enterro comuns – eram sua flores preferidas
do tempo de menina. No centro da sala estava disposto o caixão, fechado.
Toda a iluminação daquele lugar provinha de candelabros espalhados
sobre pedestais de mármore, formando um desenho geométrico ordenado.
Não
havia mais ninguém além deles dois.
-Não
imaginava que ele tivesse morrido há tão pouco tempo.
-Ele
costumava dizer que morreu no dia em que você se casou. Porque não
dá uma olhada nele? Ele gostaria de receber de suas mãos uma flor.
E
o jovem, delicadamente, colocou um copo-de-leite na mão dela. Ela olhou
para ele e viu que ele tinha os olhos vermelhos, prestes a chorar. Sem
pensar no que fazia, abraçou-o. Tentou lhe beijar a testa, mas o menino
disse.
-Não.
Não ainda. Vá até o caixão.
E
desvencilhando-se suavemente de seus braços, entrou por uma outra porta,
na parede em frente, saindo daquela sala.
Lúcia
chorava ela própria, por um homem que sequer conhecia. O quanto ele
a teria amado? Mudo. Torturado. Fazendo o que quer que fosse e levando
uma vida de celibatário, enriquecendo sem alegria, atormentado por
saudades dela.
Uma
parte sua lhe gritava Não existem tais pessoas! Não existem pessoas
tão abnegadas fora de um romance exagerado e fora de moda! Este homem
deve ter tido seus casos! Deve ter sido
feliz! Qualquer rico que mande na própria vida é feliz e...
E
agora estava morto, e lhe legara tudo o que construíra. Tentara, mas
as lágrimas sobrenaturalmente sinceras eram impossíveis de se deter.
Diante
da tampa do esquife, ela ergueu a mão esquerda suavemente, para abri-lo
e depositar a flor, com um beijo, na mão de seu admirador secreto.
E
tudo virou horror.
O
rosto que havia ali, a princípio era nebuloso, e parecia que estava
imerso em névoa, como se houvesse no caixão uma máquina de gelo seco.
Mas, em seguida, esta impressão passou – ou melhor, se transformou
em outra, como se aquele rosto, e aquele corpo, tivessem engolido
aquela fumaça estranha pelos poros – e ela viu quem era o seu adorador
defunto.
E
era o mesmo jovem que a recebera ali. Usando a mesma roupa.
Como?
Ele a vira abrir a porta! Ele saíra dali diante dos olhos dela! Não
houvera voltado, com certeza!
O
medo começou quando ela pensou que acabara de se encontrar com um fantasma...
e virou terror quando o cadáver abriu os olhos brilhantes, na semi-obscuridade
da sala e a fitou com um olhar apaixonado.
Ela
gritou automaticamente, como se obedecesse a um treinamento condicionado,
e virou-se para correr de volta a entrada. Sentiu uma brisa suave e
rápida passar às suas costas e, inexplicavelmente, diante da porta,
estava o mesmo jovem, segurando a flor que ela deixara cair no momento
do grito.
-Foi
apenas uma brincadeira. O choque irá deixá-la mais receptiva para
o que virá depois.
Sua
resposta, depois de ficar um instante paralisada por aquelas palavras
em tom sério, mas ainda assim tão suave, foi desferir um golpe no
rosto dele com sua bolsa e correr para outra direção. O golpe teria
sido forte o suficiente para fazê-lo cambalear, caso não desviasse.
No entanto, ele não fez nem uma coisa, nem outra. Seu cabelo se agitou
um pouco e... mais nada. Nem seu corpo nem seu rosto moveram um milímetro
do lugar.
Ela
tentou fugir novamente. Atrás, só havia aquela voz.
-Escute,
vamos conversar primeiro, por favor.
Ela
não queria ouvir nada. No fundo do salão havia uma escada. Subi-la
seria idiotice, se fôssemos pensar, mas levando-se em consideração
que a coisa estava no extremo oposto, na porta de entrada, ela
não pensava. Tudo o que queria era se afastar dele.
Ganhou
a escadaria e olhou para os dois lados. Não o viu. Olhou para trás...
...
e uma coisa disforme, fantasmagórica, nem fumaça e nem névoa, mas
bastante semelhante a isso, rastejava pela escada em sua direção.
Ela viu – ou teve a impressão de ver – dois olhos brilhantes no
meio daquilo.
Ela
gritou mais uma vez e olhou para a frente. Havia mais um lance de escadas
que levava, provavelmente para o aposento da torre. Aquele não tinha
vidros e nem venezianas. Dali poderia gritar por ajuda ou mesmo escorregar
pelo telhado até o jardim e depois, semi-aleijada, correr pela rua
gritando.
Os
passos ecoaram por esta escada que, no segundo lance, ficou estreita
e espiralada. Pensou que terminaria num alçapão, e aí ela morreria
de medo ou se mataria, mas não foi o que aconteceu. Havia um alçapão,
mas ele esperava por ela, aberto.
Ela
emergiu na torrezinha. Apenas um mirante do qual se via uma paisagem
que, outrora, quando aquela casa talvez estivesse no campo e sobre o
qual uma cidade se ergueria ao redor dela, teria sido bela. Viu o telhado
ao seu redor e as janelas grandes, na verdade simples vãos entre o
teto do mirante e um muro de pedra fácil de saltar. Era melhor quebrar
o pescoço e morrer tentando do que...
E
eis que surgia, emergindo de trás do muro para o qual ela estava virada
ao chegar ali, o mesmo jovem. E agora ela o via como ele realmente era.
Flutuando, erguido no ar pela força do próprio salto, depois de se
ter escorregado pela frestas das telhas silenciosamente e assumido uma
forma mais semelhante a um homem, leve como um balão cheio de vapor
quente. Apesar da luminosa Lua Cheia atrás dele, cujo brilho ela quase
conseguia ver, como se ele fosse translúcido, nenhuma sombra se projetava
sobre ela e nenhuma mudança havia na claridade do mirante. Imaginou,
insanamente, se alguém mais na rua o enxergaria além dela. Se tudo
aquilo não estava sendo vivido, na verdade, numa sala alcochoada e
monitorada, com ela embrulhada numa camisa de força, depois de finalmente
enlouquecer pela tortura doméstica constante.
Ele
não tinha sombra, isso era fato, mas seu corpo era escuro como se fosse
visto debaixo de uma. E, além disso, seus olhos brilhavam intensamente,
não como os de um animal, mas como se fossem verdadeira lâmpadas esverdeadas,
dotadas de luz própria, nas quais se via, em tom sobre tom, em círculos
concêntricos, as partes de um olho humano.
E
o brilho de seu sorriso agora era plenamente compreensível. Afiados
como facas e compridos como agulhas, seus dois caninos superiores pareciam
feitos de marfim, mas tão refulgentes quanto prata.
Ela
abriu a boca para gritar. Não teve tempo. Antes que ela visse seu movimento,
ele estava sobre ela. Com a mão esquerda, apanhara suas duas mãos,
e, com a direita, tapava sua boca. Ela queria gritar mais alto, mas
nem um grunhido saia, pois, por alguma estranha força, sua garganta
também estava paralisada.
Ele
olhava para seu pescoço, arfando, ansioso, como um menino prestes a
ter sua primeira experiência sexual. Uma respiração de maníaco...
mas também de amante apaixonado.
No
entanto, voltou os olhos para ela, e, enquanto eles pareciam ficar mais
humanos, ela pôde ver o quanto domar o impulso quase irresistível
que o jogaria contra suas veias custara em termos de força de vontade.
Mas
ele acabou por vencer a luta.
Recobrando
o auto-controle, diminuindo pouco a pouco o ritmo da respiração, mas
sem nunca afrouxar a pressão que suas mãos geladas faziam sobre os
pulsos e os lábios dela, ele disse, calmamente.
-Agora
escute. Eu vou tirar a mão de sua boca. Se você gritar, eu vou
morder você. Já perdi a conta de quantas pessoas eu matei desde
que... bom, desde que fiquei assim. Mas não vou te matar. Vou sugar
apenas o suficiente para que você desmaie... e você vai acordar em
sua casa. Cada vestígio da minha existência vai ter sumido de sua
vida, e, se um dia voltar aqui, vai encontrar a mesma casa em ruínas
de sua infância, e ninguém mais se lembrará disso, a não ser você,
e acho que, com o tempo, você irá se convencer de que foi tudo apenas
um sonho romântico e cruel. Mas... é isso o que você quer? Voltar
para a sua casa? Não quer ouvir o que eu tenho para lhe oferecer antes
de voltar para o verdadeiro vampiro em sua vida?
Ele
tirou a mão e, em seguida, era o mesmo jovem, gentil e ligeiramente
preocupado. Com um salto, se pôs sentado sobre o muro que havia entre
ela e o telhado. Ela não gritou, mas olhou para as outras janelas.
-Vá
em frente, se é o que deseja. Não posso obrigá-la a ficar comigo.
Não podia quando vivia... e ainda não posso agora. Mas, se saltar
e correr por aí, vai estar louca antes de chegar em casa. Daqui pro
hospício, onde seu marido a colocará para sempre, enquanto prepara
os papéis de divórcio e atestado permanente de insanidade que o deixará
livre para conhecer a mãe de seus filhos. Será que é tão ruim assim
não poder conceber? Não tem me feito muita falta...
-Quem...
é você? – ela perguntou, entre lágrimas.
-Você
sabe. Daniel Ripke. O garoto que te observava apaixonado e nunca teve
coragem de se aproximar. Quando soube que você estava noiva, depois
do fim dos estudos, quase me matei, sabia? Eu não tinha mais nada.
Era inteligente, mas o nervosismo me fizera reprovar no vestibular.
Não tinha amigos, meus pais eram frios e distantes, e me olhavam agora
com reprovação. Não tinha namorada e nem vontade ou coragem para
me aproximar de ninguém. Amor? Amor é uma coisa cruel, porque você
se coloca sob o controle de outra pessoa... não é mesmo? Você sabe
disso. Eu te observei nos últimos cinco anos, esperando criar coragem
para falar com você de novo. Não quero comparar o que eu vivi com
o que você viveu até agora... mas amar pode ser o paraíso ou uma
desgraça. Talvez por uma questão de pura sorte.
-O
que você quer de mim? – choramingou Lúcia – Vingança?
-Minha
querida... não ouviu nada do que eu disse?
Respirou
fundo e falou, com aparente calma, mas com os olhos em chamas.
-Eu
te amo. Como poderia querer me vingar de você? O que você me fez de
mal?
Ela
o olhou. A situação era simplesmente surreal. Porque todo aquele diálogo
era versossímil – meio romanesco, mas verossímil – alguém que
mantivera por anos uma paixão secreta e resolvera subitamente se declarar.
Isso era o mais horripilante. Levando-se em conta que o apaixonado tinha
presas de lobo na boca e olhos com luz própria, seria menos enlouquecedor
se ele desse gargalhadas sádicas e dissesse que iria amaldiçoar sua
existência.
Ela
tentou impor uma certa lógica naquilo. Era um exercício constante
de pessoas que tinham uma existência sofrida e difícil. Tentou descobrir
alguma coisa sobre ele:
-E
como foi... como foi que...
Não
conseguiu terminar a frase. O medo era horrível. Paralisante.
Ele
sorriu, parecia ser capaz de saber tudo o que ela sentia. Movendo-se
como um relâmpago, estava ao lado do alçapão, e disse a ela.
-Não
precisa se preocupar. Pode perguntar o que quiser sem medo. Vamos a
outro lugar? Não precisa ser àquele horrível caixão, que você detestou.
Ela
lhe tomou a mão e os dois desceram juntos. Era paradoxal, mas ela se
sentia confortada, protegida e apavorada num só instante. Como Bela
no castelo da Fera. Talvez de fato, por trás de toda aquela loucura,
ele a amasse ainda.
Mas...
ele era um monstro.
-Há
coisas bem piores do que eu – disse ele, como se lesse seus pensamentos
– e você já as conheceu, Lúcia. Não precisa ter medo de mim, porque
eu não quero e nunca irei querer te machucar.
Haviam
chegado à biblioteca da grande casa. Estava limpa e bem arrumada, e
as estantes cheias. Uma garrafa de vinho suave esperava numa mesinha
entre duas poltronas. Instintivamente, ela se sentou e viu que havia
apenas um cálice.
-Não
precisa se constranger. Raras vezes eu tenho oportunidade para ser hospitaleiro,
o que me causa grande prazer.
Abriu
a garrafa e encheu o cálice. Ela bebeu trêmula, precisando se acalmar.
-O
que te deixa nervosa, isso eu sei, é que eu posso te machucar,
se eu quiser. Não há possibilidade de defesa se eu quiser te fazer
mal, pode acreditar. Mas eu não sou um covarde e não tenho porque
fazer isso. Eu a amo como nunca alguém amará depois de mim. Creia
em mim... nos últimos oito anos você nunca esteve tão segura, minha
bela.
-Você
disse que... mata... mata... p.... pes...
-É
óbvio! Caso não tenha percebido, eu sou um vampiro! No sentido
literal! Eu sei que parece quase piada, que a coisa virou um clichê
de cinema, literatura e televisão, mas a chave do problema é que eu
sou. E, se eu não quiser definhar, enfraquecer e talvez até morrer,
eu preciso matar e beber sangue. Eu mato pra sobreviver, não tenho
remorso nenhum, e às vezes me divirto bastante com isso... mas não
faço por mal, ou porque quero, apenas. O fato simples e inegável é
que o sangue humano é meu único alimento possível.
-Isso
é monstruoso!
-Monstruoso?
Se você refletir, vai ver que, no meu caso, é uma simples necessidade.
Cada criatura que existe, se alimenta da vida de outra criatura, através
do fenômeno da morte. Se eu ficar tendo crises de remorso, vou acabar
louco. Além disso, há um detalhe que você esquece... Há homens que
matam por dinheiro, por ódio, por poder, por prazer, há pessoas que
declaram guerras irresponsavelmente. Matam podendo escolher não fazê-lo.
Outras tantas se comprazem com a dor alheia, com a sensação de poder
que isso traz. Mas eu... Eu preciso de sangue!
Se eu quero ou não não importa, porque eu não tenho escolha nenhuma!
Havia
indignação sincera em sua voz, e ele completou, implacável:
-Eu
sou um vampiro, quer eu goste ou não. Qual é a desculpa de homens
como o seu horrível marido?
-O
que você sabe sobre...
-Eu
sei tudo. Ou quase tudo... o suficiente para saber que ele e boa parte
dos que andam sob o sol é muito pior do que eu. Eles poderiam
viver diferente, poderiam aproveitar as delícias da vida terrena, das
quais fui privado tão cedo...
Contemplou
o cálice, que ela segurava diante dos seios – ou talvez os seus próprios
seios, visíveis pelo decote de seu vestido. Um vestido preto e longo,
que ela escolhera talvez para honrar o tio do menino... talvez para
seduzir o menino. Talvez porque fosse a peça mais bonita de seu guarda-roupa.
Não
havia menino e nem tio. Aquela criatura era tão velha quanto ela. Morrera
muito antes e continuava a caminhar pelo mundo. Aquele olhar era
para seus seios. Mas era um olhar de tristeza, mais que de desejo. Um
olhar de eunuco no meio do harém. Um olhar de alguém que perdeu o
olfato e o paladar e vai trabalhar na fantástica fábrica de chocolate.
-
Aproveitá-las e valorizá-las, sem buscar privar os outros das mesmas.
Poderiam fazê-lo sem medo e nem culpa, e sem buscar a dor alheia...
e escolhem fazer o mal. Escolhem impor infelicidade a si e aos outros.
Ou só conseguem ser felizes através do suplício de outras pessoas.
Eu... não tenho nada do que eles têm. Mato várias pessoas a cada
ano... pessoas ruins, ou desesperadas demais para terem chance de viver
uma vida decente... ou mesmo pessoas boas, se estou com muita fome e
não há mais nada disponível. Mas não me foi dada opção.
Olhou
para ela com olhos duros.
-Seu
marido, no entanto, teve todas as chances de ser um sujeito decente...
e jogou todas fora com desprezo.
Ela
quis mudar de assunto.
-Como
isso acontece? Quer dizer... de onde vem essa...
-Doença?
-Eu
ia dizer condição.
-Mas
pensou doença. Tudo bem, eu conto, mesmo sabendo que você não está
realmente querendo ouvir. Está tentando ganhar tempo. E vai conseguir.
Está mais calma, mas ainda sente medo e repulsa por mim.
Prosseguiu:
-Se
você me perguntou a origem desta maldição, eu vou ter que ser honesto...
não sei. A origem de criaturas como eu é antiga. Pesquisei o que há
pra ver em bibliotecas, e os fatos se contradizem, mas todos os relatos
são antigos. Vêm de lendas de muitas origens diferentes e eu... eu
não sei de onde veio o primeiro, nem sei se a forma pela qual eu me
tornei isto é a única possível.
-Mas
outro... outro como você... não sabe?
Ele
sorriu diante da ingenuidade dela.
-Outro?
O que a leva a pensar que, nestes oito anos, algum dia eu vi outro como
eu? Eu tenho vivido sozinho desde que isso me aconteceu... e a pessoa
que fez isso comigo está morta. Ou... destruída.
Deu
um longo suspiro.
-Não
sei quem ela era. Mas as circunstâncias em que a encontrei tem a ver
com você... li a notícia de seu casamento no jornal e fui até a igreja
em que ele se realizou, para assistir do outro lado da rua. Achei, a
princípio, que iria me ajudar a aceitar a coisa. A lidar com a realidade
do fato. E que, a partir daquilo, eu poderia continuar vivendo como
se eu nunca tivesse te conhecido. Então, o que aconteceu? Tudo ficou
ainda pior. Junto com a frustração, ver aquele homem contra o qual,
em se tratando de conquistas amorosas, eu jamais teria a menor chance,
fez surgir em mim outros sentimentos ainda piores... raiva, inveja,
revolta... e um profundo senso de humilhação e orgulho ferido. Porque
eu te adorava. Você era a única deusa de meu panteão particular...
e ele te levava embora com indiferença. Dava pra ver que aquele homem,
o que você escolhera, não dava a você metade da importância que
você dava a ele, e nem um décimo da importância que eu dava a você.
Isso era o que mais doía! Você era o brinquedinho adolescente dele...
ele não te amava e não queria a tua felicidade... mas iria matar quem
tentasse tirá-la dele, porque homens assim não suportam ser contrariados
e não admitem que alguém se meta com as suas propriedades.
-Você
não tinha como saber de tudo isso...
-É
mentira, por acaso?
Ela
calou-se.
-Eu
sabia. São coisas que se sabe, quando a gente ama e não é correspondido.
São coisas que se sabe e que se têm certeza, tão certo quando o conhecimento
da diferença da noite e do dia. O mistério da compreensão. Eu sabia.
E eu sabia que não tinha chance.
-Por
que você nunca tentou...
-Se
aproximar de você? Acredite em mim, eu tentaria. Eu era tímido como
uma raposa européia... e tentaria mesmo assim, com o coração
aos pulos... se acreditasse que tinha alguma chance. Mas eu e você
não ocupávamos o mesmo nível na hieraraquia dos relacionamentos.
Eu estava muito, muito abaixo. Os homens em geral só têm acesso às
mulheres de seu nível pra baixo.
-Você
está generalizando, e não teria como saber se não tentasse.
-Honestamente,
Lúcia: Eu tinha alguma chance? Você trocaria o bonitão mais velho
que fazia todas as suas amigas se morderem de inveja por alguém da
mesma idade que você e sem nenum atrativo especial? Pense em mim, naquela
época, e nele. Você trocaria?
-Eu...
eu não me lembro de você.
-Isso
encerra a questão.
Ela
calou-se. Não havia cobrança e nem acusação na voz dele. Tratava-se
apenas de estabelecer um fato. A partir daquele fato, talvez ela pudesse
compreender.
-Então,
depois da cerimônia terminar e eu, do outro lado da rua, assistir à
partida de vocês para a lua-de-mel no carrão dele, decidi que não
valia mais nada viver. Não me entenda mal. Não estou te culpando por
nada. Foi escolha minha e não acho que você tivesse ou tenha hoje
alguma obrigação comigo. Não senti raiva de você... de sua escolha,
sim, mas não de você. Apenas achei que viver seria insuportável dali
para a diante.
Ela
estava atenta. A expectativa do fim da história já surgira nela. Passara
de medrosa a levemente interessada.
-Meu
pai guardava um revólver carregado. Eu tomei ele da gaveta no dia seguinte
e vim para cá, sem contar pra ninguém. Para esta casa, que era uma
ruína na época, na qual eu nunca tivera coragem de entrar quando criança.
Escolhi este lugar porque era um no qual eu sabia que ninguém me procuraria...
então eu tirei a arma do bolso, engatilhei-a e coloquei-a sobre um
caixote quebrado. Não atirei naquele momento. Não sei porque. Estava
decidido a morrer, não tenha dúvida, mas por alguma razão, decidi
esperar a noite. Talvez fosse romantismo, mas talvez eu soubesse, intuitivamente,
que deveria esperar alguma coisa grande acontecer. Talvez não uma coisa
boa, mas uma coisa grande. E aconteceu. O Sol caminhou e as sombras
se moveram. O dia passou, eu não comi e nem bebi nada. Chegou a noite
e eu ouvi ruídos na casa. Estivera contemplando o revólver na última
meia-hora. Havia acabado de apontá-lo para a cabeça... quando os ruídos
começaram.
-E
o que eram? – ela acabara de passar para ansiosa. Levemente interessada,
para ansiosa.
-Uma
luta. Uma jovem. Uma menina da nossa idade, gritava, gemia e implorava.
Havia uma voz áspera de homem também. Que às vezes xingava e às
vezes dava gargalhadas. Havia barulho de trastes rolando pelo chão
e som de bofetadas. Vinham do andar de baixo.
-E
você?
-Desci...
cauteloso e curioso. Certo de que veria uma cena revoltante. E, de fato,
uma jovem de longos cabelos negros, bonita e triste como a vida, estava
deitada de costas no chão, usando um longo e recatado vestido, que
agora estava sendo rasgado sem piedade pela mão esquerda do homem.
O homem era um quarentão bêbado, fedendo a cigarro e falta de banho,
que estava debruçados sobre ela, prendendo contra o chão seus dois
pulsos só com a mão direita. Ela olhou para mim com um olhar de súplica.
Aquele corpo era fantástico, sabe? Eu sei que deve ser sadismo, mas
ver aquela pele branca se revelar sob os rasgos do vestido e as formas
voluptuosas que ela tinha, junto com aquele rosto inocente, meigo e
desesperado, me fez ter uma ereção na mesma hora... mas então olhei
para o rosto nojento do homem, com a língua de fora e um sorriso de
hiena, já levando a mão ao zíper da calça. Ele nem notara minha
chegada, tão concentrado estava na barbaridade que estava prestes a
cometer... e eu o odiei. Odiei cada homem prepotente e sádico que tinha
o que eu jamais teria... e jamais terei.
Ela
curvou-se para a frente. Ele se ergueu, vitorioso. Ela fora pega. Ele
a cativara. Prosseguiu, então:
-Corri
até ele e desferi um chute no seu rosto que o fez sair de cima dela
e tomei distância, escondendo o revólver atrás do corpo. Queria dar
a mim mesmo um motivo, por isso não o ameacei. Era um resquiciozinho
hipócrita de ética e moral. Ele se levantou bufando e correu em minha
direção, armado com um gargalo de garrafa apanhado às pressas no
chão. Apontei a arma. Antes de disparar, não vi nenhum remorso em
seus olhos... só arrependimento e medo. Um arrependimento egoísta,
pelo fato de ter dado errado, apenas, e um medo das conseqüências,
sem nem um resquício de culpa. Disparei uma, duas, três vezes. Acho
que pelo menos uma bala já o atingira neste estágio, pois ele escorregou
e caiu de costas no chão. Dei dois passos pra frente, ele estava coberto
de sangue da garganta até o peito... e esvaziei o revólver naquele
farrapo humano caído. Quando terminei, ele parecia apenas um boneco
de carne, muito parecido com um ser humano, mas não era mais meu semelhante.
Neste momento, uma voz soou atrás de mim: “Que heróico! Que nobre!”,
mas eram palavras ditas num tom de desprezo e irritação. E mal me
dera conta de que, no meio da briga, a garota sumira. Quando ele se
levantara e tentara me atingir, devia ter tropeçado nela, mas nós
dois agíramos como se ela não existisse. E, de fato, ela estava agora
atrás de mim, se aproximando a passos lentos, de uma distância que
eu não a vira cobrir. Tinha o vestido esfarrapado que ia terminando
de rasgar e expondo o corpo. Os olhos estavam carregados de fúria...
“Vai mentir pra si mesmo, salvador do dia? Ou vai admitir que quer
a mesma coisa que ele queria? Vem pegar, então! Juro que não vou correr!”.
Eu caminhei pra ela, como se estivesse... hipnotizado. Mas, mesmo assim,
era verdade. Eu queria muito agarrar aquelas carnes bonitas e generosas.
Ela era bem isso: voluptuosa. Não era gorda ou grandalhona, mas tinha
seios grandes e naturais, quadris que tornavam impossível andar sem
rebolar e coxas grossas e musculosas... lábios bem mais vermelhos que
o normal, sem uso de maquiagem nenhuma. Quando abracei ela e comecei
a beijá-la ansioso, descobri que ela era fria. Gelada como alguém
depois de uma chuva, e era um verão bem quente aquele. No entanto,
foi o mais perto que eu cheguei de fazer amor com uma mulher. E aqueles
lábios vermelhos se abriram num esgar de ódio e revelaram... bem...
você sabe o quê. Antes de enterrar as presas em mim, ela disse: “Eu
queria uma coisa dele... e iria conseguir. E preferia mil vezes tomar
dele do que de ti.” , disse ela, me condenando por eu ter interferido,
afinal, eu acabara de estragar a sua comida, que devia ter lhe
dado algum trabalho atrair, tentei escapar, mas ela me dominava completamente,
com a força de um lutador de wrestling, jogou-me no chão e disse,
“Mas eu não posso continuar com fome. Você não merecia... mas eu
também não”.
Silêncio.
-E
então? – perguntou Lúcia, sobressaltada com o final súbito da narrativa.
-Então
eu morri. Ela roubou toda a vida que havia em mim. No entanto, mesmo
morto, eu voltei.
-Como...
como foi?
-A
princípio, depois que o prazer bizarro de ter aquela boca carnuda rasgando
minha garganta passou, depois que a dor, a náusea e a tontura da hemorragia
passaram, depois que tudo esfriou e se acalmou, e eu não vi, nem ouvi,
nem senti mais nada, foi como se eu mergulhasse num lago escuro e profundo,
caindo de costas para um abismo sem fim. Sem luz. Sem dor. Sem remorso.
Sem mágoa. Sem medo. Descanso. Apenas isso. Sono e paz. Talvez houvesse
algo mais além, mas tudo o que eu sentia era... sono e paz.
-Isso
é a morte?
-Não
sei. Pode ter sido só delírio. Ou parte da morte... se eu tivesse
visto tudo, acho que não me deixariam voltar.
-Quem
não deixaria?
Ele
deu de ombros. Não sabia. Aquilo parecia ser só mais uma certeza intuitiva.
-Só
sei que o sono durou pouco, e comecei a ter pesadelos ainda antes de
acordar. Pesadelos de verdade, confusos, surreais, sem sentido e apavorantes...
com uma única diferença... eram bem mais intensos que o normal. E...
eu não quero entrar em detalhes... mas dava pra ver em cada um deles
tudo o que tinha dado errado em minha vida, ou tudo o que eu amava e
tinha perdido. E, no maior de todos, estava você, partindo para uma
floresta escura, num carrão barulhento, presa por uma coleira ao fundo
do carro e a cabeça debruçada sobre o colo de Antônio Donatto, chorando
e sendo obrigada a fazer você sabe o que, enquanto ele dirigia com
uma mão e com a outra te dava chibatadas na bunda.
-Que
horror! – a expressão fora de nojo e raiva. E ofensa. Como ele se
atrevia a dizer aquelas coisas? Por um momento, ele pareceu apenas um
moleque atrevido e ela esqueceu que deveria ter medo dele.
-Posso
garantir, Lúcia, que este sonho foi extremamente desagradável para
mim. Não me causou prazer nenhum ver aquilo. Aliás, foi tão,
mas tão desagradável que foi o que me acordou, como muitos
pesadelos são capazes de fazer. Um pesadelo sobrenatural pode acordar
a gente do mais sobrenatural dos sonos.
Depois
de dizer aquilo, ele se sentou novamente.
-Acordei
sobre uma mesa gelada, sentindo dor, frio e fome. Mas a dor foi só
por um instante, no local onde ela me cravara os dentes... e então
sumiu. No mesmo instante em que sumiu, o homem que havia diante de mim
arregalou os olhos de exclamação... e eu vi a máscara que ele usava
se mexer com o ar que ele puxava para gritar... mas eu não lhe dei
tempo nenhum. Acho que nem pensei no que estava fazendo. No momento
seguinte, antes de receber o primeiro golpe de bisturi, eu estava debruçado
e nu sobre o legista, tomando dele o que a belíssima morena tomara
de mim. Me levantei aliviado... e horrorizado também. A gente assiste
muitos filmes desse tipo de coisa. Acho que fica tão ligado com a fantasia
que é ainda mais impossível acreditar. Insensibiliza... no entanto,
o cheiro de formol, o silêncio sepulcral do necrotério e o fato de
que eu fora recolhido como indigente por engano eram inegáveis... assim
como o cadáver seco que havia a minha frente. Eu estava sozinho, sabia
disso também... não sei como, mas sabia. Por puro instinto, vesti
as roupas do cadáver e joguei-o no forno de cremação... para partes
velhas e inaproveitáveis. Não era um forno funerário normal, de forma
que eu tive que despedaçá-lo antes e... quer mais vinho?
Ela
estendeu o cálice. Ele serviu-a, solícito, e prosseguiu.
-O
vigia, salas e salas depois, me tomou por um estudante qualquer. Eu
levava a maleta comigo. Caminhei por algum tempo e, quando a aurora
se aproximava, senti um medo terrível e impossível de explicar...
corri como um louco por refúgio... no meio da corrida, eu já não
tinha mais o mesmo corpo... me transformara em...
Parou
por um instante.
-Você
saberá logo. O fato é que cheguei aqui, no local de minha “morte”...
e dormi aqui o mais profundo dos sonhos. Com o tempo descobri o que
eu era... não podia ver minha própria sombra... posso ver minha imagem
em um espelho, mas ninguém mais pode além de mim, o que levou várias
pessoas a se apavorarem, pois eu não tive o cuidado necessário...
em vão procurei a mulher que fizera aquilo, apenas para ouvir falar
através de boatos e rumores sobre uma misteriosa garota que aparecia
no cemitério em noites de chuva forte... e entrava num ônibus, que
levava para o inferno quem a acompanhasse. Muita coisa devia ser fantasia,
mas não sei quanto... quando finalmente deixei de agir por instinto
e comecei a pensar novamente, compreendendo racionalmente o que me acontecera,
eu decidi investigar... e, juntando lendas e relatos, alguns deles colhidos
de bocas de vítimas assustadas com a proximidade da morte nos meus
dentes, descobri que ela morrera. Ao que parecia, uma de suas vítimas
dera sorte e, antes de morrer, enfiara uma lasca de madeira em seu coração.
Comecei a tomar cuidado com estacas, então... isto foi há cinco anos.
-E
nunca viu mais nenhum?
-Ouvi
coisas que talvez queiram dizer que haja mais um nesta cidade... mas
não posso saber nem nunca o vi... acho que é só um boato. Além disso,
eu vou viver por muito tempo... creio que, inevitavelmente, vou morrer,
todos morrem, tudo morre, só muda o como. Mas antes disso, se houver
mais algum no mundo, há muito tempo para nos cruzarmos. Por ora...
a vida que eu levo é solitária... não há nenhuma Irmandade Secreta
dos Vampiros que eu conheça. Já cheguei a pensar que posso ser o último...
o sobrevivente de uma lenda cada vez mais desacreditada e banalizada.
Esta existência, meu amor, é mais terrível por este motivo... solidão.
Não há glamour e sedução, como alguns gostam de imaginar. Uma pessoa
sem sombra e sem reflexo estragaria qualquer festa... não tenho com
quem conversar, exceto por alguns bate-papos ocasionais, a maioria terminando
com a morte do interlocutor... como costumo escolher gente da pior espécie,
são conversas horríveis. E, sim, há certos limites que me são impostos.
Nunca me deixei apanhar pelo Sol, e não sei se ele de fato me transformaria
em cinzas, mas nutro verdadeiro horror por ele. Cada madrugada
eu preciso correr de volta para cá, para este lugar onde eu fui criado,
e me refugiar num canto escuro... para passar o tempo, com dinheiro
de vítimas e coisas roubadas tornei ele mais confortável. Quando posso,
quando a fome não exige ação, passo muito tempo lendo ou ouvindo
música. Tudo o que tem aqui funciona a bateria, porque não há corrente
elétrica...
Só
então ela percebeu que o que havia nos lustres eram velas. Não apenas
a sala do funeral, como tudo ali era iluminado por velas posicionadas
em lampiões, lustres ou candelabros. E estavam todas acesas. Provavelmente
uma cortesia destinada a ela... já que ele provavelmente podia ver
no escuro.
-E
conseguir estas coisas não é tão fácil, já que, mesmo que eu possa
me esgueirar por qualquer canto... não posso entrar em locais sagrados.
-Como
Igrejas?
-Como
lares, como corpos alheios tratados com auto-estima, como escolas onde
um professor dedicado trabalha, como o hospital onde há um médico
que não seja cínico, como um campo onde um casal de adolescentes se
sente seguro para amar... tudo aquilo que alguém individualmente ou
como parte de um grupo, considera seu templo, seu local de refúgio,
me é proibido invadir. Igrejas também, mas somente as poucas que têm
ainda sacerdotes sinceros. Eu preciso ser arrastado pra dentro, ou convidado,
e, por isso, não entrei em sua casa.
-Eu
odeio a minha casa...
-Claro
que odeia! Acha que eu estava falando de você? A vontade que me manteve
fora foi a dele, pois ele considera sagrado tudo o que possui, e o símbolo
da posse, na mente dele, é a casa confortável e bem-protegida que
ele criou para enjaulá-la.
-Quer
dizer que você não pode me fazer mal... só porque ele não quer?
– perguntou, insultada, Lúcia.
-Eu
não posso lhe fazer mal... porque eu a amo. Você é uma pessoa, e
não pode ser convertida numa coisa... a menos que se submeta voluntariamente
a isso. Mas meu amor faz de você o meu solo sagrado. Que
eu não posso adentrar... sem um convite seu.
-Quando
você ameaçou beber meu sangue...
-Eu
blefei. Mas foi apenas para que você me escutasse até aqui.
-E...
por quê?
-Porque
apenas se passaram oito anos e eu comecei a me enfastiar da vida...
a idéia de me matar, agora, me parece impossível, impensável, horrenda.
E, no entanto, a minha vida está pior do que jamais esteve. A solidão
que sinto não é apenas física... é espiritual. Não há criaturas
iguais a mim. É como se eu fosse um estranho no ninho... um peixe fora
d’água... uma coisa errada na paisagem, porque não tenho com quem
me identificar. É como ser preto e branco num filme colorido. Não
posso ter amigos, da mesma forma que você não pode estabelecer ligação
emocional com pedaços de bife. Sei que não vou me matar. Acho que
é outro limite de minha existência, meu fim virá por outras mãos,
necessariamente, como nas histórias mais antigas. Mas antes que ele
chegue... eu tenho medo de ficar louco.
Ela
suspendeu a respiração.
-Eu
comecei a escutar vozes suaves... primeiro em minha cabeça, e depois
nas sombras atrás de mim. Às vezes elas falam quando estou matando
alguém. Elas me instigam a fazer coisas. Coisas ruins. Eu sei que mesmo
que eu declare guerra à humanidade inteira e passe uma eternidade causando-lhe
mal eu não vou fazer nem uma mínima parte do que ela já faz a si
própria... mas eu não quero me ver ficando louco, perdendo completamente
o juízo, uma morte espiritual mil vezes pior que a morte física. Eu
não tenho remorso e nem culpa com o que eu faço, porque preciso fazer,
mas... se eu começar a fazer por prazer, e mais do que o necessário,
aí vai ser bem diferente. Não acho que eu vou me importar quando e
se isso acontecer... mas eu me importo agora, e quero evitar isso.
Ela
se levantou, devagar e trêmula, novamente.
-Eu
acho que, se eu me livrar da solidão... se houver outro como eu...
isso pode ser evitado.
Ela
tremeu mais, e tentou falar em outra coisa:
-E
todas as outras pessoas... elas deveriam ter virado... vamp... vampir...
-É
difícil de dizer essa palavra numa conversa séria sobre o assunto
– ele sorriu – elas não levantaram, nenhuma de minhas vítimas.
Sabe por quê? Por uma das duas seguintes razões: ou simplesmente não
quiseram, ou então eu opus minha vontade às que eu achava que queriam.
Acho que, para isso acontecer, é necessário que haja um motivo forte
que prenda a pessoa aqui, neste mundo, com pelo menos parte da mente
e da alma que tinha antes voltada para isso... ou então que seja chamada
por quem a vitimou, ou que, pelo menos, ela não se oponha, caso a pessoa
queira voltar. Acho que foi isso que aconteceu comigo... eu tinha uma
grande paixão aqui... fui mordido por uma vampira e abandonado sem
que ela me desse qualquer importância ou estivesse pensando se eu voltaria
ou não... o que me fez voltar foi...
-Eu...
quero ir pra casa... por favor!
-Eu
não posso te impedir, meu amor... mas lembre-se de que o verdadeiro
monstro em sua vida não sou eu. Aquele homem monstruoso tirou de
você o que você tinha de mais precioso... eu me lembro de como você
era impetuosa, inteligente, cheia de fogo... eu não posso te restituir
o fogo que ele roubou. Mas posso lhe dar algo novo... e se houve aí
alguma coisa escondida da garota que eu amei quando vivi, talvez esse
algo desperte. Você pode ir para a jaula que chama de casa... e sabe
o que vai encontrar lá. Solidão, tristeza, humilhação e... velhice.
Uma velhice amarga, carregada de arrependimento. E, então, quando você
olhar para as jovens dos tempos vindouros, você as invejará e pode
chegar a odiá-las, pelo que elas ainda têm e você desperdiçou ao
lado da pessoa errada. Quer ser isso? Uma velha rancorosa e frustrada?
Ou tem a fantasia sinistra de que as coisas vão melhorar por mágica?
Ela
não disse nada. Apenas derramou silenciosas lágrimas e caminhou para
a saída. Ele não tentou detê-la. Observou-a pelas costas. Ela caminhou
sozinha até a entrada, passou pelo caixão que olhou com indiferença
e viu que a porta estava aberta e o portão, lá fora, também. E todo
o mundo exterior pareceu uma ilusão e um pesadelo.
Parou
junto a porta. As lágrimas teimavam em continuar saindo. Era uma decisão
difícil... era escolher entre o péssimo e o mortalmente horrível.
No
entanto... o péssimo tinha suas possibilidades. E, se nada mais houvesse
a esperar ou desejar da vida, ela sabia que, conforme ele dissera, ela
apenas morreria.
Virou-se
para a entrada e perguntou, para as sombras da casa:
-Você
me ama?
A
resposta foi rápida. Ela se viu imersa em névoa e desfalecendo, antes
que pudesse dizer ou pensar outra coisa, enquanto brilhavam, à frente
dela, duas chamas verdes. A dor no pescoço foi rápida e, em seguida,
veio um prazer estranho, intenso e assustador, misturado com um medo
tão horrível que só não era pior que uma única experiência em
toda a sua vida.
Sua
noite de núpcias.
IV
O
despertar foi súbito. Súbito como nenhum despertar poderia ser. Não
havia lembrança de sonho, como acontecera para ele, nem mesmo aquele
vago torpor que há logo após o sono, mesmo para os que tem mais prontidão
ao acordar.
Era
como se ela sempre tivesse estado ali, deitada sobre aquele caixão.
Como se aquele fosse o primeiro instante de sua vida e antes não houvesse...
nada. As lembranças mais recentes ainda existiam, mas pareciam vindas
da vida de outra pessoa. As lembranças mais antigas, da primeira parte
de sua vida, até o casamento, eram mais nítidas, mas eram como a vida
de um herói ou ídolo favorito. Alguém que ela admirava, mas sabia
que não poderia ser. E ela sentia nitidamente que não era mais nenhuma
das duas.
Levantou-se.
Percebeu que mover o próprio corpo não demandava esforço nenhum...
não precisava se apoiar sobre uma perna, ou então forçar os músculos.
Cada parte dela tinha uma força de movimento própria, se desejasse
que seus ombros saíssem dali, pareceria ter sido puxada por uma corda
atada neles.
Era
leve. Era extremamente leve. E a maioria das sensações eram vagas.
Os sentidos de seu corpo estavam ali, mas não lhe causavam a mesma
emoção de antes. Era como estar realmente morto, era como ter apenas
as informações, os fatos básicos... abaixo de mim está o chão,
acima o teto, à minha frente um espelho. Nada de especial ou de realmente
significativo nisso. Não sentia calor, nem frio. Não estava claro
demais ou escuro demais. Sua visão seria sempre perfeita. Seu senso
de orientação, também. Seria possível sentir dor?
Sentia-se
tão vazia que se perguntou o que a trouxera de volta... e soube. Queria
justamente aquilo... se reciclar... se transformar em outra coisa. Em
algo, ainda que horrível, que soubesse amar.
O
espelho colocado diante dos pés do caixão – o mesmo caixão de antes,
que sempro fora para ela – era um artefato estranho, munido de um
relógio de ponteiros acima do vidro, e neste vidro estava escrito com
alguma tinta vermelha.
Você tem até o amanhecer para fazer
sua primeira vítima,
Se não conseguir, você morrerá,
já vi acontecer antes,
Num pequeno acidente que, por pouco,
não transformou
Um torturador num de NÓS...
Sempre Seu,
Daniel
Ela
riu. Riu alto. Riu estridentemente. Ele era tão bom, tão esperto e
tão sensível... um verdadeiro cavalheiro. E sabia que ela poderia
ter desistido se soubesse que teria de tomar uma decisão rápida. A
antiga Lúcia-esposa teria, é claro. Aquela mulher que havia ali, porém,
era feita de material melhor.
E,
na imagem que somente ela podia ver, uma aparência melhor, também.
Nunca mais haveria equimoses naquele corpo.
O
relógio marcava dez e meia da noite.
Meia
hora depois, o dr. Antonio Donatto ainda tentava convencer os policiais
de que sua mulher, sumida há três dias, havia sido seqüestrada. Eles
o olhavam com desconfiança... umas investigações superficiais haviam
deixado bem claro o que acontecia naquela casa. Era algo que, às vezes,
resultava em morte.
Eles
desconfiavam. Ele sabia disso. E sabia que eles tinham razão em desconfiar,
embora isto não lhe trouxesse nenhuma angústia em si. Mas ele ficava
perturbado com o dano que aquilo poderia causar a sua carreira e...
ora, bolas! Ele não matara a mulher! Ela fugira, é claro! Tivera a
audácia de fugir! Ele era inocente.
Chegou
a meia-noite e ele estava sozinho. Achava que iria passar mais uma noite
em claro, tentando imaginar para onde ela fora... com quem ela fugira...
que detalhe quanto à segurança das suas coisas ele deixara escapar...
Suas
coisas...
Quando
foi meia-noite e um no relógio digital da mesinha da sala, a campainha
soou. Ele correu pensando que era a polícia de novo, fantasiando que
diriam: “Encontramos a vadia esfaqueada e já apodrecendo. Foi feito
pelo amante dela. Prendemos a cara. Não se preocupe, doutor Antônio,
você é inocente. Não há nada pra se preocupar.”
A
porta aberta, porém, revelou que, do outro lado da grade, havia uma
bela dama de negro. Ruiva, pálida, esguia e de maliciosos olhos verdes.
Com um sorriso irônico de quem está se divertindo muito de uma piada
que entendeu sozinha.
-Posso
entrar, senhor meu marido?
Só
então, piscando e contemplando por mais alguns segundos, ele reconheceu
Lúcia. Certo, ela estava diferente, mas nada que ele não pudesse corrigir
imediatamente.
-Se
pode entrar?! Já pra dentro, sua... sua vagabunda! Vai ter que...
A
porta se fechou ruidosamente na sua cara. Ele piscou de surpresa. Ela
estava atrás dele, sentada sobre uma poltrona, tamborilando os dedos
no braço, olhando-o fixamente com o mesmo sorriso cheio de malícia.
-Sua
cadela! Tá querendo brincar? Depois da sova, você vai explicar pra
mim, e então pra polícia o que...
Tomou-a
pelo braço e puxou-a, pondo-a em pé, preparando a outra mão para
a bofetada, mas se conteve. Porque o puxão havia sido violento demais.
Tão violento que agora ela estava no teto. Com as palmas e as solas
dos pés descalços viradas para trás, isto é... para cima!
Onde ela se grudava como uma mulher-aranha calma e infalível. Cujos
cabelos cor de fogo se esparramavam sobre os ombros, imunes à lei da
gravidade.
Os
olhos dele se esbugalharam e o mijo lhe escorreu pela calça enquanto
o grito que ele queria desesperadamente dar se evolava da boca na forma
de ganidos.
-Perdão,
único homem da minha vida, vou explicar sim, meu senhor amado. Mas,
como você disse... vai ser depois da sova.
Então
ele abriu a boca para gritar... e correu. Correu para seu quarto. Ela
correu atrás dele. Rastejando pelo teto. Poderia ter pulado à sua
frente assim que quisesse, mas, na verdade, queria saborear o momento.
Ele
entrou e trancou a porta. Se agarrou a ela, chorando. Disse numa voz
efeminada e submissa.
-Amorzinho...
vamos... vamos conversar?
-Bu!
Dessa
vez, ele gritou. Ela estava dentro do quarto. Em pé, sobre a cama dele.
Só
então, só depois desse primeiro grito, ela o agrediu. Agarrou o seu
braço e o torceu, quebrando ossos com um estalo. Ele se ajoelhou, enquanto
o grito ia de grave a um agudo covarde.
-Você
vai ser a minha putinha boazinha! Minha putinha boazinha!
Chamá-lo
assim era uma brincadeira mórbida... ele já havia se referido a ela
nestes termos e em outros equivalentes.
Deu
um soco em seu rosto. Depois outro e outro. Não deu o quarto porque,
mesmo sem querer, aumentara a força demais, e não queria matá-lo.
Chutou o estômago, e depois os testículos. Ele vomitou sem reagir.
Ele não reagia. Estava completamente paralisado. Muito mais que pela
superioridade física do outro... por medo. Exatamente como a mulher
que ela fora, algum tempo atrás.
Puxou
os cabelos dele para trás, deitou-o no chão e montou em suas costas,
aproximou a boca do ouvido dele e murmurou.
-O
que você é?
-Putinha
boazinha... uma putinha boazinha...
-Se
gritar como uma menina de novo, eu te perdôo, meu homem.
Ele
deu o grito mais desesperado, apavorado, agudo e covarde que havia dentro
dele. Mas era apenas isso... covardia. A mesma covardia que tornava
possível as surras. Não havia remorso. Não havia culpa. Mesmo assim,
ela o perdoou. Ele era um homem fraco e pequeno agora, e não podia
mais lhe fazer nenhum mal.
No
entanto, não podia correr riscos.
Beijou
o seu ouvido e disse, com sinceridade:
-Desculpe
se eu me excedi, mas você mereceu... descanse em paz.
Ele
quis gritar de novo que não era justo – mas, apesar de sua supervalorizada
formação universitária, Antônio tinha a mesma noção de justiça
que a maioria das pessoas comuns. Justo é o que me traz beneficios,
injusto é o que me prejudica. Visto isso sem nenhum paradoxo.
Porém,
reflexões sobre a justiça não importaram tanto naquele momento, porque
o que levou as presas de Lúcia à garganta de seu antigo marido não
foi desejo de justiça, e nem sequer sede de vingança, que já fora
devidamente saciada. Foi a fome. A compreensão do que Daniel dissera
quando se referia à palavra necessidade.
Daniel
estava ali quando ela terminou sua refeição. Ele se abaixou e esmagou
o coração, na cavidade seca do peito do cadáver, com uma única mão.
-Para
ter certeza...
Os
dois se olharam. Ela estava coberta de sangue do lábio inferior até
o colo. Seu vestido estava amarrotado e seus cabelos desgrenhados selvagemente.
Seus olhos eram chamas ainda mais brilhantes que os dele. E ela tremia
convulsivamente, sacudida por espasmos de um prazer horrendamente belo.
-Você
está linda – disse ele languidamente.
Seu
sorriso se abriu antes que ela parasse de tremer, e ela derramou lágrimas
vermelhas pelas faces estendendo as mãos para ele. Somente depois de
oito anos ouvira aquela frase novamente, dita cara a cara.
Não
havia mais medo, em nenhum dos dois.
Finalmente,
após anos de espera, horror e ansiedade, a libertação viera. Para
ambos e com igual doçura. Partiram dali, juntos e livres.
Habitada
agora apenas por um cadáver irreconhecível, a casa mais segura da
vizinhança, se por arte deles ou do destino não se sabe, incendiou-se
na mesma noite. E nada do que havia lá sobreviveu.
Muitos
da vizinhança afirmam ter ouvido ou visto, pouco antes do incêndio
começar, um casal estranho caminhando pela rua, rindo satisfeitos e
brincando, como dois namorados, dir-se-ia dois jovens colegiais, sem
nenhum respeito pelo sono alheio e nenhuma vergonha de suas gargalhadas
e beijos, mas que ninguém jamais vira antes por ali, naquele bairro
tranqüilo, muito menos em alta madrugada. Eram descritos como jovens
e trajando preto. Por alguma razão desconhecida, ninguém teve coragem
de lhes dirigir a palavra ou de sair a rua. As justificativas variavam,
mas o medo que surgira de ambos, apesar de seu temperamento jovial,
era invariável e, no fundo, inexplicável. Uma dona de casa, que esperava
o marido voltar de uma reunião em sua empresa acordada diante da televisão,
disse que ouvira a parte feminina do casal dizer uma frase na rua, a
única parte inteligível de seu suposto diálogo que ficou registrada:
-Agora
sei que você me ama... porque amar é libertar.
A
isto seguiu-se um instante de silêncio solene e um suspiro da parte
masculina, segundo alguns de temperamento mais sensível e imaginação
mais fértil, um ruflar duplo de asas, desacompanhado de qualquer tipo
de voz humana, encerrou por fim a cena que faziam na rua.
Depois
disso, veio um silêncio que só foi efetivamente rompido alguns minutos
depois pelas sirenes dos carros de bombeiros. Nenhum vestígio restara
dos apaixonados e não fossem alguns mais desinibidos comentarem sua
presença, ao sol da manhã todos os que os haviam percebido teriam
acreditado que havia sido apenas um sonho individual, e com o tempo,
seria esquecido.
Embora
tenham sobrevivido como lenda e parte incompreensível de um crime insolúvel,
ninguém nunca mais os viu pessoalmente.
Ou,
se viu, calou-se para sempre.
(Observação do autor: permite-se visualização gratuita, mas
não cópias)