Seguem-me,
sempre que me virar ali estarão, escondendo-se na minha sombra, tão
provocantemente perto, que se parar é possível que esbarrem em meu
corpo.
Astutos, invocados,
não se deixam apagar, jamais sumiram.
Entram pelos
focos de medo, esvaem-se por dentro do corpo, como crianças em um
playground.
E que forças
maciças, sagazes em destruir eles têm, e que desejo ininterrupto de
trucidar os sonhos eles emanam.
Estão sempre
presentes, sempre ali no canto da alma.
Eric Dawoint,
era sem dúvidas uma pessoa solitária, alguém que não se via,
que não se notava. A não ser por Jullie, que do 7° andar de seu apartamento
compacto e velho, o via por entre dois ou três minutos de todos seus
dias, atravessando pela avenida central:
- Como eu queria
que tu olhasses pra minha janela uma vez, apenas - suspira a garota.
A mesma garota que, por seis longos meses, vivera trancada por
livre vontade. Os pais de Jullie a queriam internada em um hospital
psiquiátrico, pois, após a data de 2 de agosto, Jullie vivia em outro
plano; mesmo estando viva, parecia não ter mais sentimentos,
vontades, nem nada que uma bela e jovem garota de sua idade poderia
querer naturalmente.
A porta.
Eric procurava
a chave, dentro do bolso de sua calça jeans surrada, e em seguida de
sua jaqueta azul.
- Onde estará...Devo
de ter deixado cair em alguma rua por onde passei.
Neste mesmo
instante, Jullie o vê saindo do pequeno prédio:
- O que será
que houve? Ele sempre demora uma ou duas horas ali dentro - pensa a
menina, olhando para o relógio. Entretida por seus pensamentos,
nem se dá conta de que pela primeira vez Eric lança um olhar diretamente
em sua sacada.
Os olhos de
Eric são desvencilhados pelo carro que já não irá esperar que ele
passe....
Susto.Um grito.
- Meu Deus!!!!!-Jullie
não crê em que seus olhos vêem.
Por aquele
instante ela esquece-se do mal, e corre pelas escadas, descendo tão
rapidamente quanto um cão à caça de um gato.
A rua...Vazia
-Meu Deus!
Alguém!
Mas parecia
que as pessoas daquela rua, apenas daquela rua, haviam sumido.
Jullie o agarra
pelos ombros e olha para seu rosto:
- Como és
belo! Oh, meu Deus, e está gelado! Será que esta morto?
Então sua
pergunta é respondida:
- Sim, ele
acaba de morrer
Vagarosamente,
como que em um filme em câmera lenta, Jullie vira-se. E vê o que seus
olhos temiam que visse novamente. O próprio demônio em sua forma mais
realista e putrefata:
- Assim que
ele lançou os olhos em ti, mesmo que pela primeira vez, eu o matei
para que não pudesse te ver nunca mais.. - seus lábios viscosos riam
solenemente por mais uma vitória sobre um ser humano.
- Maldito seja.
Tua ambição por mim nunca será ressarcida, nunca terás um pensamento
meu sequer em teu nome - ela o enfrentou com os olhos
tão vermelhos quanto os do próprio lúcifer, que a fitavam com
prazer, comprimindo os olhos como quem de perto quer melhor enxergar:
- Minha jovem
bela, teu ódio alimenta mais minha devoção à tua alma. Tua alma
será minha, sempre será - completa o maldito ser.
Como a sombra
feita pela nuvem no sol, repentinamente ele desaparece por entre
o ar daquela tarde negra.
Havia, no entanto,
algo que não tinha sido visto por Jullie: na mão esquerda de
Eric havia a marca de uma chave, como se queimada ali mesmo, na
palma de sua mão.
- Oque será
isso? - pergunta-se tristemente, ao dar-se então importância
de que ele a havia visto, e antes que tivessem trocado o primeiro olhar,
ele fora tirado de sua vida.
Levaram-no
então, a ambulância tardia, que chegara após o ocorrido.
Os dias se
passavam, e a vida ia junto do vento rapidamente...
A vida de Jullie
haveria de ter mudado naquele dia.
Aquela marca
de chave na mão de seu admirado, agora morto, a deixava cada
dia uma hora a menos pra dormir.
Suas noites
eram curtas, repentinas, nem sonhava , até que um dia isso mudou.
Era uma porta,
uma porta velha e rusticamente desenhada, repleta traços
indefinidos. Era quente por ali, mas se sentia que por debaixo daquela
porta um novo ar frio se misturava com o velho ar dali.
Então a porta
se abriu, rapidamente, como se fosse sair um monstro assustador
que a pegaria...
Mas nada daquela
porta saiu. Era o silêncio incessante que lhe intrigava para adentrar
por ali.
Então o fez.
Nada se via além de uma cadeira, mas por um instante tudo mudara.
A porta fechara
trancando-se sozinha com uma chave de ouro.
A mesma chave
que marcara seu sonho destruído.
Então,
como se por um instante sua mente fosse engolida por uma televisão,
cenas brotavam diante de seus olhos; então ela viu oque ocorrera
dias antes do dia 02 de agosto, quando pela primeira vez havia
visto seu maior inimigo, Satanás.
O rapaz senta-se
na cadeira e estende suas mãos:
- Quero-a,
eu a quero, apenas para mim - disse Eric enfeitiçado, e olhava pra
ele dentro dos olhos pútridos e avermelhados com o sangue de tantas
almas amaldiçoadas.
-
Se a queres,
tê-la-hás, mas eu terei a ti, tua alma e teu corpo. Esta é
a condição,aceitas? - Com os olhos mais sagazes que se
é possível desprezar, ele pergunta.
- Sim - responde
o jovem.
Então o ser
maligno lhe entrega a chave que lhe arde a mão, marcando-lhe
a morte.
- Ela será
sua, assim que eu a visitar e soprar-lhe no ouvido teu nome.
Assim então
tudo se esclarece para Jullie.
Antes mesmo
de conhecê-lo, Eric já a idolatrava e um pacto fizera.
Mas,
por um desatino do tempo, o próprio demônio caíra em sua controvérsia,
pois assim que a visitara, via, em seus malditos olhos, algo que queria
pra si próprio...
E era algo
que prometera a outro...
Jamais confie
no demônio, ele traiu o próprio Deus. Por que não trairia um
filho Dele?
Daiane de Almeida
dnagrunge@hotmail.com