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O Crime do Doutor Jindal

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Escrito por Paulo Soriano   
Sex, 29 de Março de 2013 00:00

 

O Crime do Doutor Jindal


O Crime do Doutor Jindal

por Paulo Soriano


Nasci a bordo da Pegasus, filho de um engenheiro espacial e de uma simples auxiliar de enfermagem. Embora cada um dos tripulantes da nave tivesse passado por um rigoroso teste de seleção – e isso implicava um rastreamento genético, que ascendia a várias gerações pretéritas –, por algum motivo, há bem pouco tempo inexplicável, nasci com um defeito inadmissível em tripulantes de naus interestelares. A lei no espaço é de uma rigidez de aço. Conheço-a muito bem. Contudo, o antigo geneticista-chefe da missão era amigo íntimo de meu pai e, por isso, às ocultas, eu fui poupado. Decerto não apenas a amizade pesara em sua decisão: certamente (assim confidenciou-me a minha mãe moribunda), o Dr. Jindal avaliara que eu não significava um risco considerável para a missão. Atualmente, eu acrescentaria um motivo mais incisivo. Meu pai nunca soube de minha anomalia e dela tomei conhecimento recentemente: contou-me a minha mãe, em seu leito de morte. Ela ia confidenciar-me algo mais – algo que me pareceu urgente e vergonhoso  – , mas não houve tempo.


Hoje, também o meu pai está morto. O Dr. Jindal ainda vive – tem quase noventa anos e sofre de esclerose aguda –, mas,  como ele já se esqueceu  de  minha deformidade  genética, agora todo o segredo se concentra  exclusivamente em mim.    Estudei Direito e sou o Magistrado-mor da Pegasus. A corte à  que presido, composta por três juízes e um escrivão, se reúne uma vez por mês para instrução e imediato julgamento. As causas são raras e, geralmente, de simples resolução. Hoje, porém, o Ministério Público apresentou à corte um caso complexo. O réu é o próprio Dr. Jindal.


Viera da Terra uma denúncia contra o geneticista. Ela levara tinta e sete anos para chegar até nós. Há quarenta e cinco anos que vagamos no espaço e, sequer, estamos a meio caminho de Alfa do Touro. Daí toda preocupação com a perfeição genética das gerações futuras.


Pesa sobre Dr. Jindal a acusação de haver contribuído para a falsificação de seu histórico genético no exame de admissão à Missão Alfa do Touro. Ele, além de ser em si mesmo um perigoso contrafator, mascarara uma predisposição à transmissão de um raro gene, responsável por uma disfunção do caráter, potencialmente perigosa para a missão.


O primeiro juiz votou pela absolvição: argumentou que Dr. Jindal era um celibatário, não deixara prole e, nos dias atuais, não poderia mais procriar. Concluiu que a intenção da lei era garantir a segurança genética das proles vindouras. Inexistente o risco, não haveria por que condenar o octogenário. Além disso, o Dr. Jindal não teria, devido à esclerose avançada, consciência do ilícito que praticara há quase  cinquenta anos, e nem entenderia o caráter punitivo da aplicação da pena capital.


O segundo magistrado votou pela condenação: durante todo o tempo em que permanecera na nave, o Dr. Jindal a expusera a um risco que não se poderia admitir. O simples fato de pôr deliberadamente a missão em risco era suficiente à condenação, pouco importando o atual estado de consciência do criminoso.


Pois bem: a vida do homem que me salvara estava em  minhas mãos. O voto de Minerva era meu. Qualquer ser humano minimamente decente levaria em consideração este fator. Mas, convenhamos: eu padeço de uma disfunção genética, que afeta o meu caráter irremediavelmente: sou vingativo. Portanto, não terei qualquer responsabilidade ao assinar o decreto de morte do Dr. Jindal. Afinal, foi ele próprio quem me transmitiu o gene da vindita. Como poderia perdoar alguém que fez de minha mãe uma adúltera e que me ocultou, durante tanto tempo, a minha verdadeira e odiável origem?


Amanhã, às imaginárias nove horas da manhã, Dr. Jindal enfrentará a câmara de gás.

 

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