O Santo
O
SANTO
Por
Luciano de Alencar
Larguei o emprego de legista depois daquilo. A imagem do Santo
pregado à parede e as imagens daquela sexta feira treze ainda
me perseguiam. A roupa que usava no sábado catorze ainda
cheirava ao perfume que escorria do Santo. Me encaro no espelho e
vejo a barba grande, os cabelos longos e despenteados, um trapo.
Quantos meses? Nem sei, perdi a noção do tempo.
Procurei em livros, internet e com alguns amigos o significado
daquilo. Fui expulso na igreja pelo padre quando ele não
entendeu a santificidade do homem pregado. Rezei por resposta. Mas
nada me vinha.
A impureza era lavada com a morte e a orgia celebrava o amor.
Era tão simples de entender, como ninguém entendia.
Talvez o Santo que tenha me feito entender. Pouco importa isso agora.
Ele tem algum plano para mim e preciso saber qual. Cheiro bem a roupa
daquele dia para sentir o perfume das flores. Quase como uma droga.
Me masturbo com o cheiro, me corto e me bato para me purificar e
rezo, rezo pelo Santo sem nome. Se ao menos ele mandasse uma
mensagem.
Perambulo pelo supermercado como um mendigo. Tento fazer as
contas para saber o quanto de dinheiro ainda me resta. Sem trabalhar
e com o aluguel, minhas economias não vão agüentar.
Eis que vejo, ao lado de um extintor de incêndio o machado. Ah!
Tão belo machado que purificou tantos. Começo a sentir
o cheiro de perfume em algumas pessoas e um cheiro fétido em
outras. Meu Santo! Agora entendo sua vontade! Com o machado às
mãos ataco o primeiro impuro. Alto, forte, orelhas raspadas,
um lutador de Jiu-Jitsu. Eu via seus crimes, seus pecados. Sim a
loira no motel, o tapa muito forte, a cabeça na quina da cama,
o sangue, tanto sangue! Impuro!
Com um único golpe sua cabeça voa e bate nos
vegetais os molhando de sangue. Próximo! O gerente! Pedófilo!
Ele grita alto e todo o supermercado desespera. Com um segundo golpe
ele cala. Próximo! O segurança! Estuprador! O machado
ficou preso na banha dele. Com força puxo abrindo-lhe a
barriga e derramando suas tripas no chão. Próximo! A
madame escondida atrás dos frios! Escravocrata, adultera! O
ouro em seu pescoço se esparrama com o sangue.
O supermercado coberto de sangue, as pessoas correndo
desesperadas para fora. O mercado quase vazio. Muitos impuros fugiram
e a polícia me cercou. Não! Eu não posso morrer!
Meu Santo ainda tem tarefa para mim. Procuro desesperadamente uma
saída! Não há saída! O Perfume! Eu vejo
entre as muitas cabeças a imagem do santo do lado de fora,
atrás da barreira policial. Ele me chama. Eu devo ir...
“Rodrigo Zappara da Cunha, ex-legista da polícia
civil, no que só pode ser descrito em um surto psicótico,
atacou dentro de um supermercado lotado com um machado de combate ao
incêndio as pessoas que ali estavam e matou 18, incluindo o
gerente, o segurança, e a esposa de Jaricó da Silva,
grande produtor rural. Após a polícia cercar o local,
Rodrigo investiu contra a barreira e foi alvejado várias vezes
antes de cair no chão. Ainda no chão, se arrastava
levando o machado no boca até, depois de outra saraivada de
balas, morrer. A polícia informa que antes de largar a
profissão, Rodrigo foi o legista que acompanhou o caso do
suicídio em massa que ocorreu em uma casa da região
nobre da cidade. Rodrigo Zappara da Cunha tinha 36 anos e não
tinha histórico de doença mental.” –
notícia do Jornal Federal.
Fim
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