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Ego te absolvo

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Escrito por Oscar Wilde   
Qui, 25 de Setembro de 2014 00:00

 

 

 

Ego te absolvo


Ego te absolvo

Por Oscar Wilde (1854 - 1900)


I


Sob suas boinas azuis, enegrecidas pela pólvora e manchadas pelo pó das estradas, os soldados de Miralles (1) têm fisionomia de bandidos, com suas peles cor  de fuligem, e barbas e cabelos  desgrenhados.  Arrastam-se há cinco longas semanas pelas estradas, quase sem dormir, quase sem descansar, trocando tiros a qualquer momento, com uma raiva crescente.


Não se impuseram aos bandidos liberais?  Dom Carlos (2) prometera-lhes, todavia, que, depois dos esforços de Estella, a Espanha seria sua.   Têm todos eles sede de vingança e de sangue, e a alegria de vertê-lo é o que os mantém de pé, por mais cansados e rendidos que se encontrem.


Esses bascos, navarros, catalãs, filhos de desterrados que morreram de fome e de miséria em terras estrangeiras, sentem uma raiva feroz daqueles soldados  que com eles disputam  a rota dos platôs de Castela – a via dos palácios nos quais  juraram restabelecer o legítimo rei –,  para então repartir, sobre os degraus do trono restaurado, os cargos do reino e as riquezas dos vencidos.


Entre esses montanheses e os homens dos novos partidos  não há apenas rancores políticos: existem, sobretudo, e antes de tudo, velhas contas de assassinatos impunes, saques irressarcidos, incêndios sem desforra.  Por isso, quando um soldado de Concha (3) cai-lhes nas mãos, infeliz dele!  Paga por todos os demais, pelos que se lhes escaparam às mãos.


– Irmão, você tem que morrer! – dizem ao capturado, arrojando-o   contra a uma rocha.


O homem inicia um sinal da cruz, e, assim que desce a mão num mui vagaroso amém, os fuzis, alinhados a dez passos de seu peito, vomitam a morte. A vítima desmorona como um trapo velho e já não se fala mais disso: encarregam-se os abutres dos Pirineus do resto.  Se o padre Miralles, um homem gorducho e encurvado, de olhos semicerrados, com a batina arregaçada,  desfila ante os guerrilheiros, pendura ao ombro o fuzil e absorve ou bendiz o moribundo com rápidos maneios.


Às vezes, sem desgarrar  os olhos da luneta marinha que lhe serve para esquadrinhar as rochas e as  azinheiras mais distantes, o padre toma a confissão do prisioneiro. Um general é responsável pela vida de sua tropa, diabos!


Liberal, sim, mas sobretudo  católico, o prisioneiro não parece surpreso com  o  estranho duplo ofício do sacerdote soldado.  É necessário que ele, prisioneiro,  confesse,  eis  que vai ser fuzilado, e é muito natural que o fuzilem: já que se  deixara capturar,  faria o mesmo se fosse o captor.  Esta lógica satisfaz por completo as débeis exigências de seu cérebro de camponês arrancado de seu torrão para curvar a nuca sob os arreios militares.  E, além disso, para que lutar contra esse fato brutal da morte ameaçadora, imediata e inevitável?

Já que a morte há que chegar, trata-se apenas de bem fazer a bagagem, e se apresentar  convenientemente,  quando for o  momento de partir ao  além inevitável.

 

II

 

 

Naquela noite, ao pôr do sol, Pedro Careaga achava-se de sentinela na depressão de Mallorta quando uma mulher, montada em uma  mula, tomou o caminho da  trilha de Buenavista.  Ele atirou ao acaso, mas foi a mula que caiu. A  mulher avançou até ele, quase sem dar-lhe tempo de recarregar.  E quando a teve em mira, o Navarro não pôde decidir-se em atirar.  A fêmea ela bela e desejável, com os seus cabelos negros, que caíam em cascatas até as pernas, seus lábios rubros e  pupilas brilhantes.


Por causa da prisioneira, Pedro Careaga esqueceu-se da causa de Dom Carlos e da Liberdade.  E mulher, que sentia medo, jurou-lhe que adorava o “rei neto”.  Provou a ele que não detestava as carícias recendidas a pólvora de guerra e que Pedro Careaga era, se não o mais bonito dos mortais, pelo menos o mais acariciado  dos vencedores: tudo isso entre as massas de pedra da depressão de Mallorta.


Os braços da prisioneira ainda enlaçavam, como um colar de ouro moreno, o pescoço curtido de Careaga ,  quando chegou Joaquín Marínez para o revezamento.


– Ei, vá com calma!  Você tem que dividi-la comigo, rapaz.   As noites são frias. Não é bom dormir sem agasalho, companheiro.  Mas vejo que é um homem precavido: dossel de cabelos, traços mornos como  lenço de pescoço, cobertor de carne suave.  Agora é a minha vez, amigo!


Careaga se levantou e, colocando atrás dele a prisioneira, respondeu:


– Chegou a sua hora, patife! Onde reina Careaga, não há outro rei.  Se as noites são frias, aqueça-se  contra essa mula, que minha carabina abateu, ou então abata  outra para si.  O butim é meu, como Navarra é do Rei Carlos, filho de judia!


Joaquín Martinez  ajustou o  fuzil à face, e já ia atirar, quando a mulher, com um chute selvagem, desviou o  cano e mandou a bala a perder-se nas nuvens.  Martínez atirou fora  a arma descarregada e, de  uma navalhada em pleno ventre, levou ao chão a prisioneira de Careaga.


– Ah, canalha! – uivou o navarro, atirando-se para frente e brandindo a sua carabina.


Mas um novo golpe de navalha cortou em seus lábios o rosário de insultos. E desmoronou, arrojando uma espuma esbranquiçada pela comissura dos lábios na poça de sangue que saía do corpo da mulher estripada.  Atraído pelo barulho do tiro, Miralles chegou, seguido de outros tantos homens.


Martínez não tentou negar a contenda.


Com seus olhos quase desprovidos de cílios pelo estalido de um fuzil ruim, o cura bandoleiro abarcou a cena.



– Porcos! – grunhiu com voz rouca.  Vejamos a fêmea.  Uma linda mulher despachada por um golpe sujo de navalha! De que lhe serviu, inocente narciso?  Careaga, pelo menos, sentiu prazer.  Bem, rapaz – disse, dirigindo-se a Martínez,  cujos olhos não se despregavam dele –, é muito bonito isso de querer roubar o butim de um companheiro! E quanto a vocês outros!  Deixem-me tomar a confissão deste pagão.  Não precisamos de vocês aqui.  Diz teu confiteor Martínez, e faça o ato de constrição.



E, em seguida, apontando bruscamente o fuzil para o indivíduo, queimou-lhe os miolos sobre os dois cadáveres.



– Se deixarmos que se faça o que fizeram estes companheiros – resmungou –, logo o rei Carlos não terá exército nenhum.


 

 

 

Notas dos editores:

(1) Provavelmente José Miralles (1792-1844). Incorporou-se, em apoio a Carlos Maria de Isidro de Bourbon, pretendente ao trono espanhol, ao exército de guerrilhas em 1833, tornando-se líder de uma delas. Foi chefe da cavalaria valenciana e comandante geral de Valência. Não consta, contudo, que fosse clérigo. Este conto se passa, portanto, durante a Primeira Guerra Carlista (1833-1840), guerra civil ocorrida na Espanha, na qual se confrontaram os partidários do pretendente D. Carlos (de índole absolutista) e os da rainha investida Isabel II (defensores  de um regime liberal).


(2) Carlos María Isidro de Bourbon (1788 – 1855), conde de Molina, filho de Carlos IV da Espanha e irmão do rei Fernando VII.  Com a morte deste último, reivindicou com armas a coroa espanhola, por considerar que antiga lei monárquica (lei sálica) excluía mulheres da sucessão, defendendo, pois, a ilegitimidade da ascensão de sua sobrinha Isabel II ao trono espanhol.


(3) Provavelmente Manuel de la Concha (1808-1874), general e político espanhol.

 

 

Versão em português de Paulo Soriano.

 
Autor: Oscar Wilde

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Comentários   

 
#1 Guest 26-03-2017 04:08
Ao longo de que consciência li pode entao estar determinado incômodo.
Adorei!
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