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O Marinheiro de Amsterdam

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Escrito por Guillaume Apollinaire   
Sáb, 06 de Janeiro de 2018 00:00

 

 

marinheiro

 

 

O MARINHEIRO DE AMSTERDAM


Por Guillaume Apollinaire

(1880 - 1918)

 

I

 

O brigue holandês Alkmaar retornava de Java carregado de especiarias e outros gêneros preciosos.


Fez escala em Southampton, e os marinheiros tiveram permissão para desembarcar.


Um deles, Hendrijk Wersteeg, carregava um macaquinho no ombro direito, um papagaio no esquerdo e, cruzando o peito, um fardo de tecidos de tecidos indianos, que pretendia vender na cidade, juntamente com os animais.


Era o início da primavera e anoitecia cedo. Hendrijk Wersteeg caminhava rapidamente pelas ruas um tanto brumosas, iluminadas apenas pela luz do gás. O marinheiro pensava no seu próximo regresso a Amsterdam, em sua mãe, a quem não via há três anos, e em sua noiva, que o esperava em Monikedam. Calculava o dinheiro que obteria com os animais e os tecidos, procurando uma loja onde vender aquelas exóticas mercadorias.


Na Above Bar Street, um cavalheiro muito bem vestido o abordou, perguntando se estava à procura de um comprador para o papagaio.


— Este pássaro — disse — me calharia muito bem. Preciso de alguém que fale comigo sem que eu tenha de responder, e eu moro sozinho.


Como a maioria dos marujos holandeses, Hendrijk Weteeg falava inglês.  Estipulou um preço que o desconhecido aceitou.


— Siga-me — disse este. — Moro muito longe daqui. O senhor mesmo prenderá o papagaio numa gaiola que conservo em casa. Lá, poderá mostrar-me os seus tecidos, e é possível que alguns deles me agradem.


Muito feliz com a barganha, Hendrijk Wersteeg seguiu o cavalheiro e, enquanto caminhavam, na esperança de também vendê-lo, teceu elogios ao macaquinho, dizendo ao desconhecido que este era de uma espécie muito rara de mono, cujos indivíduos são os que melhor resistem ao clima da Inglaterra e mais se apegam a seus donos.


Logo Hendrijk Wersteeg parou de falar. Empregava em vão as suas palavras, pois o desconhecido não lhe respondia e nem mesmo parecia escutá-lo.


Continuaram o caminho em silêncio, um ao lado do outro. Saudosos de suas florestas tropicais nativas, o macaquinho, assustado com as brumas, soltava de vez em quando um queixume semelhante ao choro de um recém-nascido, e o papagaio batia as asas.


Ao fim de uma hora de caminhada, o desconhecido disse abruptamente:


— Já estamos perto de casa.


Haviam saído da cidade. Grandes parques cercados por grades margeavam o caminho. De vez em quando, as janelas iluminadas de uma casa de campo reluziam entre as árvores e às vezes se ouvia, muito distante, o uivo sinistro de uma sirene no mar.


O desconhecido deteve-se diante de uma grade, tirou do bolso um molho de chaves e abriu o portão.  Fechou-o assim que Hendrijk entrou.


O marinheiro estava inquieto. Distinguia apenas, no fundo do jardim, uma casinha de boa aparência, mas cujas persianas fechadas não deixavam perpassar luz alguma.


O desconhecido silencioso, o chalé sem vida, tudo aquilo era deveras lúgubre. Mas Hendrijk se lembrou de que o desconhecido vivia sozinho.


“É um homem excêntrico”, pensou.  E como um marinheiro holandês não é suficientemente rico para ser atraído a um assalto, envergonhou-se de seu momento de ansiedade.


II


— Se tem fósforos, ilumine-me — disse o desconhecido, introduzindo uma chave na fechadura da porta do chalé.


O marinheiro obedeceu. Quando entraram, o desconhecido trouxe uma lamparina, que prontamente iluminou uma sala mobiliada com bom gosto.


Hendrijk Wersteeg estava completamente tranquilo. Já alimentava a esperança de que o seu estranho companheiro lhe comprasse uma boa parte de seus tecidos.


O desconhecido, que havia deixado a sala, retornou com uma gaiola.


— Ponha aqui o seu papagaio — disse. — Não o porei num poleiro até que ele seja domesticado e saiba falar o que eu queira que ele fale.


Então, após fechar a gaiola, na qual o pássaro parecia assustado, ordenou ao marinheiro que tomasse a lamparina e entrasse num quarto contíguo, onde havia — disse — uma mesa adequada à exibição dos tecidos.


Hendrijk Wersteeg obedeceu e introduziu-se no quarto indicado.  Imediatamente, ouviu a porta fechar-se atrás dele. A chave girou. Estava preso.


Confuso, deixou a lamparina sobre a mesa e intentou arrojar-se contra a porta, para forçá-la. Mas uma voz o deteve:


— Um passo a mais e será um homem morto, marinheiro.


Erguendo a cabeça, Hendrijk viu, por uma claraboia, que não notara antes, o cano de um revólver apontado para ele. Aterrorizado, parou.


Impossível lutar. Sua faca não lhe podia ser útil em tais circunstâncias.


— Ouça-me— disse o desconhecido — e obedeça. O serviço compulsório que você irá prestar-me será recompensado. Mas não tem escolha. É preciso que me obedeça sem vacilar, senão eu o matarei como a um cão. Abra a gaveta da mesa. Há um revólver de seis tiros, carregado com cinco balas... Pegue-o.


O marinheiro holandês obedecia quase inconscientemente. O macaquinho em seu ombro gritava de terror e tremia. O desconhecido continuou:


— Há uma cortina no fundo do quarto.  Abra-a.


Aberta a cortina, Hendrijk viu uma alcova. No leito, amarrada pelas mãos e pés, uma mulher o fitava com os olhos cheios de desespero.


— Desamarre essa mulher — disse o desconhecido — e tire a sua mordaça.


Cumprida a ordem, a mulher, muito jovem e de beleza admirável, lançou-se de joelhos diante da claraboia, gritando:


— Harry, isto é uma armadilha infame! Você me atraiu a este chalé para assassinar-me. Disse-me que o alugara para que passássemos os primeiros dias de nossa reconciliação. Pensei que eu o havia convencido. Julguei que você, finalmente, houvesse acreditado que eu jamais fui culpada. Harry! Harry, eu sou inocente!


— Não acredito em você — disse secamente o desconhecido.


— Harry, eu sou inocente! — repetiu a jovem com uma voz estrangulada.


— Estas são as suas últimas palavras. Eu as registro cuidadosamente. Elas me serão repetidas por toda a minha vida.


A voz do desconhecido tremeu um pouco, mas recobrou imediatamente a firmeza:


— Porque eu ainda a amo — acresceu. — Eu mesmo a mataria, se a amasse menos. Mas isso me seria impossível, porque eu a amo... Agora, marinheiro, se você não mete uma bala na cabeça dessa mulher antes que eu conte até dez, cairá morto aos meus pés. Um, dois, três...


Antes que o desconhecido tivesse tempo de contar até quatro, Hendrick, em pânico, atirou na mulher. Esta, ainda de joelhos, olhava-o fixamente. Caiu de face para o chão. A bala perfurara-lhe a testa. Imediatamente, vindo da claraboia, um segundo tiro atingiu o marinheiro na têmpora direita. Ele desabou sobre a mesa, enquanto que o macaquinho, lançando agudos guinchos de terror, refugiava-se sob a sua camisa.


III


No dia seguinte, alguns transeuntes, que ouviram gritos estranhos, procedentes de uma casa de campo nos arredores de Southampton, avisaram a polícia, que rapidamente acudiu para forçar as portas.


Encontraram os cadáveres da jovem e do marinheiro.


O macaquinho, escapando subitamente da camisa de seu dono, saltou sobre um dos policiais.  E tanto os assustou que estes, recuando alguns passos, e antes que o animal se atrevesse a aproximar-se novamente, o abateram a tiros.


A justiça se pronunciou. Era evidente que o marinheiro havia matado a moça e se suicidado em seguida. No entanto, as circunstâncias do drama pareciam misteriosas. Os dois cadáveres foram facilmente identificados e todos se perguntavam como Lady Finngal, esposa de um par da Inglaterra, fora parar, sozinha, numa isolada casa de campo, com um marinheiro que desembarcara em Southampton no dia anterior.


O proprietário da casa não pôde fornecer informação alguma que permitisse à Justiça o esclarecimento dos fatos. O chalé fora alugado oito dias antes do drama a um certo Collins, de Manchester, cujo paradeiro era ignorado. Este Collins usava óculos e tinha uma longa barba vermelha, que bem poderia ser falsa.


O lorde chegou, a toda pressa, de Londres. Adorava a sua mulher e a visão de sua dor era insuportável. Como todos os demais, não podia conceber o que acontecera.


Depois destes acontecimentos, retirou-se do mundo. Vive em sua casa de Kensington, sem outra companhia além de um serviçal mudo e de um papagaio que repete incessantemente:


— Harry, eu sou inocente!

 

 

Tradução de Paulo Soriano

Ilustração de Switched

 


 
Autor: Guillaume Apollinaire

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