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A Noite (Um Pesadelo)

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Escrito por Guy de Maupassant   
Sáb, 16 de Junho de 2018 00:00

 

 

Noite

 

A NOITE

(Um Pesadelo)

Guy de Maupassant

(1850 – 1893)


Tenho paixão pela noite. Adoro-a como se adora a terra natal ou a amante, com amor instintivo, profundo, invencível. Amo-a com todos os meus sentidos, com os olhos que a veem, com o olfato que a respira, com os ouvidos que lhe escutam o silêncio, com toda a carne acariciada pelas trevas. As andorinhas cantam ao sol, no ar azul, no ar quente, no ar leve das manhãs claras. O mocho voa nas trevas; é mancha negra que passa no espaço aéreo, e alegre, embriagado pela imensidade negra, ergue seu grito vibrante e sinistro.


O dia me cansa e aborrece. É brutal e ruidoso. Levanto-me com dificuldade, visto-me devagar, saio pesaroso. E cada passo, cada movimento, cada gesto, cada palavra, cada pensamento me fatiga como se suspendesse um peso enorme.


Porém, quando o sol transmonta, uma alegria vaga, uma alegria em todo o corpo me invade. Desperto e me animo. As trevas aumentam e me sinto outro, mais, moço, mais forte, mais vivo, mais feliz. Vejo cerrar-se a grande sombra descida do céu: ela, onda intangível e impenetrável, inunda a cidade, oculta, apaga, destrói as cores e as formas, enlaça as casas, os seres, os monumentos, com seus braços imperceptíveis.


Vêm-me, então, desejos de gritar de prazer, como as corujas, de correr pelos telhados como os gatos; penetra-me nas veias uma vontade impetuosa, invencível, de amar.


Ando, caminho, ora pelos arrabaldes escuros, ora pelos bosques próximos, onde ouço o desfilar das minhas irmãs, as feras, e de meus irmãos, os caçadores.


Sempre nos mata tudo o que amarmos violentamente. Como hei de explicar, porém, o que me acontece? Até mesmo, como fazer compreender o que possa contar? Não sei, não sei mais; sei unicamente isto:


Ontem — teria sido ontem? Sim, por certo, a menos que não tivesse sido antes, em outro dia, em outro mês, em outro ano—não sei. Contudo, deve ter sido ontem, pois o dia não tornou a amanhecer, pois o Sol não apareceu novamente. Desde quando, porém, dura a noite? Desde quando? Quem o dirá? Quem jamais o saberá?


Ontem, portanto, saí, como faço todas as noites, depois do jantar. Fazia um tempo esplêndido, suave, quente. Descendo para além, via por cima de minha cabeça o rio escuro e cheio de estrelas, cavado no céu pelos telhados da rua, que se curvava e fazia ondular como um verdadeiro rio, este regato movediço dos astros.


Tudo era claridade no ar leve, desde os planetas até os bicos de gás. Tantas luzes brilhavam nas alturas e na cidade, que as trevas pareciam luminosas.  As noites fulgentes têm mais alegrias do que os dias de sol.


Na rua, os cafés flamejavam; ria se, passava-se, bebia-se. Por alguns instantes, entrei no teatro, não sei mais em qual. Estava tão claro lá dentro, que fiquei triste e saí com o coração um tanto em trevas por este choque de luz: brutal nas pinturas dos camarotes, pela cintilação a espaços do lustre enorme de cristal, pela cerca de fogo do palco, pela melancolia desta claridade falsa e intensa. Caminhei ainda, e os grandes faróis pareciam-me focos de incêndio. As árvores, ao contato da luz amarela, tinham aparência de pintadas fosforescentes, e os globos elétricos — quais luas brilhantes e pálidas, semelhando ovos de lua caídos do céu, semelhantes a pérolas monstruosas, vivas — faziam empalidecer em sua luz nacarada, misteriosa e real os renques de lampiões de gás, do estúpido gás sujo, e os ramalhetes dos vidros de cor.


Parei debaixo do Arco do Triunfo para fitar a avenida, a longa e admirável avenida estreitada, dirigindo-se para a capital entre duas linhas de fogos! E os astros! Os astros, no céu, os astros desconhecidos, lançados a esmo na imensidade e aí desenhando aquelas figuras esquisitas, que tanto fazem cismar, que tanto fazem pensar!


Entrei no bosque e aí me demorei muito tempo, muito tempo. Senti um tremor singular, uma comoção imprevista e poderosa, uma exaltação no pensamento que se aproximava da loucura.


Caminhei muito tempo, muito tempo. Depois voltei. Que horas eram, quando passei da novo debaixo do Arco do Triunfo? Não sei. A cidade adormecia e nuvens — grandes nuvens negras — estendiam-se lentamente pelo céu. Foi então que senti penetrar-me qualquer coisa estranha, nova. Pareceu-me que fazia frio, que o ar se condensava, que a noite, a minha noite adorada, pesava em meu coração. A avenida naquele momento estava deserta. Somente dois policiais caminhavam junto a uma estação de carros; e na calçada apenas iluminada pelos bicos de gás, que pareciam morrer, passavam carroças de legumes em direção ao mercado. Elas rodavam lentamente, cheias de batatas, rabanetes e couves. Os cocheiros dormiam, invisíveis; os cavalos caminhavam sempre no mesmo passo, puxando a carroça sem rumor na calçada de madeira.  Em frente a cada luz do passeio, as batatas coloriam-se de branco, os rabanetes de vermelho, as couves de verde.  E passavam, umas atrás das outras, estas carroças vermelhas, de um rubro de incêndio, brancas da alvura da prata, verdes da cor da esmeralda. Acompanhei-as; depois, tomei a rua Real e voltei para os boulevards. Nunca tinha visto Paris tão morta, tão deserta. Puxei o relógio. Eram duas horas.


Impelia-me uma força, um desejo de andar. Fui então até a Bastilha. Aí, notei que nunca tinha visto uma noite tão escura, pois nem sequer distinguia a Coluna de Julho, cujo gênio de ouro perdia-se nas trevas impenetráveis. Uma abóbada de nuvens, densas como a imensidade, afogara as estrelas e parecia descer para a terra, afim de esmagá-la.


Voltei. Ninguém mais me rodeava. Contudo, na praça do Chateau d'Eau, um bêbado quase me deu um encontrão e depois desapareceu. Por algum tempo, ouvi o seu passo incerto e sonoro. Eu caminhava. Nas proximidades do arrabalde de Montmartre, passou um carro que descia para o Sena. Chamei. O cocheiro não respondeu. Uma mulher passeava perto da rua Drouot:


—Escute uma coisa, senhor...


Apressei o passo para evitar-lhe a mão que me estendia. E depois, nada mais. Em frente ao Vaudeville, um trabalhador examinava o rio. A lanterninha dele flutuava no chão. Perguntei-lhe:


—Que horas são, meu velho?


Respondeu:


—Sei lá. Não tenho relógio.


Então observei que tinham sido apagados os bicos de gás.  Sei que, por economia, são suprimidos cedo, antes da madrugada; porém, o dia ainda vinha longe, ainda tardaria a aparecer.


—Vamos ao mercado — pensei. — Ao menos ali encontrarei vida.


Caminhei; porém, não via coisa alguma e não podia orientar-me. Anda ia lentamente, como se estivesse num bosque, reconhecendo as ruas, contando-as.


Diante do Crédito Lionês, um cão ladrou. Tomei a rua de Grammont e me perdi. Errei; depois reconheci a Bolsa, pelo gradil de ferro que a cerca; Paris dormia; um sono profundo, horrível. Entretanto, ao longe, rodava um carro, um único, carro, talvez o mesmo que passara perto de mim, pouco antes. Procurei alcançá-lo dirigindo-me para o ruído de suas rodas, ao longo das ruas solitárias e escuras, negras como a morte.


Perdi-me, ainda. Onde estava eu? Que loucura apagar o gás tão cedo! Nem um transeunte; nem um retardatário, nem um gatuno, nem um raiado de gato apaixonado. Nada!


Onde estaria então a polícia? Disse intimamente:


—Vou dar um grito e eles aparecerão.


Gritei. Ninguém me respondeu. Gritei com mais força. Minha voz voou, sem eco, fraca, abafada, esmagada pela noite, por esta noite impenetrável.


Berrei:


—Socorro! Socorro! Socorro!


Ficou sem resposta esta exclamação de desespero. Que horas seriam? Tirei o relógio, porém não trazia fósforos. Ouvi o tique-taque leve do pequeno mecanismo com alegria desconhecida, extravagante. Parecia viver. Estava menos só. Que mistério! Continuei a caminhar como um cego, apalpando as paredes com a bengala. Levantava a todo instante os olhos para o céu, esperando ver enfim surgir o dia. Porém, o espaço continuava negro, negro, mais profundamente negro do que a cidade.


Que horas podiam ser? Parecia-me que caminhava havia um tempo infinito, porque minhas pernas se dobravam, meu peito arquejava, e sentia uma fome desesperada. Decidi bater no primeiro portão. Calquei no botão de cobre e o tímpano retiniu na casa, sonoro; retiniu extravagante, como se este ruído estivasse sozinho dentro de casa.


Esperei. Não responderam. Ninguém abriu a porta. Calquei outra vez. Esperei ainda. Nada!


Tive medo! Corri para a casa imediata e ainda vinte vezes fiz soar o tímpano no corredor escuro, onde devia dormir o porteiro. Ele não acordou. Fui mais longe, puxando com toda a força os anéis, os botões, batendo com os pés, com a bengala, com as mãos, as portas obstinadamente fechadas.


Súbito, notei que chegara ao mercado. Estava deserto, sem um rumor, sem um movimento, sem um carro, sem um homem, sem uma moita de legumes ou flores. Estava vazio, imóvel, abandonado, morto!


Fiquei horrivelmente aterrorizado. O que se passava? Oh, meu Deus, que se passava?


Parti de novo. E a hora? A hora? Quem me diria que horas eram? Nenhum relógio soava nas torres ou nos monumentos. Pensei:


—Vou abrir o vidro do meu relógio e procurar a agulha com os dedos.


Puxei o relógio... já não batia...estava parado. Nada mais, nada mais, nem um estremecimento na cidade; nem uma luz, nem uma ondulação no ar. Nada. Nada mais! Nem mesmo o rodar distante de um carro. Nada mais!


Estava no cais: subia do rio um frio glacial. Ainda correria o Sena? Quis sabê-lo. E encontrei a escada. Desci... não ouvia a corrente fervilhar debaixo dos arcos da ponte... Ainda mais degraus... areia... lama... água... mergulhei o braço... corria... corria... fria... fria ...fria... quase gelada... quase congelada... quase morta. E sentia que não tinha forças para subir de novo... e que ia morrer naquele lugar...de fome...de cansaço... e de frio.

 


Tradutor desconhecido do séc. XIX.

Fonte: Pacotilha(MA), edição de 16 de agosto

 


 
Autor: Guy de Maupassant

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