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O Cristo do Mar

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Escrito por Anatole France   
Qui, 15 de Junho de 2017 00:00

 

 

O Cristo do Mar

 

 

 

O CRISTO DO MAR

 

Por Anatole France (1844 - 1924)


 

Naquele ano, afogaram-se no mar muitos moradores de Saint-Valery que saíram para pescar. As ondas fizeram dar à praia vários cadáveres e restos de embarcações perdidas. Durante nove dias, não cessaram de desfilar féretros conduzidos à igreja, acompanhados por viúvas chorosas, cobertas de amplos mantos negros.


Os corpos de Jean Lenöel e de seu filho Désiré foram também colocados na nave principal, sob a abóboda em que ambos haviam prendido, em oferenda à Virgem, um barco com todos os seus apetrechos.


— Jamais foram sepultados em recinto sagrado — disse o vigário de Saint-Valery — dois homens melhores que Jean Lenöel e seu filho.


Um dia, dois jovens que viajavam num bote viram uma grande figura estendida sobre as ondas. Era a imagem de Jesus Cristo, do tamanho de um homem, talhada em madeira bem pintada. Devia ser uma obra antiga. O Senhor flutuava nas águas com os braços em cruz. Ao vê-lo, o senhor cura disse:


— Esta imagem do Salvador vem para nós com os braços abertos para abençoar a paróquia tão duramente castigada e anunciar sua piedade pelos desgraçados que expõem sua vida no mar.


O vigário deixou a imagem de Cristo estendida sobre o altar-mor e encomendou uma bela cruz de carvalho. Nela cravaram a imagem e colocaram-na na frente principal da nave. Então puderam observar que seus olhos resplandeciam de misericórdia e pareciam umedecidos por lágrimas de compaixão.


Quando, na manhã seguinte, o vigário entrou para rezar a missa, surpreendeu-se ao ver a cruz vazia e o Cristo estendido sobre o altar.


Logo que acabou de celebrar o Santo Sacrifício, chamou o carpinteiro. Interrogou o sacristão e convenceu-se de que ninguém tocara na imagem.


Teve o pressentimento de um milagre. No domingo seguinte, falou do púlpito aos seus fiéis e lhes rogou que contribuíssem com o que pudessem para construir outra cruz, melhor e mais digna de acolher o Salvador. Os pobres pescadores de Saint-Valery deram todo o dinheiro que tinham e as viúvas entregaram seus anéis de casamento. Assim pôde o vigário encomendar em Abbeville uma cruz muito bem trabalhada e que tinha em letras de ouro a inscrição: "INRI". Dois meses depois, colocaram-na no lugar destinado. Mas, Jesus abandonou-a, como a outra, e, de novo, durante a noite, foi estender-se sobre o altar-mor.


Ao vê-lo, no dia seguinte, o senhor cura caiu de joelhos e esteve rezando muito tempo. A notícia do milagre espalhou-se por toda a paróquia. O padre recebeu de todas as partes dinheiro e joias. Com todas essas riquezas, um afamado artífice da rua São Sulpício fez uma cruz de ouro e pedras preciosas, inaugurada na igreja de Saint-Valery com grande pompa e solenidade. Mas Aquele que não recusou a cruz da dor escapuliu-se daquela cruz tão rica e foi postar-se novamente sobre a branca toalha do altar.


E, há mais de dois anos ali estava, ninguém se atrevendo a tocá-lo, quando um rapazinho disse ao padre que tinha encontrado na areia a verdadeira cruz de Nosso Senhor.


Pierre, porém, era um pobre de espírito que, não tendo inteligência bastante para ganhar a vida, vivia da caridade pública.


O vigário, que não deixava de pensar no mistério do Cristo, ouviu o pobre rapaz e fez-se conduzir ao lugar onde ele dizia estar o achado. Eram duas grandes tábuas com alguns cravos que deveriam ter flutuado pelo mar.


Ao verem aquilo, o sacristão e demais companheiros começaram a troçar do pobre tolo que confundia as gastas madeiras de um barco com a cruz do Senhor. Mas o vigário proibiu aquelas pilhérias. Meditara e rezara muito desde o aparecimento do Cristo do Mar e sua alma começava a entrever o mistério da infinita caridade. Ajoelhou-se na areia. E logo ordenou que conduzissem as tábuas à igreja.


Quando lá chegaram, o senhor vigário colocou o Cristo nas tábuas da barca e ele próprio pregou-as com pregos que o mar já havia enferrujado. O Cristo do Mar não a abandonou nunca. Quis permanecer encravado naquelas madeiras entre as quais morreram alguns homens invocando seu Nome e o Nome de sua Divina Mãe.


E ali, entreabrindo seus lábios santos, numa expressão de dor, parece dizer: “Minha cruz foi feita com todos os sofrimentos dos homens, pois eu sou o Deus dos pobres e dos desgraçados!”

 

 

Traduzido e adaptado de "Le Christ de l’Océan" por autor desconhecido. Publicado originalmente na Revista Fon-Fon, ed. de 26 de dezembro de 1942.

 

. Os ombros, o peito e os magros braços desapareciam sob as placas de pústulas e escamas.  Rugas enormes lavravam-lhe a testa. Tal como um esqueleto, tinha um buraco no lugar do nariz e os lábios azulados exalavam um hálito nauseabundo e espesso como um nevoeiro.

 
Autor: Anatole France

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