Survivors.
SAYD DOUGLAS
Acordei
hoje pela manhã com uma alegria imensa. Peguei uma caixinha preta que
se encontrava em cima de minha escrivaninha e a abri. Nela continha
uma aliança de noivado. Hoje, para mim, será um adia muito especial,
quem sabe o melhor dia de toda a minha vida. Sim, pois, finalmente,
irei pedir em casamento a mulher que para mim será a mãe de meus filhos
e a mulher de minha vida. Mas hoje, sem eu saber, toda a minha alegria
mudaria e se transformaria em ódio desespero, aflição, angustia...
Só o que bastaria para acabar com o meu dia era um simples olhar pela
janela. E ao fazê-lo, vi cenas que jamais sairiam da minha mente,
e que se eu não fosse forte o suficiente, ficaria insano, louco, enfim
nunca mais seria uma pessoa normal novamente. Ao olhar pela janela do
meu quarto, vi corpos mutilados, sangue por toda parte, carros e casas
em chamas, pessoas correndo e atacando umas as outras. Custou-se acreditar
no que estava presenciando. Pensei comigo mesmo: “será isso o apocalipse?
Será que chegou o dia do juízo final?”. Fiquei assim
por um bom tempo, em estado de choque. Fui me reanimado novamente pelo
barulho do telefone tocando.
Corri
pelas escadas até a sala de estar e fui atendê-lo. Do outro lado da
linha a voz se assemelhava a da minha namorada que em poucas horas seria
minha esposa. O tom de sua voz parecia assustado.
-
Querido, estou com medo, na tinha mais pra ligar então...
-
Calma, querida. Acalme-se. O que esta acontecendo?- falei,
confuso.
- Não
sei. Parece que todo mundo enlouqueceu. Estão se atacando, se
digladiando. Estou assustada, liguei pros meus pais mais ninguém atende.
-
Em casa. Ah não, querido, estão tentando entrar!
A
linha caiu. Nesse momento, não consegui mais pensar em nada.
Minha mente só repetia a voz de minha amada pedindo por socorro. Sentei
no chão, coloquei a mão em meu rosto, e, como por impulso, comecei
a chorar. Não entendia o que estava acontecendo. Tudo era confuso.
Chorei feito uma criança que acabara de nascer. De repente, escutei
pancadas na porta. Levantei-me, ainda continuava assustado e com o rosto
cheio de lagrima. Com a voz trêmula gritei.
Quem
ou o que estivesse do outro lado não me deu a mínima atenção. Ao
contrário parecia que, depois de eu falar, aquilo que estava lá fora
continuava mais e mais a bater na porta e com uma raiva ainda maior
do que antes – “se continuar assim irá derrubar a porta em poucos
minutos”, pensei comigo.
Tinha
de fazer alguma coisa, afinal aquela era a minha casa. Corri e coloquei
alguns móveis para evitar a abertura da porta – “É, isso será
o suficiente para evitar a entra deste infeliz”, pensei comigo mesmo,
um pouco mais calmo.
Nada
aconteceu. Ainda continuava escutando aquelas malditas pancadas na porta.
Estava começando a me irritar com aquilo. Aos poucos fui me aproximando
da porta. As batidas aumentavam à medida que me aproximava. Parecia
que o quer que fosse sabia que eu estava me aproximando mais e
mais da porta. Não sei explicar como. Mas, de algum modo, ele sabia.
O fato é que, quando fiquei a uns poucos centímetros da porta
o barulho cessou.
Ao
chegar à porta, subi sobre os movéis que coloquei para evitar o arrombamento
e encostei meu ouvido direito sobre ela, para escuta alguma coisa. Mas,
em vez de escutar vozes, escutei gemidos, grunhidos, sons que saíam
da garganta de alguma coisa, que com certeza não era e nem deveria
ser humano. Ao olhar pelo olho-mágico, pude constatar minha certeza.
Vi um ser inóspito, de pele putrefata. Sua roupa, ou o que sobrou dela,
estava repleto de sangue, assim como seu corpo. Sua boca ainda continha
restos de carne e muito sangue. O pavor com a cena que vi foi tal que
acabei caindo de cima dos móveis e fui parar no chão. Não queria
acreditar no que estava presenciando. Lembrei-me de meu revólver. Levantei-me
rápido do chão e fui pegá-lo em meu quarto. Ainda continha nele algumas
balas. No fundo, sabia que aquilo não seria o suficiente para matar
aquelas criaturas caso conseguissem entrar em minha casa.
Como
num estupor, escuto o barulho da porta sendo arrombada – “Droga,
agora eles vão entrar e me matar; pensa, pensa, é talvez dê
certo!”, pensei comigo. Peguei a caixinha preta que estava em cima
da escrivaninha, que continha a aliança de noivado, e saí em
disparada pelas escadas. Ao chegar no final dos degraus, pude
ver criaturas iguais às que eu vi, entrando na minha casa feito loucas,
pareciam que estavam atrás de mim, como se eu fosse o único ser na
face da terra ou seu prato principal. Pude ver em suas faces o desejo
por sangue e carne. Já que em seus corpos imundos só se viam
tripas, pedaços de carnes e muito sangue. Corri o mais rápido que
pude para a garagem. Cheguei a tempo de entrar no meu carro e ligá-lo
– graças a Deus que costumo deixar a chaves do carro dentro dele.
Foi só o suficiente, logo quando dei a partida seis dessas criaturas
estavam ao redor do carro. Acelerei e saí em disparada, levando
comigo a porta da garagem.
– Droga, tinha acabado de trocá-la - falei comigo mesmo, com um pouco
de raiva, mas alegre.
Agora
só o que passava pela minha mente era encontrar minha futura esposa
e ir para um lugar seguro aonde enfim iria pedi-la em casamento. Droga,
mas no que estou pensando, se o mundo estiver nesse estado a ultima
coisa que se dar pra fazer é casar!
Estava
a mais de 90 km/h, mesmo assim dava para ver nas ruas milhares dessas
criaturas e pessoas fugindo delas. Tinha gente em cima de suas casas,
desesperadas. Aquilo era o caos. “Mas o que raios aconteceu?”, pensei.
Liguei o radio para saber o que estava acontecendo, e também para ouvir
vozes humanas e tentar ter a certeza que ainda não estava sozinho no
mundo com aquelas coisas. Nada, apenas chiados, não consegui
sintonizar nenhuma freqüência. “ Deixa para lá, o importante agora
é salvar minha namorada! Ela é a única coisa boa que me resta no
mundo. Não posso perdê-la!”
Já
era quase meio-dia. O tempo estava quente e abafado. Nesta altura,
já dava para sentir o odor fétido dos cadáveres e do sangue apodrecendo
ao sol. O caminho foi longo, mas finalmente cheguei ao meu destino tão
esperado, a casa da minha amada. Ao chegar a casa dela, pude reparar
que a porta estava aberta, parecia ter sido arrombada. Na situação
em que estava não pude raciocinar direito, então do carro mesmo gritei.
Ninguém
respondeu. Fiquei alguns segundos esperando, na tentativa de escutar
sua bela voz, mas ao em vez disso, escutei aqueles malditos gemidos,
aqueles grunhidos. Tentei acalmar-me e não pensar no pior. Não consegui.
Peguei meu revolver e saí do carro como um louco em direção a casa.
Ao chegar à porta, vi minha amada com o telefone em uma das mãos,
o seu corpo estava estirado no chão e aquelas malditas criaturas a
estavam devorando, como se ela fosse um banquete. Naquele momento fiquei
insano e de minha garganta soltei um grito tão alto que fez com que
aquelas coisas tomassem um susto e, por impulso, viessem em minha
direção. Não conseguia me mexer, não por medo, mas por ódio, angústia,
raiva em ver minha amada naquela situação. Levantei meu braço direito
que empunhava o meu revolver e o descarreguei loucamente naqueles monstros.
De nada adiantou. Mesmo assim, ainda continuavam a vir em minha
direção. Sem mais nada para fazer, joguei o revolver em um deles e
cheguei a socar um, mas o instinto de sobrevivência foi maior. Vendo
que não podia matá-los, corri o mais rápido que pude em direção
ao meu carro; por infelicidade e desespero meu, havia milhares
deles impedindo a passagem até meu velho Gol preto. Naquela altura,
não tinha outra escolha, a única saída possível era tentar escapar
a pé. E foi o que fiz.
Estava
desesperado, já estava há alguns minutos correndo deles. Quando já
estava pensando em desistir e entregar-me a eles, avistei uma
loja de armas e munições. Consegui ver vultos do outro lado da janela.
Não pensei duas vezes, reuni forças e corri o máximo que pude
para a direção da loja. Chegando lá, gritei:
- Socorro. Deixe-me entrar,
se não aqueles monstros vão me pegar. Por favor, me ajudem. Eu imploro!
Ninguém
abriu a porta. As malditas criaturas já estavam se aproximando. Sem
mais nada para fazer, caí exausto no chão e coloquei as minhas
mãos sobre meu rosto, como se estivesse esperando o meu fim. “Pronto,
não há mais nada a fazer, minha vida termina aqui, assim como meu
sonho de se casar com minha amada”, pensei, já conformado.
Escuto
tiros e corpos caindo ao chão. De súbito, a porta atrás de
mim se abre e sou puxado para dentro da loja; a porta foi rapidamente
fechada. Quando abro os meus olhos, vejo um cômodo repleto de
armas e mais sete pessoas.
- Calma. Você esta
bem, agora! – ela falou com uma voz angelical. – Qual é o
seu nome? O meu é Lane.
- Bom,
o meu é Chris.
- Oi, eu me chamo
Scott. – Um menininho de aproximadamente uns nove anos de idade falou
alegremente.
- Oi, meu jovem,
chamo-me Jorge. Não se preocupe, tudo ficará bem agora! –
Um senhor que aparentava ser padre (pela batina) falou, tentando
acalmar-me.
As
outras quatro pessoas não se pronunciaram. Ficaram caladas e se retiraram
do cômodo com cara de poucos amigos.
- Desculpa – a bela
jovem falou, assim que saíram. – Não se preocupe, o
problema não é com você.É que eles são assim mesmo. Sofreram maus
bocados até chegarem aqui. O policial chama-se Smith e é o pai dos
dois rapazes.
- O de cabelo moicano
chamasse Robert e é namorado da garota que se chama Prinscyla. O outro
chamasse Jeff.
Pus
a mão em meu bolso e retirei a caixinha preta. Olhei-a aliviado, pensei
que a tinha perdido. Naquele momento era a única lembrança de minha
amada. E a única coisa que me alegrava.
- Ah,
é uma aliança de noivado. Iria dar para minha namorada hoje, isso
se ela não tivesse sido morta por esses maldito! – Não agüentei
e comecei a chorar.
- Calma, não precisa
mais falar, esta tudo bem agora – ela falou tentando me confortar.
Neste
momento, entrou uma pessoa que ainda não tinha visto. Ele empunhava
um Rifle com mira.
- Deu sorte, garoto.
Se eu não estivesse no telhado nessa hora, você ainda estaria
lá fora sendo o almoço desses mortos vivos!
- O quê? Eles são
mortos vivos? – perguntei, afoito.
- Bom, é a única explicação
razoável que tenho para aquelas monstruosidades. A propósito,
chamo-me Clark e sou o dono desse Arsenal.
*
*
*
A
noite caiu e tudo que se escutava pelas ruas eram gritos e aqueles malditos
gemidos e grunhidos. No arsenal de Clark havia aproximadamente uns dez
mil cartuchos de diferentes tipos de munições, desde de calibre oito
até Rifles de mira com alta precisão, sem falar na diversidade de
armas e acessórios. A dispensa estava cheia, bom, pelo
menos por algum tempo. Como ele trabalhava e morava na loja, tinha espaço
o suficiente para nos abrigar.
A
noite para mim seria muito longa, ainda não tinha conseguido tirar
da cabeça as imagens que vi, e provavelmente jamais irei esquecer.
Resolvi subir até o telhado da loja, onde existia um tipo de varanda
de onde se dava para ver toda a rua. Não sei ao certo quanto tempo
fiquei ali. Apenas estava sentado e com os olhos voltados para o céu
procurando por estrela.
Logo
abaixo, milhares dessas criaturas estavam se aglomerando. Sentia
medo, sentia angustia, medo, desespero e muitos outros sentimentos que
não sei descrever. Vejo que somos sobreviventes, pelo menos alguns
de nós, não de algum acidente, talvez fosse, mas tenho a certeza que
merecemos isso, sim, devemos ter feito algo muito mal. Agora estamos
pagando o preço.
De
repente, o medo passa, começo a ter pensamentos, perguntas, imagino
se algum dia vou amar novamente, se vou ter filhos ou se pelo menos
vou conseguir dormir em paz. Mas uma coisa eu sei, essa noite vai demorar
a passar!