SANGUE E DESEJO
Fábio Alves.
Estávamos
todos reunidos ao redor do velho Oto, um exímio contador de histórias.
Nesta noite, ele nos prometera narrar uma história que envolvia sangue,
desejo e morte.
- Tudo
o que vou lhes narrar - principiou o contador de histórias -
aconteceu com Carlos, pai de família exemplar, homem honrado e respeitado
em toda Vila Verde, uma pacata cidade no interior de São Paulo.
'Ao nascer
da manhã, exatamente as seis e meia, Carlos começava o
seu ritual frenético. Levantava-se de sua cama já desgastada
pelo tempo, ia até a cozinha e lá beijava calorosamente
sua esposa, a amorosa Beth, companheira fiel de muitos anos sofridos.
Eles já haviam passado por maus bocados em suas vidas de casados.
Mas ela já o esperava com um largo sorriso e com o seu alimento
sagrado e diário de toda manhã.'
'Como funcionário
responsável e trabalhador que era, Carlos apressava-se para o seu trabalho
árduo e cansativo, mas que lhe oferecia o sustento familiar.
Mas, naquela manhã, ele teve uma surpresa: conheceria
a mulher que mudaria sua vida rotineira para sempre.'
'Tina era uma
mulher de quem jamais alguém poderia se esquecer.
Possuidora de um corpo escultural, ela tinha um sorriso angelical
que amansava qualquer fera. Tina despertou desejos no simples
Carlos. Desejos que ele e seu corpo, cansados pelo peso
dos dias, jamais tinham sentido.'
'Carlos tornou-se,
facilmente, amigo de Tina e entre eles cresceu um sentimento fervoroso.
Logo se tornam amantes insaciáveis. Carlos começou a chegar todo santo
dia atrasado em casa, coisa que jamais tinha ocorrido. A doce Beth começou
a desconfiar do seu fiel marido. Carlos omitia a existência de uma
amante, colocando a culpa no excesso de trabalho. Beth
se deu conta de que nem seu lar, nem seu casamento,
eram mais os mesmos, pois, onde reinava a verdade
e o amor, agora padecia com a invasão da mentira e da discórdia.
Formou-se, assim, um grande abismo entre o casal, que já fora
perfeito e invejado por toda cidade de Vila Verde.'
'Por morar
em um lugar pequeno, Beth descobriu a traição do marido e ameaçou
tudo contar para toda cidade, destruindo, assim, a fama
de casal perfeito. Assustado com tudo isso, Carlos planejou um
modo radical de acabar seu relacionamento amoroso com Tina. Idéias
malignas agora fluíam em sua mente, perturbada por ver
tudo aquilo que ele e sua querida Beth haviam construído - filhos,
família, casa, emprego - destruído por causa de uma vadia.'
'É evidente
que Tina não aceitou, de forma nenhuma, o fim do relacionamento.
Ameaçou propagar a experiência extraconjugal, que
mantiveram, por toda a cidade, já que Beth havia
descoberto a traição e ela não tinha mais nada a perder.
Carlos, enlouquecido pela ira, avançou assim como um louco assassino,
apertou com força o pescoço de Tina e a estrangulou até a
morte, vendo-a padecer, com o rosto congestionado, em seus braços.'
'Carlos não
possuía nenhum sentimento verdadeiro por Tina. Para ele, ela
não passava de uma vadia, que só servia para realizar seus desejos
carnais.
'Naquela noite,
ele chegou em casa suado e cansado. Como não poderia ser diferente,
escondeu, da sua Beth, tudo que acontecera. Contou, apenas,
que agora estava tudo bem e que estava livre daquela mulher para sempre.
Mas ele mal sabia o que as trevas e uma alma apaixonada, cheia
de rancor, preparavam para ele.'
'O tempo foi
passando e Carlos, já perdoado pela mulher, voltou à
sua adorável vidinha. Mas, certa feita, chegando em casa,
ele procurou Beth e descobriu mudanças na esposa. De
uma simples e afetuosa dona de casa religiosa, ela passara a mulher
forte e voluntariosa. E, sobretudo, ardente amante na cama.'
'Em uma noite
fervorosa de sexo, ao invés do tradicional “eu te amo”, sempre
dito por Beth bem próximo aos seus ouvidos, ele escutou:
-Voltei pra
você, meu amor.”