SÁBADO XIV

AUTOR: LUCIANO DE ALENCAR

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SÁBADO XIV

Autor: Luciano de Alencar

Eu não estava preparado para ver o que encontrei naquele porão. O relógio mostrava oito horas quando eu acordei ao som do telefone. Estava morrendo de sono, havia apenas três horas que fora dormir. Uma voz assustada me chamou para uma cena do crime, aos protestos ela me convenceu a ir. Falou que precisavam de um perito urgente, que era algo em demasia sinistro. A água fria do chuveiro parecia castigar meu corpo. Ainda com sono fui ao carro. O céu estava cinza, era uma manhã triste e fria. Havia poucas pessoas na rua. Havia algo de estranho naquela manhã, era como se as pessoas estivessem com medo de sair à rua e as que lá estavam tinham medo de permanecer. Eu, estranhamente e sem motivo, também estava com medo. O sol parecia mais distante e as nuvens mais negras. Não ouvia nenhum pássaro naquela manhã.

Não parecia haver nada de anormal naquela casa, mas engoli seco ao chegar perto. Um frio maior que o do dia percorreu minha espinha. Meu coração batia depressa, assustado, e eu não sabia o porquê. Muitos policiais estavam presentes, mas todos do lado de fora da casa. A maioria tremia e pareciam pálidos. Vi um vomitando e logo percebi que havia algo muito feio naquela casa, mas subestimei o quanto. Acostumado a autópsias e cadáveres eu não temi e o devia.

Ao abrir a porta da casa, me surpreendi. Esperava um cheiro funesto de decomposição, mas, ao contrário, senti cheiro de flores. Um perfume gostoso que nunca sentira antes. A casa estava impecável, não vi nada errado no primeiro e no segundo andar. O policial temeroso me guiou até a porta do porão e me avisou que lá embaixo estava feio. Geralmente alguém vai comigo a esses lugares, algum policial, mas aquele sumiu logo que abri a porta do porão. Imaginava centenas de coisas que podiam estar ali, mas nunca o que achei.

As escadas desciam muito. Estranhei. Deveriam ser uns seis ou sete metros de porão. Ao dar o último passo e achar o chão, molhei meu pé. A luz do porão era pouca e acendi uma lanterna. Arregalei os olhos ao ver que era sangue que me molhara. O porão devia ter uns duzentos metros quadrados, além dos seis ou sete de altura, e estava inteiramente coberto de sangue. Não era o sangue que fazia tremer, mas, ao ver que aquela piscina alcançava minha canela, logo pensei na quantidade de pessoas que seria necessário para encher. Não consegui nem calcular.

Eu fui andando pasmo pelo porão. O sangue no chão era viscoso e prendia meu pé ao caminhar. Conforme mexia meu pé na piscina, o sangue inteiro agitava-se trazendo a superfície alguma parte de um corpo. Um olho azul, alguns dedos, um pé... Os espirros de sangue na parede e marcas de luta nas caixas e móveis e nas paredes mostravam uma ação violenta. Eu tremia, não pelo horror da cena, mas por imaginar quem seria capaz de tudo isso. O cheiro de flores estava mais forte por cima de todo aquele sangue. O que diabos aconteceu naquela sexta?

A parede oposta à entrado do porão estava imaculada, achei estranho. Iluminando-a eu comecei a tremer cada vez mais. Bem ao topo, pregado em cruz, havia uma homem. Seu rosto contorcido de dor tinha uma expressão horrível, faltava-lhe o corpo do umbigo para baixo e seus órgãos internos penduravam-se nele às custas. Desse rombo, escorria um líquido transparente. Passei o dedo e o cheirei, flores. Caí de joelhos no sangue ao perder as forças nas pernas. Comecei a chorar sem parar, senti uma tristeza terrível que me abateu de repente. Chorei alto, por estar triste e sem saber o porquê.

Eu tinha que alcançar aquele homem pendurado. Então escalei as pedras soltas da parede do porão. A muito custo cheguei ao topo, quase caía. Quando me aproximei do prego que o prendia à parede, ele se vira de repente para mim com os olhos abertos. Acordei deitado no sangue, todo sujo. Levantei-me e o encarei lá em cima. Ele também me encarava. Uma inexplicável luz iluminou o porão inteiro. Na parede onde ele estava pendurado surgiu uma enorme cruz vermelha pintada nela. Ele estava no centro.

Ajoelhado, comecei a rezar. Algo me segurou pela boca fazendo-me calar e me ergueu do chão. Levou-me até o pendurado e me fez encarar em seus olhos. Uma terrível dor penetrou em minha cabeça, e tentava gritar, mas ainda tapavam-me a boca. Imagens, que sabia que eram da sexta-feira anterior, me açoitavam os olhos. Trinta homens e mulheres estavam naquela casa. Uma mulher desceu com um homem no porão. Sentiram o perfume de flores que escorria na parede e o cheiraram e beberam. Ao fazerem, começam a chorar e se abraçar e se beijar. Do beijo foram ao sexo e do sexo a mulher usou um machado para decapitá-lo e cortá-lo em pedacinhos. Ensangüentada, aparece à porta do porão e consegue atrair todos a ele com o cheiro do perfume. A orgia e a carnificina se seguiram. O último se matou com o mesmo machado.

A força me faz olhar para o lado e me mostra o último pregado à outra parede pelo machado. Tremia muito e ainda chorava. Agora forçado a ficar perto do pregado, ele se inclina e beija minha testa. Então, gentilmente, sou descido até o chão. O sangue no chão estava misturado ao perfume do pregado. Encarando-o percebo: um santo. Era um santo. Eu não estava preparado para ver o que encontrei naquele porão. Estava impuro. Peguei o machado despregando o defunto da parede e o manejei em direção à minha cabeça, mas aquela força o parou. O santo sorriu e sacudiu a cabeça. A cruz vermelha desapareceu junto com ele. Todo o resto continuava lá. Ainda tremia e chorava.

Com os olhos arregalados, todos me encaravam quando saí da casa. Coberto por perfume e sangue e chorando. Algo especial aconteceu naquela sexta-feira treze. O que o santo queria de mim? Alguém se aproximou e perguntou se eu estava bem. Pensei nisso. Estranhamente, apesar de triste, estava leve e tranqüilo. Nunca havia me sentido melhor em minha vida.

Fim

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