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Resgate

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Escrito por Miguel Carqueija   
Dom, 30 de Junho de 2013 00:00

 

Resgate


Resgate

por Miguel Carqueija


No silencio das estrelas vou tentando te encontrar.


(Missinho, “O mistério das estrelas” — gravação RCA de Diana Pequeno)


O enjôo apossou-se dele no momento do reingresso no espaço normal.


Acontecia com frequência. Na perturbação dos últimos acontecimentos, esquecera de tomar a pílula antiperistal. Alípio Pollice arrastou-se até o sanitário para se aliviar antes que sujasse a cabina toda. Não foi fácil segurar o estômago até lá.


Não conseguiu entender como as suas entranhas ainda podiam se encontrar tão repletas. Afinal, não havia comido tanto. Lavou o rosto como pôde, sabendo que a gravidade artificial precisava ser desligada antes das manobras finais que o guiariam até a Grande Sentinela.


Julgava-se sem condições físicas e até psicológicas para administrar o regresso à estação espacial. O cérebro eletrônico teria de cuidar de tudo, uma vez programado para isso. Alípio não temia o que pudesse acontecer nas manobras; o seu temor dirigia-se para mais adiante, quando tivesse de lidar com os seus superiores.


Deitou-se num dos leitos embutidos e, exausto, engoliu uma pastilha indutora do sono, sem querer saber de mais nada.


......................................................................


Despertou numa cama imaculadamente branca, de uma alvura de neve, num aposento suavemente iluminado por uma luminária de sódio, embutida no teto. A temperatura estava climatizada, amena. Perplexo, percebeu que estava vestido com o seu pijama — calça e paletó — e que aquele lugar não poderia ser a nave.


Havia armários brancos, uma janela velada por cortina, um aparelho de holovisão desligado, uma estante com livros e outras mídias. Alípio afastou a colcha rosada e com motivos de pandas e coalas e se levantou, sentindo um carpete embaixo dos pés.


Aquilo parecia tudo, menos uma cela de prisão ou um quarto hospitalar. Alípio dirigiu-se à porta, no canto oposto em diagonal, tentou abri-la mas encontrou-a trancada. Incrédulo, fez várias tentativas inúteis para abrir — até se convencer de que alguém o havia trancado.


O que estava acontecendo afinal?


Ele resolveu explorar o aposento. Havia uma porta menor, que dava para um banheiro anexo e sem saída. Ele subiu num banquinho, espiou e descobriu que se encontrava a imensa altura. O que mais o chocou, porém, foi constatar que se achava na Terra e não na estação do espaço.


Na Terra! E numa grande metrópole! Um imenso tráfego aéreo de dirigíveis e aeroplanos, espigões imensos a perder de vista, torres de purificação atmosférica... Alípio não conseguia reconhecer o local, talvez fosse Londres ou Paris, ou alguma cidade norte-americana... os anúncios luminosos flutuantes anunciavam em três idiomas, inglês, francês e espanhol.


Voltou a explorar o quarto e encontrou as suas roupas num armário antiquado, de madeira. Trocou-se, mesmo consciente de que os seus trajes de explorador e astronauta não condiziriam com a vida citadina, Estava disposto a tentar arrombar a porta, pois percebera encontrar-se incomunicável, sem nenhum aparelho de comunicação ao seu alcance.


Nesse momento, porém, a porta se abriu. Entrou uma morena jovem e bem proporcionada, de saia e blusa informais, descalça, olhos verdes de felina; atrás dela vieram três garotas com roupas ainda mais informais, empurrando um serviço de lanche.


— Que bom que você acordou — disse ela, chegando-se a ele e dando-lhe um inesperado selinho. — Deve estar com fome.


— Mas quem são vocês?


— Elas aqui são a Sakura, a Iolanda e a Ginger. A mim você conhece, ou não se lembra?


Ele ficou parado alguns instantes, mirando-a mas sem conseguiu identificá-la. Por fim ela sorriu:


— Você se lembrará, Alípio. Podem ir — e ela dispensou as três moças, que tinham acabado de colocar o lanche na mesa que havia no aposento.


As três se foram, encostando a porta. A garota morena indicou as cadeiras em volta da mesa:


— Sente-se.


— Isso é que não! O que eu quero é sair daqui, saber o que está acontecendo. O que houve com a minha espaçonave?


— Eu vou lhe explicar tudo, se você sentar.


Mas ele não quis fazer isso e se encaminhou para a porta. A jovem interpôs-se e abraçou-o, prendendo-o entre os seus braços:


— Você lutaria comigo?


— E por que não? Quero ter liberdade.


Ela sorriu, sem soltar o amplexo:


— Então, você está disposto a lutar comigo. Que ótimo! Já viu que eu sou robusta. Nós poderemos nos divertir à grande. Mas não agora, por favor. Agora não temos tempo para isso. Se você insistir eu chamo as minhas ajudantes, que são bem treinadas. Elas vão amarrá-lo num abrir e fechar de olhos. É isso o que você quer?


— Mas... mas quem é você, afinal?


— Eu sou a Tatiana. Desculpe, esqueci de dizer o meu nome. Agora me diga se você se lembra.


— De você? Não.


— Já faz muito tempo. Então relaxe, por favor. Será que eu sou tão horrorosa assim? Estou te convidando para lanchar comigo, por favor, aceite. Eu te explicarei tudo. Vá lavar as mãos e sente aqui comigo, eu preparei tudo com muito amor.


Alípio acabou resolvendo que era melhor aceitar. A menina era muito sensual e gentil e aquele calor fazia bem; além do mais, ele precisava comer e precisava de esclarecimentos.


— Ah, e tire esses sapatos — acrescentou ela, quando ele voltou do banheiro. — Isso aqui é carpete, não é para gastar com sapatos.


Ele obedeceu e sentou-se em frente a ela. Tatiana sorriu e, pegando a sua mão, observou:


— Ainda não se lembra de mim?


Alípio passou a mão direita na fronte, fechou e abriu os olhos, mas não conseguiu chegar a uma conclusão. Meiga, ela serviu-lhe um vinho numa tulipa e encostou os pés nos dele:


— Você se lembra... de uma tarde sombria, ameaçando chuva, quinze anos atrás?


Ele procurou se lembrar. Quinze anos? Deus, teria quatorze! E, sim, lembrava de uma menina atrevida de doze, que lhe roubara um selinho casto bem como aquele de há pouco...


— Eu me lembro de você, agora! Meu Deus, nós fomos muito amigos! Como pude me esquecer?


— Astronautas, como marinheiros, esquecem muito facilmente — sentenciou ela, e destampou uma travessa.


— O que é isso?


— Uma cambuquira. É guisado de grelos de aboboreira. Eu gosto de comidas suaves e saudáveis.


— Mas no lanche?


— Veja. Tem café com creme, torradas e mel, o guisado é para fornecer mais vitaminas.


— Nós dois nos apaixonamos naquele tempo...


— É. Fora da época, pois nossos pais tinham seus próprios planos que não incluíam os nossos. Eles nos levaram para direções diferentes.


— Devíamos ter falado a eles...


— Crianças e adolescentes que se estimam não dizem os seus sentimentos aos pais. É errado, talvez, mas é um tabu instintivo.


O rapaz agora estava saboreando o lanche com gosto, interessado em conhecer o resto; a carícia dos dedos dos pés da garota era deliciosa.


— Mas o que você fez, por onde andou esse tempo todo?


— Eu fui delegada das Nações Unidas no Grande Congresso de Resgate da Humanidade, onde discutimos sobre a Anistia Histórica e o projeto dos purificadores, a instalação das usinas de água... tudo o que era importante, inclusive a negociação com o império dos alienígenas. Saí de lá prestigiada e encetei minha carreira de diplomata. A sorte me sorriu muito financeiramente, sabe?


— Isso foi muito bom, mas por que você não me procurou?


— Ora, porque! Porque fazem uma verdadeira blindagem em torno dos astronautas. Só pude realmente chegar até você neste seu regresso problemático.


Ela estendeu-lhe uma barra de torrone.


— Prove. Mel com amendoim, uma delícia.


Ele aceitou e agradeceu, mas estava sinceramente preocupado:


— Mas o que de fato aconteceu, e como é que eu vim parar aqui?


— É isso, querido! É o nosso milagre!


“Você estava em coma, percebe? As naves resgatadoras da grande Sentinela pegaram a sua nave e você foi encontrado em estado comatoso. Foi levado ao Hospital do Alto Comando, enquanto o General Frazão dava início ao processo de Corte Marcial...”


— O que? Do que você está falando, afinal?


Tatiana olhou-o com olhos severos:


— Sente-se e termine de lanchar comigo. Estou te contando tudo.


Ele tornou a sentar, confuso.


— Você não esperava algo assim, senhor Pollice? Depois do que aconteceu em Tau Ceti, com a morte de todos os seus companheiros...


— Mas eu deixei registrado tudo o que aconteceu, como fomos emboscados pelos Combs...


— Hum. Desconfio que não adiantou muita coisa. Um tirano como Frazão não admite que os seus homens possam morrer. Mas não se assuste: foi nesse ponto que eu o resgatei.


— Resgatou? Mas como? Você me tirou de lá clandestinamente?


— Não, bem ao contrário. Tirei-o às claras.


— Mas como você conseguiu, Tatiana?


— Graças à ajuda do Ministro do Espaço, com quem trabalho, obtive a sua curatela, daí o trouxe para o meu apartamento, e então...


Desta vez ele até derramou o refresco num sobressalto.


— Curatela? Você disse curatela? Isso quer dizer...


— É claro, querido. Eu o interditei judicialmente como forma de...


Mas ele já se havia levantado e buscava a porta. Ela o alcançou:


— Volto a dizer para você se acalmar. Não vai conseguir fugir tão facilmente e eu nem lhe expliquei tudo.


— Mas eu não sou um doente mental e nem você pode me manter preso!


Ela segurou meigamente o seu braço.


— Me dê uma chance de explicar tudo. Não entorne o caldo entre a gente, por favor. Não vê que eu salvei a sua vida? Acha que iria escapar do fuzilamento por traição?


— Fuzilamento? Você disse fuzilamento?


— Além do mais você vai sair descalço pela cidade? Vamos, não seja mal-educado e termine de lanchar comigo.


Sentindo-se em transe, ele obedeceu. Lembrava-se de que, no código militar, a pena de morte era prevista em crimes de alta traição, mas ninguém jamais fôra condenado por isso.


— Acho que não estava preparado para uma situação dessas — admitiu ele. — Como a gente pode quase dar a vida pelo dever e depois ainda enfrentar uma acusação desse tipo...


— Bem. Estou utilizando uma brecha legal para salvá-lo. A lei não prevê que um tutelado possa sofrer a pena capital ou a prisão, pois você agora é “relativamente incapaz”. Como o seu superior não vai se conformar facilmente, nós temos pouco tempo para jugular o seu inimigo. Eu já preparei os papéis para o nosso casamento, e aí...


Ele se engasgou com a torrada e tossiu até ficar vermelho. Ela se ergueu, veio por trás dele e o enlaçou ternamente:


— Melhorou?


— Já, mas você falou em casamento?


— Mas é claro! Será que você não entende? O padre e o juiz de paz já se encontram hospedados no meu domínio. Depois que nos casarmos eu deverei engravidar o mais depressa possível, pois com um bebê no circuito o bandido do general terá menos poder ainda sobre você.


— Eu devo estar sonhando...


— Não está. É tudo real. Será que você ainda não entendeu, Alípio? O Comando não perdoa um oficial que perde a sua equipe em missão, não importa que tenha sido inevitável. Só que é muito mais difícil prejudicar um marido e pai, e tutelado ainda por cima.


— Mas quando é que vai ser o casamento?


— Hoje à noite, querido.


— Mas tão depressa assim?


— Não há tempo a perder.


— Mas nós não podemos nos casar assim tão depressa! Nem noivamos...


— Já não bastam os quinze anos em que nós ficamos separados? Além disso temos de respaldar a sua situação jurídica, evitar que você possa ser preso.


— Você tem alguma prova do que está me dizendo?


— Termine de lanchar — ela fuzilou com o olhar.


Minutos depois ela tocou um interfone e pediu a uma das garotas para trazer uma pasta amarela. Um minuto depois Ginger abriu a porta e estendeu a pasta requisitada para a sua patroa, e se retirou em seguida, sem dizer palavra. Pollice estava impressionado com a fria e silenciosa eficiência das guarda-costas.


Tatiana chamou-o para o sofá e estendeu-lhe a pasta:


— Fotocópias dos documentos que eu pude conseguir. Dê uma olhada, mas não precisa ler tudo agora: estou lhe dando esses papéis.


O rapaz olhou tudo rapidamente. Eram cópias de papéis timbrados extraídos de processos, inclusive a autorização, dada por um juiz de Manhattam, a que Tatiana se tornasse curadora de Alípio. Ele estava em situação semelhante à de um índio dos velhos tempos, ou de uma criança, um louco ou um pródigo.


A cópia do ofício militar que dera início ao processo de corte marcial era inquietante:


“Tendo em vista a necessária apuração de responsabilidades sobre os acontecimentos funestos de Tau Ceti V, que culminaram com a morte de cinco astronautas: a bióloga Sachiko Tsuburaya, o astronavegador Hiroshi Hirata, o co-piloto Gene Burbank Mills, o intérprete Peter Blavatsky e o comandante Telmo Resnais, ordeno que se faça rigorosíssima investigação dos fatos para fundamentar o processo de Corte Marcial contra o piloto Alípio Pollice, réu de acusação de alta traição, cuja punição prevista é o fuzilamento, conforme o artigo 25, parágrafo 3, do Código Militar Interplanetário. Como o acusado se encontra em estado de coma, ordeno que o Hospital dos Astronautas de Manhattam permaneça sob custódia da Astronáutica, até que o réu receba alta e possa ser conduzido à detenção, quando o Tribunal Militar deverá marcar o seu imediato julgamento.”


— Eu não posso acreditar numa coisa dessas! Só falta dizer que eu serei julgado e depois fuzilado!


— Eu tive acesso ao seu diário. Aquela região é disputada pelos Combs e, afinal de contas, o que houve foi uma escaramuça de fronteira, não foi uma batalha oficial. Isso tudo vai ter que ser resolvido por via diplomática, duas raças inteligentes não podem entrar em guerra.


— O que você alegou para obter minha tutela? O ofício desse juiz cita um psiquiatra...


— Seus delírios serviram bem, quando você saiu do estado de coma. Eu agi rapidamente, você vê.


— Então eu fui posto como doente mental?


— Não precisa colocar a coisa assim. Vamos dizer, alguém que de momento não pode se nortear sozinho.


Ela tocou de novo o interfone e em um minuto e meio veio a Sakura, que tinha belas feições orientais. Tatiana ordenou-lhe que levasse o serviço de lanche, no que foi silenciosa e imediatamente atendida.


— Muito bem, vamos tratar de nós — disse a anfitriã. De pé, eles se abraçaram e beijaram intensamente. — Dispomos de pouco tempo — acrescentou ela, num intervalo do beijo.


— O que iremos fazer?


— Às oito da noite nos casaremos no civil e no religioso, em cerimônia mista. Como vê, meu querido, não precisamos antecipar nada. Vale a pena esperar pela noite de núpcias!


— E se eu não quiser?


Ela afastou um pouco o rosto, com os dedos nas omoplatas do rapaz, que a cingia pela cintura:


— Você está sob a minha tutela, continuará sendo o meu prisioneiro.


— Seu prisioneiro?


Ela sorriu, um sorriso maroto:


— Pois é. A Justiça o colocou sob a minha guarda e isso não mudará se você recusar o casamento. Mas pense em como seria tão melhor para nós dois...


— Desculpe. Eu não gosto de ser manipulado e sou um oficial da Astronáutica. Com certeza posso requisitar um advogado e me defender.


— Então o que pretende fazer?


— Vou pegar a minha mochila e ir embora. Isso aqui é Nova Iorque, não é? Há pessoas a quem eu posso procurar.


— Mas você não pode ir, querido. Você está sob custódia, lembra?


— Darei um jeito.


— E o nosso amor, meu bem?


— É claro que eu serei sempre agradecido por ter me livrado.


Ela assumiu uma expressão severa:


— Eu não estou falando de gratidão, estou falando de amor.


Alípio tornou a beijá-la muito carinhosamente e ambos voltaram a se estreitar.


— Eu nunca te esqueci, eu te amava aos quatorze anos. Mas nós resolveremos isso depois, um homem deve buscar o seu caminho. Não me acostumei com a idéia de ser tutelado e de casar para evitar uma condenação.


— Isto seria unir o útil ao agradável, eu entendo assim. Mas se você entende de outra maneira... está bem. Tente fazer do seu jeito.


— Tentar?


Ela tornou a afastar o rosto e, sorrindo, explicou:


— Se você sair daqui será contra a minha vontade, assim o que você tem que fazer é bem claro. Eu já vi muito disso no cinema. Aproveita que eu estou segura em seus braços. Me domina, me amarra, me amordaça; aí você foge, se conseguir escapar à vigilância das minhas ajudantes.


Ele não soube de imediato o que responder e ela acariciou-lhe a nuca e os cabelos:


— Você não correrá um grande risco. Se a polícia te pegar apenas te trará de volta, como um garoto que fugiu de casa.


— Tão simples assim? — disse ele afinal.


— Vamos! Se quer mesmo seguir esse caminho, não pode perder tempo! Até porque, depois que eu estiver presa você ainda vai ter que separar o que vai levar na mochila, e não esquece os documentos que te dei. E então? Quer fazer esse joguinho de gato e rato?


— Mas onde é que eu vou arranjar cordas? — indagou ele, sentindo-se meio tolo.


Ela indicou um móvel.


— Na gaveta de cima tem cordas e panos, tudo o que é preciso para amarrar e amordaçar uma garota. Mas é bom que saiba, isso vai dar trabalho porque eu vou lutar como uma gata selvagem.


— Sabe, Tatiana? Acho melhor esquecer isso. Estou achando tudo isso uma rematada tolice.


— Se você acha, que ótimo! Então case comigo esta noite!


Ela fechou os olhos e abriu os lábios, convidativa. Eles trocaram um novo e demorado ósculo e voltaram a se amplexar com força. Permaneceram assim em idílio durante alguns minutos.


Mas durante esses minutos de enleio o cérebro do rapaz funcionou a todo vapor e ele resolveu fazer aquilo mesmo que acabara de definir como “rematada tolice”. Sem aviso nenhum ele a fez virar de costas, tapou a sua boca, prendeu os seus braços e a impeliu na direção da cômoda. A garota começou a lutar furiosamente, forcejando e esperneando. Ele a arrastou a duras penas até alcançar a gaveta mas, para abri-la, teve de soltar a boca de Tatiana. Ela se pôs a gritar, pedindo socorro: atarantado, Alípio jogou ao chão as cordas finas que encontrou e um retalho que podia servir de mordaça e, obrigado pelas circunstâncias, forçou-a brutalmente a deitar de costas. Tratou de amordaçá-la sem demora, interrompendo os seus gritos. Tatiana, como prometera, estava lutando como uma jaguatirica; o astronauta precisou usar toda a sua força para fixar-lhe os braços nas costas e trançar-lhe os pulsos, que a muito custo conseguiu amarrar. Feito o primeiro nó, foi fácil dar outra volta na corda e reforçar a amarra com outro nó. A garota aquietou-se; ele atou os seus tornozelos com outra cordinha, ergueu-a do chão e carregou-a até a cama, onde a depositou suavemente, a cabeça no travesseiro.


Ninguém apareceu em socorro aos gritos da moça. Provavelmente, dada a espessura das paredes e da porta, ninguém escutara os apelos. Arfante, Alípio respirou fundo e, inclinando-se, deu um beijinho carinhoso no nariz da cativa.


— Querida, me desculpe, mas eu preciso correr atrás dos meus direitos, sem ninguém me tutelando. Algum dia poderemos tratar do nosso casamento, fiquei muito interessado! Mas depois... agora eu tenho que ir. Você mesma me disse para não perder tempo.


Ele tornou a beijar a ponta do nariz da moça e afagou os seus cabelos. Os olhos de Tatiana exprimiram ternura.


Alípio separou rapidamente roupas e objetos pessoais, além da pasta de documentos, pôs tudo na mochila e dispôs-se a ir embora. Antes porém reaproximou-se da Tatiana e osculou-a nos cabelos, despedindo-se.


— Tchau. Sei que vamos voltar a nos ver.


Ela piscou em despedida e, como movesse as pernas, ele ainda observou com bom humor:


— Ah, evite encostar as plantas dos pés no lençol: elas estão muito sujas de tanto você andar descalça.


Ela sorriu por trás da mordaça e ele acenou em despedida e se dirigiu para a porta. Encostou o ouvido nela, não escutou nada e arriscou-se a abri-la. Não havia ninguém no corredor e ele moveu-se rapidamente, sobre uma passadeira de borracha vulcanizada que lhe abafava os passos. Não sabia em que andar estava, mas ao avistar um elevador dentro do próprio apartamento sentiu crescer a esperança de sucesso na evasão. Embora não houvesse verificado o detalhe, era provável que aquela mulher ricaça ocupasse vários pisos do prédio e que a criadagem estivesse ocupada em outros andares. Uma coisa que ele não podia esquecer era anotar o endereço depois de verificá-lo na portaria: Tatiana não devia cair no olvido, ela era o seu amor de adolescente que reaparecera com frescor e vitalidade, após tanta areia passar pela ampulheta.


Pollice alcançou a porta do elevador e chamou-o. Percebeu, pelo letreiro luminoso, que aquele era o oitavo e último andar, possivelmente a cobertura, e que o ascensor estava no quinto pavimento. “Tomara que suba logo”, matutou ele. Devia ganhar a rua, tomar um jatosférico para o Brasil...


Nesse momento, porém, aconteceu algo repentino e inesperado: um cachorrinho “poodle” branco apareceu do nada e começou a latir daquele jeito esganiçado que os cães de pequeno porte são ótimos para demonstrar.


— Schiu! Fica quieto! — sussurrou o fugitivo, inutilmente. Nunca conseguira ser obedecido por cachorros.


Felizmente o elevador já vinha vindo e o moço estava excitado pela aproximação da liberdade. Seis, sete, oito... chegara finalmente.


A porta se abriu — e apareceram as três garotas de colante, sorridentes e já munidas de cordas. Alípio mal teve tempo de se espantar: elas saíram do elevador já pulando sobre ele. E não dava para lutar com as três.


Minutos depois ele já estava todo amarrado e amordaçado e as pequenas o transportavam como um saco de batatas. Eram lindas, frias, eficientes e silenciosas: durante toda a operação não lhe dirigiram a palavra e, entre si, apenas trocaram instruções tipo: — Amarra aqui, depressa!


Para o rapaz aquela situação humilhante sinalizava que, com toda a probabilidade, sua captora a tudo tinha previsto e apenas se divertia com ele. Afinal, para que aquele equipamento na gaveta do quarto reservado para Alípio? E por que ela o incentivara a tentar fugir? Era bem um jogo de gato e rato, como Tatiana havia pronunciado.


Ginger, Sakura e Iolanda levaram-no de volta ao quarto do cativeiro. Entraram com seu fardo e viram sua patroa presa na cama, todavia não demonstraram pressa em libertá-la. Primeiramente Iolanda, a mais alta das três e de longos cabelos negros, escolheu uma cadeira. Elas sentaram nela o rapaz e passaram mais uma corda em seu tronco, ligando-o à cadeira. Só então trataram de desatar a Tatiana, friccionando seus pulsos e tornozelos para desentorpecê-los. Esta, saltando da cama, parabenizou as três seguranças com abraços e beijinhos.


A dona da casa veio então dar atenção ao Alípio, começando por retirar-lhe o lenço da boca.


— Meu querido, julgou que podia passar por elas?


— Como é que você conseguiu escravas tão leais?


A tirada do rapaz pareceu agradar às quatro garotas. Tatiana riu e respondeu:


— Dou graças a Deus por tê-las encontrado. Cada uma tem a sua história, um dia a gente conta, mas hoje não. Hoje a agenda já está repleta. Vocês têm alguma coisa a dizer?


Ginger, a ruivinha, foi a primeira a se manifestar:


— Sim, Alípio, nós somos totalmente leais à Tatiana. A embaixadora sempre poderá contar conosco, até a morte.


— Nós devemos demais a ela — disse a japonesinha Sakura. — Se você estiver com ela, nós estaremos com você. E se estiver contra, nós estaremos contra você.


— Estamos radiantes por servir à Tatiana e por vê-la feliz como nunca, desde que o reencontrou. Porque uma coisa é certa, Alípio: você trouxe uma luz nova à vida da Tati. Ela tem velado por você o tempo todo desde que o resgatou do hospital militar e os melhores médicos o tiraram da coma e o puseram em sonoterapia, programando-o para despertar hoje. E ela cuidando de você, e cada vez mais contente com a sua presença. E o nome disso é amor, e é uma coisa linda.


Essa declaração mais longa partira de Iolanda. Alípio estava cada vez mais espantado com tanta dedicação e aquela referência ao amor e ao zelo de Tatiana por ele encabulou-o, colocando-o na posição de um mal-agradecido.


— Eu sinto muito. Também amo a Tatiana, desde sempre.


— Nós a amamos ao nosso modo — falou Ginger, acariciando os cabelos do rapaz. — Um dia podemos constituir família, mas não pretendemos deixá-la.


— Vocês sempre trabalham assim de maiô? — indagou ele, inopinadamente. Tudo ali era muito curioso.


— É o uniforme delas — explicou Tati. — É muito prático, dá total liberdade de movimentos em caso de luta, e de mais a mais o apartamento é climatizado.


— Mas se é o uniforme delas... e se tiverem que ir na rua durante o expediente? Vão assim mesmo?


— Mas que pergunta, tolinho! É claro que não vão assim. Colocam sandálias!


— Ah! — foi tudo o que ele conseguiu dizer.


Por alguns instantes todos ficaram em silêncio. Tatiana então sentou no colo de seu prisioneiro, enlaçou-lhe o pescoço e prosseguiu:


— Vamos falar de nós agora. Primeiro, quero te dizer que adorei aquela nossa experiência. Eu jamais esquecerei.


— Acho que também não vou esquecer...


E ela prosseguiu, sempre intercalando beijos e afagos às palavras:


— Agora, amor, temos realmente pouco tempo. Como eu te disse, nosso matrimônio está marcado para as oito. Será uma cerimônia simples, e as pequenas aqui serão as testemunhas e madrinhas.


— Mas eu não quero ser obrigado a casar!


— Tolinho, ainda não percebeu o quanto está enganado! Ninguém está te obrigando a nada!


— Como assim? Não estou sendo mantido preso?


— Mas isso foi só para você absorver a situação! Não se pode obrigar alguém a casar contra a vontade! Se você realmente não quiser, bastará dizer “não” ao padre e ao juiz! Vai me constranger, me partir o coração? Sim, mas é um direito que te assiste! Por aí você vê que bicho-de-sete-cabeças o Alípio está armando!


Ela saiu do colo do rapaz e pôs-se de joelhos, reclinada sobre os dele:


— Queria que você pudesse compreender como eu estou humilde em sua presença. Você teme que eu te escravize, te controle? Querido, só existe um motivo para que eu requeresse a tua curatela: salvar a tua liberdade e a tua vida. É possível ter uma prerrogativa e não fazer uso dela. Eu não vou te espezinhar e nem te manter em cárcere privado. Você vai ser livre, Alípio! Considera essa tutela o subterfúgio, o truque legal para te preservar! É só isso! Se você se afastar de mim, sair pelo mundo, Deus sabe que pode não dar certo! Seu inimigo poderá contestar a minha idoneidade como tutora e se você cair nas mãos dele...


Ela deu um suspiro fundo e prosseguiu:


— Eu sou uma embaixadora e preciso da tua ajuda, querido. Você com certeza terá de dar baixa das Forças Armadas, deixará de ser major da Astronáutica, mas possui ótimas habilitações para a vida civil! Então, vai me ajudar! Preciso da tua ajuda para elaborar uma estratégia de pacificação com os Combs. Nós, terrestres, também cometemos agressões contra eles. Não podemos olhá-los simplesmente como vilões, temos antes que nos entender fraternalmente, pois Deus nos criou a todos. Você, que os conhece de perto, tem muito que me ajudar, e isso é por demais importante!


— Eu sei — prosseguiu ela — que você quer rever seus pais e demais parentes que estão na América do Sul. Eu irei com você, eu estarei sempre com você. Eu te amo, Alípio, com sinceridade!


Agora corriam lágrimas pela face da garota. Alípio começou a se sentir um carrasco impiedoso. A menina estava realmente humilde, abrindo o seu coração diante das serviçais.


— Tatiana... o que vamos fazer então?


Ela se ergueu, sorrindo amistosamente:


— Eu vou para os meus aposentos tomar um bom banho, me perfumar e pentear os cabelos. Depois porei umas pantufas. Afinal de contas, não fica bem casar de pé sujo — e ela mostrou a sola do pé direito, para ilustrar a tese. — Você também tomará banho. Depois que puser a roupa de baixo, as meninas te ajudarão a se vestir.


— Como? Elas?


— Sim, claro, porque já temos no guarda-roupas várias peças adequadas às suas medidas. Eu não perdi tempo. Sei que você está acostumado a se vestir sozinho mas essa ocasião é muito especial. Elas vão perfumá-lo, penteá-lo, ajustar-lhe a jaqueta. Eu te quero muito charmoso hoje à noite!


Voltou-se para as “escravas”.


— Isso agora deixem comigo, meninas.


Pôs-se a desatar o seu amado, começando pelas pernas; retirou as cordas dos braços e pulsos. Não fez fricções, talvez por achar que Alípio, em seu atual estado de agitação nervosa, as dispensaria. Mas deu-lhe um amável selinho e, agora bem segura de si, instruiu:


— Nós vamos fazer desse modo: meia hora antes da cerimônia tomaremos uma sopa de milho com migalhas de pão e um refresco. Creio que será o bastante para não casarmos com fome, não é bom encher muito o estômago. Agora eu te deixarei com Ginger e Iolanda, você vai para o box e toma o seu banho, tem xampu para os cabelos, se produz bem. Sai do box só com o shortinho, ouviu bem? Deixa as outras roupas lá, que não são as que você vai usar no evento. Essa nós vamos escolher agora. A Ginger e a Iolanda serão as tuas camareiras hoje, a Sakura vai me ajudar. Depois elas vão algemar você a mim.


— Como é mesmo? Cada vez eu fico mais espantado...


— Meu amor, é muito simples. Vamos colocar uma algema no seu pulso esquerdo, a outra vai no meu pulso direito, mas a correntinha tem mais de meio metro, ficaremos com bastante liberdade de movimentos.


— Nós vamos ficar assim até a hora do casamento?


— Não, amor. Nós vamos casar assim.


— Mas não podemos fazer isso! O padre e o juiz não vão aceitar!


— Querido, você ficou muito desatualizado de tanto viajar no espaço. Isso é um símbolo do amor. Hoje em dia muitos casais jovens andam assim na via pública, sem nenhuma inibição, para mostrar que são inseparáveis. Não é lindo?


— Você deve estar com a razão.


Tornaram a se apertar nos braços.


— Eu nunca vi alguém como você, Tatiana. É tão diferente das outras garotas...


— Ainda bem que você me vê assim. Nós daremos certo. Vem, vou te mostrar tuas roupas; vamos escolher juntos.


.................................................................


De fato, o guarda-roupa estava bem sortido e Alípio surpreendeu-se interessando-se pelas peças. Tati sugeriu uma jaqueta azul de brim, ele apreciou várias calças e escolheu uma de linho marrom. Experimentou sapatos pretos de magiplast. Tati mostrou-lhe belos lenços enfeitados.


— Os sapatos — explicou — ficarão junto à porta do elevador. Você ficará por enquanto com essas pantufas de cara de coelho, não se encabule, fica entre nós. É que só lá no quinto andar e no terraço o chão não é forrado de carpete.


— Você tem quantos andares nesse prédio?


— Ah, é um quadriplex, do quinto ao oitavo e ainda tem o terraço.


— Mas você ocupa tudo isso, Tati? E não tem mais criadagem?


— Nos andares de baixo tem, mas não moram aqui como elas. E tem os criados-robôs que só são ativados uma vez por semana, eles consumem muita energia e poluem o visual. O resto do tempo permanecem guardados.


— É melhor nos apressarmos — avisou a Sakura. — Já está começando a anoitecer.


— Bom! Vamos às instruções finais. Alípio, quando terminar a cerimônia teremos um bufê interno para poucas pessoas. Depois a gente tira as algemas e você me carrega para a câmara nupcial. Entendeu bem?


Alípio estava meio sem ação diante de tanta iniciativa, e ela achou que ele precisava de encorajamento:


— Tenho certeza de que para você é gratificante. Quando éramos adolescentes você adorava me carregar nos braços, e era bom nisso.


— Eu me lembro...


— Pois é, e você ainda é bom. Hoje mesmo você me carregou direitinho, lembra? Naquela hora em que me deixou amarradinha na cama. Foi tão delicioso!


— Está bem, querida. Sem dúvida eu te carrego, isto é, se eu disser “sim”, não é?


Dissera isso para provocar, para extravasar alguma dose inconsciente de maldade, ou por estar realmente incerto do que iria fazer? Talvez, pensou ele, devesse ter mordido a língua; porém Tati não deu maior importância às suas palavras:


— É claro, se você disser que sim, como espero que dirá. Porque, há quinze anos atrás, nós juramos amor eterno, e a eternidade não dura só quinze anos!


Ginger trouxe o cachorrinho os braços para mostrar ao hóspede-prisioneiro:


— Alípio, esse também é da casa: é o Fofinho.


O astronauta acariciou o bichinho, que era realmente um amor. Tatiana tomou o “poodle” nos braços e disse:


— Ele é o xodozinho da casa, querido.


— Eu gosto muito de cachorro.


— Isso é ótimo. Você e eu combinamos muito, muito... bem, agora trate de se ajeitar. Até já, amor.


Ela deu um beijinho nele e se foi, com o Fofinho e Sakura. Ginger mostrou o banheiro:


— Apresse-se, por favor. As espirais do tempo estão se movendo.


Alípio atendeu-a. Enquanto se ensaboava refletiu que, diante de um juiz de paz, seria fácil ganhar a liberdade. Diria “não” e explicaria ao juiz e ao clérigo seu desejo de descer à rua e sair do país, retornar à família. Não poderiam impedi-lo.


Mas ainda havia rituais a cumprir. Ao sair de short sentiu-se encabulado, mas as duas garotas mostraram-se respeitosamente profissionais. Iolanda estendeu-lhe a calça:


— Viste e puxe o zíper; o resto nós faremos.


Ele obedeceu e Ginger fechou o cinto. Depois elas o conduziram pelas mãos até a cama, onde o fizeram sentar; então elas se abaixaram e calçaram-lhe as meias. Em seguida Iolanda passou-lhe uma escova nos cabelos e Ginger penteou-os. Elas esfregaram um perfume de floral em suas axilas e costas e Ginger aplicou um pouco de manteiga de cacau em seus lábios.


— Agora, Alípio, a camisa — falou Ginger.


Ajudaram-no a vesti-la e Iolanda abotoou-a. Em seguida Ginger entregou a Alípio a sua carteira de documentos, que inclusive tinha algum dinheiro, como ele próprio constatou.


Por fim vestiram-lhe a jaqueta e, satisfeitas com o trabalho feito, sapecaram-lhe beijos ruidosos nas bochechas.


— Mas e vocês? Não vão se aprontar?


— Vamos sim, querido — disse Iolanda. — Você espera aqui!


Elas saíram, trancando a porta.


...........................................................................


A preocupação de Alípio recrudesceu ao saber-se novamente preso. Seu pensamento estava em confusão: a contrariedade ante o engaiolamento se amalgamava com a idéia de uma próxima noite de amor com uma mulher linda e super-romântica como Tatiana. Mas e depois? Como seria a sua vida?


Percebeu que existiam livros, revistas e jornais numa mesinha, mas nada atualizado, como se ela não quisesse que ele se inteirasse dos últimos acontecimentos. Por que? Para evitar-lhe preocupações? Como andaria o conflito com os Combs? Que trabalho de Hércules seria promover a paz no universo conturbado!


E Tatiana era assim tão idealista? Uma espécie de profetisa dos tempos modernos?


Estaria ele vivendo o princípio de uma epopéia?


Alípio sacudiu a cabeça e tomou um pouco de refresco de ananás que haviam deixado. Não dava para refletir muito naquela situação. O rapaz pegou um volume de bolso feito com celulose artificial, um romance policial assinado por Zoltan Fabrino, que anos atrás era uma coqueluche. Ausente da Terra há anos, Alípio não saberia dizer como estaria agora a popularidade daquele literato. Sentou-se e começou a ler: era outra aventura do Inspetor Boldo.


Terminara o segundo episódio quando a porta se abriu e Tatiana apareceu — singela, com um vestido cor-de-rosa que lhe chegava às canelas, pantufas da mesma cor e um chapeuzinho discreto, amarronado. Pusera uns brinquinhos dourados, desses que não furam os lóbulos das orelhas. Atrás dela vinham as três escravas, trajando calças compridas e blusas simples porém elegantes. Ela chegou e pegou as mãos dele:


— Lá em baixo você conhecerá o resto da minha equipe, as pessoas que estarão na cerimônia íntima. Que tal eu estou?


— Está perfeita para um casamento!


— Custei um pouco para me decidir por um vestido no meu barambaz, tem muitos lá, mas a Sakura ajudou a escolher. Ela tem muito bom gosto.


— Obrigada — disse a japonesinha, sorrindo.


Tatiana e Alípio trocaram novas carícias e a garota lembrou:


— Agora, as algemas.


Sakura as trazia e as exibiu.


— Você é uma pessoa muito singular — observou Alípio.


Tatiana pegou o aparelho e respondeu:


— Bobinho! E você? Aqui você está meio inibido, meio desambientado, mas quando nos conhecemos era você quem tomava as iniciativas. Com essas sardas e esse narizinho arrebitado, esse jeito maroto de gnomo. Não se lembra? Você me botava no colo. E mais não fizemos porque éramos muito novos, e foi melhor assim. Como iríamos assumir responsabilidades? Bem, eu estou com saudades do seu colo, mas primeiro vamos nos casar.


Terminado o discurso, a jovem aproximou o objeto do pulso do rapaz:


— Já foi ao banheiro?


— Acabei de ir.


— Ótimo. Eu também fui.


Assim dizendo ela passou as algemas para Ginger, que as aplicou prendendo o casal.


— Está feito — concluiu Tati. — A chave está com a Sakura, e ela tem ordem terminante de somente nos separar após o bufê. Portanto, meu bem, se até lá você sentir alguma vontade urgente de ir no reservado, eu terei que ir junto. Mas prometo que fecho os olhos.


— Prometo fazer a mesma coisa — ele sorriu, incrédulo com as singularidades daquela situação.


Passaram na copa e tomaram a anunciada sopa. Depois, com Iolanda carregando carinhosamente o Fofinho (aparentemente ele também fôra convidado) o quinteto encaminhou-se ao elevador, onde trocou as pantufas pelos sapatos, que as escravazinhas de Tatiana ajudaram o casal a calçar.


Desceram finalmente, com a premeditação da cena do “não” martelando o cérebro do astronauta.


Alípio foi apresentado a umas dez pessoas, e por todas cumprimentado; para sua surpresa ali estavam a mãe de Tatiana e os dois irmãos, a quem ele conhecera no passado; e duas primas até então desconhecidas; mas, apesar do seu natural embaraço, todos o trataram com cordialidade e naturalidade. Aliás, a lhaneza da Tatiana com todos era uma coisa contagiosa.


E chegou finalmente a hora da cerimônia, que juntava o rito civil com o rito cristão.


E Alípio respondeu “sim” ao padre e ao juiz.


As alianças foram apresentadas por Ginger e colocadas nos dedos, e vieram os cumprimentos, foi tudo filmado, e em seguida todos se dirigiram ao bufê. Por fim, após as despedidas, o casal retornou pelo elevador ao oitavo andar, com as três guarda-costas e o cachorrinho. E tendo Sakura aberto as algemas, Alípio carregou Tatiana, como combinado, para o quarto dela, a câmara nupcial.


Não cabe aqui narrar o que os dois fizeram naquela noite. Afinal, isso pertence à privacidade do casal.

 
Autor: Miguel Carqueija

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