SURVIVORS

AUTOR: SAYD DOUGLAS

400




Survivors.

SAYD DOUGLAS

Acordei hoje pela manhã com uma alegria imensa. Peguei uma caixinha preta que se encontrava em cima de minha escrivaninha e a abri. Nela continha uma aliança de noivado. Hoje, para mim, será um adia muito especial, quem sabe o melhor dia de toda a minha vida. Sim, pois, finalmente, irei pedir em casamento a mulher que para mim será a mãe de meus filhos e a mulher de minha vida. Mas hoje, sem eu saber, toda a minha alegria mudaria e se transformaria em ódio desespero, aflição, angustia... Só o que bastaria para acabar com o meu dia era um simples olhar pela janela. E ao fazê-lo, vi cenas que jamais sairiam da minha mente, e que se eu não fosse forte o suficiente, ficaria insano, louco, enfim nunca mais seria uma pessoa normal novamente. Ao olhar pela janela do meu quarto, vi corpos mutilados, sangue por toda parte, carros e casas em chamas, pessoas correndo e atacando umas as outras. Custou-se acreditar no que estava presenciando. Pensei comigo mesmo: “será isso o apocalipse? Será que chegou o dia do juízo final?”. Fiquei assim por um bom tempo, em estado de choque. Fui me reanimado novamente pelo barulho do telefone tocando.

Corri pelas escadas até a sala de estar e fui atendê-lo. Do outro lado da linha a voz se assemelhava a da minha namorada que em poucas horas seria minha esposa. O tom de sua voz parecia assustado.

    - Querido, estou com medo, na tinha mais pra ligar então...

    - Calma, querida. Acalme-se. O que esta acontecendo?- falei, confuso.

    - Não sei. Parece que todo mundo enlouqueceu. Estão se atacando, se digladiando. Estou assustada, liguei pros meus pais mais ninguém atende.

    - Onde você está?

    - Em casa. Ah não, querido, estão tentando entrar!

    - Quem esta tentando entrar ai? Responda querida.

    - Socorro!

A linha caiu. Nesse momento, não consegui mais pensar em nada. Minha mente só repetia a voz de minha amada pedindo por socorro. Sentei no chão, coloquei a mão em meu rosto, e, como por impulso, comecei a chorar. Não entendia o que estava acontecendo. Tudo era confuso. Chorei feito uma criança que acabara de nascer. De repente, escutei pancadas na porta. Levantei-me, ainda continuava assustado e com o rosto cheio de lagrima. Com a voz trêmula gritei.

    - Quem está ai? Vá embora. Estou aramado!

Quem ou o que estivesse do outro lado não me deu a mínima atenção. Ao contrário parecia que, depois de eu falar, aquilo que estava lá fora continuava mais e mais a bater na porta e com uma raiva ainda maior do que antes – “se continuar assim irá derrubar a porta em poucos minutos”, pensei comigo.

Tinha de fazer alguma coisa, afinal aquela era a minha casa. Corri e coloquei alguns móveis para evitar a abertura da porta – “É, isso será o suficiente para evitar a entra deste infeliz”, pensei comigo mesmo, um pouco mais calmo.

    - Saia. Vá embora ou chamo a policia! - gritei o mais alto de que pude.

Nada aconteceu. Ainda continuava escutando aquelas malditas pancadas na porta. Estava começando a me irritar com aquilo. Aos poucos fui me aproximando da porta. As batidas aumentavam à medida que me aproximava. Parecia que o quer que fosse sabia que eu estava me aproximando mais e mais da porta. Não sei explicar como. Mas, de algum modo, ele sabia. O fato é que, quando fiquei a uns poucos centímetros da porta o barulho cessou.

Ao chegar à porta, subi sobre os movéis que coloquei para evitar o arrombamento e encostei meu ouvido direito sobre ela, para escuta alguma coisa. Mas, em vez de escutar vozes, escutei gemidos, grunhidos, sons que saíam da garganta de alguma coisa, que com certeza não era e nem deveria ser humano. Ao olhar pelo olho-mágico, pude constatar minha certeza. Vi um ser inóspito, de pele putrefata. Sua roupa, ou o que sobrou dela, estava repleto de sangue, assim como seu corpo. Sua boca ainda continha restos de carne e muito sangue. O pavor com a cena que vi foi tal que acabei caindo de cima dos móveis e fui parar no chão. Não queria acreditar no que estava presenciando. Lembrei-me de meu revólver. Levantei-me rápido do chão e fui pegá-lo em meu quarto. Ainda continha nele algumas balas. No fundo, sabia que aquilo não seria o suficiente para matar aquelas criaturas caso conseguissem entrar em minha casa.

Como num estupor, escuto o barulho da porta sendo arrombada – “Droga, agora eles vão entrar e me matar; pensa, pensa, é talvez dê certo!”, pensei comigo. Peguei a caixinha preta que estava em cima da escrivaninha, que continha a aliança de noivado, e saí em disparada pelas escadas. Ao chegar no final dos degraus, pude ver criaturas iguais às que eu vi, entrando na minha casa feito loucas, pareciam que estavam atrás de mim, como se eu fosse o único ser na face da terra ou seu prato principal. Pude ver em suas faces o desejo por sangue e carne. Já que em seus corpos imundos só se viam tripas, pedaços de carnes e muito sangue. Corri o mais rápido que pude para a garagem. Cheguei a tempo de entrar no meu carro e ligá-lo – graças a Deus que costumo deixar a chaves do carro dentro dele. Foi só o suficiente, logo quando dei a partida seis dessas criaturas estavam ao redor do carro. Acelerei e saí em disparada, levando comigo a porta da garagem.

– Droga, tinha acabado de trocá-la - falei comigo mesmo, com um pouco de raiva, mas alegre.

Agora só o que passava pela minha mente era encontrar minha futura esposa e ir para um lugar seguro aonde enfim iria pedi-la em casamento. Droga, mas no que estou pensando, se o mundo estiver nesse estado a ultima coisa que se dar pra fazer é casar!

Estava a mais de 90 km/h, mesmo assim dava para ver nas ruas milhares dessas criaturas e pessoas fugindo delas. Tinha gente em cima de suas casas, desesperadas. Aquilo era o caos. “Mas o que raios aconteceu?”, pensei. Liguei o radio para saber o que estava acontecendo, e também para ouvir vozes humanas e tentar ter a certeza que ainda não estava sozinho no mundo com aquelas coisas. Nada, apenas chiados, não consegui sintonizar nenhuma freqüência. “ Deixa para lá, o importante agora é salvar minha namorada! Ela é a única coisa boa que me resta no mundo. Não posso perdê-la!”

Já era quase meio-dia. O tempo estava quente e abafado. Nesta altura, já dava para sentir o odor fétido dos cadáveres e do sangue apodrecendo ao sol. O caminho foi longo, mas finalmente cheguei ao meu destino tão esperado, a casa da minha amada. Ao chegar a casa dela, pude reparar que a porta estava aberta, parecia ter sido arrombada. Na situação em que estava não pude raciocinar direito, então do carro mesmo gritei.

    - Querida você está ai? Venha rápido. Estou aqui fora.

Ninguém respondeu. Fiquei alguns segundos esperando, na tentativa de escutar sua bela voz, mas ao em vez disso, escutei aqueles malditos gemidos, aqueles grunhidos. Tentei acalmar-me e não pensar no pior. Não consegui. Peguei meu revolver e saí do carro como um louco em direção a casa. Ao chegar à porta, vi minha amada com o telefone em uma das mãos, o seu corpo estava estirado no chão e aquelas malditas criaturas a estavam devorando, como se ela fosse um banquete. Naquele momento fiquei insano e de minha garganta soltei um grito tão alto que fez com que aquelas coisas tomassem um susto e, por impulso, viessem em minha direção. Não conseguia me mexer, não por medo, mas por ódio, angústia, raiva em ver minha amada naquela situação. Levantei meu braço direito que empunhava o meu revolver e o descarreguei loucamente naqueles monstros. De nada adiantou. Mesmo assim, ainda continuavam a vir em minha direção. Sem mais nada para fazer, joguei o revolver em um deles e cheguei a socar um, mas o instinto de sobrevivência foi maior. Vendo que não podia matá-los, corri o mais rápido que pude em direção ao meu carro; por infelicidade e desespero meu, havia milhares deles impedindo a passagem até meu velho Gol preto. Naquela altura, não tinha outra escolha, a única saída possível era tentar escapar a pé. E foi o que fiz.

Estava desesperado, já estava há alguns minutos correndo deles. Quando já estava pensando em desistir e entregar-me a eles, avistei uma loja de armas e munições. Consegui ver vultos do outro lado da janela. Não pensei duas vezes, reuni forças e corri o máximo que pude para a direção da loja. Chegando lá, gritei:

- Socorro. Deixe-me entrar, se não aqueles monstros vão me pegar. Por favor, me ajudem. Eu imploro!

Ninguém abriu a porta. As malditas criaturas já estavam se aproximando. Sem mais nada para fazer, caí exausto no chão e coloquei as minhas mãos sobre meu rosto, como se estivesse esperando o meu fim. “Pronto, não há mais nada a fazer, minha vida termina aqui, assim como meu sonho de se casar com minha amada”, pensei, já conformado.

Escuto tiros e corpos caindo ao chão. De súbito, a porta atrás de mim se abre e sou puxado para dentro da loja; a porta foi rapidamente fechada. Quando abro os meus olhos, vejo um cômodo repleto de armas e mais sete pessoas.

    - Oi. Você esta bem? -uma bela garota perguntou.

    - É. Acho que sim. Pensei que fosse morrer!

    - Calma. Você esta bem, agora! – ela falou com uma voz angelical. – Qual é o seu nome? O meu é Lane.

- Bom, o meu é Chris.

    - Oi, eu me chamo Scott. – Um menininho de aproximadamente uns nove anos de idade falou alegremente.

    - Oi, meu jovem, chamo-me Jorge. Não se preocupe, tudo ficará bem agora! – Um senhor que aparentava ser padre (pela batina) falou, tentando acalmar-me.

As outras quatro pessoas não se pronunciaram. Ficaram caladas e se retiraram do cômodo com cara de poucos amigos.

- Desculpa – a bela jovem falou, assim que saíram. – Não se preocupe, o problema não é com você.É que eles são assim mesmo. Sofreram maus bocados até chegarem aqui. O policial chama-se Smith e é o pai dos dois rapazes.

    - Como os rapazes se chamam?

- O de cabelo moicano chamasse Robert e é namorado da garota que se chama Prinscyla. O outro chamasse Jeff.

Pus a mão em meu bolso e retirei a caixinha preta. Olhei-a aliviado, pensei que a tinha perdido. Naquele momento era a única lembrança de minha amada. E a única coisa que me alegrava.

    - O que é isso? – perguntou Lane.

- Ah, é uma aliança de noivado. Iria dar para minha namorada hoje, isso se ela não tivesse sido morta por esses maldito! – Não agüentei e comecei a chorar.

- Calma, não precisa mais falar, esta tudo bem agora – ela falou tentando me confortar.

Neste momento, entrou uma pessoa que ainda não tinha visto. Ele empunhava um Rifle com mira.

- Deu sorte, garoto. Se eu não estivesse no telhado nessa hora, você ainda estaria lá fora sendo o almoço desses mortos vivos!

    - O quê? Eles são mortos vivos? – perguntei, afoito.

- Bom, é a única explicação razoável que tenho para aquelas monstruosidades. A propósito, chamo-me Clark e sou o dono desse Arsenal.

* * *

A noite caiu e tudo que se escutava pelas ruas eram gritos e aqueles malditos gemidos e grunhidos. No arsenal de Clark havia aproximadamente uns dez mil cartuchos de diferentes tipos de munições, desde de calibre oito até Rifles de mira com alta precisão, sem falar na diversidade de armas e acessórios. A dispensa estava cheia, bom, pelo menos por algum tempo. Como ele trabalhava e morava na loja, tinha espaço o suficiente para nos abrigar.

A noite para mim seria muito longa, ainda não tinha conseguido tirar da cabeça as imagens que vi, e provavelmente jamais irei esquecer. Resolvi subir até o telhado da loja, onde existia um tipo de varanda de onde se dava para ver toda a rua. Não sei ao certo quanto tempo fiquei ali. Apenas estava sentado e com os olhos voltados para o céu procurando por estrela.

Logo abaixo, milhares dessas criaturas estavam se aglomerando. Sentia medo, sentia angustia, medo, desespero e muitos outros sentimentos que não sei descrever. Vejo que somos sobreviventes, pelo menos alguns de nós, não de algum acidente, talvez fosse, mas tenho a certeza que merecemos isso, sim, devemos ter feito algo muito mal. Agora estamos pagando o preço.

De repente, o medo passa, começo a ter pensamentos, perguntas, imagino se algum dia vou amar novamente, se vou ter filhos ou se pelo menos vou conseguir dormir em paz. Mas uma coisa eu sei, essa noite vai demorar a passar!



Fim

Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.

veja nosso livro de visitas assine nosso livro de visitas

Todos os direitos reservados. Contos de terror, horror e fantasia escritos por Paulo Soriano e colaboradores.

Layout pronto por:
CONTOS GROTESCOS - www.contosdeterror.com.br - Desenvolvido e mantido por PAULO SORIANO