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O REFLEXO PERDIDO

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Escrito por Anônimo do séc. xix   
Seg, 14 de Maio de 2018 00:00

 

 

marinheiro

 

 

O REFLEXO PERDIDO


(Excerto de Das verlorene Spiegelbild, de E. T. A. Hoffmann, condensado, adaptado e recontado por autor anônimo do séc. XIX)


— Confesso, Frederico —redarguiu Erasmo —, que não me é dado divertir-me no mesmo tom que vós o fazeis todos, rapazes joviais e folgazões. Bem sabeis que deixei na Alemanha, nossa pátria, uma esposa amável, que amo com todas as forças do meu coração, e não quero ofendê-la na mínima coisa. Vós sois solteiros, podeis divertir-vos à vontade; mas um pai de família...


Todos os rapazes saltaram uma estrondosa risada ao ouvirem as palavras “pai de família”, que Erasmo acompanhou de certa gravidade no seu ar e rosto prazenteiro de moço alegre. A companheira de Frederico, a quem este traduziu em italiano o que Erasmo acabava de dizer em alemão, disse-lhe, desdenhosa:


—Falas isto, frio e misantropo alemão, porque ainda não viste Julieta.


Neste momento, ouviu-se um rumor, e viu-se aparecer uma elegante moça, em extremo linda.


— Julieta! — exclamaram as outras com alegria.


Ela, cuja formosura sobre-humana eclipsava a das outras, disse com doce voz:


—Permiti-me, galantes jovens alemães, que eu tome parte no vosso divertimento. Irei sentar-me ao junto daquele que é o único que de todos vós ainda não tem companheira.


E, chegando-se para Erasmo com a maior graça, tomou assento na cadeira que este tinha a seu lado, a única que na sala estava desocupada. A este tempo, já Erasmo estava atônito com o que via. E quando Julieta chegou-se a ele, a sua respiração ficou embargada por um poder incompreensível. Olhou-a. Os lábios descorados e semiabertos, imóvel, não atinava com a menor ideia. Então Julieta tomou um copo cheio de generoso vinho e apresentou-o a Erasmo com um meigo sorriso; e ele aceitando-o, sentiu o contato delicioso dos seus dedos de neve. Bebeu, e enquanto bebia era fogo que lhe coava nas veias.


—Tu queres — perguntou-lhe ela — que eu seja a tua dama?


O louco enamorado deixou-se cair, delirante, aos pés da encantadora fada. E, pegando as suas mãos, apertou-as de encontro ao seu peito, exclamando:


—Tu és a que eu sempre tenho amado! Tu, anjo dos céus, eras a que eu via em meus sonhos. Tu, minha vida, minha ventura, meu pensamento.


Um dia, Frederico, a quem Erasmo tinha deixado de procurar, encontrou-o na rua.


— Querido Erasmo — disse-lhe—, não posso deixar de aproveitar esta ocasião para lhe dar um aviso que a nossa amizade exige. Dizem-se coisas estranhas da tua formosa Julieta. Fala-se de um certo Dappertute, homem terrível, que vende essências diabólicas, por meio das quais essa irresistível cortesã exerce um poder sobrenatural, algo que em ti se comprova. Quanto estás mudado! Já não te lembras da tua linda e virtuosa esposa?


Erasmo cobriu o rosto com as mãos de homem envergonhado, pronunciando, entre soluços, o nome de sua mulher.


—Vamo-nos desta cidade, Erasmo.


— Sim, Frederico, dizes bem. Partirei hoje mesmo.


Mas Erasmo voltou à companhia de Julieta e, num passeio que ambos deram, ele matou raivoso um rival que o tinha provocado...


Despertando como de um letargo profundo, achou-se Erasmo não no centro de um cárcere, mas numa câmara elegante, recamada de adereços, recostado no regaço da sua linda Julieta. Esta amável sedutora, vendo-o tornado a seus sentidos, pronunciou em tom de sentido queixume:


— Ingrato! Ingrato alemão! Quanto me custa? Não estás seguro em Florença? A Itália não te agrada! Queres partir, e tão sem amor me deixas? É preciso que fujas de mim, que te amo tanto?


—Não, não! — prorrompeu o enfeitiçado amante. Quero ficar. Mais vale morrer que te deixar!


Pareceu-lhe então ouvir o magoado som de uma voz débil e chorosa, que pronunciava o seu nome. Era a voz da sua saudosa esposa. Erasmo emudeceu.


Julieta disse-lhe, em tom lúgubre e estranho:


— Pensas em tua mulher, Erasmo? Não tardarás a esquecer-me...


—Jamais, jamais! — gritou Erasmo. — Quisera que eu todo fosse teu: a alma, a vida para sempre te daria.


— Por acaso se passava esta cena diante dum rico espelho, iluminado com profusão de luzes por todos os lados. Julieta lançou os braços ao pescoço de Erasmo, e disse-lhe, com terna voz:


Ao menos, meu querido, deixa-me a tua imagem, que se reflete naquele espelho. Ela nunca se apartará de mim.


— Que dizes, Julieta? — replicou o admirado jovem. — O meu reflexo desse espelho?


E, no entanto, olhava como a luz reproduzia no vidro a sua imagem e a de Julieta, estreitamente abraçados.


— Como presumes tu guardar o meu reflexo, que me acompanha sempre, que me retrata em cada superfície lisa, em cada límpida fonte?


— Já me não amas, Erasmo. Já nem sequer me concedes essa sombra tua que se vê nesse vidro! Tu, que me dizias que me querias dar a alma e o corpo! Nem ao menos queres que a tua imagem fique comigo para acompanhar-me nas angústias de uma vida que será para sempre infeliz, já que me deixas?


E dos olhos pretos da bonita Julieta borbulhavam lágrimas ardentes, que lhe realçavam a beleza. Erasmo, arrebatado de pena e de amor, exclamou:


—Pois é forçoso deixar-te, Julieta? Ah, fica, fica com o meu reflexo, e para sempre.


Isto apenas dito, Julieta largou subitamente o pescoço de Erasmo, estendeu os braços para o espelho, e o jovem, pasmo, viu a sua imagem reproduzir-se independente de seus movimentos, parecer tomar corpo, passar do vidro para os braços da infernal beldade e desaparecer com ela em meio de uma fumaça espessa, entre mil vozes agudas e uivos ferozes, que sobressaíam por meio de horríveis apupos e risadas de uma legião de condenados.


De volta à sua pátria, Erasmo deteve-se para comer numa povoação de trânsito. Sentou-se à mesa dos viajantes assaz numerosos nesse dia, sem reparar que bem defronte de sua cadeira estava um grande espelho que adornava a parede. Um maldito criado observou que o reflexo da cadeira em que Erasmo estava sentado aparecia vazio no espelho, e comunicou esta descoberta ao vizinho de Erasmo; este a outro, e correndo de boca em boca chegou aos ouvidos do alemão o surdo  murmurar de todos os ângulos da mesa.


Olhavam para o espelho e depois para ele; outra vez para o espelho e de novo para ele. E quando Erasmo caiu em si, achou-se agarrado pela mão de um homem grave, que o levou para junto do espelho fatal. E, certificado por seus próprios olhos, disse para os circunstantes que era certíssimo que aquele homem não tinha reflexo.


Gritaram despropositadamente:


— Está tomado pelo diabo! Fora, fora com o possesso!


E semelhantes gritos repetiam-se de todas as partes.


Erasmo, cheio de cólera, retirou-se para o seu quarto. Mas ainda bem não tinha entrado, quando o vieram notificar da parte do respectivo magistrado que, dentro do uma hora, se apresentasse como seu reflexo próprio intacto. Aliás, saísse imediatamente da cidade.


Nosso homem teve, pois, que se pôr logo a caminho, corrido pelos apupos da populaça, que vociferava atrás dele:


— Aí vai o feiticeiro, que vendeu o seu reflexo ao diabo!


Restituído à sua pátria e família, que festejou o seu regresso com o maior alvoroço, pensou Erasmo que bem poderia encontrar, entre os prazeres domésticos de sua amável esposa e filhinho, a consolação do que carecia pela perda do seu reflexo.


Já se havia se esquecido da bela Julieta quando, um dia, sua mulher, que lhe viu  a face cheia de laivos pelas mãozinhas sujas do pequeno Erasmito, correu a buscar um espelho para que o pai visse o estado em que o tinha posto a traquinagem do pequenino intrometido. Erasmo, todo entregue aos afetos paternais, não deu por sua mulher que lhe aproximava o vidro fatal. De repente um grito espantoso de sua esposa o despertou. Ela havia caído no chão sem sentidos. Acudiu ele a socorrê-la. Porém, tendo tornado a si, sua mulher, exclamou:


— Deixa-me, deixa-me, homem horrível! Tu não eras tu: não eras ele, não: não eras meu marido; eras um espirito infernal que intentava danar-me. Deixa-me, que não te concedo império sobre mim, maldito!


Suas vozes eram tais que todos seus vizinhos as ouviram, e Erasmo saiu de casa sem acordo e furibundo.


Depois teve que lutar com terríveis tentações de Julieta e Dappertute, de que o salvou a aparição aérea de sua mulher.


Então ele ouviu em torno de si os atitos das corujas, ulularem as almas dos condenados e outras dissonâncias horríveis. E Julieta e Dappertute desapareceram no meio do um vapor fétido, que saiu da terra e escureceu o ar.


Erasmo peregrinou muito tempo e não se sabe se chegou a recuperar o seu reflexo.

 

Fontes:

Diário de Pernambuco, edição de 18 de agosto de 1842.

Diário do Rio de Janeiro, edição de 20 de setembro de 1842.

Ilustração: Fernando Xumetra (1860 – 1920).

 


 
Autor: Anônimo do séc. xix

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