AS ROSAS DE MINHA MÃEAUTOR: CRETCHU.
AS ROSAS
DE MINHA MÃE
Por: Cretchu
Quando
a primeira rosa nasceu no assoalho da casa de Ivan Bongiorno, pensou-se
tratar de algo dentro da normalidade, inclusive porque o proprietário
era um homem que se destacava por seu pensamento analítico e eivado
de quaisquer interferências mágicas ou transcendentais. Todas as explicações
para todos os fenômenos estavam no interior daquela brilhante cabeça
emoldurada por alinhados cabelos brancos. Não era muito prudente desafiar
a visão de mundo do respeitado promotor público Ivan Bongiorno. Quem
ousasse cometer tal iniqüidade, perante tão grave personagem, seria
rotulado logo de provinciano, o que não era um adjetivo muito apreciado
naquela cidade do interior de Minas Gerais, com seus dez mil habitantes.
Porém, ninguém levou em consideração que uma rosa rompera o assoalho,
uma rosa vermelha com seu talo verde repleto de acúleos e com folhas
também verdes, exibindo-se no centro do salão de festas da casa que
recebia tantas personalidades ilustres deste Brasil afora.
A
primeira atitude de Ivan Bongiorno, que impediu que se fotografasse
o fenômeno, foi mandar cortar a rosa. Um pedreiro de poucas letras,
enquanto bebia uma cachaça com o jardineiro encarregado da honrosa
missão, argumentou, com aquele profissional, se não seria melhor quebrar
todo o assoalho e verificar o que havia no solo para provocar o brotar
da rosa. O jardineiro ouviu as ponderações do pedreiro e, no dia seguinte,
compareceu ao gabinete da promotoria, no Fórum local, para contar o
ocorrido a Ivan Bongiorno. O pedreiro foi chamado, incontinenti, à
presença do ofendido promotor, onde foi obrigado a se desculpar por
sua intromissão em assuntos que não lhe diziam o menor respeito, e
do qual não deveria opinar com sua compreensão estúpida de analfabeto
ignorante.
Pois
a rosa foi cortada e jogada no lixo, e naquele dia ninguém mais se
atreveu a fazer coro com as afirmações do infeliz pedreiro. No entanto,
novos acontecimentos se juntariam àquele estranho fenômeno, e o comportamento
de Ivan Bongiorno, este grande jurista de mente científica, iria ficar
cada vez mais estranho. Tão estranho quanto aquele, o de mandar apenas
cortar uma rosa que irrompeu no assoalho de sua casa, sem investigar
a fundo o que provocara o fenômeno.
Estou
vendo que você, meu velho amigo... Sim, devo chamar você de velho
amigo, porque nós nem bem nos conhecemos, e você acolheu meu humilde
pedido de me pagar uma pinga. Por acaso eu sou o único a pedir um negócio
destes a você? Você paga uma pinga a qualquer um que lhe pede? Claro
que não. Se você aceitou me pagar uma pinga, é porque nós somos
velhos amigos, embora não saibamos como. Mas pode ficar sossegado que
já estou lhe devolvendo a gentileza, contando esta história absolutamente
verídica.
Pois
bem, vejo que você concorda que Ivan Bongiorno deveria investigar o
que causara aquele fenômeno estranho. Uma rosa brotou no assoalho de
sua casa. Já imaginou a grossura do assoalho? Nem o pedreiro que questionou
a atitude do promotor deve ter pensado o quanto o assoalho era firme
e grosso. Pois uma rosa irrompeu pelo assoalho. Segundo o jardineiro,
não fez qualquer estrago. Esquisito, não? Se ainda fosse uma mangueira...
Pois isto não foi mais esquisito que o comportamento de Ivan Bongiorno.
Ele deveria, sim, mandar apurar os fatos. Mas não fez isto porque,
no fundo, sabia o que provocou o nascimento daquela rosa. O homem mais
tecnicista de todo o Universo começava a ser importunado por fantasmas.
E vou contar o porquê.
De
início, aquela casa enorme de Ivan Bongiorno não existia. No lugar,
estava um grande terreno que ocupávamos eu e minha mãe, desde a época
em que eu nasci e que meu pai desaparecera no mundo. Tínhamos um barraco
no fundo do terreno, feito de taipa e amianto, que era muito quente
no verão e muito frio no inverno, e dentro do barraco o ar não circulava
muito. Na frente do barraco ficava o quintal, dando para a rua. O quintal
era todo tomado por rosas vermelhas, ficando uma réstia de caminho
por onde passávamos da rua ao barraco. Estas rosas eram cultivadas
por minha mãe, com todo o carinho, desde que mudamos para lá, e minha
mãe as vendia na cidade e para pessoas de outra localidade. Delas tirávamos
nosso sustento, que era pouco, mas o suficiente para não morrermos
de fome, ainda mais porque não tínhamos outros parentes naquela cidade.
Ninguém
da cidade bulia com as rosas de minha mãe, mesmo à noite e apesar
da cerca de bambu que não agüentava nada. Nas cidades do interior
de Minas há um certo respeito que nunca deixa de existir, mas que se
omite para ceder seu lugar ao temor. Assim, a solidariedade comum nos
povos do interior fica prejudicada com a arbitrariedade cometida por
autoridades constituídas pelo próprio povo. Desculpe tirar do bolso
o meu sociologismo de botequim, mas foi assim que eu vi o que aconteceu
comigo e com minha mãe, quando Ivan Bongiorno chegou na cidade. Porque
parece que aquele respeito todo deixou de existir, quando o promotor
começou a agir contra nós. Bom, na verdade ele continuou existindo,
pois as pessoas ficaram consternadas, mas mesmo assim acataram as determinações
de Ivan Bongiorno, seja para nos tirar daquele lugar, seja para não
reagirem quando nos tiravam daquele lugar.
Pois
eu estava com onze anos na época, e estudava na quarta série, sendo
que nas horas vagas eu ficava ajudando minha mãe a cuidar das rosas
e a vendê-las. Como eu disse, morávamos num barraco, ou seja, pobremente,
tirando nosso sustento da venda das rosas. Ninguém nos incomodava,
e nós não incomodávamos ninguém. Eu sabia que havia uma vida financeira
melhor, se me aliasse ao crime, visto ser menor de idade e ter pouca
instrução, seja em nossa cidade, seja em cidades maiores. Mas preferia
levar minha vida pobre, estudando e trabalhando, acreditando que no
futuro eu poderia teɲ uma vida mais digna com honestidade. Foi nesta
época que Ivan Bongiorno chegou na cidade, tomando posse no lugar do
antigo promotor de Justiça, que foi para uma cidade maior.
Em
nossa cidade, havia uma regra seguida por todos os prefeitos, de que
a municipalidade deveria pagar os aluguéis do juiz, do promotor e do
delegado, pois os mesmos eram pessoas de fora que não tinham imóveis
na cidade. Bom, claro que os vencimentos destas personalidades era suficiente
para pagar um aluguel, e até para comprar casa. Acontece que nenhum
deles tinha interesse em comprar casa em nossa cidade, onde os imóveis
se valorizavam muito pouco, ou até nada. Quanto aos aluguéis, os prefeitos
argumentavam, ao longo de seus mandatos, que ficariam sob responsabilidade
da prefeitura porque estas pessoas eram indispensáveis à vida de nossa
cidade. Tinham toda razão quanto à indispensabilidade destas autoridades.
Entretanto, as casas ocupadas pelos juízes, promotores e delegados
que se sucediam em nossa cidade, eram sempre as mesmas e pertenciam
a pessoas poderosas que investiam pesado nas campanhas dos políticos
que se candidatavam em nosso município. Com a regra do pagamento de
aluguéis por parte da prefeitura, estes proprietários tinham assegurado
sua renda.
O
atual prefeito mantinha a regra, e Ivan Bongiorno, antes mesmo de conhecer
nossa cidade, já sabia desta benesse. Quando aportou em nossa cidade,
foi recebido como herói por pessoas que nunca o viram antes, e se acomodou
na casa que fora ocupada pelo promotor que o antecedera. Ele impressionava
por seu porte atlético, homem muito alto e que, apesar de jovem, já
possuía a cabeleira toda branca, mantendo bem alinhados todos os fios
de cabelos. Mas Ivan Bongiorno começou a questionar a extensão desta
regra, alegando que ela poderia se tornar mais flexível. Argumentava
Ivan Bongiorno que a casa onde morava era simples demais, que ele era
um homem da sociedade, que conhecia e recebia tudo quanto era Vip do
Brasil e do mundo, que tinha uma grande biblioteca, e por aí afora.
Assim, necessitava de uma casa melhor e mais espaçosa.
A
primeira reação do proprietário da casa onde estava morando Ivan
Bongiorno foi de irritação. Ele alugava a casa para promotores há
mais de vinte anos, tendo uma renda garantida pela prefeitura, e perderia
esta renda por causa dos caprichos do novo promotor. Mas o prefeito
tratou de tranqüilizá-lo, prometendo que, assim que o promotor se
mudasse, a prefeitura alugaria sua casa para nela instalar um posto
de saúde, aumentando, também, o valor do aluguel. O proprietário
ficou satisfeito com a solução, e até ajudou os funcionários da
prefeitura a buscarem uma nova residência para Ivan Bongiorno, preferencialmente
dentre os imóveis de propriedade das pessoas que investiam nas campanhas
políticas dos candidatos da cidade.
Procuraram
durante vários dias, mostrando o resultado para Ivan Bongiorno. O promotor
vistoriava o imóvel encontrado e, com um raciocínio que buscava ser
cientificamente neutro, reprovava a residência. Várias eram as teses
levantadas pelo promotor. Até as crianças das escolas municipais eram
convocadas a procurar casa para o promotor, com promessa de que a turma
que conseguisse encontrar uma residência ideal poderia visitar o Fórum.
Ora, qualquer pessoa devidamente trajada pode visitar o Fórum, mas
vai explicar isto para as pessoas humildes do interior de Minas. Logo,
visitar o Fórum era um prêmio que enchia de satisfação a todas as
crianças e a seus orgulhosos pais. Fique sabendo que a minha turma
se engajou nessa missão, e eu participei ativamente. Mas Ivan Bongiorno
continuava a reprovar todos os imóveis encontrados, sempre com seu
raciocínio lógico.
Até
que num domingo de muito calor, Ivan Bongiorno vinha de carro com sua
mulher, voltando de um almoço na churrascaria de um hotel fazenda perto
de nossa cidade, quando passou em frente à nossa casa. A primeira reação
de Ivan Bongiorno foi de prazer, ao ver rosas tão bem cuidadas. Parou
seu carro, enquanto sua mulher lhe dizia que daquelas rosas saiu o ramalhete
com que foram presenteados quando de sua chegada. Ali morava a mais
famosa vendedora de rosas de toda a região. Mas Ivan Bongiorno viu
mais que a beleza do quintal. Também viu mais que o barraco onde morávamos.
Enquanto problemas e hipóteses vinham à mente de Ivan Bongiorno, minha
mãe saiu no quintal, ficando a postos, acreditando que eram compradores
de rosas. De fato, Ivan Bongiorno se aproximou mais um pouco e, para
concluir as ponderações que faziam para si próprio, encomendou um
buquê de rosas para sua mulher. Minha mãe escolheu as melhores rosas
do jardim, impressionada pela estampa do comprador, principalmente por
seus belos cabelos brancos. Entregou-as a Ivan Bongiorno, que logo as
repassou para sua mulher. Esta cena romântica se desenrolou no tempo
exato para que o promotor concluísse que, se não encontrara a casa
certa para residir, encontrou o lugar preciso para construí-la.
Naquele
domingo mesmo, Ivan Bongiorno telefonou para o prefeito, solicitando
informações sobre o local. O prefeito replicou que lá residia uma
pobre mulher, com seu filho menor, e que ambos viviam pobremente, mas
com dignidade, vendendo as rosas que a mulher cultivava. Ivan Bongiorno
foi claro, dizendo que os dois deveriam ser desalojados, e que naquele
lugar deveria ser construída a sua residência. O prefeito ainda tentou
resistir, mas o promotor começou a discorrer sobre irregularidades
administrativas que poderiam vir à tona numa provável ação civil
pública. Mesmo não sabendo quais irregularidades eram estas, o prefeito
acatou a vontade de Ivan Bongiorno.
No
dia seguinte, ainda de manhã, minha mãe recebeu uma notificação
da prefeitura para que deixássemos o local onde residíamos. Dizia
a notificação que aquele terreno pertencia ao município, e que sua
ocupação era ilegal. Tínhamos trinta dias para nos retirarmos dali.
Minha mãe procurou um advogado e conseguiu ganhar tempo com uma ação
que anulou a notificação da prefeitura, mas logo chegou uma outra,
desta vez judicial, determinando o mesmo prazo para nos retirarmos do
local onde residíamos. Afirmava o juiz, mediante requerimento do município,
que a posse era precária, sem justo título. Nosso advogado tentou
transformar a ocupação em usucapião, mas sua petição foi indeferida
por haver sido distribuída após a notificação. Diante da atitude
do advogado, Ivan Bongiorno em pessoa compareceu ao seu escritório
e, após arrumar seus cabelos brancos, ameaçou processá-lo por litigância
de má-fé. Minha mãe e eu não sabíamos o que era isto, mas o advogado
sabia e não voltou mais a defender nossos interesses.
Apesar
da notificação, e do prazo que já estava correndo, minha mãe resistiu,
permanecendo no lugar onde morávamos. Vendia cada vez menos rosas para
as pessoas de nossa cidade, que evitavam até passar pelo local. Mas
Ivan Bongiorno costumava aparecer por lá, a fim de pressionar minha
mãe. Uma vez, ele foi com sua mulher e um engenheiro, e passaram pela
cerca de bambu, sem se anunciarem, olhando todo o terreno e determinando
onde seria construída a casa. Minha mãe os enxotou, e pela primeira
vez eu vi os cabelos brancos de Ivan Bongiorno ficarem desalinhados.
Da calçada em frente à nossa casa, Ivan Bongiorno ajeitou os cabelos
brancos e sorriu malicioso. Ele, sua mulher e o engenheiro entraram
no carro e partiram.
Passaram-se
os trinta dias, e ninguém nos incomodou. Minha mãe e eu achamos que
Ivan Bongiorno havia mudado de idéia, e ficamos mais tranqüilos. Só
que alguns dias depois, chegou um oficial de justiça, com um papel,
dizendo que era uma liminar para que desocupássemos o terreno. Corremos
até o advogado, e ele disse que não poderíamos desobedecer à ordem
judicial, mas que iria contestar a ação. Voltamos para casa desolados
e começamos a arrumar nossos objetos pessoais. Coloquei nossa televisão
dentro de uma caixa de papelão. Logo apareceu um caminhão da prefeitura,
que levou nossas coisas para um terreno abandonado, na saída da cidade.
Neste terreno não havia sequer um barraco, e para morarmos lá teríamos
que ficar debaixo de uma árvore, quando fizesse sol ou quando chovesse,
e à noite teríamos que estender uma lona sobre nossa cama.
Minha
mãe foi até a prefeitura, enquanto eu fiquei esperando no nosso barraco,
ponderar com o prefeito de que não tínhamos condições de morar naquele
lugar. O prefeito respondeu que o novo terreno era igual ao outro. Minha
mãe, então, pediu um prazo para replantar as rosas no novo terreno,
já que elas eram nosso sustento. Mais uma vez o prefeito se negou a
atender seu pedido, dizendo que iria arrancar as rosas em mais alguns
minutos. Aí sim, minha mãe ficou arrasada. É porque, na verdade,
ela tinha apreço pelas rosas não só porque estas rosas eram nosso
sustento, mas também porque as cultivava desde muito jovem, antes mesmo
de meu pai nos abandonar. Havia uma profunda relação entre o interesse
econômico e o apego sentimental, e minha mãe não suportaria ver a
destruição de suas rosas.
Quando
minha mãe chegou em casa, os funcionários da prefeitura, encarregados
de fazer a limpeza do terreno, já estavam a postos. Minha mãe foi
até o chefe e pediu para esperar um pouco mais, até resolver a ação
judicial. O chefe dos funcionários concordou, e os homens foram embora.
Minha mãe entrou no nosso barraco, sentou-se no chão e começou a
chorar. Ficava, hora e meia, balbuciando “minhas rosas”, enquanto
as lágrimas corriam por sua face. Eu a tranqüilizava, dizendo que
as rosas não seriam destruídas, porque, no final, nós ganharíamos
a ação. Foi quando ouvimos o caminhão da prefeitura voltando. Chegamos
até a porta. De fato, eram os mesmos funcionários que estiveram no
local. Só que Ivan Bongiorno acabava de estacionar seu carro atrás
do caminhão da prefeitura. Ivan Bongiorno desceu, irritado, acompanhado
de dois policiais militares. O chefe dos funcionários veio até minha
mãe e explicou que, quando relatou ao prefeito que não limpara o terreno,
o prefeito ligou para o promotor. Pois Ivan Bongiorno ameaçou botar
todo mundo na cadeia, caso a limpeza do terreno não fosse efetuada.
Os funcionários entraram com suas ferramentas e máquinas, derrubando
nossa cerca de bambu. As primeiras rosas foram sendo esmagadas, para
depois serem retiradas pela raiz e jogadas no caminhão de lixo, que
também chegara. Minha mãe tentou segurar um dos funcionários, mas
foi impedida pelos dois policiais militares que acompanhavam Ivan Bongiorno.
Eles a algemaram e a arrastaram até o caminhão da prefeitura. Jogaram
minha mãe dentro do caminhão. Eu também fui forçado a entrar no
caminhão. Enquanto nos levávamos para o terreno onde deveríamos morar,
eu pude ver as últimas rosas de minha mãe serem destruídas.
Aquele
dia foi muito duro para nós. Fazia um calor terrível, e não conseguíamos
nos refrescar mesmo debaixo de uma árvore. Minha mãe só ficava chorando.
Parecia até que não se incomodava com o calor. Deixei de ir à escola,
aquele dia, para lhe fazer companhia. Quando caiu a noite, minha mãe
caminhou para fora do terreno, em direção à cidade. Parecia sonâmbula,
mas eu sabia que não era, pois sequer havia adormecido. Eu a acompanhei.
Chegamos até o local onde havíamos morado. Não havia nem uma pétala
de rosa. Nosso barraco também fora derrubado, tendo seus destroços
sido removidos. Minha mãe olhou em volta e disse apenas “minhas rosas”,
caindo no chão. Estava morta.
A
prefeitura cuidou do enterro de minha mãe. O mais estranho era que
até então fizera um calor insuportável, não chovia há meses, mas
na hora do enterro de minha mãe, caiu uma chuva fina. Fiquei alguns
minutos diante da sepultura de minha mãe, que estava sendo regada pela
chuva fina. No dia seguinte, tornei a encontrar Ivan Bongiorno, desta
vez em seu gabinete. Sem me olhar, mas fazendo um comentário de que
sua casa estava começando a ser construída, o promotor ajeitou seus
cabelos brancos e determinou que, como eu não tinha parentes na cidade,
fosse mandado para uma creche. Vivi nessa creche até o desenrolar final
dessa história, que passo a contar.
Em
poucos meses a casa de Ivan Bongiorno ficou pronta. A prefeitura arcou
com as despesas, o que deixou muita gente indignada, mas nada foi feito
para impedir. Para inaugurar sua nova residência, Ivan Bongiorno convidou
todas as pessoas ilustres da cidade, bem como juristas, políticos e
empresários de todo o país. Foi a maior festa de recepção ocorrida
em nossa pequena cidade. Nesta noite eu passei por lá, e pude ver,
pelo lado de fora, a suntuosidade da casa. Ela estava construída no
meio do terreno, ficando a parte dos fundos como área para um churrasco
ou uma recepção importante. O que também chamava a atenção, é
que não tinha uma flor, nem gramado, nem nada. Comentou-se, inclusive,
que Ivan Bongiorno proibia sua mulher de ter até flores em vasos.
E
assim, o tempo passou. Um ano após a morte de minha mãe, surgiu a
notícia da rosa que brotara na sala da casa de Ivan Bongiorno. Várias
pessoas associaram este fato à minha mãe, mas não falaram às claras
com medo de serem vistas como supersticiosas. O jardineiro contou que
não tivera dificuldade nenhuma em cortar aquela rosa, o que era mais
estranho ainda, pois deveria ser uma rosa muito forte para irromper
pelo assoalho. Mas Ivan Bongiorno colocou uma pedra no assunto, e todos
se calaram. Ele vinha demonstrando como era rigoroso e eficiente em
sua profissão, e ninguém queria desafiá-lo.
Ocorre
que, numa noite, poucos dias após o incidente, Ivan Bongiorno se preparava
para dormir, quando teve uma surpresa. Ao entrar no banheiro, viu uma
rosa brotando do chão. Sem pensar duas vezes, pegou uma tesoura e ele
mesmo cortou a rosa. Então percebeu que, no chão embaixo do chuveiro,
estava um caroço. Bateu no caroço com a tesoura, e o piso cedeu como
se estivesse podre, revelando um botão de rosa. Neste momento, ouviu
sua mulher gritar do quarto. Correu até lá, já assustado e, para
seu horror, pode ver várias rosas brotando do chão do quarto.
Desta
vez, Ivan Bongiorno não quis chamar o jardineiro. Resolveu ignorar
o assunto, enquanto várias rosas irrompiam pela sua casa. O sereno
jurista de mente científica começou a se alterar. Seus cabelos brancos
já não estavam tão alinhados como antes. Era muito comum vê-lo em
bares, durante a noite, bebendo. Já se comentavam suas gafes no Fórum,
que irritavam a todos os que lá trabalhavam. Criminosos confessos eram
postos em liberdade por falta de ação do promotor. A população já
estava inquieta. De várias partes do país chegavam fugitivos da justiça,
pois eles sabiam que nossa cidade não tinha um promotor capaz de enfrentá-los.
O delegado e o juiz bem que tentavam mantê-los na cadeia, mas advogados
astutos obtinham a liberdade dos criminosos, pois o promotor sequer
se dignara a pedir a prisão preventiva.
Com
o passar do tempo a situação foi piorando. A casa de Ivan Bongiorno
já estava toda tomada por rosas. Funcionários da secretaria de obras
da prefeitura vistoriaram o local e perceberam rachaduras profundas.
Logo, a construção foi condenada, porque oferecia riscos imediatos
de desabamento. Ivan Bongiorno foi avisado, mas se recusou a sair de
sua casa. Agora, ele só ficava lá. Um novo promotor até já chegara
para substituí-lo. Durante a noite, era comum ver Ivan Bongiorno com
uma tesoura tentando cortar as rosas. Ele chamou o jardineiro, que se
recusou a entrar na casa. Ivan Bongiorno ameaçou prendê-lo, mas o
jardineiro manteve sua posição. O jardineiro foi até um botequim,
onde encontrou o pedreiro que aconselhara um exame mais profundo, e
ambos beberam cachaça enquanto riam da loucura do promotor.
Quando
minha mãe ainda era viva, ela cuidava das rosas que se mantinham em
perfeito estado. Mas as rosas que nasciam pela casa de Ivan Bongiorno
não tinham a mesma aparência. Elas cresciam selvagens, enroscando-se
umas às outras. Já ocupavam toda a área, destruindo a churrasqueira
de tijolos. Dos cômodos da casa, poucos eram transitáveis. Ivan Bongiorno
e sua mulher dormiam num canto da sala, entre as rosas, espetando-se
constantemente. Esta situação tornou-se intolerável, e a mulher de
Ivan Bongiorno, por fim, o abandonou, voltando para sua cidade natal.
O promotor, mesmo assim, recusou-se a sair de sua casa. Do que restava
da varanda de sua casa, sob uma espécie de caramanchão feito de rosas,
gritava impropérios contra todos, esquecendo-se até de alinhar seus
cabelos brancos que agora caíam por sua testa como uma cachoeira.
Finalmente,
uma noite, eu estava deitado em minha cama, na creche para onde Ivan
Bongiorno me enviara, quando ouvi gritos e correria. Levantei-me e acompanhei
as pessoas que corriam. Cheguei até a casa de Ivan Bongiorno. As rosas
cresciam numa rapidez impressionante, enroscando-se como sempre. Ivan
Bongiorno estava parado, como sempre acontecia, na varanda de sua casa,
gritando contra todo mundo. Ameaçava prender a todos que ficassem ali
por perto, mas ninguém arredou pé. Em poucos minutos as rosas cresceram
ainda mais, derrubando completamente a casa de Ivan Bongiorno, que ficou
completamente encoberto. As rosas foram tomando todo o terreno onde
haviam crescido sob os cuidados de minha mãe. Eu ainda pude chegar
perto a tempo suficiente para ver alguns fios de cabelos brancos desaparecerem
num emaranhado de folhas e acúleos.
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