A ÚLTIMA AULA NO JARDIM DE INFÂNCIA!

AUTOR: GUSTAVO SERRATE

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A ÚLTIMA AULA NO JARDIM DE INFÂNCIA

Por Gustavo Serrate


Uma professora entra na escola suando, não sabe bem o que está acontecendo. Foi arranhada minutos atrás por um ensandecido e teve que empurrar o sujeito. Agora está passando mal.


Depois que perde o primeiro ônibus é difícil conseguir outro. Ela entra no jardim de infância mas está passando mal, já não consegue definir muito bem o caminho. Será a menopausa?


Bebeu água. Era um calor tremendo, talvez passasse. Não quis passar na sala dos professores, estava atrasada e era melhor não passar pela vergonha de se confrontar com a diretora, já era a terceira vez que tinha chegado atrasada só nesta semana e para a sorte a maquina de bater ponto estava com defeito. O crime perfeito.


Chegou na sala, as crianças alvoroçadas já de manhã. Segunda série é fogo! Mas foi só entrar na porta da sala que a criançada silenciou.

"Bom dia professora!"


Ela acenou. Já não conseguia mais responder. Pegou o giz com a mão suada. Rabiscou no quadro e o suor com o giz molhado tornaram a letra um tanto feia, talvez fosse a coordenação motora que já estava indo para as cucuias. Pediu às crianças uma redação sobre onde iriam passar suas férias. A criançada começou, deu sorte de pegar uma turma onde quase todos gostavam de redação, menos o Pedro, que odiava, entregava uma página com uma frase só, sempre algo do tipo "minha mãe é bonita", sem muita complexibilidade. Já a Anita inventava histórias formosas, adorava falar sobre coelhinhos e o Amilton, garoto esperto surpreendia a professora com a capacidade de inventar histórias bizarras e as vezes até crueis.


A professora dava sempre 20 minutos para terminar a redação. fez como sempre, sentou na cadeira, abriu a lista de chamada e começou a verificar os nomes. O suor da testa despencava aos montes. O sangue parecia ser arrastado dentro das veias, a cada pulso uma contração em todo o corpo. Os olhos não queriam mais ficar abertos e um deles apontava para o lado errado. Algo de errado estava acontecendo à doce professora, ela não era mais dona dos próprios movimentos.


A criançada redigiu e a primeira a terminar foi a Luiza, a mais bonitinha da classe, ela dizia que seria vendedora quando fosse grande. Uma vez a Luiza trouxe brigadeiros para a escola e todo mundo comprou. Ela adorou.


A Luíza entregou uma redação bem bonita pra professora. "Pronto. Acabei"

Ela ficou esperando a professora falar. "Agora fica quietinha e espera seus colegas terminarem" mas a professora não disse nada. Era só um troço suado, sentado na cadeira com a coluna envergada e a cabeça pendurada. A Luiza, sempre uma boa menina, fez um carinho na cabeça da professora, tinha pena de gente cansada.


A boca da professora abriu e um resquício de bílis vazou sobre o colo sujando a saia nova. Arreganhou os dentes e cravou uma mordida no bracinho infantil da Luiza, devorou partes do ombro da menininha. Ela não resistiu por muito tempo.


Seria por demais degradante descrever a carnificina que se passou na sala 2B da escola de ensino primário da Asa Norte. Não vale a pena conhecer tal história.


Algumas crianças tentaram escapar, mas as grades eram fechadas e aconteceu que aos poucos todas foram sendo devoradas. A diretora se manteve escondida enquanto ouvia os gritos das crianças lá no pátio principal, onde geralmente eram risinhos do recreio que a incomodavam em sua sala, mas hoje era medonho. Não adiantava apertar o sinal porque as crianças, mortas vivas, não retornariam educadamente às suas classes.


Assim que houve uma brecha a diretora escapou pela porta deixando o portão principal, pegou seu carro e foi embora. Alguns quilômetros adiante seu carro se acidentou com um corsa desgovernado.


Quando as crianças zumbificadas saíram pela porta principal, não houve quem não con corcordasse que o exército infantil de mortos vivos fora a coisa mais triste e repugnante que já se viu nessa vida.

FIM

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