Os Urubus
Demoníacos
(As Almas
do Fantástico na História do RS - História 2ª)
No
princípio da terceira década do século XIX, o tropeiro espanhol Esteban
Velasquez cruzava os ermos pampas do extremo sul do Brasil à procura
de um local agradável para seu repouso, após dias de extenuantes peregrinações
solitárias, ou quase solitárias, se considerarmos a fiel companhia
de seu cavalo.
Esteban
encontrou então numa região absolutamente deserta de seres humanos,
semi-oculto por duas imensas coxilhas, um pequeno e aprazível lago
cercado por um frondoso capão de mata, um local realmente convidativo
ao descanso. O tropeiro acercou-se do lago, desceu do cavalo e sentou-se
distraidamente sobre a relva verdejante e macia à beira das águas
límpidas e tranqüilas. Ali, ele podia observar, do outro lado do lago,
as árvores imensas da pequena mata, onde dezenas de pássaros emitiam
um alegre canto naquele princípio morno da tarde ensolarada.
As
margens do lago não eram, como em outros casos, cercadas por arbustos
e plantas que dificultavam a aproximação até as águas, pelo contrário,
tão-somente havia um vasto gramado que se estendia até elas. Tanto
que de uma das duas grandes bolsas que Esteban carregava sobre o cavalo,
ele retirou um copo e o encheu com a água cristalina do lago e saciou
sua sede. Após, dirigiu-se à outra margem, chegando à beira da mata,
e ali, sob a sombra aconchegante das árvores, decidiu fazer seu almoço
de charque com pão.
Tranquilamente
o tropeiro comia e aproximou-se das águas para colher mais um copo
d'água. E foi nesse instante que sua tranqüilidade alçou vôo para
nunca mais voltar... Ao retirar o copo do lago, o que Esteban viu não
foi aquela mesma água pura e transparente, mas um líquido avermelhado
de coloração verdadeiramente sanguinolenta. Alarmado, o espanhol jogou
fora a água vermelha e observou atentamente o interior do lago no intuito
de encontrar algum cadáver, fosse de homem ou animal, de onde pudesse
se originar o sangue que contaminava o lago. Porém, o que Esteban divisou
foi algo que ultrapassava as barreiras do absurdo. As águas antes límpidas
e translúcidas eram agora invadidas por um fluxo inesgotável de um
líquido que possuía a cor e o cheiro de sangue.
O
tropeiro percebeu que o sangue, se é que realmente o era, provinha
do centro do lago e rapidamente contaminava toda a sua extensão, não
restando sequer uma gota de água pura. Para ser mais exato, o misterioso
sangue, cuja fonte era impensavelmente desconhecida e insondável, não
apenas contaminou as águas, parecia mais ter tomado conta totalmente
delas, era como se tivessem se transformado em líquido sanguíneo.
Esteban, atônito e assustado, não conseguia formular nenhuma explicação
para o que ocorria e, quando ainda observava o fluxo viscoso de sangue
do interior do lago e sentia o seu cheiro nauseante, percebeu que o
dia, antes ensolarado, rápida e ameaçadoramente principiou a escurecer-se.
Com um vento quente e enfermiço, invadiram os céus da região pesadas
nuvens de um lúgubre tom avermelhado. Em questão de minutos, todo
o céu foi encoberto por densos e estranhos nimbos carregados por uma
sinistra coloração escarlate e sangrenta.
Trovões
cavernosos e relâmpagos obscuramente rubros expandiram-se pelos céus
de sangue, e tudo indicava que em breve desabaria uma chuva torrencial.
Nesse instante, o numeroso bando de pássaros abrigados na mata, que
se calara no momento em que as águas do lago principiaram a tornar-se
vermelhas, iniciaram a emitir não mais o canto alegre e harmonioso
quando da chegada do tropeiro, mas um lamento lúgubre, arrepiante,
um cântico de morte que assombrava e deprimia, algo completamente diverso
e inadequado para o canto de uma ave.
Porém,
esse canto fúnebre prolongava-se e aumentava de intensidade de forma
progressiva, enquanto um desespero nervoso massacrava o espanhol, que
já não podia acreditar que tais absurdos não passassem de perturbadas
alucinações, tamanha era a impressão de realidade deixada por aqueles
horrores.
Enquanto
os hediondos lamentos das aves prosseguiam, e o lago já transbordava
de sangue, as primeiras gotas de chuva caíram grossas e pesadas sobre
o campo, sobre a mata e sobre Esteban. Contudo, não eram gotas de água,
eram gotas de sangue. Sangue que escorreu pela face do tropeiro, e ele
percebeu que era um sangue morno e pôde sentir seu gosto de ferro adocicado,
enquanto a chuva sangrenta se derramava em sua boca. E aquele sangue,
ao cair sobre o campo, queimava a grama e, ao cair sobre a mata, murchava
as folhas das árvores. Ainda assim, os pássaros mantinham seu canto
de desespero e profundo mau-agouro.
Porém,
outras aves foram atraídas pelo cheiro nauseabundo do sangue... Um
gigantesco bando de urubus assomou como uma mancha negra nos horizontes
enfebricidos e numa velocidade diabólica atingiu a mata grunhindo e
chilreando em um alarido insano e demoníaco. As aves pousaram próximo
a Esteban, encharcadas de sangue e adejando triunfantes suas asas enormes
na chuva infernal.
Aquele
inexplicável espetáculo dantesco parecia não ter fim: a chuva continuava
implacável caindo das sobrecarregadas nuvens vermelhas e emurchecendo
a vegetação; o lago prosseguia transbordando seu sangue espesso, enquanto
nos céus os odiosos trovões e relâmpagos atordoavam sem misericórdia
a alma estarrecida de Esteban. Porém, o que mais aniquilava o espírito
do tropeiro era a tortura ominosa do canto maligno dos pássaros, que
agora parecia ser guiado pela não menos aniquilante gritaria satânica
e debochada dos urubus. Foi só então que Esteban percebeu que seu
cavalo não estava mais por ali, certamente fugira de tantos horrores.
O
espanhol fitava os horizontes assustadoramente rubros e não distinguia
nenhum sinal da tempestade de sangue acalmar-se. Não sabia o que fazer
ou para onde ir. Decidiu entrar no capão de mata para abrigar-se ao
menos parcialmente. Desvairado, rapidamente penetrou na mata, sempre
atormentado pela histeria absurda dos urubus. Avançou aos tropeções,
até que estacou perplexo ao encontrar enrodilhada à sua frente uma
imensa serpente de um vermelho angustiantemente vivo e sanguinolento.
Sem
que Esteban pudesse evitar, a serpente cravou as presas na sua perna,
perfurando suas calças e inoculando um veneno provavelmente fatal.
O tropeiro caiu e sentiu-se desfalecer, sabendo que a morte já o fitava,
enquanto o ferimento da picada vertia sangue em infrene profusão. Minutos
depois, Esteban jazia inconsciente no meio da mata, que mais parecia
um banhado de sangue.
No
entanto, passados alguns minutos, o tropeiro acordou. Não, não estava
morto. Ele observou o local onde se encontrava, e não havia nenhum
vestígio de sangue. Olhou para o ferimento de sua perna, mas não havia
ferimento, não havia picada. Também não havia nenhuma serpente. O
dia estava ensolarado como no princípio, nenhum sinal de chuva de sangue,
nenhuma nuvem maculava o céu azul. Esteban, já à beira da insânia,
saiu da mata e dirigiu-se ao lago. Encontrou suas águas puras e cristalinas
como quando as viu pela primeira vez. Os pássaros ali permaneciam,
porém entoavam seus cantos felizes e harmoniosos em honra a luz do
sol. E Esteban não avistou nenhum urubu demoníaco por ali. Mas avistou
seu cavalo no mesmo lugar em que o deixara.
Absolutamente
confuso e caótico, porém acreditando agora que tudo não passou de
uma funesta alucinação, ainda perturbado, Esteban montou em seu cavalo
e partiu daquela região bela, mas de uma beleza maldita...
Não
se sabe o que realmente ocorreu naquele local do pampa gaúcho, e o
tropeiro Esteban Velasquez, buscando o esquecimento, como se isso fosse
possível para sua alma profundamente traumatizada, jamais procurou
saber. No entanto, o que se sabe é que cinco anos após o terrível
acontecimento, teve início no RS a Revolução Farroupilha, responsável
por um dos maiores derramamentos de sangue da história brasileira.
E
o que também não se sabe é que no ano de 1890, o peão de fazenda
Luiz Juvenal Soares relatou a amigos e familiares um canhestro caso
assombrosamente semelhante ao ocorrido com o espanhol Esteban. Segundo
as palavras do próprio Luiz Soares, o que ele viu consistia em “sangue,
eu só via sangue pra tudo quanto é lado, e um bando de corvo pingando
sangue que gritavam como uns diabo, parecia até que davam umas risada.”
Naturalmente, ninguém deu atenção aos desvarios absurdos do rústico
e simplório peão, até porque ele já estava apresentando alguns sinais
de perturbação mental e dizia que sonhava com urubus enormes com espantosa
freqüência. E ninguém relacionou as visões de Luiz Soares com o
fato de, três anos mais tarde, em 1893, os vastos campos rio-grandenses
terem sido palco de mais um brutal festim sangrento com a Revolução
Federalista.
Conta-se
ainda que poucos anos antes da Revolução de 1930, um colono italiano
teria tido “visões inenarráveis de derramamentos sangrentos em
uma região selvagem do interior gaúcho, o que o levou, horas depois
de relatar o fato a sua esposa, a cometer suicídio”, segundo
noticiado no rodapé de um jornal da época. Deixara uma breve carta
de despedida, onde se lia o seguinte trecho: “não agüento mais
sentir as asas desses corvos batendo na minha cabeça e essas risadas
de demônios...”
Porém,
o que não se sabe é que em novembro de 2007, alguém, que é melhor
não identificar, relatou-me algo com ele ocorrido inquietantemente
similar ao antigo caso de Esteban Velasquez. Porém, com uma sinistra
variação: em lugar de sangue, o que esse alguém vislumbrou foi um
repulsivo líquido negro, e o número de urubus demoníacos era maior,
absurdamente maior, e seus deboches malignos e estridentes eram piores,
bem, bem piores...