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Portais

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Escrito por Miguel Carqueija   
Qui, 26 de Setembro de 2013 00:00

 

 

Portais


Portais

por Miguel Carqueija


Guilherme Magma subiu lentamente a escadaria de mármore rosa do colégio, observando preocupado o homem corpulento que, do alto dos degraus, o fitava com as mãos nos bolsos do paletó.


— O que há com você? – disse o homem, enfezadamente. – Não sabe que não há aulas hoje?


— Professor Moritz, eu estou fazendo uma pesquisa para o diretor, ele não avisou?


— Sobre as Cruzadas? Eu tinha esquecido... tem a chave da biblioteca?


— Tenho sim.


— Então vá – e não demore muito.


“O que ele está fazendo aqui?”  – perguntou Guilherme a si próprio. Penetrou através da desolada região do prédio e seguiu pelos intermináveis corredores, até a escadaria que, no fundo, levava aos andares superiores. Era toda atapetada em vermelho e o rapaz, ao subir, sentia crescer dentro de si uma estranha sensação de pânico que não podia explicar.


“Que faz Moritz aqui num domingo? Não há provas hoje.”


Guilherme abriu a porta da biblioteca e entrou. Ocupou-se por um instante em encostar a porta.


Ao se voltar teve uma das maiores surpresas da sua vida.


Lá estava uma garota de calças vermelhas, magra e elegante, longos e escorridos cabelos cor de palha, encostada em uma das estantes.


— Oi – disse ela, sorrindo para ele.


Guilherme ficou paralisado de surpresa.


— Oi – falou, na expectativa.


— Quem é você? – disse ela, se aproximando.


Tímido como era Guilherme não disse, como seria óbvio, “ia lhe fazer a mesma pergunta”. Respondeu:


— Eu sou Guilherme Magma, da 3ª série do 2º grau...  vim fazer uma pesquisa.


— Que bom! Eu sou Kátia, quem sabe posso lhe ajudar?


— Você é filha do Professor Moritz?


— Não, eu nem sei quem ele é...


— Então como entrou aqui?


— É uma longa história.


— Mas o que faz aqui? – Guilherme estava perplexo.


— Garotas não devem permanecer muito tempo longe de bibliotecas — respondeu ela, numa explicação totalmente inútil.


Nesse ponto ocorreu ao rapaz que não era ele o responsável pela biblioteca e que, em princípio, não cabia a ele vigiar quem estivesse lá dentro.


Porém, Moritz perguntara se ele tinha as chaves. Assim, a biblioteca devia estar trancada. E que fazia então a moça lá dentro?


Guilherme procurou o fichário, sentindo-se estranhamente incomodado. Amenina acompanhou-o e pegou o seu braço.


— Que há com você? Não está sendo delicado. Fale mais comigo.


— Se eu me demorar, vou ter problemas. Tenho que achar um livro, depressa.


— Que livro?


— A “História das Cruzadas”, de Mel Thompson Effinger.


— Esse livro é muito massudo.


Ele começou a procurar nos fichários. Um anacronismo, mas não tinha a senha do computador. Depois de cinco exaustivos minutos, ela observou:


— Eu sei em qual estante ele está.


— O que? E por que você não me disse?


— Você não me perguntou, ora.


Ele se levantou num repente:


— Onde está, então?


Ela fez um gesto de pouco caso com os dois braços:


— Acho que nem vou dizer. Você está sendo grosseiro!


Ela se afastou e ele deu uma corridinha para alcançá-la:


— Me desculpe... ninguém nunca me chamou de grosseiro antes...


— Imagino — disse ela, olhando-o nos olhos — que você deve estar com problemas.


— Claro que estou. Tenho que fazer essa pesquisa.


— E se não fizer?


— O Professor Schoere não vai gostar.


— E por que não?


— Por que você faz tanta pergunta?


Nisso abriu-se uma porta que dava para outra ala do prédio e dois homens em estranhos uniformes apareceram e apontaram para a garota:


— Lá está ela! — disse o mais alto.


— Que é isso? — indagou Guilherme.


— Encrenca — disse ela. — Venha, vamos fugir!


— Fugir? Mas por que?


— Não discuta! Vamos!


Ela saiu correndo e os dois gajos começaram também a correr. Guilherme, perplexo, ficou parado, e quando o sujeito alto e de rabo-de-cavalo passou por ele, o outro, cheio de marcas de acne, parou um instante e avisou:


— Não se meta nisso!


Mas como ele poderia ignorar uma garota sendo perseguida por dois sujeitos? Passado o choque inicial ele se pôs a correr também, por entre as estantes, acompanhando o tropel dos perseguidores que nem olhavam para trás. Assim correram por várias salas até que, tendo perdido todo mundo de vista, Guilherme parou um instante para tomar fôlego, encostado a uma estante repleta de grossas lombadas.


Repentinamente alguém o segurou por trás, tapando a sua boca, abafando um grito de espanto; Guilherme sentiu-se puxado absurdamente, pois atrás dele estavam prateleiras sólidas e livros; um clarão azulado o cercou... e perdendo o equilíbrio ele viu-se no chão, com outro corpo junto a si.


Um chão de relva úmida.


A garota estava a seu lado, sorridente.


Ele se ergueu assustadíssimo e olhou em volta: estavam num prado ensolarado, a distância viam-se suaves colinas cobertas por um bosque.


— O que é isso? Onde nós estamos?


— Escapamos deles — explicou ela, tocando gentilmente o seu braço.


— Nós? O que é que eu tenho a ver com isso?


— Eu não o deixaria para trás, seria perigoso.


— Perigoso?


— É claro. Você não deveria tê-los visto e viu. Eles poderiam querer silenciá-lo.


— Mas como é que nós viemos parar aqui? Ou o mundo ficou maluco de vez?


Ela deu uma risada.


— É claro que, no seu mundo, viagens interdimensionais ainda não são corriqueiras, você não poderia entender facilmente...


“Nós saímos da sua Terra e viemos parar numa outra Terra dimensional. Não é a minha Terra, tampouco. Não sei qual é direito, não pude escolher pois tínhamos que escapar dos patrulheiros.


— Patrulheiros?


Ela fez um gesto de desprezo.


— Da Patrulha Dimensional. Eles não possuem boa fama.


— O que eles fariam com você?


— Garanto que não iam me dar uma medalha.


Ele olhou em volta, desesperado.


— Como é que eu faço para voltar?


— Se eu acertar com as coordenadas, nós voltaremos. Mas eu proponho aguardar uma hora pelo menos, para dar tempo deles irem embora...


— Você tem certeza de que eles não nos acharão aqui?


— Eles tentarão, com o seu rastreador psicodimensional, porém eu saí do seu mundo com grande rapidez e provavelmente não tiveram tempo de equacionar o aparelho direitinho. Afinal sempre ocorrem distorções quando se transpõe um portal interdimensional, e ultrapassar dois em menos de cinco horas gera uma perturbação no tecido do continuum. Existe até uma equação que trata disso,


P = MT

D

onde o grau de alteração do continuum é proporcional à massa do corpo transportado vezes o número de transposições, dividido pelo número de dias transcorridos.

Guilherme ficou embasbacado.


— Você tem certeza que é isso mesmo?


— E como não? Afinal foi o Professor Bombacha quem fez essa descoberta! Entendeu? O Professor Bombacha!


— Bem, se foi o Professor Bombacha quem falou isso, quem sou eu para dizer que não?


Ele procurou examinar aquele mundo ao seu redor.


Era um mundo bem estranho. Umas flores empinadas sobre longos caules pontilhavam o prado verdejante. Eram grandes flores amarelas e cor-de-abóbora. Mas, seriam mesmo flores? Pareciam não ter pétalas, somente as corolas.


— Eu preciso voltar! — lastimou-se Guilherme. — O Professor Schoere vai me esfolar vivo se eu não aprontar essa pesquisa!


— Jesus — disse ela, enlaçando a sua cintura. — Os costumes do seu mundo são muito bárbaros!


— Não, o que quer dizer? Usei só uma força de expressão. Acho que ele não chegaria a tanto.


— Mas eu não entendo, meu amor. Por que um diretor quer que um aluno faça uma pesquisa? Se não é a sua tese nem nada...


— É que na verdade... hein? O que foi que você disse... na primeira frase?


Ela abriu um largo e sapeca sorriso:


— No meu mundo, aprendemos a não perder tempo. Agora responda à questão que eu levantei.


— É que a pesquisa é para o filho dele. O rapaz é um burro ao quadrado, e se não receber uma ajudazinha acaba tirando notas baixas. Sabia você que ele é sempre o primeiro colocado da sua turma?


— Não posso acreditar nisso, Guilherme. E o que você ganha com isso?


— O diretor me agradece secretamente.


— Ora, manda esse homem se catar!


— Não posso fazer isso. Ele é dado a perseguições.


— E ninguém sabe dessa falcatrua?


— Só o Professor Moritz, que é cúmplice em “arranjar” as notas do Custodio...


— Você se submete a uma indignidade. Os seus pais não sabem disso?


— Que pais? Eu sou órfão, não tenho irmãos, tios, nada.


— Nem cachorro?


— Nem isso.


— Mas que bom! Será mais fácil ajeitar o nosso casamento, depois que eu me livrar daqueles dois...


— O que está dizendo? Escute, você é meio tantã, não é? Como é que a gente vai...


— Você parece que não conhece o bê-á-bá da relação homem-mulher. Olha, vou lhe mostrar!


Ela o abraçou e o beijou com entusiasmo, apertando-o; ao retirar os lábios, já com Guilherme meio sufocado, explicou:


— O nome disso é abraçar e beijar. Faz parte do jogo. Não me diga que não gostou!


— Eu gostei, mas você está indo tão depressa...


O relógio no pulso dela começou a emitir um bip insistente.


— Encrenca, de novo. Vai ser aberto um portal para essa dimensão. Eles vão nos localizar, por isso temos que preparar uma armadilha!


— Que espécie de armadilha?


Ela abriu os braços num gesto eloquente:


— Um túnel de portais! O meu gerador faz isso, é uma tecnologia proibida mas eu tenho o aparelhinho adequado! Se eu conseguir formar o túnel em frente ao portal que eles vão abrir, simplesmente não vão se estabilizar nessa dimensão, mas vão ser sugados por uma sucessão de terras alternativas e só Deus sabe onde irão parar. Aí nós aproveitamos o próprio portal que eles vão abrir e voltamos para o seu mundo. Entendeu, não entendeu?


— Eu... eu acho...


— É claro que entendeu. Vamos indo! — e aí ela segurou o braço dele e puxou-o com força.


Eles correram por entre as gramíneas e contornando uns montículos de terra assemelhados a cupinzeiros, até que o relógio da pequena configurou um círculo rodeando uma cruz, que o dividia em quatro setores ou quadrantes.


— É aqui! Tenho que agir rápido!


Ela retirou de seu traje um objeto que parecia um rádio com antenas e digitou alguns comandos. Um feixe de luz amarela atravessou o aparelho longitudinalmente, prolongando-se a distância de vários metros nas duas direções, numa delas saindo pela antena.


— Não se ponha na frente disso! Veja só!


Ela largou o instrumento, que ficou flutuando no ar a pouca distância, e na trajetória do feixe luminoso foi surgindo uma estranha névoa entre rosada e caramelada.


— Vamos testar as teorias do Professor Bombacha — ela arrematou.


— Afinal, Kátia, por que eles a estão perseguindo?


— Os meus pais são cientistas que realizam pesquisas na matemática pentadimensional, e desenvolveram métodos de viajar entre as dimensões, o que é reservado à Patrulha Dimensional que mantém um verdadeiro despotismo nesse assunto. Por isso é importante que esses dois se percam no universo pentadimensional, pois se retornarem estaremos em maus lençóis.


Alguns minutos depois a névoa se abriu, configurando uma espécie de portal... onde os dois sacripantas apareceram. Antes, porém, que pudessem se mover ou fazer uso das suas armas, o raio luminoso os sugou, puxando-os para outra névoa que surgira do outro lado do aparelho flutuante.


Foi tudo muito rápido.


Kátia e Guilherme puderam ver, através daquela segunda névoa, um imenso túnel cheio de portais que se sucediam às centenas até perder de vista, por onde os dois perseguidores desapareceram num abrir e fechar de olhos. Então Kátia desligou o aparelho e puxou o rapaz com força.


— As duas portas vão se fechar! Vamos, por onde eles vieram! Jamais retornarão!


Eles atravessaram juntos o primeiro portal, antes que se desfizesse, e caíram num dos gabinetes do colégio, flagrando o Professor Moritz nu, em cima de uma mulher igualmente nua, sobre um sofá...


Os dois libertinos se endireitaram, tremendamente assustados.


— Como entraram aqui? — berrou Moritz.


De tão estupidificado, Guilherme não conseguiu pronunciar um monossílabo. Foi quando Kátia, com super-presença de espírito, aproveitou:


— Vocês não acreditariam se lhes disséssemos, mas o importante, Professor Moritz, é que agora o senhor arranjará sozinho as notas do filho burro do Professor Schoere!

— O que? — ele se engasgou e a mulher pediu uma explicação.


— Ele explicará tudo à senhora. De qualquer modo o meu noivo está fora disso agora. Não creio que o Professor Schoere vai gostar de saber que o seu braço direito faz o colégio de motel.

A mulher começou a ficar furiosa:


— Moritz! Você faz essa maracutaia, mesmo? E viu a humilhação que me fez passar agora?


— Mas, querida...


— Querida uma ova! Cadê as minhas roupas?


Kátia sorriu para Guilherme e lhe deu a mão:


— Vamos embora, meu querido.


Ao descerem a escadaria, Guilherme observou:


— Estou pensando uma coisa... se você é de outro mundo, em qual mundo nós ficaremos?


Ela sorriu ao responder:


— Talvez um pouco num, um pouco noutro...


E tornaram a se beijar e abraçar, no meio da imensa escadaria.

 
Autor: Miguel Carqueija

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Comentários   

 
#1 Guest 27-05-2015 21:26
Cara, adorei essa leitura. Bem carismática :)
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