A Lebre | CONTOS DE TERROR
Você está aqui: Home > Contos Clássicos > A Lebre

A Lebre

PDF Imprimir E-mail
(0 votos, média de 0 em 5)
Escrito por Charles Nodier   
Sex, 03 de Novembro de 2017 00:00

 

 

A lebre

 

 

A LEBRE

 

Charles Nodier

(1780-1844)

 

 

Um amigo meu, um honesto agricultor, era um caçador determinado.  Era visto, desde o nascer do dia, a saltar valas, galgar colinas e perseguir a sua presa até as suas últimas trincheiras.


Certa tarde, vergado pelo cansado e muito mal-humorado, o meu amigo tomou o caminho de casa com o bornal vazio. Uma lebre fugiu-lhe aos pés. O caçador disparou, mas errou o tiro. O seu mau humor redobrou, mas desapareceu assim que ele viu a lebre escondendo-se a cem passos e distância. Recarregou a escopeta, disparou e perdeu mais dois tiros. Não podia entender como como havia sido tão inábil. Justamente ele, que jamais disparou em vão.


Resmungando, retomou o caminho e viu a lebre sentada sobre as patas traseiras, cofiando tranquilamente os bigodes.


— Desta vez – disse o caçador —, não mais me afrontarás!


Então, mirando com aquela precisão que jamais o decepcionou, faz o disparo, certo de que abatera a vítima. Vã ilusão. A lebre fugiu, parecendo escarnecer de seu inimigo.  Arrebatado pela ira, o intrépido caçador jurou persegui-la até o fim do mundo. Cumpriu a sua palavra, de modo que, ao cabo de algumas horas, havia consumido toda a munição que levava, malgrado ainda visse o malicioso animal a provocá-lo, a poucos passos adiante.


Sem mais conter-se de tanta raiva, o meu amigo revolveu o fundo do saco e encontrou uma carga de pólvora. Mas não havia chumbo. Já não sabia o que fazer quando lhe ocorreu a ideia de vergar moedas de seis liards e de seis sous[1] e fazer balas com elas. À custa de muito empenho e paciência, conseguiu recarregar a escopeta, e já se dispunha a disparar, quando a lebre mudou repentinamente de aspecto e foi substituída por uma figura humana, que dirigiu ao caçador estas palavras:


— Deixa de perseguir-me, desgraçado! O céu me permitiu retomar a forma humana para impedir que cometas um crime. Eu sou o teu avô. Há cinquenta anos, vivo nesta planície sob a forma de uma lebre e minha penitência deve prolongar-se por mais cinquenta. Se queres sofrer a mesma pena, evita teus pecados.


Quando concluiu tais palavras, converteu-se novamente em lebre e deixou o seu neto estupefato, a tremer de espanto.


Desde este dia, o meu amigo jamais ousou atirar numa lebre.


Tradução de Paulo Soriano

 


[1] Liards e sous:  moedas de pequeno valor.

 
Autor: Charles Nodier

Adicionar comentário


Código de segurança
Atualizar

 

PageRank

Pesquisa de informações

Leitores Online

 

Área de Autenticação








Após o cadastro, acesse seu e-mail e siga as instruções.
Copyright © 2017 CONTOS DE TERROR. Todos os direitos reservados.
Joomla! é um Software Livre com licença GNU/GPL v2.0.