Autor:
OS
VENTOS DO URRADOR
Por Henry
Evaristo
Na tarde
em que os primeiros ventos gélidos do inverno sopraram das
cordilheiras de Haszdan caminhei com meu velho pai pelos campos e
morros de nossa ancestral propriedade. O dia cinzento e a fina camada
de água que nos atingia, umedecendo nossos rostos alvos e
nossas vestes negras, nos impeliam a falar de fantasmas e monstros.
Como era agradável estar de volta àquele lugar na
companhia de uma figura tão majestosa como a daquele ancião
encurvado e encarquilhado, ouvindo as velhas estórias que um
dia acarinharam e embalaram as noites dos meus tempos de criança!
No entanto, agora, os lábios ressecados e encolhidos deste
senhor não traziam mais palavras imbuídas da mesma
segurança aconchegante de outrora quando o fogo ardendo na
lareira, de onde chegava o suave crepitar da madeira em combustão,
ou as pesadas portas de carvalho com tramelas, nos separavam das
coisas negras do mundo. Antes de tudo, suas frases emanavam no ar
sensações macabras; sentenças de medo
sobrenatural.
De seres
malditos falou meu pai em meio à tarde invernal. Criaturas
monstruosas habitantes dos poços e bosques que nos rodeavam;
comedores de carnes e almas humanas que se arrastavam e se espojavam
encobertos pelas trevas e brumas dos pântanos longínquos.
Coisas negras, amortalhadas e flácidas que saltavam de suas
tocas, fossas e abismos para avançarem sobre os cadáveres
decompostos dos cemitérios da região no esquecimento da
noite, na escuridão.
Ai de
mim! Jamais poderei esquecer aquela tarde em que o frio parecia me
envolver como o abraço da morte que vai penetrando a pele e,
esmigalhando ossos e órgãos, avança como um
verme dos lamaçais pútridos do Tártaro*.
"Menino!"
Disse o velho quando atingimos o cume de uma elevação
cujos limites chocavam-se abruptamente com uma lúgubre
floresta de árvores negras retorcidas. “Quero hoje,
agora que já me encontro no fim desta existência
terrena, que você conheça um pouco dos mistérios
do lugar em que nasceu". Dito isso, olhou ao redor parecendo
então concentrar as vistas em algum ponto perdido no
horizonte. Depois, agarrando meu braço com suas débeis
mãos, fez sinais para que sentássemos no chão.
Enquanto um sol pálido e encoberto começava a rumar
para o firmamento enregelado e uma neblina espessa surgia vindo, quem
sabe, dos confins dos bosques, ele suspirou e começou:
"Neste
lugar, ao qual chamam floresta Malgred, habitam, desde tempos
imemoriais, forças que estão além da compreensão
e da aceitação humanas. São seres malévolos,
visíveis ou não, que se esgueiram livremente por entre
as árvores e no fundo das cavernas mais profundas. Alguns
estão aqui por opção e se mantém reclusos
e quietos, porque em exílio ou retiro, mas outros, os que
foram trazidos à força de suas insondáveis
vastidões infernais, estes não têm e não
querem paz. São os diabólicos resultados dos feitiços
e das conjurações deste povo oriental que aqui se
estabeleceu quando estas matas escuras ainda dominavam toda a região.
Estes, sim, são malévolos! Coisas demoníacas que
se escondem dos vivos e a estes odeiam tanto que desenvolveram, ao
longo dos séculos, um apetite voraz por suas carnes. Você
mesmo ouviu em sua infância as inúmeras estórias
sobre os diabos dos bosques de Zalees; esta nossa famigerada cidade
que foi criada sob as cinzas das maldições da santa
inquisição. Pois eu lhe asseguro, agora que já
não tenho muito mais pelo que esperar e o fardo deste maldito
conhecimento me fustiga as costas como nunca: Estas abominações
são todas reais e estão aqui, agora, nos rodeando e nos
espreitando como um leão faminto nas savanas da África.
E nós somos suas presas, todos nós, os humanos, pois
seu poder quer emanar daqui para o mundo e, para isso, espera apenas
o tempo correto."
“Ouça!"
Disse meu pai voltando-se novamente para as negras matas distantes
que desciam das cordilheiras enevoadas, de onde brotava agora uma
estranha ventania. Continuou, então, num tom desolador. “Estes
ventos são para nós. Sopram das más intenções
destes lugares esquecidos. São os ventos do urrador que chegam
a açoitar nossos cabelos. E só isso basta para que nos
tornemos parte de sua maldade."
De
repente vi estender-se no céu uma terrível mancha
escura e como que uma pressão absurda atacou meus ouvidos. Do
lado oriental de toda aquela imensidão fria vinha, agora,
trazida pelo ar, uma espécie de voz lamurienta; como se fossem
milhares de criaturas em terrível agonia que se
auto-comiseravam em uníssono.
Olhei
apavorado para o velho e ele estava, ao mesmo tempo, sorrindo e
chorando. E de seu lábios ressecados pelo tempo e pelo horror
pareciam saltar curtas palavras que para mim soavam desconexas e sem
sentido ao passo que para ele pareciam ensejar uma espécie de
rito ou oração visto que, ao pronunciá-las,
fazia sinais mágicos com as mãos em riste. Eu, atônito,
começava a sentir toda a minha racionalidade explodindo diante
do impossível enquanto que do céu medonho parecia
baixar sobre nossas cabeças o presságio de mil caretas
de demônios escondidas por entre as nuvens.
Sem saber
o que fazer, dobrei os joelhos e juntei-me ao ancião, quase
caindo sobre sua figura magra e abatida. Porém, ao procurar
aproximar meus ouvidos de seus lábios, a fim de tentar
entender o que ele apenas balbuciava seu hálito atingiu em
cheio meu rosto provocando uma inevitável onda de náuseas
junto com uma constatação terrível que me
destruiu por completo. Uma baforada fétida, de coisas
hediondas em decomposição, era o que brotava da fenda
escura que se tornara sua boca, e seus lábios, antes apenas
pálidos, estavam agora roxos e intumescidos, com um aspecto
flácido merecedor do mal-cheiro que exalava. Não era
mais meu pai, aquela coisa que diante de mim se prostrava. E vi
quando de suas costas saltou um bando asqueroso de vermes que
pareciam brotar como uma praga das bordas de sua camisa.
Aquela
criatura limitou-se a lançar-me um olhar malicioso; uma
expressão tão horrenda de sarcasmo e malevolência
se estampara em seu semblante que mal pude manter-me a observá-la.
Foi quando me voltei para o lugar de árvores retorcidas e
avistei, parada, ao longe, uma figura de pesadelo. Envolta em
neblinas que desciam de cordilheiras distantes e espectrais,
parecendo, ela mesma, tão terrível quanto tudo o que eu
já ouvira naquela tarde, estava uma sombra imensa, parada na
borda da floresta como alguma divindade que saltasse de bosques
oníricos para assaltar o mundo dos mortais. No mesmo instante
tive plena certeza de que era dela que brotava o lamurio vindo com o
vento.
Subitamente
senti um puxão em minhas roupas e o apertar de mãos
vacilantes se fechando em torno de meu braço. Virei-me e lá
estava de volta meu velho pai, caído ao chão e tentando
sofregamente buscar ar em seus pulmões combalidos. Atirei-me
sobre ele tentando desesperadamente ajudá-lo a respirar, mas
tudo o que fiz restou em vão, pois sua vida não mais a
este mundo pertencia. Sua hora chegara ali, naquele lugar condenado e
esquecido, onde coisas execráveis faziam suas tocas e
esperavam pacientes a hora certa para imporem suas vontades.
Como um
animal assustado meu pai olhou-me nos olhos e até hoje suas
últimas palavras retumbam em meus ouvidos deixando-me com os
nervos abalados em noites em que o vento sopra e assobia nos cantos
escuros e carcomidos das paredes da nossa antiga propriedade.
"Agora
sois quem guarda o segredo destas matas. É tua a obrigação
de guardá-lo bem e transferi-lo aos teus para que nunca se
aventurem pelos bosques remotos. Quando as coisas vierem, no meio da
madrugada nevoenta, elas procurarão primeiro o portador deste
conhecimento maldito e, sejas tu ou teu filho ou teu neto, deve estar
pronto a servi-las como está predito, por força de
maldição, no inferno. Este é o desígnio
que te passo, ó filho meu, com pavor e por obrigação,
pois te digo, agora que o oblívio já me alcança,
que aqueles velhos feiticeiros orientais que abriram as portas deste
mundo às potências do inferno eram também meus
ancestrais."
Dito
isso, se foi o homem e restei eu, agora único sobre esta terra
a sustentar o abominável fardo. Mesmo passados trinta anos
daquela tarde invernal, por trás de meus olhos cansados ainda
se esgueira a imagem da terrível aparição; A
sombra horrenda que sorriu para mim de seu recanto na floresta e
depois me deu as costas para voltar ao interior escuro dos bosques
deixando atrás de si um rastro de árvores retorcidas.
Ainda me dói a cabeça ao lembrar de sua careta
diabólica reproduzida nas faces mortiças de meu ente
mais querido.
Hoje
estou velho e meu neto brinca inocentemente nos jardins cinzentos. Em
breve terei de partir, mas antes devo levá-lo até as
colinas e confiar-lhe o que um dia me foi confiado passando-lhe assim
a maldição que se abate sobre nossa miserável
família. Às vezes avisto sombras malévolas
correndo por onde ele corre e saltando por onde ele salta. Estará
se aproximando a hora fatídica dos homens do mundo? Estará
chegando o dia da divisão desta terra com as entidades
imundas? Em breve serão entre nós as legiões do
urrador das matas e poços; As coisas negras das missas
sacrílegas. Ainda estaremos aqui quando vierem e, por certo,
não teremos para onde fugir. Nos subjugarão e
apavorarão. E comerão nossas almas.