A VINGANÇA DE
FERNANDO JUAN CUERVO
Conto e ilustração
de Rogério Silvério de Farias
1. A estrada do medo!
Para a antiga
e sombria cidade de Maremontes iam o caminhoneiro Robson e seu ajudante,
um sujeito meio espantadiço e espalhafatoso chamado “Boca Tojo”.
Levavam uma carga de melancias. Melancias especiais, cumpre salientar.
Melancias recheadas de marijuana!
Haviam atravessado
a rodovia 666, e agora seguiam por um caminho que era considerado um
atalho, um caminho alternativo de pouco movimento.
O “possante”
- era assim que Robson chamava seu velho caminhão. Boca Tojo, ex-garçom
e vigia, fazia agora um “bico” com seu velho amigo, num “trabalho”
arriscado, pois se os tiras descobrissem a “carga especial” enfiada
através de pequenos furos nas melancias, furos estes feitos com
uma furadeira elétrica, a dupla iria para a cadeia! Assim sendo, Boca
era o acompanhante de Robson e o “chapa” para descarregar as “melancias
doidonas”, como os dois as chamavam.
- É isso aí,
Boca!...Se beber, não dirija! – disse Robson gargalhando sarcasticamente,
bebendo uma latinha de cerveja e tragando um cigarro de maconha, uma
verdadeira “.bomba” ou “tora”.
Boca Tojo,
espevitado como sempre, estourou também numa ruidosa gargalhada, depois,
bebendo avidamente uma lata de cerveja enquanto soltava baforadas de
seu “baseado”, foi dizendo :
- Porra, “Chefinho”!
E se a polícia rodoviária aparecer? E se ela nos parar e fazer o teste
do bafômetro?
- Neste fim
de mundo, aqui? Boca, estamos numa região desértica, praticamente.
Isto aqui é como um atalho do inferno. Além disso, os tiras teriam
que ter, além do bafômetro, também um “maconhômetro” especial
pra nós dois!... – respondeu Robison, rindo. - Sabe, foi uma boa
idéia termos seguido por este caminho pouco usado. Vamos chegar a tempo
de entregar essas “melancias doidonas” ao chefão do tráfico em
Maremontes e o maior ladrão da cidade, o Zena!
- Sabe o que
os frentistas disseram para mim, no posto de gasolina? – falou Boca
Tojo, despertando a curiosidade de Robson, na boléia.
-O quê, Tojo?
- Tinha um
velhote manco muito estranho por lá. Me falou que esta maldita estrada
que estamos seguindo recebeu o nome de “Estrada do Medo”, e que
esta porra de região que estamos atravessando é...malassombrada!...Existe
uma história ou lenda terrível sobre esta região...Os motoristas
e caminhoneiros evitam passar por aqui. Sei que parecerá loucura, mas
vou contar a estranha e assustadora história que o velho me contou...
“Havia, tempos
atrás, um jovem motoqueiro chamado Fernando Juan Cuervo, descendente
dos primeiros mexicanos que vieram para Maremontes no começo do século
passado. Certa noite de lua cheia, quando Fernando Juan Cuervo passeava
por esta rodovia com sua namorada em sua garupa, ambos foram atropelados
por um caminhão. Margarita, a namorada de Fernando Juan Cuervo, teve
a cabeça esmagada pelas rodas do caminhão, enquanto Fernando, cheio
de ódio, morreu lentamente, provavelmente agonizando em busca de ajuda,
pois o motorista bêbado fugira do local do acidente.
“Quando a
polícia foi avisada e chegou ao local, só havia o corpo de Margarita,
já em adiantado estado de putrefação, com abutres bicando a carne
podre do corpo sem cabeça da morena. Cabeça, aliás, que sumira, provavelmente
carregada e devorada por algum maldito coiote da região ou pelos próprios
abutres.
“Fernando
Juan Cuervo nunca foi encontrado. Dizem que ele morreu após ter se
arrastado pela planície na vã busca de alguma casa onde os moradores
pudessem ajudar, mas a região é deserta, não se encontram moradores
por aqui. Assim, alguns levantaram a hipótese de que Fernando Juan
Cuervo teria acabado morrendo de agonia e desespero enquanto se arrastava
por ali, em busca de ajuda, e depois foi atacado por algum coiote ou
cão selvagem ou devorado por algum abutre, que arrastaram sua carcaça.
“O povo falava
horrores de Fernando Juan Cuervo, quando este era vivo. Havia indícios
de seu envolvimento com drogas pesadas e alucinógenas, bem como sua
paixão por livros de ocultismo e magia negra e certos rituais de necromancia
e vudu, que aprendera em suas viagens de motocicleta pelo negro
Haiti.
“Agora, me
disse o velho, alguns acreditavam que o zumbi do motoqueiro Fernando
Juan Cuervo, cheio de ódio e desejo de vingança, aparecia ao cair
da noite, com sua motocicleta negra e infernal, para vingar-se de todos
que passam por aqui... vingar-se especialmente dos caminhoneiros,
mas também esperar pelo reencontro com alguém todo especial, o seu
inimigo, aquele que atropelara e matara sua amada, a bela Margarita.
Os caminhoneiros mais velhos e loucos deram um apelido assustador a
esse desaparecido Fernando Juan Cuervo: “MORTOQUEIRO, O ZUMBI DO ASFALTO”!...O
velho manco contou-me tudo isto, pois quando era criança conseguiu
escapar vivo do “Mortoqueiro”, porém viu seu pai ser atropelado
na estrada enquanto trocava um pneu furado. O “Mortoqueiro” feriu
a perna do velho, por isto era manco”.
- Vá pro inferno,
Boca Tojo! – grunhiu Robson, quase se engasgando com o gole da cerveja,
e atirando de modo irritado a lata em direção a seu amigo, que a aparou
com as mãos. Subitamente Robson ficara sombrio, como se lembrasse de
algo, algo terrível.
Logo depois, houve silêncio dentro da cabina do caminhão, que seguiu
ligeiro pelo asfalto. Robson buzinou e loucamente começou a fazer ziguezagues
na pista asfaltada, bêbado, irrequieto e sobretudo sombrio.
2.O cão
do inferno!
As névoas
começaram a aumentar. O crepúsculo começava a sangrar no horizonte,
como um poço de laivos de sangue de um cadáver esquartejado. A noite
começara a cair, como uma mortalha.
- Chefinho,
é melhor acionar os faróis, a porra da névoa começou a apertar,
além disso daqui a pouco a noite escurece de vez tudo por aqui,
nesta estrada dos infernos. Hoje vai ser noite de lua cheia, mas o luar
será precário para diminuir tanta escuridão neste fim de mundo.
-
Já acionei os faróis, Boca – disse Robson. – Deixe de ser
cagão, homem!
A névoa à
frente e a escuridão misturada com os poucos raios de luar davam um
tom fantástico e infernal àquela estrada. Robson teve que diminuir
a velocidade, já que o caminhão parecia estar transitando pela rodovia
do inferno.
De repente
um vulto negro surgiu à frente, entre as névoas turbilhonantes. Parecia
um animal. Talvez um coiote, um lobo, embora seu aspecto fosse mais
sinistro. Robson teve que pisar no breque, o caminhão guinchou feito
um demônio ferido, os pneus fumacearam no asfalto negro, o cheiro de
borracha se fez sentir.
- Filho da puta! – urrou Robson, manobrando o volante enquanto freava.
– Parece um maldito cachorro!
Boca comentou:
- Sim, parece
um cachorro preto no meio da névoa. Mas pode ser um coiote também.
Está bem ali, cerca de 50 metros à frente do nosso caminhão!
- Pode ser
um lobo ou cão selvagem mesmo...
-
Sim, pode ser, chefinho!
Robson pegou
do porta-luvas um revólver.
- Se for... O meu “trinta-e-oito” aqui vai dar um jeito; vou meter
bala no rabo deste desgraçado que está nos fazendo perder tempo e
dinheiro! Esta porra de carga de “melancia doidona” tem que chegar
até amanhã de manhã, e não vai ser um vira-lata do inferno que vai
me impedir de cumprir o tratado!...
Robson abriu
a porta do caminhão e desceu com o revólver em riste. Boca também
desceu. Ambos se posicionaram em frente ao caminhão estacionado naquela
rodovia deserta e enevoada.
- Manda bala,
chefinho! – disse Boca, olhando Robson fazendo mira com o revólver;
o cão ou o que quer que fosse aquilo, estava parado em meio às névoas.
Os olhos da estranha criatura eram vermelhos, Robson e Boca puderam
ver. Parecia realmente um cão negro mesmo.
Balas foram
descarregadas, quebrando o silêncio do lugar.
O cão preto
fugira ao primeiro disparo, sumindo-se nas névoas, deixando para trás
não um ladrar comum, mas algo similar a um regougar diabólico de uma
hiena sarcástica das savanas negras do inferno.
Se
mandou! – disse Boca. – Parecia mais uma hiena, essa coisa no meio
das névoas.
- Hiena ou...um cão do inferno! Seja o que for, se essa porra de coisa
aparecer de novo no meio da estrada, vou transformá-la em peneira!
– disse Robson engatilhando o revólver.
3. Fogo
nas névoas!
Ambos voltaram
ao caminhão e deram partida. Continuaram a viagem. Cerca de menos de
meio quilômetro à frente, o caminhão pifou.
- E agora essa?
– gritou enfezado Robson.
- Puta que
pariu! É foda pra caralho mesmo! E essa agora? Vamos averiguar o que
foi, parece que não temos mais combustível, segundo o que vejo bem
aí na sua frente, no painel...Porra, mas não faz pouco tempo enchemos
o tanque no posto! O que será que houve, cacete? – disse Boca.
Desceram e
foram averiguar. De repente ouviram um ronco de motocicleta. Alguém
acelerava raivosamente uma motocicleta.
- Vem alguém
pela rodovia, em sentido contrário ao nosso! – disse Boca.
- Não vou
vacilar. Nesta região deserta, pode ser assaltante de carga! E hoje
em dia, roubam até o nosso tipo de carga, Boca! – disse Robson, indo
até a boléia e pegando novamente o revólver que guardara no porta-luvas,
após atirar no “cachorro preto”.
Um vulto ao
crepúsculo, um motoqueiro negro que vinha em alta velocidade, em meio
às névoas, sob a fraca luminosidade da lua cheia. Passou como um relâmpago
do inferno por perto de Robson e Boca, os dois tiveram que correr para
o acostamento.
- Maluco, esse! – fez Boca.
- Esses
motoqueiros andam mais “chapados” que nós dois, Boca! São uns
demônios!
Foi nesse instante
que Boca viu algo no asfalto, um rasto de combustível, o combustível
do caminhão. O tanque provavelmente estava ou fora furado, e agora
tinha deixado como que um rastilho de pólvora. E foi aí também que
Boca compreendeu tudo. Boca pensou, raciocinou e concluiu. Era
ele, sim...era ele, só podia ser!
-
Chefinho, olha ali, eis o porquê do caminhão ter pifado!
Robson enfezou-se:.
Novamente o
ruído da motocicleta. O motoqueiro, misterioso e negro, vinha voltando.
Boca gritou que era ele, o “Mortoqueiro”, o zumbi do asfalto.
A alguma distância
do caminhão e do ponto onde estavam Robson e Boca, o motoqueiro, em
meio às névoas e visto indistintamente, começou a acelerar a motocicleta,
patinando o pneu traseiro, soltando fumaça e cheiro de borracha queimada
no asfalto, até lançar uma pequena fagulha que incendiou o rastro
de combustível que seguia até o gotejante tanque do caminhão de Robson.
Num instante,
como um rastilho de pólvora, as labaredas correram rumo ao tanque do
caminhão.
Robson ainda
gritou, antes de ver o caminhão ir pelos ares, numa explosão infernal:
- Corra
pra planície ao lado do acostamento, Boca! A porra desse caminhão
vai explodir!
E assim os
dois fizeram, ocultando-se atrás de um grande matacão ao lado da pista.
As labaredas, como demônios, tinham seguido até o tanque do caminhão,
que explodira e incendiou por completo, alastrando fogo nas névoas.
4.O zumbi
do asfalto!
Após alguns
minutos, Robson saiu detrás da rocha com seu amigo Boca. Robson
gritou de raiva, olhando ora para o que restara do caminhão em chamas,
ora para o motoqueiro ao longe, que empinou a motocicleta e veio
em direção a eles.
-
Esse filho da puta acabou com meu “possante” e nossa carga de
marijuana! Vou mandar bala nesse miserável!
- É ele chefe , só pode ser ... “Mortoqueiro”, o zumbi do
asfalto! Atira, chefe! Ele vem vindo pra nos atropelar! Mete bala nesse
filho da puta, se for fantasma, não morre, se for vivo, morre e vai
pro inferno!
Quando Robson
apertou no gatilho, estremeceu. Somente agora ele percebera que havia
gastado todas as balas no cachorro ou coiote que minutos atrás cercara
o caminhão.
Robson atirou-se para o lado, arremessando o revólver contra o motoqueiro
negro e sinistro, mas não conseguiu acertá-lo. Pois ele passara como
um bólido. Foi ao cabo de alguns segundo que Robson percebeu que o
motociclista sinistro, utilizando-se de uma corrente, laçara o pescoço
de Boca e agora ia já longe arrastando o corpo do amigo. Boca foi arrastado
por alguns metros, impiedosamente. Gritou muito antes de ter a cabeça
arrancada. Depois a corrente foi solta, e o motoqueiro deu um cavalo
de pau com a motocicleta e passou por cima do corpo de Boca, esmagando-o,
aproveitando para dar um chute na cabeça decepada.
Robson olhava
tudo atônito. Era ele, sim. O maldito descendente de mexicano, Fernando
Juan Cuervo! O “Mortoqueiro”. O morto-vivo do asfalto!...
O terror de
Robson aumento ainda mais quando viu que Cuervo, todo vestido de negro,
com um capacete também escuro que lhe ocultava a face, empinou a motocicleta
e veio lentamente em sua direção, como se saboreasse o desespero do
caminhoneiro.
Cerca de vinte
metros à frente de Robson, o “Mortoqueiro” retirou de sua jaqueta
de couro negro um pingente, um berloque em que se via a foto de uma
bela morena com uma flor nos cabelos negros...a flor que tinha um nome
parecido com o seu...Margarita!
Robson reconheceu-a,
mesmo de longe. E suas lembranças voltaram, até àquela fatídica
noite em que, após fumar cinqüenta baseados e ficar totalmente doido,
atropelara Fernando Juan Cuervo e sua amada Margarita, fugindo depois.
A vingança
dos mortos é terrível, mas a dos mortos-vivos como Fernando Juan Cuervo
é mais terrível ainda.
5. O
“Mortoqueiro”ataca e mata!
Um calafrio
de medo deslizou como uma lesma fria por sua coluna. Robson estava paralisado
de terror, ali, no meio da pista, para onde voltara para olhar melhor,
ao longe, o cadáver decapitado de Boca Tojo, atropelado e morto pelo
sinistro Fernando Juan Cuervo, o “Mortoqueiro”.
Robson engoliu
em seco quando viu o “Mortoqueiro” acelerar a motocicleta
e vir em sua direção com um facão em riste, facão que ele
sacara de uma bainha presa à sua perna.
Era tarde
demais para escapar. Robson teve a cabeça decepada pela lâmina gélida
que rebrilhou ao luar, úmida pelas névoas. O sangue tingiu a noite
com a cor da violência e da morte. E quando a cabeça de Robson rolou
pelo chão, o “Mortoqueiro” fez outro cavalo de pau e retornou,
passando por cima, brandindo o facão, como se estivesse comemorando
a vingança concluída. Os miolos de Robson salpicaram o asfalto,
como um tempero do terror.
A lua cheia
chegava, cintilando como um esférico espectro do Além. A névoa, como
uma fumaça fantasmagórica, já diminuía e começava a desaparecer.
Se alguém estivesse por perto, veria o cão negro do inferno que latiu
e depois uivou sinistramente como um demônio louco dos abismos negros
das sombras, aproximando-se da motocicleta e seu macabro piloto.
Veria também, através da viseira negra do capacete do “mortoqueiro”,
um sorriso diabólico de satisfação naquela caveira podre e vingativa
que um dia tinha sido o rosto de Fernando Juan Cuervo.
FIM