Um dia
como outro qualquer
Por Marcio
Araújo
03/10/2003
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É apenas um dia como outro qualquer _ pensou Billy Bob enquanto
seguia livremente, em pleno domingo, diferente de quando, misturado
ao emaranhado de pessoas, a avenida principal assemelhava-se a um verdadeiro
formigueiro humano, interrompido apenas pelo vai-e-vem frenético dos
carros que serpenteavam desesperados, ávidos por cumprir o ritual de
escravidão ao relógio.
Caminhava
despreocupadamente enquanto pensava no serviço que precisava finalizar.
Vestia-se simplesmente; apenas um jeans e uma camiseta de algodão.
Sempre acompanhado de sua inseparável mochila azul com um imenso A
decalcado em branco.
Era
uma manhã quente de verão e a tendência era esquentar cada vez mais
- pelo menos era o que tinha sido anunciado pelo homem do tempo. Sete
e trinta da manhã e ele se dirigia ao trabalho, rumo à sua rotina
diária, em pleno domingo. Nada disso, porém, parecia incomodar Billy.
Afinal, aquele era um domingo como outro qualquer.
Billy
Bob cruzou o exuberante jardim enquanto fitava a logomarca da DataHouse
Systems e adentrou o prédio imponente passando pela nova porta giratória.
O edifício acabara de passar por uma reforma completa, tudo proporcionado
pelo lucro do novo contrato da companhia com o governo. Milhões foram
gastos para ampliar e reestruturar a sede da empresa.
O
saguão havia sido completamente remodelado e o piso, de tão encerado,
parecia um espelho. Poltronas de couro foram estrategicamente posicionadas
a fim de proporcionar aos visitantes um ambiente sóbrio, porém aconchegante.
Ao passar pelo detector de metais que dava acesso ao hall dos elevadores,
Billy Bob cumprimentou os seguranças e, como sempre, foi ignorado.
Eles devem estar ocupados - pensou. Eles estão sempre ocupados.
Aguardou
pacientemente a chegada dos elevadores. Mais à frente, identificou
Randy e John C., ambos colegas de seção. Os dois pareciam comentar
algo enquanto soltavam um risinho e olhavam na direção de Billy Bob.
- A piada deve estar engraçada, pensou Billy Bob enquanto cumprimentava-os.
Todos os dias ele pegava o mesmo elevador.
Pacientemente
acompanhou o mostrador digital do elevador...23...35...56...64. Desembarcou
no 66° andar e dirigiu-se à sua sala. O andar era enorme e perder-se
ali não era uma tarefa das mais difíceis. O local era dividido em
avenidas, rua e salas e, dependendo da hora do dia, uma pessoa poderia
gastar alguns minutos percorrendo o caminho dos elevadores às salas.
Hoje porém, tudo estava deserto, a não ser por quatro ou cinco funcionários
absortos em seus afazeres.
Pelo
caminho, Billy Bob ia cumprimentando mentalmente a todos, como fazia
todos os dias. Sabia todos os nomes de cor. Se existia uma coisa que
a natureza dera de bom a Billy fora a memória. E só. Na verdade, se
ganhara no intelecto, perdera na aparência. Digamos que Billy nunca
se encaixou no padrão de beleza ocidental. Muito pelo contrário. Com
1,65 metros e pesando 60 quilos, Billy Bob tinha um rosto fino e pontiagudo
sendo seu cabelo repartido com uma precisão milimétrica. Sua visão
prejudicada obrigava-o a usar grossas lentes e seu sorriso não era
lá grandes coisas. No final das contas, ele era apenas mais um.
Sua
sala ficava no fim da rua 6 e era a de número 66. Assim como Billy,
era uma sala simples. Contava apenas com uma mesa antiga, uma cadeira
e um bebedouro. Como de costume, Billy Bob chegou e ligou o computador.
A mesa vivia organizada impecavelmente, como se um séqüito invisível
se ocupasse do ofício. Ao lado dos pesados manuais, um pequeno vaso
de violetas quebrava o gelo do local. Aguardando o carregamento do sistema,
dirigiu-se ao bebedouro a fim de encher sua garrafa e pegar água para
a planta.
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Estranho. O que aconteceu com o outro bebedouro? - pensou. Na
verdade, mesmo fazendo um esforço de memória enquanto voltava à sua
mesa, ele não conseguia se lembrar quando o antigo bebedouro quebrara.
Molhou a planta e começou a programar. Trabalhava em um dos sistemas
de menor importância da companhia. Não que não possuísse capacidade,
muito pelo contrário. Sempre que alguém empacava em algum ponto dos
outros sistemas, recorria ao velho Billy que, prontamente, se prontificava
a ajudar. Ele apenas não tinha sorte - pensava - e mais a mais, era
um trabalho como outro qualquer. Billy Bob ia completar dez anos de
empresa e ainda ocupava o mesmo cargo sendo sempre preterido nas promoções.
Seus
dedos finos tamborilavam ao digitar. Quando se sentava na frente do
micro Billy Bob se transformava. Mente e corpo unidos em codificar e
decodificar. Linhas e mais linhas de código eram escritas, uma após
a outra, quase que automaticamente em uma velocidade assustadora. Mesmo
assim, ele era considerado apenas mais um.
Em
uma das raras pausas que costumava fazer, quase como um autômato e
sem mover os olhos do monitor, Billy Bob moveu uma de suas mãos na
direção de sua garrafa d’água. O braço parecia já conhecer o
caminho. Levando a garrafa à boca, Billy, resolveu admirar sua pequena
violeta, oásis verdejante em pleno deserto de papéis.
Nesse
momento, o horror se apossou de Billy Bob. O ser que ele cultivara por
dois anos, aquilo que mais se aproximava de um amigo, estava morto.
Tomada por um cinza espectral e recoberta por fungos, a violeta estava
irreconhecível. - como aquilo aconteceu? - pensou.
Esse
foi o primeiro momento em que Billy ouviu a voz.
-
Beba a água, Billy. Beba e conheça a verdade. - disse a voz, num tom
funesto e gutural.
Billy
Bob olhou ao redor e não viu ninguém. Levantou-se, abriu a porta e
não encontrou ninguém no corredor. Acreditou que as pessoas que viu
quando chegou continuavam em seus lugares, voltadas para seus próprios
afazeres. Assustado, voltou e fechou a porta.
-
Quem está aí? - perguntou, arrepiado, enquanto olhava embaixo da mesa.
-
Não tema, Billy. Eu só quero lhe mostrar a verdade. - retrucou a voz.
Por
um instante, Billy Bob intuiu a direção da voz tenebrosa. Ela parecia
vir do bebedouro. Mas isso não era possível. Billy desconfiava agora,
de sua própria sanidade. - deve ser o stress. Eu não posso estar conversando
com um bebedouro. - falou.
Com
a boca seca, resultado da tensão e do pânico momentâneo, Billy, instintivamente,
tomou um grande gole de água. E foi nesse momento que tudo mudou. A
princípio nada sentiu, mas com o passar dos segundos uma sensação
estranha tomou-lhe de assalto entorpecendo seus sentidos. Ele precisou
sentar-se e não deu importância à gargalhada demoníaca que ecoava
em sua mente. Sentiu vontade de trabalhar e assim o fez.
Passaram-se
10 minutos e alguém bateu à porta:
-
Billy? Você está aí?
Billy
Bob reconheceu a voz. Era Rashidi, um programador indiano que trabalhava
na empresa há sete meses e que, como ele, estava de plantão.
-
Entre, Rashidi - respondeu Billy - a porta está destrancada.
Quando
Rashidi apareceu, Billy Bob sentiu-se como se o Tártaro houvesse aberto
suas portas. A voz era a de Rashidi mas o ser que ali estava revelava
um horror inominável. Billy congelou enquanto seu coração explodia,
resultado da visão pavorosa. O demônio possuía uma pele escamosa
e dela emanava uma aura azul. Os pés eram enormes assim como enormes
eram suas garras. Tufos de cabelos pendiam de sua fronte enquanto presas
assustadoras brotavam de sua boca. A fim de ludibriar o pobre Billy,
o demônio disse:
-
Você pode me ajudar? Estou com um problema no módulo de cálculo.
- suplicou o maldito imitando a voz de Rashidi.
-
Mate-o, Billy - disse a voz do bebedouro. - Pegue o abridor de cartas
e acabe com ele. - completou.
Billy
estava paralisado, porém quando a criatura infernal adentrou o recinto,
ele não hesitou pegando o objeto de metal que estava em cima da mesa
e partiu para cima de seu inimigo. Praguejando, Billy Bob enfiou o objeto
cortante no olho do maldito que caiu, contorcendo-se com a fúria do
ataque enquanto emitia sons profanos.
Afastando-se
da criatura, Billy Bob rastejou até uma das paredes, enquanto
chorava apavorado. Fechou os olhos e rezou para que tudo não passasse
de uma alucinação. A única coisa que escutou foi a voz do bebedouro.
-
Muito bem, Billy. Essa é a verdade que eu lhe prometi. Agora você
vê os homens como eles realmente são: animais movidos por sentimentos
torpes, que buscam o sucesso a qualquer preço. Escravos da luxúria.
Discípulos da mentira. Muito bem Billy Bob. Esta é a verdadeira verdade.
Ofegante,
Billy não queria acreditar em nada daquilo, mas a prova jazia ali,
inerte à sua frente. Rashidi, quer dizer, o demônio azul estava morto,
ceifado pelas mãos de Billy que jamais matara qualquer criatura. Por
um instante Billy Bob chegou a sentir pena, sentimento que rapidamente
se transformou em ódio. Ódio por ter sido enganado por toda sua vida.
Além do mais, o fato de ter acabado, sozinho, com a criatura maléfica
deu a Billy uma sensação de poder. Algo que ele nunca sentira e que
o agradava imensamente.
Refeito,
Billy se levantou enquanto pensava o que ia fazer. Sua vontade era chamar
os demais a fim de mostrar-lhes os perigos à que eles estavam expostos.
Nesse momento, lembrou-se do que a voz falara sobre a natureza dos homens
e decidiu ir até ao banheiro para olhar-se no espelho.
Deixando
a sala, ele caminhou pelo estreito corredor e ao chegar na porta do
banheiro, ouviu sussurros e gemidos. Por um instante, pensou em procurar
outro, mas a curiosidade foi mais forte e acabou por seduzi-lo.
Sorrateiramente,
Billy Bob adentrou o banheiro e, dessa vez, a visão foi ainda pior.
Dois demônios, em um louco ritual, acasalavam-se produzindo sons aterrorizantes.
Uma visão profana que quase levou Billy à loucura. Ao contrário da
primeira criatura, essas possuíam uma cor avermelhada e longos rabos
bipartidos. Pequenos chifres retorcidos brotavam de suas frontes e ambos
olharam para traz ao sentirem a presença do humano.
Desesperado,
Billy foge pelo corredor. Toda seu corpo clamava por afastar-se daquela
orgia insana e, em seu íntimo ele sabia que havia sido o escolhido
para por um fim naquilo que não deveria existir, aquilo que colocava
em risco toda a humanidade.
Ao
passar por um quadro de incêndio, desferiu um violento soco no vidro
e de lá retirou um machado. Enquanto refazia o caminho até o covil
das bestas, planejou mentalmente a ação ao som da terrível voz que
ecoava em seu cérebro: - Mate, mate, mate.
Na
entrada do banheiro ele parou e com uma seqüência de rápidas inspirações
estava pronto para cumprir seu destino. Adentrou o banheiro brandindo
um grito desesperado e fez repousar o machado nas costas de uma das
criaturas.
Ao
receber o golpe mortal a criatura soltou um uivo pavoroso e caiu coberta
por uma substância pegajosa escura. O segundo demônio tentou fugir
e tropeçou no corpo inerte de seu amante demoníaco e foi abatida por
Billy Bob.
O
sangue fervia em Billy e foram necessários alguns minutos para que
ele voltasse ao normal. Refeito, ele deparou-se com a mórbida cena
composta pelos corpos sem vidas das criaturas infernais. O clima era
de total repugnância e Billy saiu daquele banheiro maldito.
De
volta à sua sala, Billy sentou-se, ansioso por um lapso de normalidade
naquele momento caótico por que estava passando. Era preciso reavaliar
seus conceitos, entender a nova realidade que se estendia à sua frente.
Nada mais parecia fazer sentido. Tudo aquilo que conhecia, ou julgava
conhecer, fôra de um momento para outro, virado às avessas, transformando
a realidade em um pandemônio.
Várias
perguntas borbulhavam em sua mente: como seria de agora em diante? Como
ele iria reagir ao ver a real natureza de seus familiares? Como iria
sobreviver?
Mais
uma vez sua boca estava seca e ele não hesitou em pegar sua pequena
garrafa e saciar-se com aquele líquido esclarecedor que o embriagou
com uma sensação de alívio e leveza. Sentindo-se bem, Billy recomeçou
a trabalhar e ficou entretido em sua tarefa por mais de sete horas ininterruptas.
E como o despertador tocou indicando o fim de seu plantão, Billy Bob
se levantou e dirigiu-se aos elevadores como fazia diariamente. Afinal
de contas, aquele era apenas um dia como outro qualquer.
FIM