O VISITANTE NOTURNO
O VISITANTE NOTURNO
Paulo Valença
1
Numa carícia passa a mão sobre a cabeça
do animal, que rápido, vira-se e morde-lhe o pulso. Então,
decepcionado e sentindo o ferimento, vingativo solta a tapa com toda
força que consegue.
O gato miando cai adiante, e silencioso, fixa o homem.
- Ah, desgraçado!
Explode sua ira, e pensa em lavar o pulso, pôr
remédio no ferimento. Contudo, mal chega à porta do
banheiro, com a pia e a farmacinha, sente a cabeça rodar, a
vista escurecer... Incapaz de permanecer de pé, então
cai para trás.
Os sons fraquinhos na rua, o entorpecimento pelo corpo,
o sono vencendo-o... Aos poucos, imobiliza-se.
Com os olhos cintilantes, o bichano manhoso se avizinha
do corpo.
2
Aconteceu na noite chuvosa.
Quando estava no terraço, e procurou a chave nos
bolsos das calças, descobriu-o: trêmulo, entre o ângulo
das paredes.
Sensível, compadeceu-se do animal negro, com
olhar brilhante, que lhe pareceu, também o analisava.
- De onde você veio? Vamos entrar?
Abriu a porta, sendo seguido pelo bichano. Logo,
enxugava o pelo luzidio.
- Pronto, deite-se por aí, enquanto tomo banho.
Alegre – por causa da chuva, que lhe provocava a
saudade da infância, quando naquele interior, tomava banho de
biqueira? – assoviando, adentrou no banheiro. Depois,
aguardando que a água fervesse para o café, abriu o
refrigerador e, retirando o leite, despejou-o num pires.
- Agora cuide de beber.
Em seguida, empurrou o pires para junto do gato, que lhe
causou estranheza devido à imobilidade e os olhos novamente
fixos nele.
Após aprontar o café, notou a ausência
do animal. Contudo, deveria estar percorrendo a casa, habituando-se à
nova morada. Trabalhando, como dispor de tempo para cuidar do
bichano?
- Besteira pensar nisso.
Então, procurou alimentar-se.
Sobre o telhado, prosseguia a dança da chuva. E,
enfadado pelo trabalho, foi deitar-se cedo. Ainda bem que logo
tiraria férias. Sem tardar
adormeceu, para despertar com a estranha sensação
de que enquanto dormira, estivera, ou melhor, se encontrava sendo
observado. E impulsionado pelo medo repentino, deixou a cama, e
apertou o comutador. Então, enxergou o gato à entrada
do quarto. E, com um violento ponta-pé expulsou-o.
Depois, fechando a porta, censurou-se por estar
preocupado sem razão, e buscou não se prender ao
acontecido. Desligando a lâmpada, deitou-se. Mas, o sono se
fora. E, insone, ficou ouvindo os sons da madrugada. Passos.
Assovios. Pneus em disparada. E, seria possível? Também
ouvia os passinhos sutis. Não, sua imaginação
dava-lhe essa impressão de crer no irreal. E tomou a resolução
de perguntar à vizinha se ela aceitava o gato. Não era
homem para se prender a probleminhas, ou melhor, por que não
dizer? Egoísta, evitava-os. Contudo, justificava-se:
bastava-lhe o que sofrera a experiência adquirida. Sim,
livrar-se-ia do problema-gato-abandonado. Cochilou, para ao surgir do
dia, erguer-se com o corpo dolorido.
Antes de sair, procurou o gato. Entretanto, não o
encontrou. Aliviado, desabafou:
- Melhor assim para me encher o saco, basta o emprego!
Enfrentou o dia claro, com a terra ainda úmida
pela chuva noturna.
Sem mais se lembrar do animal, distanciou-se na avenida,
que adquiria o costumeiro movimento diário.
3
Assistia pela televisão um desses filmes de
aventuras, mentirosos, quando adormeceu.
Despertou com o miado próximo.
- Você outra vez?
O mau humor pelo sono interrompido. Desligou o aparelho.
Ao centro da sala, voltou-se para o gato, que estava imóvel,
com o pelo mais lustroso, e os olhos mais brilhantes, que também
o fitavam?
- Era o que me faltava: um gato!
Nervoso abriu a porta, cruzou o terraço e
debruçou-se no portãozinho. De onde terá vindo
esse bicho?
Novo miado interrompeu-lhe as reflexões.
Voltando-se, viu o gato com os olhos estranhos, sentadinho sobre as
patas.
- Está com fome?
Que poderia oferecer-lhe? No refrigerador só
havia o leite, e lembrou-se da vez que oferecendo o leite, o bichano
mal o tocara. E gato que gosta tanto de leite...
- É, gatinho, não tenho comida pra você.
Voltou então a perscrutar a avenida, que, devido
às horas avançadas, encontrava-se sem movimento. Há
quanto tempo a conhecia? Ah com a aproximação da
velhice, a solidão exigia-lhe companhia...
- Mas, agora não tenho o gato?
Gracejou e, meio sentimental, retornou à sala.
Ante sua aproximação, o animal afastou-se, gingando o
corpo negro. E pensando em descansar, adentrando no quarto, fechou a
porta.
Mais uma vez de madrugada, despertou com a sensação
de ouvir os passinhos.
- Mas, isso é impossível!
Refletia. Sendo solitário, qualquer anormalidade
por que passasse, alteraria o ritmo de viver, pois, um gato, que é
tido como animal meigo estava lhe inquietando a noites.
Sim, teria de se livrar do animal. Nervoso, procurou-o.
Contudo, não o encontrou. Por onde saira, se as portas e
janelas encontravam-se fechadas? Ou, ao adentrar na sala, o bichano
não mais estava ali? Mas, tinha a certeza: vira-o, ao centro
da sala, e, com sua aproximação, ele se movendo...
- Estou pensando demais. Tenho de me controlar.
4
- O senhor me perdoe, mas, não quero. É
que não gosto de bichos. Prendem muito a gente.
Impaciente, ele evitou que a vizinha continuasse se
desculpando:
- Tudo bem. Desculpe-me por incomodar a senhora.
- Não há de quê. Mas, não
quer entrar um pouquinho? Nesse sol...
- Obrigado. Está na hora do trabalho, vou indo.
Até.
- Até. Deus lhe acompanhe.
Decepcionado, afastou-se. Esperava que a mulher
aceitasse o gato. Mas, afinal, por que tanta preocupação
com o animal, que mal esse lhe fizera: pelo fato de encará-lo
com os olhos amarelos? Ah descobriu a razão: as pisadinhas que
não o permitiam dormir. Mas, as escutaria realmente? Ou seria
tudo sua imaginação? Imaginação ou não,
o fato era que não mais conseguia adormecer. Encontrava-se
fora de sua rotina normal. Prejudicado.
Lembrou-se: interessante, o gato só aparecia à
noite. Quando o procurava pela manhã, não o encontrava.
- Tudo isso é muito estranho.
A pessoa sozinha consegue ver cenas, gatos? O ônibus
estacionou. Pensativo adentrou. A condução partiu em
velocidade.
5
Os dois estavam bebendo no bar.
Ele então narrou as cenas com o gato, seu
visitante noturno.
Interessado, o colega não o interrompeu. Parando
de falar, quis saber a opinião do amigo, que lhe respondeu:
-Para mim, tudo isso é fruto de sua imaginação.
Quem pode ouvir um gato caminhando? Se o animal estivesse sobre
chapas, que lhe registrassem os movimentos... Mas, andando por trás
da porta fechada, na sala? Repito: tudo é criação
de sua mente. Você vive sozinho, sente a falta de companhia,
então, até se torna normal essa vontade de ouvir os
passos de seu visitante.
Então, o colega enchendo os copos, concluiu:
- Esquece. Sai pra passear, curte uma praia, procura uma
mulher. O que lhe falta é distração. Aproveita a
vida, que é curta!
A conversa mudou. A noite envelheceu. E logo a madrugada
despontaria.
Sua voz estava mais grossa ao se despedir:
- Até amanhã. Ou melhor, até mais
tarde.
- Vai lá, amigo. E ver se dorme, sem pensar em
gatos!
Ele sorriu e, em passos vacilantes, distanciou-se.
Pensativo, o colega ficou seguindo-o com os olhos até
vê-lo diluir-se na madrugada.
6
Cruzou a sala, a cozinha e no tanque externo, abrindo a
torneira, permitiu que a água lhe molhasse a cabeça.
Durante segundos, de olhos fechados, permaneceu deliciando-se ao
contato do líquido frio. Depois retornou à cozinha, foi
quando viu o bichano próximo ao fogão, fitando-o com
aqueles olhos humanos.
Então, talvez porque estivesse embriagado,
encaminhou a mão à cabeça do animal.
7
Tendo a bola caída no quintal, o menino pulando o
murro foi apanhá-la. E, quando a segurou, viu o corpo no piso
da cozinha. Curioso se aproximou. Será que o vizinho estava
dormindo, bêbedo? Sempre apressadinho, retrocedeu a casa, para
narrar a cena à mãe.
- Deixe o homem lá, ele tá na casa dele.
Vá brincar com a bola, meu filho!
O menino atendeu.
Sozinha, ela ficou pensando e, logo, discou para a
delegacia próxima.
8
- O que eu acho estranho são essas marcas no
pulso dele. Como se ele tivesse sido mordido por um bicho, um animal.
Concorda Pereira?
- É, Biró, também estou “encucado”:
parecem ser marcas duma cobra ou... Mas vamos aguardar o laudo. Um
sujeito ainda moço...
Por trás do fogão, olhos fosforescentes
lhes seguem os movimentos.
* * *
Fim
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