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O VIAJANTE

Autor: PAULO SORIANO

375"

O VIAJANTE

Para Mauren Guedes Müller.

Dizia chamar-se Petrus  Iliescu e me pareceu levemente tocado pelo álcool.

Assim que  acendeu o cachimbo, vi que  o viajante trajava um surrado sobretudo  de gola alta, que um dia fora negro, mas que agora
apresentava uma tonalidade indefinida, entre o cinza e o castanho.
Mas não apenas o sobretudo era desbotado.  Quando Iliescu  extraía do cachimbo  um trago mais profundo,  a fagulha escarlate projetava-lhe  o  fulgor sobre a face ossuda,   permitindo um rápido vislumbre de uma pele crespa, destituída de um matiz  uniforme – aqui cinza, ali  levemente amarelado –,  embora, no conjunto,  ressaltasse uma mórbida   e angustiante  palidez.  Sem dúvida, Petrus Iliescu padecia de uma grave enfermidade.

Iliescu encolheu  o pescoço sob as abas de seu sobretudo, ajustando-as  acima do queixo. Como  o compartimento em que estávamos  era perfeitamente calafetado –  e  mesmo era  possível dizer-se que  fazia calor –, interpretei aquele  gesto impertinente  como puramente instintivo,  típico dos que sofrem constantemente os rigores do inverno. Assim mergulhados um no outro,  homem e casaco – ambos rotos e descoloridos – pareciam compor uma única substância acinzentada, que tremulava  por trás da cortina indecisa de fumaça. Iliescu prosseguiu, puxando para perto dos olhos a aba de seu descorado chapéu de feltro:

- Estou cansado. Quero chegar logo a Busten – confidenciou-me, apagando a fagulha que restava no cachimbo com um polegar.  –  Ao me hospedar em Azuga, vindo de Bran,  sentia-me perfeitamente bem.  Mas dormi mal. Tive terríveis pesadelos. E hoje, quando despertei, senti todos os sintomas que invariavelmente acompanham a febre – especialmente o frio –.  embora sem qualquer elevação perceptível na temperatura corporal.

Quando o trem retomou os movimentos, Iliescu afundou,  ainda mais,  o corpo longelíneo  na poltrona. E, em pouco tempo, ressonava.
Aproveitei o ensejo para melhor examinar o meu excêntrico companheiro de viagem.  Acendendo um fósforo, tive uma visão mais precisa do viajante.  Constatei que era ainda jovem – talvez na casa dos trinta e cinco anos –   e, a julgar pelo estado lastimável de sua vestimenta, era  irremediavelmente pobre. Mas me  parecia um homem instruído e polido.  Imaginei que Petrus Iliescu era mais um daqueles poetas tão decadentes quanto talentosos, influenciados por um garoto francês chamado Rimbaud.

Mas o que me chamou atenção foi o singular ferimento que Iliescu trazia no flanco esquerdo do  pescoço. Dois pequeninos furos, como se resultantes de uma picada de serpente.

- Iliescu, desculpe-me acordá-lo – sussurrei, acercando-me dele,   e  lhe tocando levemente no ombro. – Mas, queira dizer-me: você esteve  no campo? Perambulou pela zona rural?

- Não, não estive no campo – ele me respondeu, voltando imediatamente a ressonar.

Senti a necessidade e a urgência de fazer alguma coisa.  Eu teria de agir com enorme presteza.

Acendi novamente o fósforo - o único que me restava – e procedi a um novo exame.  Mas foram os dentes caninos de Iliescu, agora crescidos, que reagiram ao lume pálido e efêmero  da labareda.

Tremi.

A chama se extinguiu imediatamente.

Já agora o trem se aproximava da estação de Busten.

Logo haveria luzes.

Trago comigo um punhal de madeira para estas especiais ocasiões.  E, antes que o solavanco da frenagem despertasse o viajante,   mergulhei em seu coração  a haste longa e  pontiaguda. Iliescu arregalou os olhos, despertando dos negros pesadelos que precedem à transconsubstanciação. Mas foi por apenas um segundo.  Afundei o punhal com maior vigor. E senti, na empunhadura da arma de madeira, o reverberar dos violentos estertores. Eu acabara de abortar um não-morto.

Então ganhei a noite.

E agora, quando percebo  os caninos deslizarem ao nuto   da sede angustiante e doce,   sinto-me seguro.  Em Busten, meu covil,  não há lugar para dois predadores de minha espécie.




PAULO SORIANO
FIM

Contos e traduções publicados com autorização dos autores e tradutores. Nenhum texto indevidamente copiado e transcrito sem autorização do detentor dos direitos autorais.

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