OS SERES DO PORÃO

Autor: Paulo Soriano

Eric O Facínora estava de volta. E, naquela noite de inverno, nas cercanias do cais do porto do antigo Recife, estava  particularmente abalado. 

Prostrava-se  num nicho escuro  escavado entre as paredes de dois prédios antigos, que ainda se esforçavam em projetar as últimas  sombras do crepúsculo   sobre as pedras irregulares de uma ruela imunda. Dali,  Eric exultava por não poder ver, além dos sobrados,  a negra silhueta que se arremessava contra os  coágulos vermelhos do firmamento,  e que compunha o odioso  campanário da igreja de Nossa Senhora do Pilar.  Mas divisava  bem, e com prazer,  as paredes cancerosas dos trapiches,  que cheiravam a vômito e a urina,  e que logo estariam apinhadas de bêbados e prostitutas. 

O Facínora, já o disse, voltara mais angustiado do que nunca.  Estava sôfrego e impaciente. Em outras situações, deixaria para sair mais tarde, quando a noite estivesse alta.  Mas o retorno de Eric se deu em circunstâncias inusitadas.  O padre acabara de escutar a última confissão quando Eric chegou, desta vez mais cedo do que de costume. É evidente que o padre não sabia da chegada de Eric. Afinal, não o conhecia, nem desconfiava de sua existência. Mas Eric, e alguns outros companheiros que, a contragosto, moravam juntos no mesmo porão, conheciam o Padre Abel muito bem.  Muito bem mesmo.

Após sobrepujar os outros seres abissais, que também ansiavam por liberdade, O Facínora retornara. E viera  porque estava  louco  por voltar e por respirar um pouco da liberdade do mundo lá de  fora. E por cometer mais uma de suas travessuras, a quem os mais susceptíveis chamavam atrocidades.   E, enquanto espreitava o trapiche,  a partir das arestas de seu antro sombrio, sentia  o sangue refluir por sob a epiderme, alojando-se bem  no imo,  deixando a sua face mais pálida e fria que os raios colhidos da Lua;  ouvia o estalar  dos dedos  quando se alongavam  e se  curvavam para as palmas, como os  de um ancião tangido pela artrite;  ouvia o entrechoque dos dentes crescidos, pontiagudos,  amolados pelo punho de um artesão  cuidadoso e especialmente  talentoso.

Era nesse estado que Eric se punha a transpirar.  O sangue, recolhido no fundo da carne, dava-se a evaporar,  e Eric exsudava então aquelas   emanações mefíticas e sulfurosas, que o enevoavam,  e  deixavam a sua pele viscosa como a de uma serpente. Era aí que vinha a sede irresistível,  quase incontrolável. Uma sede doce e cruel.

Agora as prostitutas se achegavam às paredes do velho trapiche, muitas vindas da avenida Rio Branco.  O Facínora sabia muito bem que não podia aproximar-se delas.  O seu cheiro era percebido a distância, e a sua aparência, agora, percorria o  ápice  da hediondez.  Então esperou,  impacientemente.

Mas,  olha! Quem vinha lá?  Um homem alto, curvado como um caniço,  e cuja batina preta  era de um negro mais espesso que as sombras noturnas... O padre!  Por que não o padre? Por que não?

Os longos braços d’O Facínora se estenderam quando o padre passava, melancólico, à frente do  nicho. Arrebatou o clérigo  com magistral facilidade, como se a vítima fosse um boneco de pano, um espantalho de palha, talvez. O padre olhou para Eric como se o reconhecesse. Mas não teve tempo de gritar.  Nem mesmo pensar em abrigar-se  naquele a quem, todos os dias,  oferecia o sacrifício da eucaristia.  Porque agora o seu pescoço era cruelmente dilacerado, e o seu sangue, que jorrava pegajoso e doce,  era oferecido em holocausto ao mais cruciante dos seres hediondos  que habitavam o porão.  O tenebroso porão, onde o Senhor não entrava, mas onde havia muitas moradas.  A idéia do sacrilégio fazia Eric sorrir, expondo ao sereno os dentes ferozes.  Reviveu muitas vezes aquela profanação, o seu mais excelso triunfo.

Então, inebriado pelo êxtase, Eric resolveu voltar para o precipício.  Do vórtice do  abismo, onde vários seres se contorciam, ávidos de liberdade,  alguém queria sair e dominar, mas Eric foi mais rápido e não deixou que aflorasse.  Sustentou firme em todo trajeto de volta, mas chegou ainda dominante.  Abriu, cautelosamente, a  porta lateral da casa contígua à  igreja e entrou. Vigiou pelo postigo até certificar-se de que não fora seguido. Com gestos lentos e despreocupados, Eric despiu as roupas comuns que do pároco tomara de empréstimo, dobrando-as e guardando-as  com esmero. Vestiu então  a  batina  e deitou-se na  poltrona   onde o  Padre Abel costumava descansar.   Como que tomado por um torpor prazeroso, O Facínora  fechou os olhos e, dali mesmo,  escorregou  célere  para o porão do Padre Abel, onde os outros seres medonhos o receberiam com ódio e  inveja redobrados.  Deixou, enfim, que Abel retornasse adormecido à superfície clara e iridescente da alma. De novo imaterial, sorriria de prazer e satisfação no seu antro sombroso, imaginando  como o Padre Abel ficaria consternado ao saber da morte  terrível do confrade Lino,  a poucos quarteirões dali, quando  a caminho da igreja, para uma visita ocasional.

Obs.:

Obs.:

PUBLIQUE E LEIA AQUI O SEU COMENTÁRIO SOBRE ESTE CONTO