O sexto ano
Sei que a estória que vou contar pode
parecer uma lenda, destas contadas para amedrontrar jovens, mas
é tudo real.
Moro numa cidade que, de tão pequena,
quase não se encontra no mapa. Uma cidadezinha rural, onde o máximo
de pretensão que jovens como eu podem ter é se tornarem proprietários
de um bom pedaço de terra, terem mulher e uma grande quantidade de
filhos para perpetuarem seu nome. Tinha eu dezoito anos. E aquele não
era um ano normal, com suas costumeiras rotinas. Era o sexto ano, o
ano das oferendas de que eu tanto tinha ouvido falar, mas nunca participado.
Como tinha me tornado um adulto naquele ano, eu teria o privilégio
de participar dessa festividade tão cultuada pela cidade inteira. De
seis em seis anos, o povo da minha cidade cultuava a deusa Meríndia,
protetora das lavouras e da terra.
E eu estava excitado, à espera do
que me aguardava. Por ter nascido num ano sexto, minha participação
não seria de um simples coadjuvante. Eu teria um papel deveras grandioso,
seria coberto de honras. Receberia o respeito dos homens e o sorriso
das mulheres. Só de pensar nisso meu coração batia mais forte.
A cidade estava toda paramentada. As
pessoas usavam suas melhores roupas, como se fossem à missa de domingo.
Eu estava em casa sendo arrumado por minha mãe. Iria usar uma túnica
roxa, da cor dos cabelos da deusa. Minha mãe se debulhava em lágrimas,
dizendo o quanto tinha esperado por aquele momento. O meu orgulho não
cabia em mim. Prometi a ela que faria o meu melhor, apesar de ainda
não saber o que faria.
Esta era a primeira noite de agosto,
quando só os adultos participavam dos festejos. Era a tão esperada
noite da deusa, onde as oferendas seriam depositadas aos pés de sua
estátua erguida na floresta.
Quando saí de casa, todos estavam
lá, à minha espera. Os olhos deles tinham um brilho peculiar. Nunca
os tinha visto assim. Seus olhares eram uma mistura de malícia e crueldade
difícil de explicar. Mas logo eu iria entender.
Pediram-me para que sentasse numa liteira.
Eu seria carregado pelos homens. Aquilo tudo era tão irreal, como num
sonho. Fui transportado por entre a lavoura, enquanto as mulheres pronunciavam
palavras estranhas, quase como um cântico. E os homens, inexplicavelmente,
pareciam responder. Elas olhavam para mim como se eu fosse um deus,
ou pelo menos alguém muito importante. E aquele brilho estranho no
olhar persistia. Aliás, toda aquela situação tinha um ar onírico,
como um sonho onde você cruza os limites da realidade e não se dá
conta disso, ou pelo menos não se importa.
Chegamos até a entrada da floresta,
estávamos em cima do caminho que nos levaria até a estátua da deusa
Meríndia. Daquele ponto em diante, só os homens prosseguiriam.
Nós entramos floresta adentro. A lua irradiava do céu a sua luz, que
iluminava o caminho. Era noite de lua cheia. Comecei a sentir um certo
receio. O ar estava carregado de uma força inexorável. Todos os animais,
que tanto importunavam à noite, fizeram silêncio. No trajeto
até a estátua da deusa todos os homens se calaram, e seus rostos tornaram-se
graves, soturnos. Chegamos ao lugar onde seriam feitas as ofertas. Pude
vislumbrar a estátua da deusa que tanto atiçava minha imaginação.
Mas ela era diferente do que eu imaginava. Eu esperava uma deusa tão
linda quanto Vênus, mas o que estava diante de mim tinha um rosto carrancudo,
um corpo disforme, e um olhar que transmitia ferocidade, como um leão
prestes a abater sua presa.
Puseram a liteira no chão. Eu levantei-me.
Um senhor grisalho, o homem mais velho da cidade, e também o mais respeitado,
que carinhosamente chamávamos de “ancião”, disse a um dos homens:
-Vá buscar a oferenda.
Eu pensava que as oferendas estavam
na sacola que era trazida por eles. Pensava que seriam os frutos do
nosso trabalho. Mas estava enganado. O homem designado para buscar a
oferenda voltou com outro homem. Mas este outro usava um capuz e, apesar
de vir andando, seus passos eram vacilantes, como os de um bêbado.
Meu receio transformou-se em medo. Foi-lhe retirado o capuz. Era um
estranho, nunca o tinha visto. Pela roupa que usava parecia ser alguém
da cidade grande. Eu não entendia o porquê de um estranho estar participando
da cerimônia, já que o povo da minha cidade não encarava com bons
olhos o progresso, que para eles inutilizava o homem, trocando-o por
máquinas. E isto, para eles, era culpa do povo da cidade grande. Chegavam
a ser comparados com a serpente do jardim do éden.
O estranho foi depositado aos pés
da deusa. Eles abriram a sacola e então eu vi o que continha. Era uma
adaga. Já começava na minha cabeça o desenrolar desta teia em que
estava metido. O ancião a trouxe até a mim e me disse:
-Até então era de minha responsabilidade
o que irás fazer. E não tome minhas palavras como uma reclamação.
Fazia de bom grado, ciente do meu papel. Mas quando tu nascestes, teu
destino foi selado. Muitos dariam a vida para estar em teu lugar, de
terem a honra de serem escolhidos pela deusa para o papel que te compete.
Ele pôs a adaga na minha mão e continuou
a falar:
-Nascestes em um ano sexto. És o escolhido.
Há tempos esperávamos por essa dádiva. Há tempos esperávamos por
você.
Levou-me ao encontro do estranho, que
se mexia e proferia palavras sem sentido, chutou-lhe a cabeça e me
disse:
- É chegada a hora de te tornares
um homem, de te diferenciares dos demais. A deusa clama por sangue.
O sangue a deixará satisfeita, e ela protegerá nossas lavouras e fará
com que da terra provenha nosso sustento, como assim sempre o fez. Deixá-la
zangada, insatisfeita, seria a nossa ruína. Por que não dar o que
ela nos pede de seis em seis ano, se ela nos da em abundância todos
os anos o que precisamos?
Acho que dei a entender meu medo, pois
o ancião aproximou-se e disse baixinho:
-Entendo o teu medo. Também passei
por isso há anos, mas é chegada a hora, e tu não podes fraquejar.
Ele é só um estranho da cidade grande, mais um infiel que ri de nossas
crenças e polui nosso solo. Não devemos ter compaixão por este tipo
de ser.
Levantei a adaga, pronta para lhe desferir
o golpe. Eu iria matar um homem por cauda da minha crença, algo em
que sempre acreditei. Mas então, por que eu suava tanto? Por que considerava
aquilo assassinato? Por que sentia vontade de vomitar?
Todos olhavam para mim, sem entender
o porquê da minha demora. Eu retribuí o olhar, mas o olhar do ancião
era de raiva, impaciência. E tudo isso pude sentir quando ele gritou:
-AGORA!
Era a minha vida ou a do estranho.
Estaria disposto a suportar as consequências se eu me recusasse a matá-lo?
Eu pude sentir o deslizar da adaga
ao penetrar o pescoço dele. O sangue fluía da ferida, indo parar aos
pés da deusa. Definitivamente a resposta era não.
Aqui estou eu nesse estado lamentável,
considerando-me o pior dos vermes. O fato de ter matado alguém me agoniza,
e só a menção do próximo sexto ano me atemoriza. Ano que vem
é a minha vez novamente, para a minha tristeza. Rezo para que nasça
alguma criança ano que vem para lhe poder passar o cetro da minha desgraça.
Mas vai demorar, e enquanto isto eu me resigno, porque não estou preparado
para suportar as consequências da minha recusa.
FIM